Dr. Cristiano Nabuco

Arquivo : saúde mental

Quando uma “selfie” não termina bem
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Dr. Cristiano Nabuco

 Kletr - fotolia

Kletr – fotolia

Na semana passada, um turista japonês de 66 anos e um de seus colegas de viagem rolaram escadaria abaixo no monumento indiano Taj Mahal. Um deles veio a falecer, enquanto o outro sofreu ferimentos na perna.

Até aqui, nada de muito incomum, correto? Uma notícia de um acidente cotidiano.

Entretanto, algo não vai parecer muito sensato, se soubermos que o final trágico ocorreu por que eles tentavam, na verdade, achar um melhor ângulo para tirar uma “selfie”. (1)

Em Moscou, citando apenas outro exemplo, uma mulher de 21 anos ficou entre a vida e a morte ao disparar uma arma de maneira acidental, enquanto se preparava para uma “selfie” mais “ousada”.

No mesmo país, registrou-se também o caso de um grupo de jovens que foi eletrocutado ao encostar em fios de alta tensão quando se alinhavam para tirar uma “selfie” sobre os trens. (2)

Achou pouco? Calma, tem mais.

Na Espanha, um homem de 32 anos estava participando do festival anual de corrida de touros na cidade de Villaseca de la Sagra e, na tentativa de tirar uma “selfie” junto a um dos animais, foi chifrado mortalmente. (3)

Nos Estados Unidos, o Parque Colorado está enfrentando problemas de segurança dos visitantes, pois, na tentativa de registrar uma boa “selfie”, a distância mínima de segurança dos ursos não está sendo observada. Para evitar problemas, o parque decidiu fechar as portas. (4)

wollertz - fotolia

wollertz – fotolia

No parque nacional de Yellowstone uma mulher se aproximou tanto de um bisão, na tentativa de uma “ótima” selfie, que acabou sendo atacada. A coisa está tão séria que o Serviço Florestal dos EUA está emitindo “avisos”. (5,6)

Outro registro: uma romena, fã de selfies, morreu após ser eletrocutada ao tentar fazer um autorretrato no alto de uma estação de trem na cidade de Iasi, nordeste da Romênia. (7)

Veja que os exemplos não param.

Para se pensar

Os autorretratos digitais, uma nova forma de expressão social, além de marcar um momento ou registrar um acontecimento, sabe-se que são uma das forças motrizes mais significativas por trás do comportamento atual de autopromoção.

O fenômeno cultural da “selfie” expõe assim um desejo humano de se sentir notado, apreciado e, principalmente, reconhecido.

Em uma época em que as imagens podem ser compartilhadas de maneira quase que infinita, a imagem que hoje é postada pode ser aperfeiçoada em uma riqueza ilimitada de detalhes, constituindo aquilo que se denomina de “exuberância do momento”.

© berc - fotolia

© berc – fotolia

Veja só: dados apresentados pela Samsung, por exemplo, demonstram que essa tendência é tão expressiva que 36% dos instantâneos tecnológicos não são publicados da forma que foram tirados, mas que, na verdade, são retocados pelos seus donos antes de seguirem para seu destino final (redes sociais, como Facebook, 48%, Whatsapp, 27% etc).

É como se cada um, atualmente – celebridade ou não, não importa -, pudesse assegurar momentos de glamour e de singularidade pessoal no palco da sua e na vida dos outros.

Em um artigo da Revista “Psychology Today”, Pamela Rutledge, diretora de Psicologia e Mídia do Centro de Investigação em Boston (Massachusetts), afirmou que: “as ‘selfies’ muito frequentemente têm o poder de desencadear a busca excessiva de atenção e de dependência social, indicativas da baixa autoestima e do narcisismo pessoal”. (8)

Conclusão

É possível que as “selfies” tenham se tornado uma manifestação social que evidencia a obsessão pela aparência, somado à exibição da vida privada na forma de reality-shows-pessoais, arquitetando, como resultado final, um senso autoinflado que permite às pessoas acreditarem que seus amigos ou seguidores estariam, de fato, interessados em vê-los vivendo seu cotidiano (o que comem, o que vestem, onde vão etc).

Esse comportamento poderia ser interpretado, na verdade, como se as pessoas estivessem de frente a um espelho, olhando-se o dia todo, e o pior: deixando que os outros os vejam fazer isso, sem qualquer senso de constrangimento, vergonha ou intimidação pessoal, o que é bem pior.

© Feng Yu - fotolia

© Feng Yu – fotolia

Quando capturar algo que na câmera tem a prioridade sobre o que acontece à nossa volta, isso pode ser indicativo de um problema real. Ficar conectados com as imagens, mas desconectados de nós mesmos, nos cria um verdadeiro dilema: como eu posso esperar que os outros prestem atenção a mim se nem eu mesmo consigo descrever o que está ocorrendo comigo?

Documentar a experiência não pode, jamais, ser mais importante do que vivê-la (ainda mais quando estamos colocando nossa integridade física em risco), certo?

Fique atento! Evite assim que sua “selfie” não termine bem.

 

Referências

(1) http://www.bbc.com/news/world-asia-india-34287655

(2) http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/da-para-acreditar/jovens-sao-eletrocutadas-ao-tentar-fazem-selfie-em-cima-de-trem-na-russia

(3) http://edition.cnn.com/2014/07/14/travel/spain-pamplona-selfie/

(4) http://mashable.com/2015/09/15/colorado-park-bear-selfies/#LnH3Pu.AmEqw

(5)    http://mashable.com/2015/07/22/bison-selfie-yellowstone/#J6yoDhCvMqqL

(6)    http://mashable.com/2014/10/27/bear-selfies/#mIzP3UgS28qW

(7)    http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2015/05/romena-morre-eletrocutada-ao-tentar-selfie-no-topo-de-estacao-de-trem.html

(8)     https://www.psychologytoday.com/blog/positively-media/201307/selfie-use-abuse-or-balance


Realidade Virtual e Saúde Mental
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Dr. Cristiano Nabuco

 

bizoo_n - fotolia

bizoo_n – fotolia

O que é a realidade virtual?

A realidade virtual é uma tecnologia que permite ao usuário interagir com um ambiente recriado através de um programa de computador.

A maioria dos ambientes de realidade virtual são experiências paralelas, onde, através de óculos tridimensionais que vão conectados a um computador central, recria-se uma situação virtual exatamente igual à realidade concreta e que, somada à utilização de fones de ouvido, provoca a imersão total do indivíduo em um ambiente planejado.

Muito embora o paciente inicialmente “saiba” que está prestes a ingressar em uma vivência que o levará a um mundo “não real”, ou seja, todas as experiências a serem vividas serão oriundas de uma programação digital, bastam apenas alguns segundos de exposição para que o cérebro do usuário seja literalmente “arrastado” à nova realidade, desfazendo de forma imediata e sumária toda a concepção de uma experiência paralela.

Sabe o resultado? O cérebro do paciente reage como se efetivamente estivesse em uma nova situação (real), reagindo, emocionando-se e, finalmente, respondendo como se estivesse, de fato, em uma “nova situação concreta”. (1)

Quais problemas de saúde mental podem ser tratados?

Vários problemas já são alvo desse tipo de intervenção. Para citar alguns:

Ansiedade: embora se saiba que a terapia cognitivo-comportamental seja a abordagem de tratamento preferencial a essa categoria de transtorno, as pessoas mais velhas apresentam certas limitações decorrentes da idade, como a diminuição da mobilidade, por exemplo, o que lhes impediria seguir os protocolos de exposição a situações tímidas.

Assim sendo, como a mobilidade pode ser afetada, o problema pode ser contornado ao “se imaginar” as situações temidas, amplamente já testadas em sua eficácia. Entretanto, pessoas mais velhas também apresentam outro fator limitante, que é o decréscimo e uma redução em sua capacidade de visualização, o que seria um novo obstáculo de tratamento.

Como até 25% das pessoas com 65 anos ou mais apresentam diferentes graus de ansiedade, o recurso virtual, além de ser uma promessa esperançosa de tratamento, pois, além dos benefícios já descritos de contornar as limitações impostas pela idade, vai além, ao se constituir de um tratamento não-farmacológico e, portanto, livre de efeitos colaterais mais expressivos. (2)

Uso abusivo de álcool: já existem algumas evidências de que a realidade virtual pode reduzir o desejo das pessoas para uso abusivo de álcool. Por exemplo, em um tratamento descrito, os pacientes foram expostos em um ambiente de realidade virtual que reproduziam cenas compostas de sons, cheiros e, principalmente, de pessoas usando álcool em excesso.

Antes que eles começassem o programa virtual, todos os pacientes foram submetidos à tomografia por emissão de pósitrons (PET) e tomografia computadorizada (TC), o que permitiu aos pesquisadores  estudar o metabolismo do cérebro de cada um dos pacientes. Descobriu-se que, por exemplo, em comparação com um grupo de pessoas saudáveis, os pacientes dependentes de álcool apresentaram um metabolismo mais rápido no circuito límbico do cérebro – o que indica uma maior sensibilidade aos estímulos, como o álcool. Entretanto, após a terapia de realidade virtual, os resultados (PET e TC) foram alterados.

De acordo com os pesquisadores, a terapia virtual foi uma abordagem promissora para tratar a dependência do álcool, pois colocou os pacientes em situações semelhantes à vida real e, dessa vez, dentro um ambiente controlado e mais seguro.

Concluem os pesquisadores, dizendo que a terapia virtual pode ser mais “delineada” para cada caso, ao ajudar, além dos fatores já mencionados, ajudar os pacientes a permanecerem abstinentes e assim evitar as conhecidas “recaídas”. (3)

Estresse pós-traumático: feito de maneira correta, a exposição a memórias de eventos traumáticos pode levar a uma redução de Transtorno de Estresse Pós-traumático (PTSD). Nesses casos, a exposição ajuda o processo do paciente em se habituar às memórias ligadas aos eventos traumáticos que são carregados de fortes emoções e que, portanto, são evitadas ou bloqueadas pelo paciente, o que não o ajuda em seu processo de cura ou de superação emocional.

(U.S. Navy photo by John F. Williams/Released)

(U.S. Navy photo by John F. Williams/Released)

Um estudo descreve o tratamento de um sobrevivente dos ataques de 11 de setembro do World Trade Center que desenvolveu um quadro agudo de estresse pós-traumático e que, após ser tratado com a técnica de dessensibilização por imagens, não havia respondido ao tratamento.

Submetido ao tratamento de realidade virtual (seis sessões com a duração de uma hora cada), apresentou 83% de redução da depressão e 90% de redução nos sintomas após a finalização do tratamento. (4)

Outra pesquisa relata o uso da terapia virtual em militares que retornaram da guerra do Iraque, uma vez que parte expressiva dos soldados apresentavam estresse pós-traumático. Após o tratamento virtual, resultados significativos de melhora foram identificados. (5)

Medo de avião: em média, segundo dados da IATA, mais de 8 milhões de pessoas voam por dia no mundo e, apenas em 2013, mais de 3 bilhões de pessoas fizeram viagens de avião. Em 2014, estima-se que 3.3 bilhões de pessoas tenham constituído o grupo de usuários das malhas aéreas mundiais, o que equivale a dizer que aproximadamente 44% da população do planeta se deslocam por avião.

Cortesia: Tratamento Polaris - Terapia Virtual para Fobia de Avião

Cortesia: Programa Polaris – Terapia Virtual para Fobia de Avião

Segundo estimativas do National Institute of Mental Health (NIMH) dos Estados Unidos, o medo denominado de “aviophobia” (ou fear of flying – “FOF”) atinge cerca de 6,5% da população, o que representa naquele país cerca de 20 milhões de pessoas. Se as mesmas estatísticas forem aplicadas junto à população mundial, teremos então, no mundo, 210 milhões de pessoas que apresentam a referida fobia.

Em um estudo que comparou duas formas de intervenção com terapia virtual em 86 indivíduos que sofriam de medo de voar, a terapia virtual apresentou resultados semelhantes à terapia cognitivo-comportamental, além do fato de que a terapia virtual, diferente de outras formas de tratamento, tem se mostrado a mais efetiva na redução da ansiedade antecipatória (aquela que se manifesta antes da experiência de voar). Para concluir, a relação custo- benefício da terapia virtual pode ser superior aos outros tratamentos, sugerem os pesquisadores, colocando-a à frente das demais modalidades de intervenção. (6)

No Brasil, o tratamento de fobia de avião, por exemplo, já é oferecido. (7)

Autocrítica: no estudo publicado no periódico PLoS ONE, 43 mulheres saudáveis, mas excessivamente autocríticas, experimentaram algumas trocas de papel (um corpo virtual de tamanho natural substituindo o seu próprio, por exemplo),  sendo-lhes  então possibilitado viver certas experiências a partir da perspectiva digital.

Virtual environment used in the experiment: (A) suit and and head-mounted display; (B) view of child avatar when embodied in adult avatar; (C) view of adult avatar when embodied in the child avatar (1st person perspective); (D) external view of child and adult avatars (3rd person perspective).

Virtual environment used in the experiment: (A) suit and and head-mounted display; (B) view of child avatar when embodied in adult avatar; (C) view of adult avatar when embodied in the child avatar (1st person perspective); (D) external view of child and adult avatars (3rd person perspective).

Na sequência, as participantes, após reconhecerem seu próprio corpo, encontravam na vida virtual uma criança que estava muito angustiada e que chorava, mas que, posteriormente, recebia muita atenção.

Depois de alguns minutos, o primeiro grupo de participantes (grupo 1) foram então transferidas para o corpo infantil virtual e, a partir dessa perspectiva, recebiam o afeto que outrora entregavam enquanto adultas a essa criança, recebendo assim suas próprias palavras e gestos de ternura e amabilidade.

O outro grupo (grupo 2) observara a mesma experiência, entretanto, sem mudarem de papel (como se estivessem apenas assistindo a uma interação entre um adulto e uma criança).

Ambos os grupos foram classificados pelos diferentes estados de humor e por traços de personalidade (antes e depois do experimento).

Os resultados apontaram que as mulheres que passaram pela experiência de receber a afetividade através da criança virtual, se comparado ao outro grupo que apenas assistiu às interações, apresentaram uma diminuição expressiva da autocrítica, um aumento da autoestima e, finalmente, uma expansão geral do bem-estar.

Concluem dizendo que a vivência na vida virtual e a possibilidade da troca de papéis pode servir de um verdadeiro “divisor de águas”, uma vez que o excesso de autocrítica desempenha um papel proeminente no desenvolvimento e manutenção de muitos problemas de saúde mental, incluindo a depressão. (8)

Para se pensar, não acha?…

Conclusão

Acredita-se que a terapia baseada em realidade virtual irá tornar-se, progressivamente, um tratamento de baixo custo em um futuro não muito distante. Além disso, os resultados têm sido tão animadores que eu arriscaria afirmar que as formas tradicionais de psicoterapia que conhecemos hoje podem vir a sofrer uma poderosa interferência e, rapidamente, impactar a forma de se pensar o processo de ajuda humana.

Eu penso, inclusive, que, se podemos levar nossos pacientes ao mundo virtual, nada nos impede que nós, os profissionais de saúde (psicoterapeutas), também possamos adentrar nesta nova realidade e, quem sabe, dar os primeiros passos naquilo que eu denominaria de “matrix psicoterapêutico” (uma alusão ao filme já conhecido de realidades paralelas, entretanto, dentro de uma perspectiva da ajuda psicológica humana) e, assim, podermos prestar serviços em qualquer lugar do Planeta, ao romper as barreiras do tempo e do espaço.

Ingenuidade de minha parte? Talvez… Quem viver, verá.

Referências bibliográficas

  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10175343
  2. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9792790&fileId=S1041610214002300
  3. http://medicalxpress.com/news/2015-06-virtual-reality-alcoholism.html
  4. http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.9.7172&rep=rep1&type=pdf
  5. http://www.livescience.com/47258-virtual-reality-ptsd-treatment.html
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17310883
  7. http://www.polaristratamentovirtual.com.br/
  8. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0111933

 

 

 


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