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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Compreendendo o papel da espiritualidade na sua vida

Dr. Cristiano Nabuco

05/06/2018 04h00

Crédito: Diana Simumpande on Unsplash

Impossível falar de espiritualidade, sem que, ao mesmo tempo, estejamos falando em crença no divino. De fato, aqui está uma coisa que acompanha o homem desde os registros mais antigos que se têm conhecimento. Embora ninguém tenha dados precisos a respeito da primeira adoção do conceito de "Deus", a relação entre o homem e a divindade é uma das vivências mais remotas.

Na mitologia grega, por exemplo, como rei dos deuses e ocupando o topo do trono dourado no Olimpo, Zeus foi reverenciado por todos como o deus mais importante dentre as crenças religiosas, possuindo muitos títulos que enfatizavam diferentes aspectos de sua autoridade. (1)

Na Bíblia hebraica, por outro lado, são igualmente achadas passagens sobre a existência do primeiro deus do judaísmo (2), assim como no culto egípcio, ao se referir sobre o Deus Sol, como o grande criador. (3)

A descoberta de concentrações de pólen em túmulos de Neanderthais, por exemplo, mostra que os cadáveres eram ornamentados com flores, mostrando preocupação com uma possível existência pós-morte e o contato com uma força sobrenatural maior. Isso tudo, sem falarmos nas primeiras artes rupestres e objetos representando o divino que datam, nada menos, do que 40 a 50 mil anos atrás. (4)

Um fato, portanto, é certo: o Criador, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente e a percepção de sua existência pelos humanos ocorreu graças aos nossos cinco sentidos ou, como descrevem alternativamente alguns, através de um "sexto sentido ou canal" que, transcendendo os anteriores, proporcionaria igualmente a vivência da espiritualidade. (5)

Espiritualidade

Como é um conceito amplamente reconhecido, envolve a crença em uma força poderosa que controla o universo e o destino do homem. Além disso, exercer a espiritualidade no cotidiano diz respeito às maneiras pelas quais as pessoas cumprem o que consideram ser o propósito maior de sua vida, ou seja, uma busca pelo sentido mais amplo da vida, pois evoca um senso de conexão com o universo.

Assim, a universalidade da espiritualidade pode se estender através dos diferentes credos e culturas, mas, ao mesmo tempo, é sentida de forma muito pessoal e única por cada um, pois se relaciona com o sagrado da experiência humana em nossa maior intimidade. Obviamente que a religião é uma forma de também exercermos nossa espiritualidade, entretanto, de maneira mais institucionalizada. (6)

Mas, qual sua importância na vida cotidiana de todos?

Simples, eu explico.

Pesquisas já apontaram que nossa relação com a espiritualidade ou religiosidade é favorável ​​ao manejo das tensões da vida e, mais do que isso, benéfica para nossa saúde mental.

Por exemplo, descobriu-se que a religiosidade impedia que as crianças fumassem, bebessem e usassem drogas, amenizando o impacto dos estresses da vida. Outra investigação descobriu que os pais que estavam mais envolvidos nas atividades religiosas eram mais propensos a ter relacionamentos conjugais harmoniosos e melhores habilidades parentais, o que aumentou a competência das crianças, sua regulação emocional, o ajuste psicossocial e, finalmente, o desempenho escolar.

Outro estudo relatou que o baixo nível de religiosidade estava associado ao maior abuso de substâncias em adolescentes. Em um estudo epidemiológico britânico, as práticas ativas envolvendo igreja e religião foram consideradas "protetoras" à depressão. Em uma outra pesquisa sobre o suicídio, na Holanda, ficou demonstrado um declínio expressivo na taxa de suicídio, após o início das práticas religiosas. (6)

E os resultados positivos não param por aí: níveis mais elevados de religiosidade estão associados a uma melhor saúde mental geral. Em particular, as investigações sugerem que níveis mais altos de crença no divino estão associados a taxas mais baixas de depressão, ansiedade, transtorno do uso de substâncias e comportamento suicida. A religiosidade também está associada a melhor saúde física e bem-estar subjetivo. (7)

Da mesma forma, outras pesquisas mostram que a presença do sagrado pode melhorar a recuperação de doença mental, ao auxiliar de maneira importante o processo de cura. Por exemplo, um estudo mostrou que a recuperação de doenças mentais graves, como a esquizofrenia, é melhor em países com níveis mais altos de religiosidade. (8)

Conclui-se, portanto, que o compromisso "existencial" com uma força divina pode fornecer um maior "senso de coerência", transmitindo um significado profundo a nossa vida cotidiana e uma estrutura organizacional pessoal maior para lidarmos com nossas experiências de vida – o que pode ser especialmente útil em tempos de maior adversidade, angústia e sofrimento. (9)

E, finalmente, outros achados indicam que a espiritualidade pode ser especialmente importante em momentos de maior estresse e vulnerabilidade ao se vivenciar mudança de vida, como o divórcio ou ainda o luto. Nestes casos, a religiosidade aparece como um importante recurso que auxilia as pessoas a se ajustarem, mentalmente, às novas e mutantes realidades. (10)

Algumas reflexões

Ao nos debruçarmos sobre as mais distintas investigações cientificas, pois citei apenas algumas, torna-se notório a grande importância exercida pela crença em algo superior e o quanto esse processo influencia e altera, positivamente, nossa capacidade de superação, dotando-nos de uma maior resiliência frente às marolas emocionais da vida. (11)

Talvez, para muitos, a dimensão espiritual seja algo desnecessário e irrelevante, isto é, fora do horizonte das experiências da vida corrente, o que é algo bastante costumeiro de ser encontrado, entretanto, são essas as mesmas pessoas que em momento de angústia e desespero e quando não mais têm a quem recorrer, se voltam ao sagrado, buscando alguma forma de alívio e de conforto. Talvez esse paradoxo demonstre que até nos níveis mais inconscientes nossa atonia espiritual funcione como uma forma reprimida de aceitar a espiritualidade como uma importantíssima força latente.

Conclusões

Minha longa jornada profissional de psicoterapeuta tem me mostrado, repetidamente, junto a todos aqueles pacientes – de todos os níveis – com quem um dia trabalhei, que a grande maioria dos desejos e das realizações de nosso cotidiano, na verdade, quando atingidos, rapidamente perdem o sentido e o propósito, deixando-nos com uma sensação de vazio. Muitos alocam novas metas para dar início, então, a um novo processo de busca até que, mais uma vez, se atinja o propósito e percebam a sensação de vazio e incompletude.

Assim ocorre com o aumento esperado do salário, da tão sonhada promoção, com a troca do carro idealizado, do apartamento de "nossa vida" e por aí vai, sucessivamente. É possível, portanto, que o sentido da vida seja, de fato, o grande pano de fundo de nossa vivência e que, enquanto não nos preocuparmos verdadeiramente com ele, nossa existência nos parecerá sempre, de alguma forma, carente e incompleta. (12)

As experiências espirituais podem, caso você não saiba, não advirem, necessariamente, através da religiosidade, como, por exemplo, o sentimento de unidade que, muitas vezes, sentimos ao fazer algo maior. (13)

A propósito, se você, leitor (a), me permite uma pergunta: como anda a sua espiritualidade?

Pense nisso!

Referências

  1. https://www.hipercultura.com/a-historia-de-zeus/
  2. https://www.wdl.org/pt/item/11363/
  3. https://anaburke.com/2013/09/20/ra-o-deus-sol/
  4. https://seuhistory.com/noticias/descoberta-aponta-que-neandertais-praticavam-rituais-religiosos
  5. https://www.spiritualresearchfoundation.org/spiritual-practice/spiritual-experiences/spiritual-experience/
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2755140/
  7. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/070674370905400502
  8. https://www.cambridge.org/core/journals/psychological-medicine-monograph-supplement/article/schizophrenia-manifestations-incidence-and-course-in-different-cultures-a-world-health-organization-ten-country-study/4C45DDB6CAB367EB9A2DD91E4FEF13C9
  9. http://grupo.us.es/estudiohbsc/images/pdf/eventos/The%20Salutogenic%20Perspective.pdf
  10. https://ps.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/ps.2010.61.12.1248
  11. https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2018/03/27/por-que-voce-deve-saber-o-que-e-resiliencia-e-colocar-o-conceito-em-pratica/
  12. http://www.logoterapia.com.br/viktor
  13. https://academic.oup.com/cercor/advance-article-abstract/doi/10.1093/cercor/bhy102/5017785?redirectedFrom=fulltext

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!