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As telas têm atrapalhado o sono dos seus filhos? Entenda os riscos

Dr. Cristiano Nabuco

11/02/2020 04h00

Crédito: iStock

É bom ficar atento! Caso você ainda não saiba, os estados do sono são processos ativos que participam da reorganização dos circuitos cerebrais, o que torna o momento do repouso noturno especialmente importante para as crianças, pois seus cérebros estão em pleno desenvolvimento e reorganização.

Já é de amplo conhecimento que baixa duração do sono (em adultos, especificamente) está correlacionada com o aparecimento de problemas de saúde mental e cognitivos. E uma análise publicada na Molecular Psychiatry resolveu investigar como isso afeta as crianças. A presente investigação contou com uma amostra importante, composta por 11.067 crianças, com idade variando entre 9 a 11 anos e onde se correlacionou a duração do sono noturno com medidas de desenvolvimento cognitivo. (1)

O resultado?

Dormir pouco, de fato, criou problemas importantes de saúde mental, isto é, pouco sono noturno levou ao aparecimento de depressão, ansiedade, comportamento impulsivo e, finalmente, baixo desempenho cognitivo (leia-se: menor capacidade mental para resolver problemas acadêmicos).

Sabe-se que a quantidade recomendada de sono para crianças com idade entre 6 e 12 anos é de 9 a 12 horas por dia, entretanto, os transtornos do sono têm se tornado comuns entre crianças e adolescentes, devido a vários fatores como, por exemplo, crescente demanda do tempo gasto na escola, prática de esportes, atividades sociais e, finalmente agora, um pouco pior, em função do aumento expressivo do tempo gasto em frente às telas, principalmente, no período noturno.

Estudos anteriores já revelavam, por exemplo, que apenas nos EUA, cerca de 60% dos adolescentes já desfrutavam de menos de oito horas de sono por noite.

E as coisas não param por aí:

Somente considerando, em crianças, a "presença das telas", também já foi demonstrado que elas produzem menores níveis de performance acadêmica, uma vez que as habilidades analíticas ficam seriamente prejudicadas, em decorrência da intensa estimulação digital. E tem mais, o uso sistemático dos eletrônicos também foi associado a baixos níveis de regulação emocional. (2)

Embora nós, profissionais, estejamos repetindo a recomendação de não usar os eletrônicos antes de dormir, tanto os jovens (quanto seus pais!) resistem em seguir as orientações. Outra importante investigação mostrou que 7 em cada 10 crianças dão uma "olhadinha" nos celulares antes de se deitarem. Segundo o levantamento, 62% dos pais e 39% das crianças disseram que mantêm o celular ao lado da cama durante a noite toda. As meninas, por sua vez, mostram esse hábito em maior intensidade —33% relataram a proximidade com o eletrônico durante o sono, em comparação com 26% dos meninos. (3)

Muitas famílias também relatam ter seu sono interrompido em função das notificações contínuas que chegam no aparelho. Outra pesquisa revela que 1 em cada 3 jovens acorda no meio da noite apenas para verificar o celular —o que, cá entre nós, é uma prática bastante prejudicial, pois interfere na consolidação da memória daquilo que foi aprendido em sala de aula no dia anterior. (3)

A questão é tão séria que ganhou uma investigação junto ao Swiss Tropical and Public Health Institute, onde se analisou a relação entre a exposição à radiação dos celulares e a performance da memória de um grupo de 700 adolescentes, com idade variando entre 12 e 17 anos, ao longo do período de um ano. (4)

Sabe o resultado? O efeito acumulativo dessa radiação do celular criou um resultado negativo no desenvolvimento e no desempenho da memória "figurativa" desses adolescentes, ou seja, após 12 meses, notou-se um efeito nocivo junto àquele tipo de arquivo mental que retém a "representação" das experiências de vida (composta pelos sons, cores, odores e suas associações).

Segundo ainda a investigação, uma vez que, quando fazemos uma chamada, usamos o telefone muito mais no ouvido direito de nossa cabeça local onde ocorrem igualmente os registros desse tipo de memória no cérebro , a radiação recebida poderia, portanto, criar um tipo de prejuízo progressivo dessas funções cognitivas.

Para se pensar

Voltando à pesquisa dos 11.067 adolescentes, o resultado mostrou que para as crianças com menos de 7 horas de sono, de fato, após um ano de avaliação, os problemas começaram a surgir, principalmente com a presença de sintomas depressivos.

Isso nos leva, portanto, a destacar a importância de assegurarmos um tempo de sono suficiente aos filhos para preservar as funções mentais como a cognição e, mais do que isso, assegurar o equilíbrio da saúde mental nas crianças.

Celular e quarto não combinam. Procure manter o hábito de deixar os eletrônicos fora do ambiente de descanso e, caso você diga que usa o celular "apenas para o despertar", compre logo um relógio tradicional e o coloque ao lado da cama. Ou você é daqueles que ainda acreditam que os filhos não vão olhar o celular no meio da noite?…

Pense nisso.

 

Referências

  1. https://www.nature.com/articles/s41380-020-0663-2
  2. https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2019/08/13/uso-da-internet-e-ligado-ao-decrescimo-da-inteligencia-verbal-em-criancas/
  3. https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2019/06/11/cada-vez-mais-pessoas-se-sentem-dependentes-do-celular-diz-estudo-dos-eua/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6108834q/

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco