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Cada vez mais pessoas se sentem dependentes do celular, aponta estudo

Dr. Cristiano Nabuco

11/06/2019 04h00

Crédito: pixelfit/iStock

Uma nova pesquisa conduzida nos Estados Unidos pela empresa Common Sense Media fez um levantamento com um grupo de famílias para descobrir o impacto causado pelo uso de aparelhos de eletrônicos, e os resultados apontam comportamentos bastante preocupantes.

1. Uso excessivo antes de deitar

Embora nós, profissionais, estejamos repetindo a recomendação de não usar as telas antes de dormir, tanto os jovens quanto seus pais apresentam dificuldades em largar o hábito. A pesquisa mostrou que a cada 10 pais, 6 vão olhar seu celular pelo menos 30 minutos antes de dormir. E as crianças seguem na mesma linha — 7 em cada 10 dão uma "olhadinha" no aparelho.

Segundo o levantamento, 62% dos pais e 39% das crianças disseram que mantêm o celular ao lado da cama durante a noite toda. As meninas, por sua vez, mostram esse hábito em maior intensidade — 33% relataram a proximidade com o eletrônico durante o sono, em comparação com 26% dos meninos.

2. Sono interrompido

Muitas famílias também relatam ter seu sono interrompido em função das notificações contínuas que chegam no aparelho. A pesquisa mostra que 1 em cada 3 jovens acorda para verificar o celular durante a noite –o que, cá entre nós, é uma prática bastante prejudicial, pois interfere com a consolidação da memória daquilo que foi aprendido em sala de aula no dia anterior.

E não é só um problema dos jovens: 1 em cada 4 cuidadores também contaram ter o mesmo costume.

A investigação apontou que os pais reclamam com muita frequência a respeito da qualidade de seu sono no dia seguinte. Segundo os relatos, 51% deles recebem, pelo menos, uma notificação ao longo do período de descanso, e 48% afirmam não conseguirem voltar a dormir de maneira adequada.

As crianças –que deveriam estar mais preservadas, para assegurar suas funções cognitivas (de raciocínio) para a escola — também sofrem com o problema: 1 em cada 2, afirmaram também estarem acordando para olhar suas notificações quando chegam.

O maior problema é que várias pesquisas já mostraram que ter o sono interrompido pode levar à depressão, obesidade e uma série de outras doenças.

3. Tempo de uso

O número de pais que dizem gastar muito tempo em seu celular aumentou bastante em três anos: em 2016 eram 29% e em 2019, 52%. Por outro lado, os adolescentes acabaram por incluir de tal maneira o uso dos eletrônicos em sua rotina, que sua "percepção" de uso excessivo na investigação diminuiu — em 2016 eles eram 47% e hoje são apenas 29%.

4. Noção de interferência na relação com os pais

A pesquisa também apontou que houve um aumento no número de crianças que desejam que seus pais usem menos seu celular. Em 2016, eram 28% e em 2019, o número subiu para 39%.

5. Sentir-se dependente do celular

Quando se trata de se sentir dependente dos aparelhos, a maioria das crianças não está preocupada, mas seus pais estão bastante aflitos, aponta o estudo. Cerca de 45% dos pais se sentem pessoalmente viciados em seus dispositivos móveis, ou seja, quase 1 em cada 2 pessoas se sentem tendo uma relação pouco saudável com seus eletrônicos (registrou-se um aumento de 18 pontos desde 2016). Já, para crianças, 39% afirmam se sentirem dependentes de seu celular.

É necessário ficar atento

Ao que tudo indica, as coisas estão caminhando de maneira muito ruim quando o assunto é o uso dos eletrônicos com o objetivo de acessar as plataformas digitais. Embora ainda não tenhamos pesquisas no Brasil, creio que os dados americanos servem, no mínimo, de alerta a respeito da relação disfuncional que estamos desenvolvendo com nossos gadgets em nosso cotidiano e que apontam para uma direção futura nada saudável.  E se você acha que estou exagerando, saiba que o Brasil é líder mundial de tempo gasto no WhatsApp.

É hora, portanto, mais do que nunca, de ficarmos mais atentos e conscientes a respeito de como a tecnologia tem absorvido o tempo e as funções "normais" de nosso dia a dia, bem como as implicações que esses hábitos podem estar criando na cabeça de nossas crianças e de nossos adolescentes. Embora ainda não seja reconhecida como uma doença oficial pela OMS (Organização Mundial de Saúde) as dependências tecnológicas estão por aí, sequestrando a nossa atenção — deixando-nos cada dia mais distraídos — e, pior, comprometendo de maneira expressiva nosso trabalho, nossas relações familiares e sociais.

Tenhamos cuidado quando as práticas "comuns" se tornam sinônimos de coisas "normais". Algo sério está ocorrendo com a nossa cabeça, como efeito colateral do deslumbramento dos eletrônicos. Fiquemos atentos, mais do que nunca.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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