Dr. Cristiano Nabuco

Realidade virtual e a luta contra o Alzheimer
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Dr. Cristiano Nabuco

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A maneira como uma pessoa se desloca dentro de um labirinto virtual pode dar importantes pistas e, inclusive, prever as chances de uma pessoa vir a desenvolver a doença de Alzheimer em futuro próximo.

Essa foi a conclusão de um estudo publicado na Revista Science. (1)

Nele se descobriu que as pessoas em situação de risco para o aparecimento da doença apresentam uma menor atividade nas células de navegação do cérebro – também conhecidas como ''células de grade'' (ou, no inglês, grid cells) – um tipo de bússola biológica.

Cientistas, anteriormente, batizaram de “células de grade”, o que fornece a localização geográfica a ratos, morcegos e macacos, mas recentemente também se comprovou sua existência em humanos.

Desta forma, tal sistema é ativado, tomando por base a forma como os indivíduos se movem, informando-os seu posicionamento e localização em um plano imaginário de coordenadas.

Por exemplo, feche os olhos e ande cinco passos para frente e depois vire à direita, dando mais 3 passos – aqui estarão as células de grade entrando em funcionamento e rastreando sua posição.

© gloszilla - Fotolia.com

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O experimento com a realidade virtual junto aos participantes envolveu a apresentação de um cenário onde havia um céu azul, algumas montanhas a distância e, finalmente, objetos comuns de nosso cotidiano espalhados pelo chão. Os participantes então foram orientados a coletar os objetos virtuais e, posteriormente, devolvê-los ao mesmo lugar através da utilização de um joystick. A equipe monitorou a atividade cerebral de cada participante através de ressonância magnética funcional.

O monitoramento permitiu que os cientistas observassem as atividades de células de grade em uma região cerebral chamada de córtex entorrinal – uma das primeiras regiões atingidas em pacientes que sofrem do Mal de Alzheimer e, supostamente, razão pela qual esses pacientes estão mais propensos a se perder – ao apresentar comprometimentos na noção de espaço e perda de memória.

Os pacientes com pior performance na tarefa virtual foram aqueles que estão em situação de vulnerabilidade para o desenvolvimento futuro de Alzheimer, segundo entenderam os pesquisadores.

Embora seja pouco provável que apenas “testes de navegação” virtuais sejam utilizados como um diagnóstico precoce da doença de Alzheimer, a informação contida no experimento pode ser um passo adiante em direção a terapias preventivas.

É a tecnologia colaborando diretamente no cuidado e na prevenção em saúde mental.

 

Referência

(1) http://science.sciencemag.org/content/350/6259/430


Dificuldades para dormir na primeira noite fora de casa? A ciência explica.
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Dr. Cristiano Nabuco

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Dormir fora de casa ou em ambientes estranhos para muitas pessoas, efetivamente, pode se tornar um problema, ainda mais na primeira noite.

Sem dúvida, essa é uma dificuldade que os viajantes normalmente enfrentam e que pesquisadores parecem ter chegado a uma conclusão interessante.

Denominado de “efeito da primeira noite”, um estudo conduzido pela Brown University descobriu que uma das possíveis causas desse problema pode ser decorrente de nossa biologia pessoal.

O que ocorre?

Quando deveríamos estar dormindo profundamente, o hemisfério esquerdo de nosso cérebro,  constatando que estamos em ambiente incomum, permanece mais ativo, deixando-nos com um sono “superficial”. Segundo os pesquisadores, é como se nossos instintos mais ancestrais nos deixassem em estado de vigilância e de prontidão contra algo ruim que poderia vir a acontecer, consumindo, portanto, mais tempo para nos colocar em adormecimento, ou até resultando em um sono de pior qualidade (por isso acordamos mais cansados).

Essa assimetria cerebral durante o sono, segundo revelam os pesquisadores, também é encontrada em mamíferos como focas, golfinhos e baleias.

Para verificar se isso ocorria igualmente com os humanos, os pesquisadores recrutaram 35 voluntários que passaram duas noites em laboratório e os submeteram a alguns testes noturnos.

Um dos experimentos consistia em expor sons agudos durante toda a noite em ambos os ouvidos dos participantes e, ocasionalmente, foram introduzidos sons diferentes do normal. Eles descobriram que a resposta do cérebro aos sons inesperados foi maior no ouvido direito (que levava ao hemisfério esquerdo), do que no lado oposto. Desta forma, o hemisfério esquerdo experimentou despertares mais frequentes do que o direito, além de alterações mais frequentes nos sinais vitais dos sujeitos.

A equipe fez um experimento final no qual um novo grupo de voluntários ouviu sons enquanto dormiam, só que desta vez, eles foram instruídos a levantar seus dedos levemente, caso fossem despertados pelo som. Os voluntários acordavam mais rapidamente depois de ouvir sons em sua orelha direita (que ativa principalmente no hemisfério esquerdo do cérebro) do que em sua orelha esquerda (que ativa o hemisfério direito).

Conclusão

Tomados em conjunto, os resultados sugerem que o hemisfério esquerdo fica mais ativo na primeira noite de sono em ambientes desconhecidos, decorrente então do que se conjecturou ser um possível mecanismo de proteção que mantém o cérebro alerta de possíveis perigos.

Vamos lembrar que todos esses achados foram observados apenas na primeira noite de sono e não mais nas noites subsequentes.

Para minimizar esses efeitos, os pesquisadores sugerem então que as pessoas levem seu próprio travesseiro nas viagens como forma de diminuir as impressões de estranheza do ambiente, ou ainda, que se procure dormir sobre o ouvido direito, como forma de impedir que o hemisfério esquerdo se torne um guarda-noturno ao nos fazer dormir menos e mal.

Não custa nada tentar…

 

Referência

http://www.cell.com/current-biology/pdfExtended/S0960-9822(16)30174-9


Efeitos do uso excessivo da internet e dos videogames sobre a memória
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Dr. Cristiano Nabuco

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Sabe-se que a grande maioria dos adolescentes dispendem um tempo expressivo de seu dia (principalmente à noite) utilizando videogames, celulares, internet e eletrônicos de todos os tipos, na intimidade de seu quarto, inclusive quando deitados, o que retarda de maneira significativa a entrada no ciclo do sono.

Já é bem documentado que o sono é vital na manutenção do equilíbrio e do bem-estar, além de ocupar um papel fundamental na consolidação e performance da aprendizagem e da memória.

Veja só: os videogames aumentam de maneira expressiva algumas variáveis metabólicas e fisiológicas, incluindo uma grande estimulação no sistema nervoso central.  Diferentemente, por exemplo, de outras plataformas onde se interage de maneira mais relaxada, nos games se registra o aumento dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea, respiração, supressão momentânea de alguns processos digestivos, dentre outros, o que interfere pontualmente na qualidade do sono subsequente. (1)

Algumas concepções entendem que um alto nível de emoções – a exemplo do que é vivido nos jogos virtuais – pode prejudicar, inclusive, o processo de aprendizagem. Como o conhecimento adquirido ao longo do período de vigília ainda está sob consolidação, a intensidade emocional decorrente dessa estimulação noturna pode interferir de maneira significativa na capacidade de nossos jovens. Como os games produzem desafio, surpresas, excitação e, principalmente, a frustração, todas essas alterações são acompanhadas de importantes mudanças fisiológicas.

Estudos de PET SCAN (tomografia por emissão de pósitrons) mostraram uma expressiva liberação de dopamina e norepinefrina durante o uso de videogames, o que, diga-se de passagem, são os mesmos neurotransmissores envolvidos no processo de aprendizagem.

Numa pesquisa com crianças em idade variando entre 10 e 14 anos, evidências demonstraram que apenas uma noite com restrições de sono já seria o suficiente para enfraquecer as funções cognitivas de maneira importante. (2)

Entende-se que durante as fases do sono REM (movimento rápido dos olhos) e do sono de ondas lentas é que se daria a consolidação do processo no qual a memória do cotidiano seria fixada. (3)

Portanto, uma vez que os videogames reduzem a quantidade do sono de ondas lentas, a consolidação da memória fica então seriamente prejudicada. (4)

Além disso, uma vez que mais tempo de frente ao vídeo pressupõe menor tempo destinado às atividades físicas – que tem uma das consequências afetar positivamente as estruturas cerebrais e melhorar as performances acadêmicas (concentração etc) -, estima-se que essa redução poderia também afetar a saúde física ao aumentar o cansaço e reduzir conjuntamente a prontidão atencional dos jovens no dia seguinte.

Conclusão

Por que será então que os problemas na escola e a baixa performance acadêmica estão se tornando cada vez mais frequentes junto aos adolescentes? Apenas decorrente das questões pedagógicas da escola é que não é, correto?…

Os pais deveriam hoje, mais do que nunca, procurar saber o que ocorre na vida digital de seus filhos e, assim, ajudar a zelar por uma melhor qualidade de vida de nossos pequenos.

Não é apenas porque estão na segurança “do quarto” e “entretidos” que as coisas necessariamente estão indo bem.

Pense nisso.

 

Referências

 (1) Wang X, Perry AC. (2006). Metabolic and Psysiologic Response to Video Game Play in 7- to 10-year old boys.       Arch Pediatr Adolesc Med, 160:411-415.

(2) Radazzo AC, Muehlback MJ, Schweitertzer PK, Walsh JK. (1998). Cognitive Function Following Acute Sleep Restriction In Children ages 10-14. Sleep, 21:861-868.

(3) Hasselmo ME. (1999). Neuromodulation: Acetylcholine and Memory Consolidation. Trends Cogn Sci, 3:351-359.

(4) Dworak M, DiplSportwiss, Schierl T, Bruns T, Struder HK. (2007). Impact of Singular Excessive Computer Game and Television Exposure on Sleep Patterns and Memory Performance of School-Aged Children. Pediatrics, 120:978-985.

 


Efeitos da Terapia Cognitivo-Comportamental no Cérebro: Um Estudo
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Dr. Cristiano Nabuco

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Introdução

Como sabemos, o cérebro humano apresenta uma extrema capacidade de mudança, isto é, decorrente de estimulações vindas do ambiente, da aprendizagem e, finalmente, das emoções, nossas estruturas cerebrais reagem prontamente a vários tipos de situações.

Assim, diferentemente do que se sabia décadas atrás, nosso cérebro está em constante interação com o meio ambiente, sendo afetado de uma maneira ininterrupta através das experiências que temos em nosso cotidiano. Portanto, longe de ser uma estrutura finalizada, nossa mente e nosso cérebro estão em profunda e contínua transformação.

Um exemplo foi demonstrado por uma investigação junto a motoristas de taxi da cidade de Londres. Como se sabe, para se desempenhar bem essa função, os motoristas devem, obrigatoriamente, memorizar cerca de 320 rotas que passam pela referida cidade, composta por aproximadamente 25 mil ruas e mais de 20 mil locais de interesse público. (1)

Comparados a um grupo controle (o de não motoristas), investigações de ressonância magnética no cérebro mostraram um aumento expressivo do volume do hipocampo posterior – região associada à memória, comprovando assim a capacidade de mudança do cérebro dos taxistas, o que ocorreu, inclusive, na fase adulta.

A investigação

Tendo isso em mente, um grupo de pesquisadores procurou verificar como psicoterapia cognitivo-comportamental poderia afetar o volume do cérebro e sua atividade.

Assim, o foco se concentrou em pacientes com ansiedade social – um dos problemas mais comuns de saúde mental.

O estudo recrutou 26 indivíduos que foram tratados com terapia cognitivo-comportamental (fornecidas através de orientações dadas pela internet) por um período de nove semanas. (2)

Assim, antes e depois do tratamento, os cérebros dos pacientes foram examinados por ressonância magnética.

O resultado foi bem interessante.

Quanto mais expressiva foi a melhora registrada junto aos pacientes tratados, menor fora o tamanho da amídala ao final da intervenção em psicoterapia, se comparado ao grupo controle.

Vale lembrar que a amídala cerebral é aquela região associada com a manifestação das emoções, ou seja, quanto maior for o volume da amídala cerebral, nos casos de ansiedade social, maior será a severidade dos casos.

Portanto, após o tratamento, verificou-se uma reorganização importante, o que resultou em um menor volume da substância cinzenta e da responsividade neuronal das amídalas, contribuindo para um menor nível de ansiedade.

O estudo sugere então que a redução do volume da amídala propiciou uma redução expressiva e direta da atividade cerebral dos pacientes tratados com a psicoterapia.

Conclusão

É por essa e tantas outras razões que a psicoterapia moderna pode ser denominada como aquela que oferece, efetivamente, uma “fala curativa” aos pacientes. Com direito, inclusive, a alterações cerebrais significativas.

Embora exista hoje um número expressivo de pessoas que ainda é bastante refratária a esse tipo de tratamento, a psicoterapia cognitivo-comportamental – considerada padrão ouro para tratar 85% dos problemas de saúde mental -, ainda se mostra uma das melhores opções. (3)

Pense nisso.

 

Referências

(1) http://www.bbc.com/news/health-16086233

(2) http://www.nature.com/tp/journal/v6/n2/pdf/tp2015218a.pdf

(3) http://clinicalevidence.bmj.com/x/index.html

 


Estresse e a perda de memória
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Dr. Cristiano Nabuco

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Pois é, já não é de hoje que ouvimos centenas de consequências decorrentes dos estados de estresse junto ao nosso organismo: arritmias, infarto e avc, hipertensão arterial, aumento da glicemia e colesterol, depressão, queda do sistema imunológico, além de vários outros.

O que possivelmente você ainda desconhecia é o fato de que o estresse contínuo – aquele que você “naturalmente” se acostuma – pode levar também a problemas mais sérios de memória.

Um estudo que acaba de ser publicado demonstrou a relação entre a memória de curto prazo e estresse prolongado.

Utilizando uma pesquisa com modelos animais (ratos) em um labirinto experimental, cientistas introduziram no ambiente, que antes era tranquilo, um rato intruso bem maior e, para aumentar o desconforto, o fizeram de maneira repetida com a passagem do tempo.

Aqueles ratos que foram constantemente expostos ao intruso agressivo, apresentaram um comportamento bastante curioso: eles, na tentativa de fuga, levavam muito mais tempo dentro do labirinto para lembrar onde estava o buraco de fuga (se comparado ao tempo anterior sem a presença do predador no ambiente).

Além disso, os roedores perturbados também apresentaram alterações significativas em seu cérebro, incluindo evidências concretas de inflamação, supostamente causada pela resposta do sistema imunológico à pressão do ambiente, visível pela presença de células imunes, chamadas macrófagos, no cérebro dos ratos estressados.

Além da dificuldade de se lembrar para onde fugir, sabe por quanto tempo a memória dos roedores permaneceu afetada? Os ratos estressados levaram nada menos do que 28 dias, após o término do experimento, para se recobrar de suas lembranças.

Como se isso já não bastasse, além da erosão da memória, os pesquisadores perceberam que os animais perturbados mostraram expressiva evitação social (diminuição do contato com outros ratos) que, aliás, permaneceu ainda ativa após as quatro semanas de acompanhamento (leia-se: provocando deficiências psicológicas mais duradouras).

Conclusão

Os achados nos fazem pensar então que, muito além dos “velhos problemas” ocasionados por um modo de vida pouco saudável, estar sob pressão pode causar danos também ao nosso cérebro. Assim, se os resultados da pesquisa acima puderem ser replicados em humanos, seria bom ficarmos atentos.

Ao levarmos uma vida “agitada” demais, longe de ser algo normal, abrimos espaço para que problemas cognitivos (decorrentes da perda de memória) possam, ainda mais, impactar nossa mente e nosso humor.

Vamos prestar mais atenção em nossa qualidade de vida? Sua memória agradece.

 

Fonte

http://www.jneurosci.org/content/36/9/2590


Medo de aranha: a fobia mais antiga de nossa história
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JorgeAlejandro - fotolia

JorgeAlejandro – fotolia

Aracnofobia (do grego: arachne, aranha + fobia) ou “medo de aranhas” é a fobia considerada mais antiga e, inclusive, apontada entre outras frequentes, a mais comum em nossa cultura.

Uma pessoa com essa condição pode apresentar uma reação extrema de aversão, manifestada através de um comportamento emocional intenso e descontrolado e que pode, muitas vezes, parecer irracional aos indivíduos à sua volta. O sofrimento é tamanho que a vida desse indivíduo pode ser afetada de maneira dramática.

A fobia ou medo de aranha é classificada como uma fobia específica (pertencente aos transtornos de ansiedade) e que normalmente pode ser desencadeada pela simples antecipação da aranha, da exposição real e, em certos casos, apenas ao se ouvir o nome mencionado.

Aspectos Históricos

Sabe-se que, há muitos séculos, as aranhas foram associadas a doenças e infecções. Na Idade Média, por exemplo, qualquer alimento que tivesse tido contato com aranhas era considerado infectado e nocivo. Até o final do século XVII, muitas culturas acreditavam serem elas venenosas e causa direta da histeria, fenômeno também conhecido como ''tarantismo”.

Sabe-se que os primeiros relatos deste mal datam da Idade Média, período no qual teria ocorrido uma “epidemia” da doença, na cidade de Taranto, no Sul da Itália. Relatos apontam que mulheres dessa região eram vítimas de tais aranhas. (1)

As crises eram cíclicas e contavam com gritos, comportamento adverso, espasmos e contorções – que remetiam aos movimentos de um aracnídeo -, em uma espécie de transe hipnótico.google - imagens

Acreditava-se que, para se livrar do veneno, a mulher precisaria ser submetida por um ritual, a “Taranta”. Nele, a pessoa envenenada deveria ficar cercada de pessoas que, dentre elas, eram presentes músicos que tocavam com o objetivo de “espantar a aranha” presente no corpo da vítima.

Assim, durante o transe, a “tarantata” dançava, movimentava-se e contorcia-se de maneira intensa. O objetivo era que o veneno fosse eliminado através do suor. Estima-se, inclusive, que essa teria sido a origem da atual dança folclórica italiana, chamada “tarantela”. (2)

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As aranhas, além disso, também foram percebidas como uma das responsáveis pelas grandes pragas que atingiram a Europa a partir do século X. Apenas recentemente se descobriu que o rato preto, na verdade, é que carregava as pulgas que espalham as pragas. Entretanto, como as aranhas eram também encontradas nas mesmas partes de uma casa que ocupavam os ratos, daí sua suspeita.

Origens

Alguns pesquisadores sugerem que esse medo seria socialmente aprendido, ou então, decorrente de algum trauma em razão do contato direto anterior. Outros, todavia, defendem a ideia de que os seres humanos já nasceriam com essa propensão natural a esquiva.

A pesquisa sugere que aracnofobia pode ter sido geneticamente determinada como o resultado de um instinto de sobrevivência que fora desenvolvido em nossos antepassados há milhões de anos.

Como os seres humanos estavam em risco contínuo, vivendo em ambientes mais primitivos (como cavernas), detectar tais ameaças fora de fundamental importância para assegurar a sobrevivência, o que constitui, com a passagem do tempo, uma necessidade evolutiva. (3)

Isso poderia então explicar porque as pessoas têm um medo profundamente enraizado e aparentemente irracional até os dias de hoje.

Um estudo conduzido na Universidade de Columbia, em Nova York, testou quão rapidamente as pessoas seriam capazes de identificar uma aranha quando expostas a uma série de estímulos combinados.

Mais de 250 pessoas foram convidadas a observar as telas de um computador contendo inicialmente formas abstratas e, em seguida, imagens já conhecidas que induziriam o medo ou o nojo, para testar a velocidade de reação individual.

O estudo descobriu que as pessoas foram capazes de identificar, entre as formas abstratas, aquelas que se assemelhavam a formas de aranhas, corroborando a tese do instinto de sobrevivência – o que explicaria também as reações de aversão mais intensa em algumas pessoas.

Um outro estudo realizado no Reino Unido, com 261 adultos, mostrou que cerca de 32% de mulheres e 18% homens no grupo sentiram-se muito ansiosos, nervosos ou extremamente assustados quando confrontados com uma aranha real (ou apenas através de imagens). (4,5)

Tratamento

Sabe-se que o tratamento indicado envolve uma exposição gradual ao estímulo fóbico (no caso, a aranha) com o objetivo de dessensibilizar o paciente frente à reação fóbica. Esse processo é combinado a treinos de relaxamento e, mais tarde, baseado nas técnicas da terapia cognitivo-comportamental. (6,7)

Pode-se também usar de tratamento virtual, ao recriar todos os elementos que compõem a experiência integral de estar próximo a um aracnídeo, onde o paciente é mais capacitado a vencer o seu medo. (8)

Estão aí as técnicas da psicoterapia moderna para lhe ajudar a transformar seu medo. Só permanece sofrendo quem quer.

Referências

(1) https://www.psychologytoday.com/blog/why-we-worry/201407/why-are-we-afraid-spiders

(2) http://lounge.obviousmag.org/por_uma_linha_que_caiba/2014/05/tarantismo-o-grito-da-frustracao-feminina.html#ixzz3nop4tWO8

(3) http://www.telegraph.co.uk/news/science/11516966/Fear-of-spiders-in-our-DNA-according-to-new-study.html

(4) http://www.fearof.net/fear-of-spiders-phobia-arachnophobia/

(5) http://www.uptodate.com/contents/specific-phobia-in-adults-epidemiology-clinical-manifestations-course-and-diagnosis/abstract/1?utdPopup=true

(6) http://www.helpguide.org/articles/anxiety/phobias-and-fears.htm

(7) Rinck M, Becker ES. Approach and avoidance in fear of spiders. J Behav Ther Exp Psychiatry 2007; 38:105-120

(8) http://www.perseusrealidadevirtual.com.br/

 

 

 


3 sinais de que uma pessoa está insegura
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Dr. Cristiano Nabuco

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Obviamente que é quase impossível para qualquer um descobrir o estado emocional que é vivido por alguém em um determinado momento, apenas colhendo pistas instantâneas que são observadas em rápidas conversas, entretanto, para uma pessoa mais atenta, alguns sinais sempre fogem ao controle, deixando evidente o rastro de insegurança e vulnerabilidade psicológica que é sentido por alguém.

Assim, a seguir, descrevo alguns dos indícios mais comuns presentes nas interações e que podem ser indicativos de um sentimento transitório de inferioridade:

a) Autovalorização excessiva

Esse, talvez, um dos mais clássicos, é frequentemente encontrado nas pessoas que estão se sentindo desprestigiadas.

Como o cérebro humano em nossa evolução antepassada foi preparado para obter o destaque perante o bando, pois dessa forma se teria mais chance de liderar o grupo, prioridade na alimentação ou ainda na escolha do(a) parceiro(a), tornar-se um líder era de fundamental importância – ou também conhecido como “macho” ou “fêmea” alfa -, assim sendo, “ser bom” passou a ser  uma necessidade vital para a sobrevivência.

Dessa forma, ainda que o tempo tenha passado e não precisemos mais brigar por um pedaço de comida, muitas pessoas, quando estão se sentindo diminuídas, têm o seu cérebro inconscientemente acionado para, de alguma forma, fazer-nos voltar ao destaque e, assim, da maneira mais simples possível, um velho mecanismo entra em ação: imediatamente damos um jeito de encaixar nas conversas assuntos como: o destino da última viagem, a comida “maravilhosa” de um determinando restaurante, o objeto “exclusivo” comprado em uma das melhores lojas de grife ou, ainda, o importante cargo, ressaltando sua “importância”.

Portanto, ficar em evidência, compensa a sensação de inferioridade, resolvendo momentaneamente o problema.

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O que essas pessoas, na verdade, não percebem é que ativar esse senso de grandiosidade de forma desproporcional e excessiva, apenas reforça um sentimento de esquiva e de rejeição pelos demais, uma vez que a soberba pessoal não é usualmente muito bem digerida pelo grupo, fazendo então com que esse indivíduo passe a ser, efetivamente, desconsiderado.

Portanto, fique atento para não criar um estigma sobre sua pessoa.

b) Incapacidade de dizer “não”

Esse é outro importante indicador de que temos um expressivo receio de magoar ou de decepcionar alguém. Assim sendo, nessa condição sentimo-nos incapazes de colocar de forma  sensata e objetiva nossas percepções e opiniões pessoais, deixando transparecer uma excessiva simpatia pelos demais, ao deixar passar uma impressão de que “faríamos qualquer coisa” pelo outro. O que, diga-se de passagem, nem sempre é verdadeiro.

Esse tipo de comportamento vem, muitas vezes, acompanhado de notada efusividade (simpatia) interpessoal, dando margem a que o outro sinta que você o “compreendeu” ou ainda é uma pessoa “muito legal” e que essa “amizade” mereceria ser cultivada, pois, afinal de contas, aparenta ser alguém demasiadamente receptivo.

Claro, tudo tem um segundo sentido que é o de aparentar sua capacidade de “conexão”, o que, diga-se de passagem, pode aumentar de maneira irreal as expectativas projetadas sobre nós e dando margens a problemas maiores como as futuras decepções.

Ocorre que muitas pessoas, na verdade, nem percebem que estão fazendo isso.

Lembre-se apenas de uma coisa: ninguém consegue ser “legal” o tempo todo. Assim, tente ser apenas e tão somente você.

c) “Congelamento” ou a incapacidade de interagir

Esse é um outro recurso que o cérebro humano lança mão para combater o senso de diminuição pessoal e semelhante a algumas categorias de comportamento animal que, quando estão se sentindo ameaçados, “paralisam” para mostrar ao inimigo ou que são inofensivas ou para serem confundidas com o entorno, diminuindo assim a chance de ataque.

Nessas situações, essas pessoas se sentem tão vulneráveis frente aos demais que literalmente “travam” e não conseguem sequer participar de uma simples interação, por mais fugaz que ela seja. E, na medida que isso ocorre, o desconforto pessoal é percebido por elas mesmas que tentam desesperadamente “agir” – na tentativa de recuperar seu lugar social.

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Todavia, o cérebro, percebendo a situação de profundo incômodo, ao tentar reverter a situação, dá comando para que elas “falem”, que se comuniquem de qualquer jeito, qualquer coisa serve, mas obviamente isso apenas aumenta a escalada de ansiedade, fazendo com que elas se sintam ainda mais travadas e congeladas, dando então mais força ao sentimento de exclusão pessoal.

Conclusão

Veja que nem sempre estamos em dias em que nossas habilidades sociais estão em alta, ou seja, como tudo na vida, sempre há momentos em que estamos mais abertos, enquanto outros, mais reservados e introvertidos.

E, veja, falar demasiadamente de nossas conquistas, ser muito simpático às vezes ou até ficar mais calado em algumas fases da vida, na verdade, é algo absolutamente normal e não deve ser fonte de preocupação. Todavia, a dica vai para quando esses mecanismos tendem a se repetir frequentemente com a passagem do tempo, engessando-nos emocionalmente ao fazer- nos agir sempre da mesma maneira e criando, portanto, problemas maiores de sociabilidade e de relacionamento.

Aqui, portanto, estariam algumas das bases futuras dos quadros de transtorno narcisista, da fobia social, dentre outros.

Assim, fique atento quando esses mecanismos deixam de ser um problema e se tornam um “padrão” constante de interação e que, portanto, deveriam ser objeto de cuidado e de mudança pessoal.

A boa notícia? Está aí a psicoterapia moderna para lhe ajudar a transformar esses padrões. Felizmente, há saída (tratamento) para quase tudo. Só permanece inseguro e mal resolvido quem quer.


O transtorno bipolar e o dilema dos diagnósticos incorretos: um estudo
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Dr. Cristiano Nabuco

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O Transtorno bipolar do humor é uma doença mental caracterizada pela alternância de humor.

Desta maneira, as pessoas acometidas por esse problema experimentam episódios de euforia (ou também chamado de “mania”) enquanto, em outros momentos, intercalam períodos de depressão, seguidos por episódios de normalidade.

Com o passar dos anos, entretanto, essa alternância repete-se com intervalos cada vez menores, apresentando algumas variações.

Muitas vezes, nem mesmo o paciente ou profissionais de saúde percebem a doença, o que retarda o adequado tratamento. (1)

Montanha russa emocional

Euforia (ou mania) é um estado onde a pessoa experimenta significativa exaltação do humor, ao sentir um importante aumento de vitalidade – sem qualquer relação com algo específico -, o que confere grande vigor emocional ao indivíduo. Em geral, essa mudança de comportamento é repentina, entretanto, a pessoa tem dificuldade de perceber sua alteração pessoal, pois seu senso crítico acaba afetado, comprometendo assim sua capacidade de avaliar objetivamente as situações.

Durante um episódio de mania, por exemplo, uma pessoa impulsivamente pode sair de um emprego, gastar enormes quantias em seu cartão de crédito, pois se sente inabalável, ao experimentar sentimentos de grandeza, poder e fácil irritabilidade. (2)

Já durante um episódio depressivo, a mesma pessoa pode vir a se sentir muito exaurida, desanimada, inclusive, sem forças para sair da cama, por exemplo, e agora desenvolvendo mais consciência das situações criadas pelos momentos de euforia, o que reforça seu estado depressivo e suas ideações suicidas.

Assim, euforia e depressão intercalam-se.

Como a condição parcial de humor elevado não é totalmente compreendida pelo indivíduo como sintoma de uma doença, muitas vezes as pessoas apenas buscam ajuda nos momentos mais agudos de desânimo e de depressão.

Essa falta de informação é tão impactante que afeta o tratamento do transtorno.

Veja só: uma pesquisa recente apontou que 10% dos pacientes que buscam os cuidados básicos, no Reino Unido, recebem um diagnóstico incorreto, pois, ao relatarem os sintomas de maneira parcial (leia-se: não descrevendo sua alternância de humor), recebem apenas a indicação de antidepressivos para tratamento da depressão. (3)

Como resultado, recebem um tratamento inadequado, pois apenas medicamentos antidepressivos sem a associação com estabilizadores de humor – indicados para o tratamento do transtorno bipolar – aumentam o risco de mais instabilidade no humor, causando grande sofrimento ao indivíduo.

O estudo constatou que entre as pessoas com idade entre 16-40 anos, que haviam tomado antidepressivos, 10% delas tinham, na verdade, transtorno bipolar não diagnosticado.

O estudo recomenda que os profissionais de saúde devem rever as histórias de vida de pacientes com ansiedade ou depressão, pacientes particularmente mais jovens e aqueles que não estão indo bem, deveriam ficar mais atentos para as possíveis evidências de transtorno bipolar do humor.

Conclusão

A saúde mental, diferentemente da saúde física, ainda é um grande desafio a ser superado.

Diferentemente dos quadros onde a doença é “visível”, na saúde mental muitas vezes os sintomas, quando percebidos, são apontados de maneira simplista, como resultante de uma personalidade mais complicada ou excêntrica o que, na verdade, justificam os problemas.

Conforme descrito certa vez no prefácio do livro “Síndromes Psiquiátricas” (pág. 11):

“A boa notícia é que a maioria dos transtornos mentais tem tratamento. A má notícia é que são muito frequentes e que acometerão uma em cada quatro pessoas, produzindo sofrimento incomensurável.

A boa notícia é que há tratamentos farmacológicos que ajudam essas pessoas a se recuperar e aliviam muito esse sofrimento. A má notícia é que as pessoas com transtorno mental comumente não sabem que ele é a causa do sofrimento, e por isso não procuram ajuda.

A boa notícia é que há cada vez mais remédios com menos efeitos colaterais. A má notícia é que as pessoas que procuram ajuda, seu mal não é corretamente identificado, e elas não recebem tratamento adequado”. (2)

Portanto, fiquemos atentos e menos receosos na busca de profissionais de saúde mental. A exemplo da tristeza excessiva, euforia e felicidade extremas também são um desafio ao nosso equilíbrio.

Referências

(1)  http://www.abrata.org.br/new/oqueE/transtornoBipolar.aspx

(2) http://www.grupoa.com.br/livros/psiquiatria/sindromes-psiquiatricas/97885363056394

(3) http://bjgp.org/content/66/643/e71

 

 


Atenção das mães e o impacto no desenvolvimento cerebral dos filhos
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Dr. Cristiano Nabuco

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Não é de hoje que sabemos que a primeira infância é de vital importância para o desenvolvimento do cérebro de uma criança.

Investigações já comprovaram que ser criado em um ambiente familiar, com mais tranquilidade e equilíbrio, tem o poder de transmitir uma dose positiva de segurança emocional aos pequenos, o que favorece a construção de uma autoestima mais fortalecida, uma melhor capacidade para lidar com o estresse, à medida que as crianças se desenvolvem, além de boas habilidades para o manejo das situações interpessoais futuras. (1)

Assim, aqueles filhos que são criados em ambientes com mais atenção parental, mais seguros se sentirão, aumentando assim, progressivamente, a construção da autonomia e da independência, ainda em formação nas fases iniciais de vida.

E o oposto, não deixando de mencionar, é igualmente verdadeiro. Por exemplo, crianças criadas em ambientes caóticos e desorganizados, desenvolvem maiores vulnerabilidades emocionais, o que resulta em uma infância e, por que não dizer, em uma adolescência mais problemática, sendo que, em uma grande parcela dos casos, essas dificuldades ainda são perceptíveis até na vida adulta. (1)

Até aqui, nada de muito novo, certo?

Entretanto, o que ninguém ainda sabia era que esses mesmos estímulos provenientes das relações afetivas boas ou más, além de conferirem um sem número de vantagens ou desvantagens, também interferem de maneira pontual no crescimento das redes neuronais do cérebro infantil.

Utilizando o modelo animal, uma nova pesquisa se debruçou exatamente sobre esses aspectos. Descobriu-se que cuidados maternos, quando oferecidos de maneira inconsistente ou fragmentada à prole – decorrente dos ambientes mais estressados-, aumentam exponencialmente a probabilidade desses filhotes desenvolverem comportamentos de risco. (2)

Vou explicar melhor a pesquisa.

A investigação

Para averiguar os possíveis impactos da falta de uma atenção contínua das mães às crianças, decorrentes de ambientes mais ou menos instáveis, os pesquisadores criaram um modelo de pesquisa com roedores para compreender melhor o efeito destas experiências nas redes neuronais do cérebro.

Assim, os cientistas separaram dois grupos distintos de bebês roedores: um habitando ambientes calmos e tranquilos (leia-se: com as mães roedoras sempre presentes) e, em outro grupo, animais criados em ambientes caóticos onde o cuidado das mães era desordenado e tumultuado.

Portanto, o ponto central da análise dos pesquisadores era o comportamento de cuidado materno exibido pelas cuidadoras-roedoras com seus filhotes. (2)

Apesar de que a quantidade e a qualidade de cuidados maternos serem, obviamente, difíceis de serem diferenciadas nos dois ambientes experimentais, conseguiu-se, entretanto, avaliar os padrões (e frequência) de cuidado que as mães ofereciam aos seus filhotes (o que, diga-se de passagem, diferiu drasticamente em ambos os grupos).

Enquanto um grupo de roedores recebia um cuidado das mães que era contínuo e duradouro (a mãe, por exemplo, os lambia e os agradava por períodos mais extensos de tempo), no outro, os filhotes receberam um cuidado maternal que fora mais fragmentado, isto é, a cuidadora era interrompida em seus comportamentos de zelo e de atenção aos filhotes.

O resultado foi significativo.

Veja só: A prole criada no ambiente mais sereno e com a presença persistente das mães, teve seus sistemas dopaminérgicos (ou seja, os sistemas de recompensa) mais ativados do que aqueles roedores que foram criados em um ambiente mais caótico.

Os pesquisadores, desta forma, acreditam que o sistema de recompensa do cérebro daqueles filhotes mais “carentes” acabou sendo, como resultado, pouco estimulado (pois os mesmos ainda não são maduros em neonatos e lactentes), comprometendo de maneira significativa o processo de maturação cerebral dos filhotes.

Segundo a investigação, isso teria sido responsável por uma espécie de anestesia emocional dos roedores, pois não os fazia responder a estímulos positivos, quando os mesmos eram introduzidos no experimento.

Assim, o grupo menos cuidado exibiu pouco interesse em atividades naturalmente mais atrativas aos filhotes, como, por exemplo: a busca por alimentos mais doces ou ainda nas brincadeiras com os outros ratos, duas medidas independentes para se avaliar a capacidade dos ratos de sentir prazer (e, obviamente, de recompensa).

© Robodread - Fotolia.com

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Conclusão

Os investigadores agora seguem se perguntando: o que foi descoberto nos ratos, se aplicaria, igualmente, para as pessoas?  Se assim for, explicam, novas estratégias deveriam ser consideradas no sentido de se evitar problemas emocionais futuros em crianças e adolescentes.

Agora, uma outra questão também se aplicaria.

Como se não bastassem os inúmeros obstáculos encontrados na infância e, cada um de nós sempre tem um bom exemplo para contar, nos dias de hoje ainda se somam a falta de tempo dos pais, decorrente do trabalho excessivo – fruto das dificuldades econômicas que muitas famílias passam-, além dos problemas cada vez mais frequentes nas interações entre pares na escola, apenas para citar dois exemplos.

E, como se isso tudo não fosse o suficiente, hoje, as crianças ainda encontram uma nova barreira a ser transposta em sua infância: a tecnologia sempre presente em tablets e celulares nas mãos dos pais, tornando a necessidade biológica pela atenção ainda maior.

Pensando na investigação acima descrita, seria então correto afirmar que o uso da tecnologia por parte dos pais seria prejudicial ao amadurecimento cerebral dos filhos?

Assim sendo, estariam nossas crianças sendo igualmente subestimuladas pela atenção fragmentada dos pais em função da tecnologia? (3)

Enfim, para se pensar.

Seria interessante, portanto, que os pais de nossas crianças ficassem atentos, pois se formos tomar por base os achados nos animais, nossos pequenos podem estar em risco.

 

Referências bibliográficas

(1) http://www.casadopsicologo.com.br/teoria-do-apego.html#.Vpg4RhUrLIU

(2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26731439

(3) http://www.grupoa.com.br/livros/psicologia-geral/vivendo-esse-mundo-digital/9788565852951

 

 


Os efeitos da tecnologia em crianças menores de 2 anos
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Dr. Cristiano Nabuco

goodluz - fotolia

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Já não é de hoje que os efeitos da exposição à mídia eletrônica (TV, DVD, programas de computador), à internet como um todo, têm sido relatados de maneira extensiva.

Os efeitos positivos, já sabemos muito bem, não precisam ser mais detalhados, pois já fazem parte do dia-a-dia de quase todas as pessoas.

Os negativos, entretanto, abordados sistematicamente, apontam para uma série de resultados ou, se você preferir, efeitos colaterais não muito animadores.

Ainda que o assunto esteja em pauta constante, muito pouco se sabe a respeito dos efeitos observados nas crianças com idade inferior a 2 anos.

Nesse sentido, farei uma breve descrição de algumas questões que vêm sendo apontadas pela literatura científica e que merecem uma maior atenção dos cuidadores.

Dados decorrentes de levantamentos nacionais são quase inexistentes e, portanto, tomarei por base algumas informações já aferidas por outros países.

Algumas pesquisas apontam que cerca de 90% dos pais afirmam que seus filhos menores de dois anos assistem a algum tipo de mídia digital ao longo do dia. Tal acontecimento se deve ao fato de que ver televisão ou brincar com eletrônicos asseguram uma maior quietude em casa como, por exemplo, no preparo para o jantar, durante mesmo as refeições ou ainda nos momentos de lazer – o que permite aos pais poderem realizar alguma outra atividade sem maiores preocupações.

Caso você ainda não saiba, levantamentos apontam que as crianças nessa idade chegam, em média, a ver televisão de 1 a 2 horas por dia, enquanto há registros que facilmente atingem a marca de 4 horas diárias.

Embora exista um mesmo acesso aos diferentes níveis socioeconômicos, o “consumo” tende a ser expressivamente maior em faixas menos favorecidas, ou seja, quanto menor o nível educacional dos cuidadores, maior a exposição dos filhos à televisão (ou ainda no caso de lares onde existem pais separados vivendo com as crianças).

Alguns efeitos

Muito se tem discutido a respeito da importância dos programas educacionais, como o aumento das habilidades sociais, linguagem, por exemplo, ao se exaltar os efeitos positivos da exposição. Saiba então que ¾ dos programas destinados a crianças se autodenominam educacionais, entretanto, muito pouco tem sido efetivamente pesquisado e comprovado se, de fato, promoveriam tais habilidades.

Vamos lembrar que, para que algum efeito possa ser verificado, as crianças pequenas precisariam ter asseguradas suas mínimas habilidades cognitivas (como a atenção ou a memória, por exemplo), mas que ainda não operam, nessa faixa etária, de forma regular.

Além disso, as crianças pequenas apresentam dificuldade de discriminar de onde partem os eventos que são apresentados a elas, isto é, se em vídeo ou advindos da realidade em seu entorno (como resultado da ação entre as pessoas), não são diferenciados. Como a atenção infantil ainda é precária, ela apenas irá mostrar maiores mudanças entre 1,5 e 2,5 anos de idade, todavia, sempre lembrando da existência das exceções (que podem ser ainda mais lentas), o que anularia qualquer premissa educativa de programas para esses fins.

Isso resulta que as crianças com um ano de idade (ou menores) não conseguirão acompanhar um diálogo entre adultos ou uma sequência de imagens, pois a atenção ainda não é completamente desenvolvida (e isso vai até os 18 meses).

Veja só esse exemplo: dois estudos revelaram que o programa Sesame Street (conhecido no Brasil como Vila Sésamo) foi pesquisado e apresentou (pasme) efeitos negativos sobre o desenvolvimento da linguagem em crianças menores de 2 anos.

E veja: isso não é tudo.

Televisão ligada no ambiente

Esse pode ser outro importante obstáculo. Vamos lembrar que muitas famílias deixam a sua televisão ligada e essa quantidade de tempo pode, em muitos registros, chegar a 6 horas de exposição ao longo de um único dia. Em certos levantamentos, 40% relatam deixar a televisão ligada o dia todo.

Sabe uma das consequências? Eu explico.

Mist - Fotolia

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Não se sei você tem conhecimento, mas, quanto maior o tempo de interação registrado entre os cuidadores e seus filhos, melhor será o nível de vocabulário de uma criança. Assim sendo, em lares onde a TV disputa a atenção dos pais, verificou-se uma interferência no desenvolvimento da linguagem dos pequenos, simplesmente pelo fato de existir “pouca conversa”, o que impactaria o desenvolvimento dos pequenos.

O fato de os programas assistidos pelos pais, muitas vezes, não serem destinados à criança produzem ruídos de fundo, o que faz com que elas também interrompam o tempo de suas brincadeiras, o que igualmente produz a redução de sua atenção, afetando diretamente seu processamento cognitivo (como memória e compreensão de leitura), ocasionando os comprovados atrasos de desenvolvimento da linguagem em função da exposição prematura às mídias.

Outra pesquisa mostra que crianças de 5 anos de idade que gastam mais tempo apresentadas à televisão, menos brincadeiras criativas desenvolviam, se comparadas às não expostas.

Outro dado alarmante: para cada hora de televisão assistida por uma criança menor de 2 anos de idade, 52 minutos foram a redução da interação registrada entre amigos ou mesmo entre os pais.

Em crianças que habitam lares onde há exposição intensa de mídias, verificou-se uma menor capacidade crítica, diminuição das habilidades criativas e menor aprendizagem na resolução de problemas, se comparadas àquelas que não ficaram tão expostas.

Além disso, a exposição à mídia está associada ao aumento da obesidade, problemas de sono, alterações no humor, comportamentos agressivos e comportamentos ligados à falta de atenção na escola.

 Recomendações aos pais

– Não exponha seus filhos à mídia, se tiverem uma idade inferior a 2 anos. Caso sejam maiores, controle ativamente o tempo e o conteúdo de exposição, partindo de pequenos intervalos e maiores, conforme a idade avança;

– Procure ficar atento à exposição indireta que a criança recebe. Lembremos que a televisão e os computadores não podem cumprir uma função de babá eletrônica de nossos pequenos;

– Fiquemos atentos ao fato de que mídia eletrônica e TV exercem efeitos também nocivos e que, portanto, precisam ser observados;

– Ajude seus filhos se distraírem com atividades que, efetivamente, auxiliem no desenvolvimento. Já não é de hoje que temos conhecimento de que certas atividades lúdicas auxiliam no desenvolvimento cerebral.

Conclusão

Através dos exemplos descritos acima, percebemos que os tablets e os celulares ficaram de fora de muitas pesquisas pelo simples fato de serem ainda muito recentes em nossa rotina.

Assim sendo, se a TV pode, em certo nível, ser comprometedora, imagine então os dispositivos móveis que podem ser levados a qualquer lugar e acessados a qualquer momento e assim, exemplarmente, distraindo os filhos para que os pais possam ter seu sossego.

Os efeitos, portanto, podem ser ainda piores.

Ainda que mais pesquisas possam surgir e nos dar maiores indicações de seu prejuízo, penso que os pais deveriam também abrir mão do uso excessivo dos eletrônicos e assim, poderem servir de modelo positivo a ser copiado e seguido, não aumentando ou reforçando o uso e exposição excessivos nas crianças.

Resumindo, seja prudente e use os eletrônicos com muita cautela. A falta de bom senso poderá cobrar um pedágio futuro no desenvolvimento das novas gerações.


Para saber mais, acesse: http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2015/09/02/tv-e-criancas-qual-e-o-limite-dessa-exposicao/