Dr. Cristiano Nabuco

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Vício em séries de TV: um novo problema da atualidade?
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Dr. Cristiano Nabuco

lassedesignen – fotolia

Com um plugin gratuito no navegador, podendo ser acessado por meio de qualquer dispositivo móvel ou não, as séries de TVs por streaming  são atraentes e populares e, não dá – ainda – para chamar de vício a utilização desta ferramenta. Mas, por acaso você já parou para observar o comportamento das pessoas que tanto assistem a estas séries? Não?

E assim caminha a nossa noite

Tudo começa pela escolha do que assistir, o que, cá entre nós, não é das tarefas mais fáceis. O próximo passo é pegar o cobertor e a pipoca ou, caso a noite esteja quente e a fome não tenha batido, pode ser sem nada disso mesmo. Agora basta se instalar no sofá. E, então, o gatilho é disparado. Passam-se horas e horas do final de semana ou deixam-se para trás horas preciosas de sono durante a semana por avançar noite adentro na frente da TV.

Enfim, o que acontece é mais ou menos isso: Senta-se para assistir um programa de 60 minutos, por exemplo, mas acaba-se por gastar muito mais tempo do que o pretendido.

Não tão simples assim

Outra particularidade comportamental que vale citar é o “final” de cada episódio. Isso mereceria, creio eu, um estudo à parte. Explico: Quando o episódio termina, surge uma sensação (quase) incontrolável que impele o indivíduo a dar “só mais uma olhadinha” para ver o que vai acontecer com este ou aquele personagem.

Como ninguém é bobo, são apresentados em números menores no canto superior da tela um relógio que, em ordem decrescente, anuncia o início “automático” do próximo episódio. Quando nos damos conta, já era. Lá se foram outros 20 minutos na frente da televisão. E você pensa: “Ah, já está na metade, então não vou parar agora, vou ver o episódio inteiro”. Aquela uma hora inicial vira duas, três, quatro horas…

Obviamente, estou usando um pouco de humor, mas caso você ainda não saiba, há por detrás disso mecanismos cerebrais importantes sendo acionados que são muito semelhantes àqueles que operam em alguns vícios comprovados.

Exagero? Definitivamente, não.

vectorstory – fotolia

Nosso cérebro tem uma dificuldade muito grande de lidar com operações que são deixadas “inacabadas” e, portanto, interromper a estória contada na série claramente desafia nossos mecanismos biológicos mais básicos, pois nos deixam com uma impressão de que há mais a ser feito, e um efeito de looping aparentemente sem fim é criado, levando-nos a desejar mais e mais.

Todo esse processo faz com que o corpo permaneça alerta (nossa resposta ancestral de luta ou fuga), o que pode facilmente interromper o sono. Então, quando nos deparamos com o final de mais um episódio à uma da manhã, por exemplo, posso lhe assegurar que você não estará mais tão cansado. Você vai estar pronto para seguir adiante, sem se dar conta disso.

Um admirável mundo… novo?

Além disso, embora ainda nenhum estudo tenha se debruçado sobre os mecanismos cerebrais envolvidos nessa questão, é possível especular que há uma intensa liberação de dopamina – aquele neurotransmissor que é liberado nos dando a sensação de recompensa – no momento em que um episódio acaba, nos forçando a assistir “mais horas”.

Como uma pessoa que tem compulsão por chocolates, por exemplo, para quem é impensável comer um só, já atendi pessoas com relatos importantes de “compulsões” de programação (o que em inglês já se denominou “binge watching TV”).

Essas pessoas me contaram, muito animadamente, que chegaram a passar, facilmente, mais de 10 horas em um único dia na frente da TV apenas assistindo as séries de maneira copiosa e deixando por fazer as coisas verdadeiramente importantes, criando um verdadeiro rastro de procrastinação na vida pessoal e profissional.

Bem, caso você, leitor(a) tenha sentido alguma familiaridade, saiba que coloquei no texto acima (de maneira disfarçada, claro) vários dos critérios que definem as dependências tecnológicas e, portanto, quero apenas deixar registrado, é exatamente assim que os vícios começam na vida de muitas pessoas. Ou seja, mesmo aquilo que parece ser, à primeira vista, “divertido” e inofensivo, se mal manejado por nós, torna-se uma poderosa armadilha para nosso bem-estar e nossa saúde mental.

Em tempos de tecnologia praticamente onipresente em nossas vidas, é sempre bom ficar de olho aberto, não acha? Seria, portanto, os vícios de séries de TV a ponta de algum iceberg?

Para se pensar.

 

 

 


Vício em Cafeína: Uma nova doença do séc. XXI
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Dr. Cristiano Nabuco

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Os seres humanos passam por uma transformação intensa na puberdade, especialmente no cérebro, onde ocorre a chamada “maturação neural” – processo que ocorre no desenvolvimento do indivíduo para a estruturação e funcionalidade completa do sistema nervoso.

O que ninguém ainda sabe é que consumir cafeína durante essa fase pode deixar o cérebro mais vagaroso. Pelo menos, é o que afirma uma nova pesquisa feita com modelos animais e que pode ser replicada em humanos.

De acordo com pesquisadores suíços, o consumo de cafeína tem aumentado expressivamente nos últimos 30 anos, não somente pelo consumo do café em si, mas também pela ingestão de diversas bebidas que levam a substância em sua composição, como certos tipos de chás, refrigerantes e, principalmente, os energéticos que são consumidos indiscriminadamente por adolescentes e jovens adultos.

Sabemos que é durante o sono que o cérebro torna as sinapses mais eficientes e mapeia novos caminhos para facilitar o acesso a informações. Assim, quanto mais cafeína houver no organismo, afirmam alguns pesquisadores, pior será o ciclo de sono desses adolescentes, o que vai influenciar de maneira determinante o desenvolvimento cerebral.

Um dado interessante que também apareceu foi que nos modelos animais acompanhados, o comportamento igualmente sofreu alterações. Assim, quando a fonte de líquidos era mais centralizada no consumo de água, os animais exibiam um comportamento típico dessa fase da vida: a curiosidade e uma atitude explorativa. Todavia, aqueles que consumiram mais bebidas contendo cafeína se tornaram mais introvertidos e muito cautelosos.

Vamos lembrar que muitos transtornos mentais se manifestam na adolescência e, desta forma, as mudanças causadas pelo consumo de cafeína no cérebro poderiam precipitar esse desenvolvimento. Muito embora ainda não esteja claro como isso aconteceria, dizem esses pesquisadores, o risco estaria presente e mereceria toda a atenção.

Um novo transtorno do séc. XXI?

A nova versão do manual da psiquiatria, o Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5), na seção “condições para estudos futuros”, incluiu entre os quadros que merecem atenção nos próximos anos, o Transtorno do Uso de Cafeína.

De acordo com a publicação, alguns sinais deveriam ser observados, como os indicativos do transtorno. Por exemplo: o desejo incontrolável por bebidas cafeinadas, o uso indiscriminado desse tipo de produto, mesmo quando há problemas físicos e psicológicos, a sensação de “fissura” quando não se consome cafeína, não conseguir cumprir obrigações para conseguir tomar bebidas cafeinadas, dentre outras características.

Um dos pontos críticos avaliados pelo DSM-5 foi o fato de que as bebidas cafeinadas são consumidas regularmente por até 80% da população mundial e, desta forma, até 7% dessa população poderia estar desenvolvendo sem saber o “vício em cafeína”.

Entre aqueles que consomem regularmente bebidas cafeinadas estão os jovens em idade universitária e indivíduos com outros problemas com drogas, sendo que a prevalência dessa população poderia chegar então aos 20%.

A presença de outros transtornos psiquiátricos foi igualmente apontada como outra questão expressiva neste grupo. O consumo de cafeína foi associado a um maior consumo de tabaco (cigarros) e também é mais presente em indivíduos com histórico de abuso de álcool e outras drogas (maconha e cocaína). Além disso, há também uma associação do consumo exagerado de bebidas cafeinadas e depressão, transtornos ansiosos e, finalmente, o transtorno de personalidade antissocial.

Conclusão

Para tudo é necessário equilíbrio. Assim, uma boa opção é tentar orientar os jovens no consumo de energéticos e de outras bebibas contendo cafeína, ou seja, tentar reduzir ao máximo seu uso ou, no caso do consumo do café, fazer a substituição pelas versões descafeinadas (ou ainda tentar controlar o horário de ingestão, pois quanto mais avançada a noite, piores os resultados).

Sabemos que os jovens utilizam indiscriminadamente os energéticos misturados ao álcool, pois disfarçam o nível de embriaguez e assim auxiliam nas interações sociais. Cerca de um terço dos jovens entre 12 e 14 anos afirma tomar bebidas energéticas regularmente nos Estados Unidos.

Kathleen Miller, pesquisadora da Universidade de Buffalo, afirma em seu estudo publicado no Journal os American College Health que o alto consumo de bebidas energéticas está associado a comportamentos típicos de usuários de drogas, presença de comportamentos agressivos e arriscados que inclui, inclusive, sexo sem proteção e violência interpessoal.

A conclusão não sugere que as bebidas energéticas causam mau comportamento, mas que o consumo regular de bebidas energéticas pode ser um sinal de alerta aos pais. E conclui a pesquisadora: “Parece que os jovens que tomam muito bebidas energéticas têm mais tendência a assumir riscos”.

Portanto, se o vício em cafeína será ou não um dos novos transtornos do séc. XXI ainda não sabemos, entretanto, o excesso de consumo já nos mostra de maneira bem ampla seus efeitos adversos em todos os níveis.

Seria muito bom ficarmos atentos.

 

 

 


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