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Você sabe a que riscos se expõe ao compartilhar a vida nas redes?

Dr. Cristiano Nabuco

03/03/2020 04h00

Crédito: iStock

Como é de conhecimento de todos, as redes sociais (digitais) vieram, muito possivelmente, para ficar entre nós por um período ainda muito longo. Embora a preferência do público se altere com a passagem do tempo, de uma plataforma para outra, de acordo com o momento histórico ou com uma "nova tendência", uma coisa é certa, a presença e o grau de interação que mantemos com essas comunidades, de fato, é algo extremamente significativo.

Muitos, inclusive, pensam que as redes sociais foram, na verdade, inventadas pelas plataformas digitais. Entretanto, nossa rede de relacionamentos interpessoais sempre existiu fora da web e, mais, sempre irá existir entre nós, pois somos seres gregários desde nossos antepassados distantes, ou seja, não é de hoje que mostramos uma predileção para andarmos junto aos grupos. Historicamente, o bando de humanos sempre demonstrou uma poderosa forma de assegurar nossa sobrevivência. Em comunidade, caçávamos e coletávamos melhor, encontrávamos mais proteção contra os predadores e, finalmente, no grupo tínhamos uma melhor possibilidade de assegurar a continuidade da espécie através do acasalamento.

O que ocorre hoje, todavia, é que essas redes digitais ganharam uma representatividade e penetração maior junto à web, potencializando seus efeitos e sua atratividade social. Por exemplo, em todos os lugares que já frequentamos fisicamente (off-line), sempre mantivemos um tipo de agrupamento social. Foi e é assim junto aos centros acadêmicos nas universidades, onde os alunos podem se encontrar, conviver e se relacionar mais intimamente; nas cafeterias, por exemplo, é o lugar preferido junto às grandes corporações; à beira da piscina nos clubes; no recreio quando somos crianças, ou seja, não faltarão exemplos.

Ocorre que, com a possibilidade de termos essas interações facilitadas por meio das telas digitais, o grau de trocas com os demais aumentou de maneira tão expressiva, que se tornou praticamente uma atividade contínua. São várias as publicações que se debruçam sobre as estatísticas de interação descontrolada como, por exemplo, em uma publicação americana recente que deu conta que 50% das crianças, com idade de até 8 anos, acordam no meio da noite apenas para checar suas mídias sociais. E os relatos não param por aí, ou seja, os números se repetem em todas as faixas etárias e dentro dos mais variados estratos socioculturais (leia-se: todos usam muito essas plataformas).

O que pouca gente se deu conta é que, por trás de todo esse encantamento digital, há riscos importantes que são, para grande parte dos usuários, ainda desconhecidos.

Eu explico.

Em primeiro lugar, o uso sistemático, segundo já atestado por várias publicações científicas, faz com que nossa energia e a intensidade de nossa concentração diminuam bastante, pois, a cada sinal sonoro proveniente de alguma curtida, comentário ou aviso, interrompemos nossas atividades cerebrais em curso. Isso exige uma mudança significativa de operação mental, gerando um tipo de estresse cognitivo e, pior, provocando a descontinuação sistemática de todo um processo mental envolvido nas regiões dedicadas ao raciocínio profundo e mais criativo do que quando trabalhamos ou estudamos. Ou seja, quanto mais alta for a taxa da quebra de atenção gerada pelas telas digitais, mais "superficiais", mentalmente falando, vamos nos tornando com a passagem do tempo (aqui também existem pesquisas atestando o que estou dizendo).

Para se ter uma noção do tamanho do desconforto, em uma investigação conduzida no Reino Unido, apenas junto aos adolescentes, revelou-se que quase 50% afirmaram que "estariam mais felizes" se as redes sociais nunca tivessem sido inventadas.

E enquanto ingenuamente pensamos que no fundo a culpa desse acesso descontrolado e excessivo é totalmente nossa, pois estamos meio que "fora de controle" e sem muito critério, desconhece-se o fato de que esse tipo de vício ou de "compulsão" tem uma razão muito simples e que pode ser explicada pelas empresas de tecnologia. Caso você não saiba, essas plataformas usam (e abusam) de uma série de truques de manipulação para atrair nossa atenção, visando única e exclusivamente prolongar ao máximo o tempo de engajamento e de interação digital. Portanto, o resultado final não é tão bom, pois nós, na verdade, acabamos nos tornando os verdadeiros commodities (ou, se você preferir, os ratos de laboratório) das grandes companhias do Vale do Silício. Em troca de uma conta de e-mail gratuita e da exibição de alguns vídeos engraçados de gatinhos, damos acesso pleno a toda a nossa movimentação digital cotidiana, nos tornando altamente vinculados emocionalmente.

Além do mais, como a sensação de conexão social ativa regiões significativas de nosso cérebro, assegurar (e manter) o "destaque" pessoal através das curtidas recebidas acarreta igualmente um tipo de receio ou de desconforto -ou de "medo", se você preferir -, de sermos ignorados e poder viver um tipo de ostracismo virtual na falta de boas avaliações sociais de terceiros. Portanto, além de estarmos sendo quase que compulsoriamente induzidos a ficarmos conectados o tempo todo, ainda temos que administrar o medo de não conseguir manter a nossa popularidade, o que, no final das contas, nos gera uma dosagem cavalar de ansiedade. Bom, não acha?

Resumo breve: a forma com a qual estamos interagindo com a web é uma receita certa para que possamos entrar em um quadro de burnout ou de colapso psicológico. Simples assim, é apenas uma questão de tempo.

Claro, e como se não bastassem nossas inquietudes digitais, não apenas postando e compartilhando (demais, muitas vezes) a respeito de onde estamos e o que estamos fazendo, igualmente, inundamos a web com fotos que, muitas vezes, tiradas orgulhosamente dos filhos, podem semear outros tipos de problemas a médio e longo prazo. Uma pesquisa revelou que parte expressiva das fotos infantis que os cuidadores sobem nas redes sociais – como o clássico "banho na banheirinha" ou algumas fotos mais íntimas de convívio familiar podem se revelar potencialmente constrangedoras quando compartilhadas a estranhos no futuro e que podem terminar servindo, muitas vezes, de munição para possível bullying  que nossos filhos sofrerão na adolescência ou, ainda pior, para problemas junto aos colegas de trabalho – nem sempre muito amigos – que encontraremos na vida corporativa (aqui, novamente, há outras investigações comprovando isso).

Portanto, a web é, de fato, um terreno bastante pantanoso e que necessita de uma grande cautela. Isso quer dizer que mesmo as informações que postamos em momentos de alegria e de espontaneidade podem, vistas sob outro ângulo menos afável, se tornar potencialmente negativas com a passagem do tempo. Além disso, de olho em obter um raio-fidedigno de quem somos, de verdade, já se pode contar com empresas internacionais que fornecem aos empregadores aquilo que se denomina de "biografia digital", ou seja, nada menos do que uma vasta coletânea de retratos e de informações disponibilizadas conscientemente por nós ao longo da vida na rede e que podem, muitas vezes, ser usadas contra os próprios usuários.

E, finalmente, o navegador de alguns celulares pode, periodicamente, sem nossa percepção, abrir os microfones para registrar as conversas do meio ambiente e guardá-las nas nuvens, sem que tenhamos qualquer noção a respeito dessa prática corporativa tão comum. Desta forma, consciente ou inconscientemente, estamos nos expondo de maneira excessiva e o preço pode ser alto.

Para concluir, importante dizer que nossas opiniões se alteram com a passagem do tempo, isto é, aquilo que hoje acreditamos ser salutar e benéfico, amanhã pode assumir outro ponto de vista e essas comunidades que tanto gostamos de participar, não são muito afáveis às mudanças de opinião e, quando contrariadas, podem auxiliar enormemente para a manifestação pública de ódio e de segregação.

A conclusão?

Creio estar mais do que na hora de desenvolvermos uma atitude mais responsável em relação ao nosso comportamento digital e ao de nossos filhos e, mais do que isso, entendermos de forma madura e sensata de que toda ação gera uma consequência e, enquanto muitos destas práticas e comportamentos na web não forem claramente compreendidos, quanto às suas reais consequências a médio e longo-prazo, podermos pagar um preço altíssimo em um futuro não tão distante.

Portanto, vai minha dica: pense bem antes de postar, não publique compulsivamente e, finalmente, tenha muita cautela com o que você pode estar fazendo, sem perceber, com a sua reputação digital.

Para saber mais

https://www.grupoa.com.br/dependencia-de-internet-em-criancas-e-adolescentes9788582715314-p1004101

https://www.grupoa.com.br/vivendo-esse-mundo-digital-p989873

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!