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Sentir-se só afeta nossa mente e até mesmo o corpo; veja como

Dr. Cristiano Nabuco

09/04/2019 04h00

Crédito: iStock

É sabido que nossos ancestrais sempre viveram em grupo desde os primórdios da existência.

Juntos, estavam eles mais protegidos contra as ameaças do ambiente, ou seja, fazer parte de um grupo sempre propiciou uma maior e melhor possibilidade de sobrevivência.

Pense comigo: atacar um indivíduo sozinho pode ser uma tarefa fácil, por outro lado, imagine se ele estiver fazendo parte de um agrupamento maior? Possivelmente inimigos ou animais selvagens não sejam tão bem sucedidos em suas investidas.

Estar unido com os demais também assegurou mais sucesso na hora de buscar alimentação. Quanto mais pessoas, melhores são as chances de se criar estratégias de obtenção de comida. E a caça? Quanto mais parceiros, obviamente mais satisfatórias serão as possibilidades de se alcançar bons resultados.

E, finalmente, o terceiro elemento da conservação da espécie: a geração de filhos. Quanto mais expressivo for o grupo, mais garantidas estarão as possibilidades de procriação.

Portanto, ao que tudo indica, nossa evolução moldou em nosso cérebro uma tendência inata e bem específica que nos faz procurar sempre estar próximo dos demais.

Assim, em resposta a essas necessidades, é possível que nossa biologia pessoal tenha sido igualmente afetada pelas questões evolutivas.

Robin Dunbar, antropólogo da Universidade de Oxford e psicólogo evolucionista, tempos atrás, tentava compreender melhor essa possibilidade. Sua questão central era tentar compreender a razão pela qual os primatas possuem cérebros grandes.

Segundo suas hipóteses, quanto maior for o grupo, maior será a medida do cérebro. Pelo fato de os primatas viverem em sociedades relativamente complexas, pelo tamanho do córtex de um animal, o lobo frontal, especificamente, poderíamos prever, teoricamente, o tamanho de seu grupo de convívio.

Suas premissas apontaram na direção de que a interação com o ambiente, portanto, provocou mudanças claras em nosso organismo. Obviamente seria correto então afirmar que o processo inverso (de afastamento e de isolamento dos demais) pode gerar efeitos negativos, ou seja, atuar de maneira oposta aos nossos impulsos biológicos e de sobrevivência. Algumas pesquisas revelam dados bastante interessantes a respeito dos sentimentos de não-pertencimento e de solidão.

Eu explico melhor.

A solidão

1. Por exemplo, sentir-se excluído do grupo (mesmo que por estranhos), pode ser psicologicamente doloroso. Um trabalho recente de Zhong e Leonardelli descobriu que os indivíduos que se sentem isolados descrevem um ambiente físico, em termos de temperatura, como sendo mais frio. Como resultado, estas pessoas desejam, nestas condições, consumir bebidas mais quentes para poderem se aquecer e diminuir a sensação de falta de calor.

Assim sendo, é possível que essas pessoas sintam o ambiente mais frio, por elas estarem, na verdade, mais frias em sua temperatura corporal. Outro experimento mostrou que ser excluído em um jogo on-line foi o suficiente para baixar a temperatura do dedo dos jogadores.

Portanto, vai uma questão: seria possível então considerarmos que em nosso passado evolutivo, estar distanciado do grupo seria o mesmo que ser mantido longe do calor do fogo? Para se pensar…

2. A solidão pode sinalizar ao nosso cérebro que nosso corpo está sob estresse e provocar reações imediatas como o aumento da pressão arterial e o colesterol, por exemplo.

Um estudo publicado pela Northwestern University mostrou que adultos que vão para cama sozinhos e sentindo-se isolados, apresentam na manhã seguinte um aumento dos níveis de cortisol – hormônio ligado ao estresse, obesidade e outros problemas de saúde (como doenças cardiovasculares).

Portanto, concluiu-se que o sentimento de solidão provoca reações corporais ruins e nefastas para a saúde, seja ela psicológica ou física.

3. Um pesquisador da Universidade de Chicago e seu grupo, examinaram o impacto da solidão na saúde física e emocional de adultos mais velhos. Eles descobriram que a solidão perturba o sono, aumenta a depressão e diminui a sensação geral de bem-estar subjetivo. Concluem a investigação afirmando que a solidão aumenta em 14% as chances de morte prematura entre adultos mais velhos, a exemplo de como a obesidade atuaria.

4. Segundo o psicólogo americano Guy Winch, a solidão suprime o funcionamento do sistema imunológico, fazendo com que esse sistema funcione com menos eficiência e colocando o risco do desenvolvimento de vários tipos de enfermidades. Um experimento avaliou calouros de um colégio que foram submetidos a vacinas de gripe. O grupo que se sentiu mais solitário apresentou reações mais inefetivas ao procedimento.

5. O sentimento de solidão não depende de quantos amigos ou relacionamentos possuímos, mas depende inteiramente da qualidade subjetiva das trocas emocionais que fazemos com as pessoas ao nosso redor. Podemos estar cercado por um grupo imenso de pessoas e, mesmo assim, estarmos nos sentindo sozinhos.

6. Ainda segundo o psicólogo americano Guy Winch, mais de 60% das pessoas solitárias estão, na verdade, casadas. Quando os membros de um casal não compartilham seus sentimentos mais profundos um com o outro, isso pode deixá-los sentindo-se desconectados um do outro, aumentando assim a sensação de solidão. Pessoas em tais relações, afirma o psicólogo, verdadeiramente acreditam que seu cônjuge não pode oferecer-lhes a profunda sensação de conexão que eles tanto gostariam de sentir (fazendo-os, portanto, cada vez mais afastar-se do outro).

7. A crença na solidão, segundo Aaron Beck, pode distorcer as percepções a respeito dos relacionamentos. Esse viés cognitivo de interpretação negativa pode, muitas vezes, levar as pessoas solitárias a se retirar ainda mais do circuito relacional, afastando-se dos indivíduos que poderiam aliviar seu isolamento (perpetuando assim seu distanciamento dos demais).

Em psicoterapia isso é denominado de profecia autorrealizadora, ou seja, sem que percebamos, colaboramos inconscientemente para que resultados muito temidos, de fato, aconteçam, criando um mecanismo que se autorreforça e se perpetua.

Conclusão

Se quisermos diminuir os sentimentos de solidão, seria interessante que tentássemos sempre criar mais conexões pessoais.

Ao desenvolvermos o estreitamento dos laços com alguém diferenciado e preferido, criamos a possibilidade de falarmos a respeito de nossas impressões e emoções mais íntimas. Ao fazermos isso, nossa mente se organiza, nossas emoções se abrandam, constituindo-se de um processo altamente curativo (diga-se de passagem, que é a base da psicoterapia moderna) – há centenas de publicações a esse respeito.

Caso você ainda não saiba, "ter consciência" dos problemas que nos atingem, cientificamente falando, não se mostra tão eficaz quanto poder "dividir" com alguém a respeito destas inquietudes.

Portanto, se você desejar melhorar seu bem-estar e reduzir seu sentimento de solidão: converse com alguém, pois isso realmente poderá, muitas vezes, lhe ajudar na restauração de seu equilíbrio.

"Os seres humanos são criaturas sociais, e sentir-se valorizado pelos outros é a própria base da vida" – Dalai Lama.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco