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Como estabelecer limites para uma criança? Veja formas de agir

Dr. Cristiano Nabuco

02/04/2019 04h00

Crédito: iStock

Já não é de hoje que o tema é alvo de debate. Pais, educadores, psicólogos e pediatras sempre possuem uma "boa receita" de como conduzir os pequenos em seu processo de amadurecimento.

Interessante notar que muitas das dicas que vemos partem de profissionais que, incrivelmente, "não possuem" filhos. Neste sentido, é fácil que venhamos a nos sentir perdidos neste universo de "especialistas".

Mas afinal, devemos ser mais permissivos ou mais rígidos?…

Nas gerações anteriores, por exemplo, os filhos deviam manter distância dos pais e não era infrequente que as refeições familiares não contassem com a presença das crianças – que possivelmente estariam comendo na cozinha.

Nas gerações posteriores, entretanto, os filhos foram levados para a mesa e lhes foi dada a possibilidade de participar.

Certa vez tive um paciente que me disse: "quando eu era pequeno, o peito do frango (supostamente a melhor parte do prato) deveria ser deixado para meus pais e hoje, ironicamente, temos que deixar o melhor pedaço para as crianças". "Resumo da história", concluía ele, "eu sou da geração que nunca comeu carne branca".

Vamos lembrar que antes os filhos eram supervisionados diretamente pela mãe, pois, como "dona de casa", o controle parental estava assegurado, enquanto o pai estava ausente, trabalhando.

Assim sendo, na medida em que a cultura e as necessidades se modificaram, modificaram-se também os desenhos de uma casa tradicional. A mãe, provavelmente, semelhante ao pai, hoje também trabalha e pode, além das tarefas domésticas, cuidar de sua vida.

Entretanto, como tudo tem um preço, ou seja, a possibilidade de realização dos pais cobra um pedágio bastante expressivo: a culpa, isto é, o remorso por não estar presente.

Como forma de abrandar as inquietudes desta ausência, os genitores acabam por se tornar extremamente permissivos e os limites, que deveriam ser exercidos de forma madura e sensata, literalmente vão para o espaço.

E para o espaço vão também nossos filhos, que crescem em um ambiente de total permissão, ou seja, "tudo" é permitido. Tal consentimento parental, assim, opera no limiar da ausência de sua presença e, desta forma, pipocam problemas manifestos no ambiente escolar, na família e em sua personalidade.

Existem aqueles, entretanto, que estando em outra extremidade, acreditam que o controle excessivo e rígido dos filhos ainda é a melhor forma de educação, pois dizem "deu certo comigo" ou ainda "nunca morri pelo fato de meus pais terem sido muito severos" e, portanto, assim igualmente será com eles.

Impasses ou estilos de educação a parte, temos uma grande quantidade de pesquisas científicas que já podem nos dar algumas pistas de como manejar esse processo de forma mais equilibrada.

O sistema de busca de proteção

Biologicamente, temos um sistema em nosso cérebro que nos faz buscar a proteção dos mais velhos. Assim sendo, não apenas no reino animal, mas igualmente no humano, é vital estar mais próximo dos mais fortes, pois, evolutivamente, ter estado junto ao bando nos assegurou, em tempos difíceis, a proteção, a alimentação e, finalmente, a possibilidade de se acasalar. Desta forma, a evolução nos dotou de um sistema cerebral que nos faz ainda hoje buscar a vinculação com os mais velhos, pois, ao nos sentirmos seguros, garantimos uma vida mais longeva.

Portanto, você já deve ter percebido que a busca de segurança aqui é a palavra-chave, mas eu explico.

Pesquisas mostram que, quanto mais atentos estão os pais a respeito das necessidades emocionais das crianças, maior é o nível de segurança que elas desenvolverão, pois o sistema mental (de busca de segurança ou apego) é ativado nos pequenos e, assim eles se acalmam, pois se sentem "cuidados" (ou protegidos, se você preferir). Além disso, quanto maior o nível de cumplicidade que desenvolvemos com uma criança ou adolescente, maior será sua autoestima.

E, no inverso, sabe o que acontece nos casos em que há falta de cuidado? Quanto menor o nível de atenção, maiores são as chances de se desenvolver quadros de psicopatologia – pesquisam são numerosas nesta direção. E quando não há uma figura que ofereça esta vinculação? A criança ou o adolescente se vincula a grupos para obter esse tipo de apoio (os delinquentes, por exemplo, que se reúnem para perseguir outros, é um exemplo do papel que o grupo desempenha na ausência deste cuidador).

O que fazer então?

Estar presente e dar limites nos dias de hoje não é tarefa fácil. Assim sendo, mesmo que sua presença não possa ser totalmente assegurada, por favor, não compense isso através das compras. Sua presença não pode ser negociada.

Ainda que o tempo seja escasso, ainda há chances de você exercitar seu papel e aquietar os pequenos em seus dilemas pessoais (e biológicos). Portanto, exerça sem medo e sem culpa seu papel de cuidador.

Fazer refeições conjuntas (aquelas que forem possíveis) já será um bom começo. Olhe nos olhos e pergunte como estão. Tente descobrir (ao falarem), o que estão sentindo – isso é de um valor inestimável, pois aciona o mecanismo biológico de segurança interpessoal e de diminuição da ansiedade em seu cérebro.

Estimule-os a contar a respeito de seu cotidiano, assim como você deve fazer a respeito do seu, portanto, divida experiências.

Se sentir que algo não vai bem, não brigue ou critique, mas fale inicialmente a respeito de como você se sente enquanto pai ou mãe quando alguma coisa ruim acontece, ou seja, inicialmente enfatize mais seus sentimentos e menos o comportamento inadequado deles.

Expor nossos sentimentos tem a força de sensibilizá-los (independente da idade). Por exemplo, caso você esteja sentindo raiva, não seja agressivo, mas fale de sua emoção ("eu me sinto frustrado quando você age desta forma"). Portanto, crie um discurso que ofereça conexão – antes de mais nada – e não de apenas crítica.

Lembre-se que a firmeza branda é importantíssima.

E, finalmente, crie uma rotina (possível) com horários de almoço, de descanso, de lazer e, principalmente, de convívio. A cadência de acontecimentos os ajuda a se auto-organizar.

Conclusão

Seja uma base segura para eles. Pesquisas apontam que, ao contrário do que pensávamos, ser muito permissivo pode ser devastador para a sua personalidade em formação e, fique atento, pois eles "precisam" continuadamente de limites (por isso se tornam desobedientes ou confrontativos) – é o sistema biológico testando a força do cuidador.

Curioso mencionar que pais severos, ainda que exercendo sua autoridade de maneira controversa, ainda fazem menos mal à cabeça das crianças do que os pais permissivos, pois, nesta austeridade, conseguem transmitir, ainda que de maneira inadequada, a sensação de proteção.

Portanto, fique atento com sua maneira de colocar os limites, pois isso faz toda a diferença.

"Existem muitas evidências de que seres humanos, de todas as idades, serão mais felizes e mais capazes de desenvolver seus talentos quando estiverem seguros de que, por trás deles, existe uma ou mais pessoas que virão em sua ajuda, caso surjam dificuldades", John Bowlby.

 

Referência

Abreu, CN (2019). Teoria do Apego: Fundamentos, Pesquisas e Implicações Clínicas. BH: Artesã Editora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco