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Não adianta: compras aumentam os sentimentos de solidão

Dr. Cristiano Nabuco

05/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Nem sempre se consegue comprar a felicidade. De acordo com uma publicação realizada no Journal of Consumer Research muitas pessoas usam o materialismo como forma de tentar fugir da solidão e dos momentos difíceis, entretanto, os resultados indicaram que isso não funciona lá muito bem.

O autor Rik Pieters, da Escola de Economia de Tilburt, na Holanda, acompanhou mais de 2.500 consumidores por mais de 6 anos e mediu os padrões de consumo que incluía comprar por prazer, comprar para melhorar o seu status social e, finalmente, o hábito de comprar para compensar estados de humor negativos.

Os resultados? Interessantes.

Dos três padrões de comportamento avaliados, o que menos impactava o sentimento de solidão era a compra por prazer. Isso significa dizer que, muitas vezes, pessoas compravam pela simples gratificação que isso gerava, ou seja, compravam apenas e tão somente pela satisfação envolvida no ato e ponto final. Sem quaisquer implicações psicológicas maiores.

Entretanto, o mesmo não pôde ser dito dos dois outros padrões.

Nos casos de consumismo motivado por status e consumismo motivado pela compensação emocional, ambos levaram a um maior isolamento social e maior solidão.

Aquelas pessoas que compravam para melhorar seu status social, por exemplo, se mostravam mais solitárias. Isso porque parte do comportamento envolvido consistia em tentar se equiparar aos amigos e companheiros de trabalho como uma forma de procurar aumentar a estima pessoal. A má notícia, entretanto, era que esse comportamento consumista nunca apresentava um limite lá muito claro e o isolamento social foi uma resposta frequentemente observada, pois estas pessoas, apesar de adquirirem sempre mais coisas, "ainda" assim se sentiam incompletas.

Além disso, veja que comprar como forma de nos aproximar do grupo (ao aumentar nosso status social), na verdade, pode criar um resultado inesperado, pois pode nos distanciar do grupo. Considere, nestes casos, que adquirir mais bens pode, muitas vezes, afastar emocionalmente as pessoas de você, pois o separa daquelas que não desfrutam das mesmas condições econômicas.

Consegui me explicar?

Vamos de novo: Imagine se você pudesse comprar um Porsche ou uma joia muito cara. Você, seguramente, ficaria muito contente, mas seu sucesso possivelmente criaria algum tipo de desconforto em seu entorno, afastando algumas pessoas de você.

Ainda falta discutir as pessoas que compravam para compensar estados de humor negativos.

Bem, sabe do resultado deste terceiro grupo? Também entraram no mesmo círculo vicioso de piora de solidão.

Quem já não ouviu alguém dizer que vai "se dar um presente" como forma de melhorar o seu dia?

Pois bem, o lado funcional do processo é que este gesto anestesia, momentaneamente, os sentimentos ruins que as pessoas têm em seu cotidiano, entretanto, o efeito terapêutico deste ato é bastante limitado.  Ocorre que, tão logo este momento passe, tais indivíduos precisarão comprar mais para manter o nível de seu bem-estar, criando assim um mecanismo de reforço negativo.

Moral da história: também não vai funcionar e as pessoas vão permanecer infelizes.

Além disso, várias pesquisas já apontaram que consumir compulsivamente pode levar, em certos casos, a uma espécie de vício, porque ativa certas áreas de prazer do cérebro (favorecendo a liberação da dopamina – aquele neurotransmissor ligado ao sentimento de recompensa).

Bem, e qual a relação com a solidão constatada pelos pesquisadores?

Simples. A satisfação momentânea de nossas necessidades imediatas também pode levar a médio-prazo a um aumento do mal-estar, pois ao nos distrair de nós mesmos, comprometemos o entendimento dos processos psicológicos que se escondem por trás de nossa insatisfação pessoal perpétua.

Seria o mesmo que tomar todos os dias um remédio para a dor de cabeça, mas sem ir adiante e investigar, de fato, qual seria a causa real de tal problema.

Concluindo, procure sempre pensar e entender quais são os sentimentos que estão por trás do ato de adquirir as coisas. Se sua compra for "apenas uma compra", por simples prazer, sem problemas. Não há razão para se preocupar. Entretanto, caso esse não seja o seu caso, cuidado para não ficar refém de suas insatisfações, pois isso poderá lhe custar, literalmente, muito caro, além de o deixar ainda mais infeliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco