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Mente sã, corpo são: cansaço físico desperta sentimentos ruins

Dr. Cristiano Nabuco

26/02/2019 04h00

Photo by Aditya Saxena on Unsplash

Não é novidade para ninguém ser visitado vez ou outra por pensamentos negativos que, quando presentes em nossa consciência, têm o poder de afetar, das mais variadas formas, nosso humor e nossa motivação junto à vida cotidiana.

Alguns indivíduos, os mais conscientes, seguramente dirão que tais conteúdos, quando despertam nossa atenção, sequestram o bom humor e a alegria de viver. Outros, com uma percepção mais transitória, dirão não ter muita noção desses flashes mentais, mas que, de tempos em tempos, efetivamente, são desequilibrados por ideias negativas que, surgindo do nada, os tiram dos eixos. E finalmente, outras pessoas ainda, praticamente inconscientes de sua vida psicológica, apenas reagem de maneira automática aos estímulos da vida – sejam eles internos ou externos – e assim permanecem, grande parte do cotidiano, sem muito controle ou possibilidade de manejo de seu sofrimento.

Esse grande espectro de percepções emocionais que faz com que certas pessoas procurem algum recurso externo de ajuda ou até mesmo, em alguns casos, uma psicoterapia para compreenderem melhor o funcionamento das engrenagens psíquicas e, assim rapidamente se livrarem das perspectivas invasivas que –parecendo ter vida própria — colocam em risco o delicado e frágil equilíbrio psicológico humano.

Assumindo que você, leitor, seja uma dessas pessoas mais atentas, ou seja, que possua, pelo menos, uma ideia ou vaga noção sobre esse maquinário cognitivo, vou lhe dar uma outra importante pista psicológica, extremamente vital para a sua estabilidade emocional.

O cérebro primitivo

Nosso cérebro, ao longo do desenvolvimento, ou seja, desde o início, por ocasião do nascimento, até os dias de hoje, carrega importantes funções biológicas de sobrevivência. Tais funcionalidades foram herdadas de nossos ancestrais mais longínquos e, assim sendo, são "programadas" para nos deixar em contínuo estado de prontidão e atenção. Servem, basicamente, para detectar possíveis riscos à nossa sobrevivência e, assim, mesmo que estejamos mentalmente "relaxados", qualquer alteração ambiental, por mais delicada que seja, tem o poder de acionar certas respostas instintivas de enfrentamento, isto é, as mesmas que asseguraram nossa sobrevivência ao longo dos séculos.

E aqui se encontra um ponto de fundamental importância que precisa ser mais observado.

Eu explico.

Mesmo que tentemos, muitas vezes, através de nosso cérebro mais racional, controlar as marés emocionais negativas que periodicamente nos atingem –e até possamos ter um relativo sucesso, eu reconheço –, nosso cérebro mais primitivo, sempre de prontidão, não hesitará em colocar a campo todos esses velhos recursos "de combate" e de subsistência de vida para nos auxiliar.

Vamos novamente. Cada vez que nos alimentamos de maneira inadequada ou, ainda, se dormimos mal (menos do que precisaríamos, por exemplo), no dia seguinte, nossos sistemas biológicos –usando essa bagagem de sobrevivência — acionam os recursos de enfretamento.

Veja que interessante: em épocas remotas, os riscos que nos chegavam eram derivados, majoritariamente, da falta de comida e do possível ataque de tribos inimigas ou de animais selvagens. Assim, ao detectar riscos iminentes, nosso cérebro executava as funções vitais, o conhecido princípio comportamental de "luta ou fuga".

Nos dias de hoje, entretanto, com raríssimas exceções, não temos mais que lidar com a absoluta falta de comida ou pelo risco iminente de ataque dos animais selvagens. Por outro lado, a estrutura cerebral continua de prontidão e, assim, o pequeno estresse e o desequilíbrio têm o poder de acionar os velhos gatilhos, fazendo nossos instintos mais básicos repetir os velhos caminhos do instinto de sobrevivência.

Não temos mais tribos inimigas, mas, se dormirmos de maneira inadequada, o cérebro primitivo, acionado, nos fará comer mais e de forma desordenada (leia-se: mais frequentemente, e ingerindo qualquer tipo de alimento), aumentando, desta maneira, nossa "reserva" calórica, caso seja necessário "lutar pela sobrevivência" –perceba nossa máquina cerebral executando os velhos hábitos. Além disso, a falta de sono, por exemplo, fará nosso humor ficar mais instável, o que nos deixará também mais irritadiços e armados junto aos nossos desafetos. E, finalmente, como não poderia deixar de ser, nossa mente irá disparar os "avisos de perigo mentais" (em forma dos tão conhecidos "pensamentos negativos"), nos preparando, portanto, para o "pior".

Assim sendo, até vejo muita gente ficando de olhos abertos, ou seja, cuidando de sua saúde mental, entretanto, caso estejamos, fisicamente, "apenas cansados" – quem não está? -, é muito provável que comecemos a ser invadidos "pela maré" das emoções e dos sentimentos contrários.

O problema

Ocorre então que, muitas vezes, essa engrenagem acionada ao extremo produz de maneira ininterrupta esses "vírus mentais" pessimistas e derrotistas, quando, na verdade, sua origem é decorrente, única e exclusivamente, da estafa e do desequilíbrio orgânico, guardando, na verdade, pouca relação com nossa vida emocional real.

E aqui mora o problema.

Essas engrenagens, quando acionadas, impulsionarão outros mecanismos, como a baixa autoestima, falta de prazer e de sentido da vida, sensação de burn out, retroalimentando um círculo vicioso ainda maior que, como resultado, nos fará sentir ainda mais mal, engrossando o calibre da circuitaria mental negativa.

Imagine então, querido leitor, a quantidade de elementos que, muitas vezes, compõem a equação de nosso mal-estar pessoal.

A dica então que lhe dou é a de tentarmos, sempre que possível, primeiramente, equilibrar nossas necessidades biológicas mais básicas e, assim, reduzir de maneira expressiva os sinais de alerta e de perigo que são emitidos pelo nosso corpo.

Isso é bem simples: dormindo bem ("as famosas 8 horas de sono") e, obviamente, comendo corretamente (ingerir alimentos saudáveis de três em três horas, beber muita água etc), pois, dessa forma, conseguiremos desativar, com mais eficácia, o alarme biológico de nossa sobrevivência.

É importante deixar claro que o nosso corpo é uma coisa e a nossa mente é outra, todavia, ambas as dimensões de processamento integram um complexo esquema cerebral maior que, atuando conjuntamente, interferem de maneira poderosa em nossa vida psicológica.

Portanto, cuidar da mente passará, anteriormente, pelo cuidado do corpo.

Conclusão

Procure quebrar esses reflexos condicionados biológicos do passado para que, no presente, ao romper as barreiras do tempo e do espaço, se possa ter um maior e melhor controle de nossa vida emocional, sem a interferência de nossa biologia mais básica.

Saiba que uma parte expressiva dos quadros de desajuste psicológico reduz de intensidade, apenas dando mais atenção ao autocuidado de nossas necessidades mais básicas. E essa é a primeira lição a ser aprendida.

Desta forma, com esse aquietamento corporal reconquistado, poderemos seguir em direção à segunda lição – a mais difícil -, obter o equilíbrio e o controle psicológico de nossos sentimentos e nossas emoções.

Fica a sugestão: Mens sana in corpore sano, ou seja, mente sã em um corpo são.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco