menu

Topo
Blog do Dr. Cristiano Nabuco

Blog do Dr. Cristiano Nabuco

Categorias

Histórico

Gravidez na adolescência influencia as gerações seguintes

Dr. Cristiano Nabuco

2012-02-20T19:04:00

12/02/2019 04h00

Crédito: iStock

De acordo com um estudo publicado na revista PLOS ONE, as avós que tiveram seus filhos na adolescência apresentaram, substancialmente, maiores chances de virem a ter netos com menores escores em testes psicológicos, se comparados a uma média padrão. (1)

Estudos anteriores já haviam apontado para o fato de que as crianças nascidas de mães adolescentes se tornam menos preparadas e mais susceptíveis de apresentar piores resultados educacionais, se comparadas às crianças nascidas de mães cuja gestação ocorreu em idade adulta. (2-3)

O que não se sabia, entretanto, é que esse efeito poderia advir não apenas dos pais, mas também dos avós, ou seja, uma problemática ainda mais longeva do que poderíamos pensar.

A pesquisa

Os autores da investigação usaram dados de uma amostra de 11.326 crianças canadenses de 2000 até 2006, cujas mães nasceram entre os anos de 1979 até 1997 e, para avaliar esse problema, aplicaram-se alguns instrumentos de avaliação (questionários específicos) que medem cinco áreas do desenvolvimento infantil e, com esses dados em mãos, os pesquisadores conseguiram cruzar essas informações com as pontuações gerais da população daquele país. (1) O resultado foi algo impressionante.

Eu explico.

Os atuais alunos – aqueles netos de avós que, em sua adolescência, foram mães precoces – exibiram, entre todos, as maiores taxas de inaptidão acadêmica, se comparados aos alunos que tiveram suas avós engravidando de seus filhos com 20 anos ou mais no nascimento do primeiro filho.

E o mais curioso.

Ainda que as filhas originadas da gravidez precoce das avós – agora mães – tenham tido uma vida diferente e, portanto, tenham tido seus filhos após os 20 anos de idade, a precocidade gestacional das avós, ainda assim, teve seus efeitos passados aos netos. Desta forma, entre o grupo como um todo, as crianças que tiveram avós com gravidez precoce apresentaram uma pontuação 39% maior de falta de preparo escolar.

E acha que parou por aí?…

Essas crianças, em comparação com outras, também ficaram para trás nos quesitos ligados ao bem-estar físico, competência social, linguagem e, finalmente, no desenvolvimento cognitivo (aquele índice que mede a capacidade de uma criança realizar as mais diferentes operações mentais).

Muito sério, não acha?

Para se pensar

Claro, os pesquisadores concluem o estudo dizendo que "são necessárias políticas públicas" para minimizar o problema, entretanto, como psicoterapeuta, aproveito a oportunidade para lembrar a você, leitor querido, que a gravidez precoce, dentre outras causas, é derivada de negligência parental e da indiferença afetiva exibida pelos pais em relação aos filhos.

Assim sendo, sempre que tivermos que lidar com as evidentes dificuldades que experimentamos em nossa própria vida, tenhamos em mente que muitos dos problemas emocionais "não resolvidos hoje" poderão, facilmente, ser transferidos para gerações posteriores. (4)

Quem imaginaria que nossa inconsciência ou, dito de outra forma, nossa recusa em nos modificarmos, poderá, muitas vezes, vir cobrar um pedágio tão alto em nossos descendentes?… Preocupante, não acha? A gravidez na adolescência cria implicações negativas não apenas para os filhos, mas também às gerações futuras. Fique atento!

Referências

  1. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0211284
  2. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/24204/1/Maternidade%20na%20Adolescencia.pdf
  3. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822011000200003
  4. http://www.livrariadopsicologo.com.br/livro-teoria-do-apego-fundamentos-pesquisas-e-implicacoes-clinicas-9788570740113,AB3847.html

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!