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Por que adiamos algumas atitudes? Entenda os mecanismos da procrastinação

Dr. Cristiano Nabuco

29/01/2019 04h00

Crédito: iStock

Todos nós, diariamente, fazemos planos para modificar nossa vida. Planejamos começar um certo regime, ler um determinado livro, fazer algum exame e, claro, atingir o desejado equilíbrio financeiro.

E nem estamos falando aqui apenas das coisas mais significativas, ou seja, também das situações mais corriqueiras de resolução de problemas menores do cotidiano como, por exemplo, arrumar uma gaveta que acumula todo tipo de objetos ou, ainda, fazer a limpeza de nosso armário de roupas, dispensando aquilo que não usamos, nota-se esse tipo de acomodação. E, como resultado final, algo bem conhecido de todos nós sempre acontece, ou seja, passa-se o tempo e, simplesmente, não realizamos pendências.

E, claro, na "semana que vem" cuidaremos disso, ou seja, o velho autoengano de insistirmos ingenuamente que, "em breve", tudo estará sendo resolvido. E, assim, passam-se semanas, meses e, muitas vezes, anos e os problemas continuarão por lá, assombrando nossa consciência.

Caso você não saiba, esse mecanismo mental tem um nome clássico na psicologia: chama-se procrastinação, ou seja, o ato de deixar para depois, de adiar resoluções que precisariam ser tomadas no momento presente, mas, por alguma razão, acabam sendo esquecidas e perpetuadas indefinidamente.

Além de atrapalhar as engrenagens que compõem nosso processo natural de ordem da vida cotidiana, a procrastinação acaba por criar embaraços expressivos à nossa autoestima, pois, na constatação do dever inconcluso, também nos deparamos com a certeza de possuir pouca habilidade de condução, inclusive, "das pequenas coisas", colaborando para o rebaixamento de nossa autoestima.

Mas a pergunta é bastante simples: por qual razão adotamos uma conduta tão tóxica e primitiva? Por qual razão nos tornamos tão inabilitados frente a elas?

Eu explico.

Uma pesquisa feita na Alemanha tentou responder a essa questão e colocou em perspectiva a maneira como, mentalmente, "manejamos" as tarefas pendentes.

Basicamente, o estudo descobriu logo de início que, grande parte das vezes, nosso cérebro tende a agir de uma maneira adaptativa, isto é, sem que possamos notar, a mente "distorce" a percepção do tempo que, efetivamente, precisaríamos para resolver certas tarefas, ou seja, os esquemas mentais nos pregam uma peça, sugerindo que as coisas, na verdade, seriam muito simples de se resolver – o que, muitas vezes, não é verdadeiro -, mas criam um mecanismo de ação. Portanto, ao minimizarmos o tamanho da tarefa, tendemos a reduzir a importância da resolução imediata, deixando-a, assim, "para depois".

A investigação, de imediato, dividiu os participantes em dois grupos e a tarefa experimental a ser executada era a de "limpar uma sala", após a realização de uma festa. O primeiro grupo foi instruído a explicar em voz alta quais seriam os passos para a execução das ações, enquanto que o outro grupo foi orientado a escrever quais seriam as ações imediatas (o "passo-a-passo", ou o roteiro de ação) antes que a realização pudesse, efetivamente, ocorrer. Em seguida, após essa preparação prévia, os dois grupos foram, portanto, liberados para a condução das tarefas de limpeza.

A conclusão foi bem interessante.

O primeiro grupo, ou seja, aqueles que ficaram pensando sobre o conjunto das coisas a serem feitas, foram os que dispenderam mais tempo para poder dar início aos trabalhos, pois, acabaram por se deter muito mais "no planejamento" do que nas medidas efetivas de ação. Entretanto, os componentes do segundo grupo, ou seja, aqueles que estruturaram a sequência de ações de maneira mais descritiva e pontual, foram os que se mostraram, ao final, mais resolutos na finalização das tarefas, isto é, engajaram-se mais rapidamente na resolução do problema do que o grupo anterior.

A dedução final foi a de que pensar nas tarefas de uma maneira mais exata e específica fez com que a procrastinação e o tempo de resposta fossem, expressivamente, diminuídos. Além disso, complementaram os pesquisadores, ao se organizar "praticamente", as pessoas diminuíram naturalmente as chances de divagação mental, tornando-se, lógico, mais organizadas para a condução das ações.

Vale lembrar que o procrastinador, muitas vezes, também carrega nos mecanismos da protelação o medo de que suas ações sofram algum tipo de avaliação pública. Assim, rapidamente eclodem os "bloqueios" de execução, interrompendo o curso de ação, tornando-os inertes.

O problema é que, na maioria das vezes, isso se torna um círculo vicioso e, na pressão sofrida pela falta de andamento, os procrastinadores acabam por desempenhar as atividades de maneira improvisada e impulsiva, levando-os à baixa qualidade final de seus trabalhos.

Linha de procrastinação-ação

Fonte: Google

 Há algo importante a ser observado aqui, conforme demonstra o gráfico nesta linha de ação. À medida que saímos do ponto A, na condição de procrastinação, o mal-estar começa a aumentar de maneira significativa, até que, em um determinado momento, atingirá o ponto máximo que, curiosamente, dará início à curva de ação, fazendo com que o desconforto e a dor tendam a diminuir.

Assim, estar no auge da procrastinação é muitas vezes mais doloroso do que estar no meio da condição de estar se fazendo um trabalho, por exemplo. Portanto, note que o ponto A, no gráfico acima, é muitas vezes mais doloroso do que o Ponto B, ou seja, um processo paradoxal, onde se sofre muito mais por não fazer nada, do que por estar realizando alguma tarefa.

Explicando de outra forma, a culpa, a vergonha e a ansiedade que sentimos durante a procrastinação são, geralmente, piores do que o esforço e a energia que gastaríamos enquanto trabalhamos. Portanto, o problema, na verdade, não é fazer o trabalho, mas sim, "começá-lo".

Conclusão

Lembre-se então de que não há nada de errado em procrastinar vez ou outra as nossas tarefas, entretanto, o problema maior é quando esse mecanismo começa a se tornar crônico, fazendo com que passemos a adiar coisas que, na verdade, não poderiam ser adiadas.

Então, se você tem problemas de procrastinação, tente seguir a ordem: (a) criar uma lista de execução; (b) não espere estar na condição mental ideal ou no "estado de espírito" adequado para realizá-la, ou seja, simplesmente faça; (c) a cada tarefa, siga uma ordem ou sequência de atividades, ou seja, faça um pequeno roteiro das coisas que precisam vir antes e, finalmente, estruturando as ações até o final, possa ser atingido (faça um roteiro); (d) a cada realização, vá "ticando" os itens realizados, isto é, registre cada vez que uma parte dos projetos for sendo feita.

E, finalmente, a parte fundamental para que as coisas saiam da cabeça e possam ir para a realização: (e) execute, PELO MENOS, UM ITEM, a cada dia, desconsiderando qualquer desculpa que tenha em mente como, por exemplo, ter que esperar até o último minuto, não se sentir bem ou não saber como fazer, ter outra atividade anterior pendente, não ser o momento certo, estar com preguiça etc.

Ao realizar esses passos, seu senso de protelação vai sendo, progressivamente, extinto e, mais do que isso, vai lhe auxiliando a sair das estagnações e das confusões mentais tão frequentes na cabeça de todos nós.

Lembre-se: o segredo de uma vida saudável está no aprendizado de um adequado autocontrole sobre os mecanismos mais insidiosos que, muitas vezes, carregamos em nossa mente, sem perceber.

Um antigo pensador da era vitoriana costumava dizer que "se olhássemos para nossos problemas com o intuito de resolvê-los, seguramente eles não seriam tão grandes".

Bibliografia

https://jamesclear.com/procrastination

https://www.verywellmind.com/the-psychology-of-procrastination-2795944

https://www.inc.com/chris-winfield/how-to-stop-procrastinating-in-3-minutes-with-one-simple-question.html

https://doist.com/blog/strategies-for-overcoming-procrastination/

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco