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Sofrimento psicológico é importante para o desenvolvimento; entenda por que

Dr. Cristiano Nabuco

23/10/2018 04h00

Photo by Grace Madeline on Unsplash

É possível que o título desse texto já lhe soe absurdo logo à primeira vista, entretanto, o que pode parecer paradoxal, na verdade, contém, sim, uma grande verdade que muitos de nós, simplesmente, desconhecemos.

Desde que somos crianças, uma das coisas que mais nos impacta é a frustração emocional. Respondemos com esquiva e refração às punições comportamentais provenientes de nossos pais e professores que procuram, de maneira bem-intencionada, corrigir nossas condutas e comportamentos. A tensão psicológica criada nesses embates tem a força de modelar nossas ações e pensamentos futuros e, assim, aos poucos, vamos nos desenvolvendo e introjetando importantes lições.

Na adolescência, fase na qual temos uma melhor consciência dessas instruções acumuladas no passado recente, trazemos sempre à tona esse "manual mental de conduta" e certamente o consultaremos sempre que confrontados nos dilemas da vida e onde, é claro, nem sempre serão encontradas as respostas necessárias. E, mais uma vez, sentiremos aflição quando nossa educação e aprendizados pretéritos –assimilados a duras penas, diga-se de passagem — se mostram ineficazes e falhos nessa "navegação existencial".

E, finalmente, na maioridade, momento em que somos definidos pela suposta consciência e demais capacitações que o pensamento equilibrado nos oferece, fatalmente encontraremos novas ocorrências que são apresentadas pela vida e que, incompatíveis aos princípios morais e éticos trazidos, nos farão viver renovados momentos de amargura e consternação.

Assim se dá nossa estruturação emocional, ou seja, a partir de uma pressão inicial intervalada e que, em estágios mais avançados, nos propicia um discernimento de como nossa vida deve ser vivida e que, por ocasião da fase adulta, consolidará nosso código interno de valores. Todavia, como sempre, há um outro lado, parte importante dessa aprendizagem não será tão adequada assim.

Eu explico melhor, vamos com calma.

Precisamos trocar nossos cascos

Muitas vezes, descobre-se que, em meio a essa navegação experiencial, certas coordenadas que recebemos e que são carregadas com apreço, na verdade não se mostrarão muito efetivas na travessia de algumas das marolas psicológicas que nos atingem e, semelhante a um mapa que carregamos conosco, nos trechos mais perigosos o tráfego poderá mostrar-se pouco confiável.

O ponto central a ser percebido aqui é o de que a frustração, a angústia e o sofrimento vividos por essa inexatidão entre o que acreditamos ser correto e o que a vida nos cobra de volta, na verdade, apenas denunciam que nossos rumos –e tudo aquilo que acreditávamos ser acertado e verdadeiro — necessitam de importantes atualizações.

E, assim, uma coisa é certa: o incômodo e o estresse sempre estarão por perto nos momentos mais agudos de nosso viver, ao mesmo tempo que tais circunstâncias sempre estarão revestidas de poderosas oportunidades e de janelas de melhoria e de expansão de nossa consciência.

Abraham Twersk, um velho rabino, ao falar sobre as dificuldades de enfrentamento emocional pelas quais passamos, utiliza uma valiosa metáfora para entendimento desse processo. E nos pergunta: "Como cresce uma lagosta?"

A lagosta, responde ele, é um animal com uma composição muito frágil, mas que vive dentro de uma carcaça rígida –que é o invólucro de seu corpo — e essa casca grossa tem o poder de proteger o animal dos ataques, o que é muito bom, todavia, lembra ele, essa cobertura externa jamais se expande.

E aqui, um questionamento é lançado: se a carcaça é rígida, como então a lagosta pode se desenvolver? À medida que a lagosta cresce, complementa Twersk, esse casco começa a ficar apertado e, sentindo essa pressão, sente-se ela confinada, o que, obviamente, traz extremo desconforto.

Para resolver o problema, nessa hora o crustáceo nada então para baixo das pedras –para se proteger dos predadores — e, ao se libertar da casca, está livre para dar início à produção de um novo casco, maior e mais adequado ao seu tamanho atual. E assim ocorrerá novamente: quando crescer, esse revestimento ficará em algum momento apertado e, novamente, a lagosta terá que voltar para baixo das pedras e repetir todo o processo.

Portanto, o animal irá repetir esse procedimento várias vezes, sempre que o desconforto for experimentado por ele.

Compreenda então aqui a grande lição: O estímulo para que a lagosta possa crescer ocorre quando ela se sente desconfortável.

Eu explico melhor.

Temos que perceber, portanto, que os momentos de tensão e de estresse são também momentos que sinalizam as possibilidades de crescimento, ou seja, se usarmos a adversidade de forma correta, poderemos nos aperfeiçoar através das contrariedades e dissabores que a vida nos apresenta.

Muito embora todos nós fujamos da dor e do desconforto emocional, apenas essas situações terão a força e o poder de abrir as janelas de conexão com o que há de mais profundo em nós mesmos.

Assim ocorrerá sempre que perdermos um ente querido, vivenciarmos um acidente ou adoecermos gravemente, apenas para citar alguns exemplos. Todavia, à medida que o tempo decorre e a vida volta ao seu curso natural, normalmente vamos apagando as situações e nossa mente volta para um estado automático de inconsciência, até que novas adversidades "nos despertem" de novo.

Émile Zola, romancista francês do século XIX, dizia: "O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito".

Photo by Suzanne D. Williams on Unspl

Para se pensar

Com todas essas questões apresentadas, segue aqui, prezado leitor, minha indagação: o que você tem feito para permanecer acordado entre as intermitências do sofrimento?

Posso lhe ajudar a responder?

Ou desenvolvemos em nossa existência um sentido maior de propósito –nem que seja, pelo menos, o do autoaprimoramento — ou, fatalmente, passaremos nossa vida tentando sobreviver ao sofrimento psicológico humano, desorientados e perdidos.

E, obviamente, a escolha será sua.

Lembre-se apenas de uma coisa: é somente através das altas pressões que os diamantes são formados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

Dr. Cristiano Nabuco