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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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A psicologia por trás da demissão profissional e como sair disso

Dr. Cristiano Nabuco

17/07/2018 04h00

Photo by Ben White on Unsplash

Uma das questões que mais afeta a saúde mental de alguém é viver uma ameaça na identidade profissional. Lidar com a possibilidade real de uma demissão pode ser altamente desorientador e, caso o desfecho se dê por completo, ou seja, acabarmos efetivamente afastados, a sensação é sentir o chão se abrir sob os nossos pés.

Como se não bastasse lidar com essa montanha-russa de sentimentos, vivemos em um momento no qual todos compartilham praticamente tudo nas redes sociais, o que gera ainda mais constrangimento e inibição, pois é praticamente impossível manter o ocorrido em privacidade.

Um estudo conduzido pelo Bureau of Labor Statistics, dos Estados Unidos, mostra que uma pessoa, em média, mudará de emprego cerca de 12 vezes em sua carreira. Contudo, ainda que seja algo "esperado" e até natural na vida profissional de todos, em alguns casos, ser dispensado não diminui a tensão envolvida nas rupturas dos planos profissionais. (1)

Ainda que a maioria das mudanças seja originada pelo funcionário, uma vez que o tempo médio de trabalho dos empregados em suas funções, nos dias de hoje, é de aproximadamente 4,2 anos (diferentemente de como ocorria algumas décadas atrás), outras alterações de percurso podem ser diretamente resultantes dessa dispensa profissional. (2-3)

No Brasil (e, por que não dizer, no mundo de hoje) com uma economia incerta, a perda de um trabalho pode ser devastadora por vários motivos e o mais evidente, obviamente, é o corte súbito de renda em um momento em que as pessoas estão lutando para sobreviver.

Todavia, existem outras razões que sempre estarão por trás da demissão.

Olhando mais além

O abalo do status é um outro real problema que todos, sem exceção, sofrem. Como sabemos, muito de nossa imagem social está diretamente associada à identidade que cada um sustenta ao longo da vida e, assim, a perda de um emprego é, frequentemente, sentida como uma supressão concreta de poder e de prestígio, especialmente por aqueles que conectam o trabalho a outras áreas, como, por exemplo, os círculos sociais.

Outro elemento que será, provavelmente, afetado é o nosso autoconceito. Para muitas pessoas, ser demitido equivale à remoção súbita do valor pessoal, pois esse "núcleo de valor", digamos, não vai estruturar apenas a identidade profissional, mas também a imagem que sustentamos frente ao mundo em geral. Assim, ser compulsoriamente dispensado de um emprego (e o sucessivo corte de renda que o acompanha, obviamente) também pode levar a um forte sentimento de fracasso e de culpa. Ou seja: fracasso por não conseguir mudar ou mesmo prever o rumo dos acontecimentos, e culpa por não estar mais apto a continuar oferecendo o conforto econômico para a família sendo, desta forma, o responsável direto pelas ondas de estresse e incerteza vividas por todos.

E, finalmente, a pior parte: lidar com a montanha russa de sentimentos que começamos a experimentar, sem muito controle ou direção emocional.

As marolas emocionais

A primeira emoção que pode aparecer naqueles que são demitidos é a sensação de choque que acompanha, invariavelmente, uma profunda desorientação interna. O que faremos? Como daremos seguimento? Será que podemos criar outra oportunidade e toda aquela avalanche de perguntas e questionamentos que rapidamente cruzam nossa cabeça, deixando-nos, temporariamente, atordoados.

Após esse abalo inicial, de maneira inevitável, abre-se espaço para a entrada de uma outra emoção: a raiva. Possivelmente, sentiremos uma intensa sensação de raiva, que será dirigida ao empregador, a empresa e a tudo que envolve a corporação – pelo menos, no nível do pensamento. Claro, por mais que algumas pessoas, de fato, tenham criado condições adversas para propiciar esse desfecho, ninguém tem estrutura emocional para assumir, internamente, o ocorrido. Assim, o sentimento de indignação permanecerá por um tempo.

A terceira etapa deste trânsito emocional é o surgimento de uma sensação de humilhação. Novas perguntas aparecem como, por exemplo: como vou dizer isso a outras pessoas? Depois de tudo que eu fiz para a empresa, como fui demitido? Justo "eu", que tanto fiz por eles" etc. E assim, segue-se uma outra sucessão de questionamentos.

Nesse momento, é como se nossa "caixa de pandora pessoal" fosse aberta e de lá saíssem, descontroladamente, todos os tipos de pensamentos negativos a respeito de nossa falta de valor, incapacidade, despreparo, reavivando fortemente nossos antigos e primitivos esquemas mentais de desvalia.

Embora muita gente desconheça, raiva não-expressa leva à depressão e, com ela, surge uma grande onda de desapontamento com a vida profissional e com nós mesmos. Começamos, muitas vezes, a pensar que "nunca fomos felizes", e uma série de julgamentos ácidos surgem a nosso respeito. (4)

E, claro, o desapontamento abre espaço para a sensação de culpa, ou seja, pesar por não termos previsto a demissão, arrependimento por não termos feito nada para evitá-la e, finalmente, lamentação por não ter saído antes e com a cabeça erguida.

Photo by Xavier Sotomayor on Unsplash

Muitos permanecem nesse círculo vicioso por longos períodos de tempo, o que tem a força de aniquilar algumas das tentativas e ensaios mentais de mudança.

De olhos abertos

Portanto, muito embora todos esses sentimentos acima citados sejam completamente normais, eles também podem, em função da situação, ser autodestrutivos, no sentido que essa negatividade cria um impacto perigoso no resultado final de nossas ações frente as demissões.

Sabemos que nossas percepções dos fatos têm um impacto poderoso em nosso pensamento e comportamento e, assim, quanto mais inativos permanecermos, nesse momento, maiores serão as chances de ficarmos em um estado de anestesia emocional, diminuindo a probabilidade de um resultado positivo.

Em contraste, se a negatividade pode ser substituída por uma perspectiva mais proativa de pensamentos e emoções, maiores serão as chances de realizarmos um trânsito emocional mais ágil e adaptativo.

O que fazer então?

Eu explico. A psicologia científica sugere que a "ação" é uma das mais poderosas armas de confronto e de contorno dos períodos mais difíceis de nossa vida. Assim, tenha em mente:

a. Evite pânico, pense. Embora um grau moderado de ansiedade tenha sido consistentemente considerado um motivador, o pânico só piorará a situação. Ninguém faz boas escolhas enquanto está em estado de pânico e aflição psicológica, assim sendo, as boas oportunidades podem ser perdidas, caso estejamos agindo apenas pelo calor do momento. (5)

b. Evite o isolamento, conecte-se. Embora "dar um tempo" a si mesmo para refletir sobre o passado e descobrir novas direções para o futuro seja importante, isso não deve ser feito com o sacrifício das conexões com as pessoas queridas, amigos e colegas que, quase sempre, forneçam apoio e, mais do que isso, novas ideias e oportunidades futuras de emprego através da sua rede de relacionamentos. (5-6)

c. Evite deixar as emoções negativas consumirem você, controle-se. Embora você não deva necessariamente ficar gestando emoções assim, é importante não permitir que elas se tornem predominantes em sua cabeça. Raiva, amargura e tristeza são emoções comuns vivenciadas após uma demissão, entretanto, permanecer nesses sentimentos negativos pode roubar uma energia valiosa que poderia ser melhor utilizada na direção de encontrar outras oportunidades. (5-7)

d. Evite pensamentos rígidos, atenção. Por exemplo, apesar de você achar que um trabalho temporário não vale a pena ser buscado, se algum dinheiro for importante, ele pode ser, de fato, necessário. Além disso, as oportunidades transitórias, às vezes, abrem as portas para oportunidades permanentes. Assim, como diz o velho ditado, tentar pensar "fora da caixa" poderá trazer bons resultados. (5-8)

e. Evite letargia e inatividade, mova-se. É muito natural ficar inativo quando você está deprimido, mas, se possível, resista a essa tendência. Faça tudo o que puder para manter ou iniciar algum tipo de programa de exercícios e de atividade física, por exemplo. Isso será um valioso aliado na distração dos pensamentos negativos, como também terá efeitos fisiológicos positivos, pois melhora nosso autoconceito. (5-9)

Se nenhuma dessas ideias funcionar e a negatividade continuar presente, abra-se emocionalmente, seja para a família e/ou amigos íntimos sobre suas sensações, pois isso é uma estratégia fundamental. Em alguns casos, buscar algumas consultas pontuais com um psicólogo poderá fazer toda a diferença. (5)

Conclusão

Para a maioria das pessoas, uma perda de emprego, depois de um tempo, é usualmente vista como um importante divisor de águas em nossa vida. Embora, na maioria das vezes, muito desconfortável no momento do fato, ela é um ótimo ensejo para que se descubram novas oportunidades.

Lembre-se: muitas vezes, aprendemos mais com os reveses do que com os períodos de bonança. (10) Assim, use suas paixões e seus pontos fortes para começar uma nova jornada. Nunca se sabe, de fato, aonde podemos chegar.

Pense nisso.

Referências

  1. https://www.thebalancecareers.com/how-often-do-people-change-jobs-2060467
  2. https://www.bls.gov/news.release/tenure.nr0.htm
  3. https://www.thebalancecareers.com/worst-times-to-quit-your-job-4137842
  4. https://www.guilford.com/books/Working-with-Emotions-in-Psychotherapy/Greenberg-Paivio/9781572309418
  5. https://www.psychologytoday.com/us/blog/high-octane-women/201108/seven-things-avoid-after-being-fired
  6. https://www.nytimes.com/2017/06/12/well/live/having-friends-is-good-for-you.html
  7. https://www.psychologytoday.com/us/blog/the-science-success/201004/yes-you-can-stop-thinking-about-it
  8. https://www.balancedknowledge.com/why-its-important-to-think-outside-the-box/
  9. https://www.psychologytoday.com/us/blog/fulfillment-any-age/201404/build-your-self-esteem-these-3-simple-exercises
  10. https://www.fastcompany.com/3052250/why-getting-fired-can-be-critical-to-success-as-a-leader

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!