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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Como será que anda a sua força de vontade?

Dr. Cristiano Nabuco

22/05/2018 04h16

Photo by Quin Stevenson on Unsplash

Há mais de 40 anos, um psicólogo chamado Walter Mischel, da Columbia University (EUA), queria saber qual seria a capacidade de as crianças controlarem seu comportamento. Por isso, bolou um experimento reunindo um grupo em idade pré-escolar e lhes apresentou um prato cheio de doces. O experimento ganhou o nome de "teste do marshmallow".

A dinâmica era a seguinte: cada criança foi informada que o pesquisador precisaria sair da sala por alguns instantes. No entanto, o combinado é que elas esperassem até o cientista voltar para, só então, ter a permissão de comer dois marshmallows. Caso alguma criança não quisesse esperar até sua volta, ela poderia tocar uma campainha antes do tempo e o especialista voltaria imediatamente e lhe daria o aval para comer. Nesse caso, porém, a criança teria direito a apenas um dos doces que lhe foram apresentados. (1)

Esse simples experimento deu início a pesquisas envolvendo uma das mais importantes habilidades do ser humano: a capacidade de exercer a força de vontade.

O que esse teste deixou óbvio é que muito do que chamamos de robustez psicológica está, na verdade, totalmente associado à capacidade de autocontrole que exibimos frente a certos estímulos que nos dariam um "prazer imediato" e, assim, podermos colher melhores recompensas em algum momento mais tarde. Pode parecer que não, mas essa "força de vontade" medida no experimento é colocada à prova praticamente todos os dias em cada um de nós, nas pequenas ações do cotidiano.

Vejamos alguns exemplos: você decide que, a partir de amanhã, vai levantar mais cedo para fazer ginástica. Quando o despertador toca, porém, você dá aquele tapinha para desligá-lo e poder dormir um pouco mais. Ou quando sai do escritório para almoçar, ir direto na porção de batatas fritas em vez de escolher o legume cozido e menos calórico. Ou ainda pedir um doce de sobremesa em vez das frutas, pois "amanhã", claro, começaremos verdadeiramente a nos cuidar.

É claro que isso não se aplica somente à nossa alimentação. Tal mecanismo também ocorre em relação as nossas economias, quando decidimos não poupar agora e satisfazer nossos impulsos de consumo mais imediatos, pois "a vida é curta". Acontece também quando optamos por não aperfeiçoar nosso segundo idioma, pois "não fará tanta diferença assim" e por aí vai, sucessivamente.

O fato, como você já percebeu, é bastante corriqueiro. Ou seja: certas decisões que nos levariam a ter uma vida com mais qualidade, nos mais distintos aspectos, decorrem das coisas mais simples que nos são apresentadas no cotidiano e que, infelizmente, dia após dia, nos fazem tropeçar e adiam nossas ações – mais uma vez.

Uma pesquisa recente conduzida pela American Psychological Association revelou que "não ter força de vontade forte o suficiente" é a principal razão citada pela maioria das pessoas no momento de fazerem mudanças expressivas em suas vidas. (2)

E o que você ainda não sabe é que essa "tendência" tem grandes chances de acompanhá-lo a vida inteira.

Eu explico.

Quando o pesquisador Walter Mischel voltou a contatar as crianças de seu experimento inicial, agora na adolescência, descobriu que aqueles que tinham conseguido "se controlar" durante experimento (e haviam aguardado pelos "dois marshmellows" na ocasião), eram os que tinham obtido maiores pontuações em testes de aptidão (SAT – Scholastic Assessment Test) (3).

Além disso, segundo os pais desses jovens, seus filhos exibiam uma maior capacidade de se planejar, se comparados aos que tinham sido mais impulsivos. Portanto, a mera atitude de se autocontrolar colaborou para que o grupo dos "dois doces" demonstrassem nessa fase da vida melhor manejo do estresse. O motivo? Respondiam melhor aos comandos de sua razão.

Sabe o que veio depois?…

Decorridos 40 anos do teste inicial, o Dr. Mischel, ainda curioso, fez uma nova tentativa e localizou 59 dos participantes do experimento original. Os achados foram surpreendentes.

A força de vontade dos participantes que haviam conseguido se autocontrolar na infância, e mantido o mesmo tipo de comportamento na adolescência, continuou inalterada por mais quatro décadas, persistindo, praticamente, durante a vida toda dessas pessoas.

Bem, e aqueles que quando crianças "não aguardaram" pelos dois doces e comeram apenas um? O que terá acontecido com eles?

Vou deixar que você, meu querido leitor, responda como terá sido, possivelmente, a vida dessas outras pessoas.

Exercite a resistência

A força de vontade é a capacidade de resistir à gratificação de curto prazo em busca de metas ou objetivos no longo prazo. Quando assim procedemos, pesquisas apontam para resultados mais positivos, como por exemplo, melhores habilidades psicológicas, maior autoestima, menores taxas de abuso de substâncias, maior segurança financeira e, finalmente, melhoria de nossas condições física e mental.

Como um músculo que exercitamos de tempos em tempos para obter maior resistência e condicionamento, também é possível treinar nossa mente para melhorar nossa qualidade de vida.

Pense nisso.

"Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: a força de vontade", Albert Einstein.

 

Referencias

(1) http://www.apa.org/helpcenter/willpower-living.aspx

(2) http://www.apa.org/news/press/releases/stress/index.aspx

(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/SAT

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!