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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Entender que a vida é feita de ciclos pode reduzir o estresse no fim do ano

Dr. Cristiano Nabuco

20/12/2017 05h00

© Sebastian Gauert – Fotolia

Não é novidade para ninguém que, no período de final de ano, temos que superar uma das fases mais turbulentas do ano: as festas comemorativas. Elas podem começar com os fatídicos amigos secretos do trabalho e chegarem até, inevitavelmente, ao encontro das celebrações do Natal.

Talvez, até existam pessoas que nem comemorem essas festas, mas uma coisa é certa: há uma mudança clara no comportamento de todos e é quase impossível não ser afetado por ela.

O primeiro ingrediente é manejar a contagem regressiva dos dias que se aproximam dessas datas de recesso. Sabemos, por experiências anteriores, que, no final do ano, fazemos um balanço mental das conquistas e dos fracassos que obtivemos.

Como nosso cérebro não tem muita facilidade para deixar as situações e os eventos "em aberto", nossa biologia nos empurra, portanto, para fazer certas avaliações finais, quer desejemos ou não. Assim, o cansaço físico e mental já interfere, de maneira expressiva, a não termos uma perspectiva muito animadora.

E esse processo de verificações pessoais, devo dizer, não é das tarefas mais fáceis.

Em épocas anteriores, por exemplo, não tínhamos as redes sociais para nos informar o quanto cada amigo virtual "prosperou" ao longo do ano, ou seja, quais viagens fez, que sucessos colecionou, o que adquiriu, enfim, o que nos dá uma clara impressão de que, mais uma vez, muito pouco conseguimos concretizar. Obviamente que a maioria dessas realizações sempre estão maquiadas -bem sabemos-, mas, em períodos de angústia, perdemos, temporariamente, um pouco de nossa racionalidade e, portanto, toda essa conclusão do sucesso alheio também não nos faz muito bem.

Além disso, há aquela inevitável insatisfação com o trabalho. Caso você ainda não saiba, dois terços das pessoas já se sentem, naturalmente, fracassadas profissionalmente, fazendo com que essa percepção fique ainda mais prevalente em nossa consciência. (1-2)

Podemos também ter vivenciado perdas expressivas de relacionamentos em função de términos naturais, doença ou até a morte de pessoas queridas, o que colabora para que, do ponto de vista emocional, não nos sintamos muito radiantes.

Há ainda aquela velha briga com a balança, o que, caso não saiba, não é apenas uma mera impressão. Uma em cada três pessoas está, efetivamente, acima do peso, fazendo com que nossa imagem corporal não seja das mais gratificantes. Assim, ao que tudo indica, mais um ano se passou e muito pouco conseguimos fazer pela nossa saúde. (3)

Portanto, chegamos nessas datas cansados, tristes, desanimados, frustrados e precisamos, de quebra, ter forças para mostrar satisfação e felicidade aos demais.

Para se ter uma noção disso, uma pesquisa conduzida pela Stress Management Society, do Reino Unido, já havia revelado que uma a cada vinte pessoas considera o Natal como uma experiência mais impactante do que ser assaltado. (4)

Como passar então por essa maratona de conclusões pouco satisfatórias?

Talvez aqui esteja uma das possíveis explicações pelas quais percamos o controle na bebida e na comida ou, talvez, escolhamos, na verdade, não nos controlar, compensando um pouco esses sentimentos negativos.

Mas, se você me permite, nem tudo é tão negativo assim.

Eu explico.

Penso que, mais do que nunca, devemos começar a ser um pouco mais gentis conosco.

A vida, de fato, é composta por ciclos e, efetivamente, após os períodos negativos, se seguem as fases mais produtivas. Tenhamos em mente que, sempre estamos tentando fazer o nosso melhor e, inclusive, a falta de vontade e energia, na realidade, são parte de um processo de aprendizagem e de tomada de consciência que, se bem aproveitados, podem servir de fermento para a mudança pessoal.

Um segundo ponto, e não menos importante, é o de tentar evitar as comparações, ou seja, fique atento(a) a essa armadilha mental. Bloqueie pensamentos e sentimentos de inferioridade a partir da comparação com os demais. Ninguém sabe a dificuldade daquilo que vivemos e, portanto, qualquer equiparação é indevida para conosco. Assim sendo, não faça isso.

Começar a olhar com mais gentileza e compreensão as nossas vulnerabilidades é o primeiro passo para que possamos atingir novos patamares de realização pessoal. Nossas limitações, no fundo, estão aí, apenas e unicamente para nos ajudar a ficarmos pessoas melhores.

"Nada é permanente, exceto a mudança", já dizia Heráclito.

Desejo, assim, que o ano que se inicia lhe dê, de verdade mesmo, mais e maiores possibilidades de realização. Corra atrás!

 

Referências

(1) https://www.conference-board.org/publications/publicationdetail.cfm?publicationid=2785

(2) https://hbr.org/2017/09/happiness-traps

(3) http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/

(4) http://www.telegraph.co.uk/men/the-filter/11303498/How-to-deal-with-the-stress-of-Christmas.html

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!