Dr. Cristiano Nabuco

O que a tecnologia terá feito com você?

Dr. Cristiano Nabuco

© Vladgrin-Fotolia.com

Pois é, em época de grandes avanços tecnológicos, como aqueles que vivemos hoje, eu nem me atreveria a arriscar uma opinião mais polêmica, pois, diferentemente de períodos anteriores, onde eu falaria para os conhecidos do trabalho ou da universidade (e, quem, por acaso, discordasse de mim, no máximo me diria); atualmente, caso eu defenda alguma ideia um pouco mais incomum que seja, tenho à minha disposição as redes sociais digitais – que alcançam alguns milhares de pessoas em horas -, tornando meu discurso bem mais perigoso e passível de punições.

Assim, eu creio, estamos muito mais hesitantes.

Momentos em que eu falava futilidades e aprendia com meus erros, já não existem mais. Não temos mais essa alternativa e, portanto, o círculo de meus amigos próximos que me corrigiam, simplesmente, desapareceu. Temos hoje que alinhar nosso comportamento em praça pública ou, se você desejar, terá que fazê-lo junto às redes sociais digitais, o que, convenhamos, não é tarefa das mais fáceis. Alguém que já foi antipatizado em suas publicações no Face, por simples descuido narrativo, sabe exatamente a que me refiro.

Estamos, portanto, muito mais inseguros.

Outra coisa importante que noto é que, de maneira bem primária, os limites de minha vida mais íntima também não existem mais como antes. Recebo, de maneira ininterrupta, mensagens que tocam em meu celular (já silenciei a maioria dos grupos, diga-se de passagem) e as pessoas não entendem minha vontade e desrespeitam, de forma recorrente, meu desejo à privacidade. Cá entre nós, dando uma olhada mais de perto, desconfio que a maioria das coisas que me chegam pelo whatsapp são, de fato, absolutamente irrelevantes.

Estaríamos então mais incomodados? Seguramente.

Mas não acabou por aí.

O último círculo de contato que temos é aquele em que convivemos conosco, ou seja, a relação com nossa mais íntima subjetividade, local onde habitam nossos pensamentos e emoções e que também, sem dúvida, foi seriamente impactado. Sim, pois caso eu navegue na internet em busca de qualquer informação que seja, vou lidar com um conhecimento muito mais frágil, fragmentado, (menos fixo, como os velhos livros) – um verdadeiro “oceano de fragmentos” -, muito mais líquido e plural.

Dessa forma, minha capacidade de responder às minhas inquietudes mais privadas também foi seriamente afetada e, assim, o que dava base às minhas ideias – os chamados pontos fixos -, igualmente, também não existe mais. Por acaso, você, leitor(a), consegue aventurar-se a respeito de uma opinião definitiva sobre sexualidade, política ou mesmo religião? Isso mesmo, é praticamente impossível.

Estamos, portanto, carregando mais incertezas.

E aqui vai minha última questão: se estamos mudando em relação às nossas atitudes sociais e mais particulares, o que isso tudo terá ocasionado junto ao nosso comportamento?

Simples, bem simples.

© Robert Kneschke – Fotolia.com

Antigamente pensávamos antes de agir. Hoje, na web, não esperamos mais, na verdade, agimos para depois pensar. Sentimo-nos mais produtivos sendo deste jeito e isto, claramente, nos tornou mais impulsivos e muito menos reflexivos.

Portanto, vivemos hoje uma total desintegração entre os limites do mundo real e o mundo digital, o que nos confunde demasiadamente. Dezenas de pessoas levam para a vida real aquilo que são em sua vida digital, criando sérios problemas de comportamento e de adaptação (atendo às dezenas em meu consultório, caso ainda não tenha lhe falado).

É possível que você discorde veementemente de minhas ideias e, ainda assim, eu lhe compreenderei, pois não me restam alternativas. Mas, no fundo, no fundo, eu penso que a tecnologia nos prometeu um grande avanço, um salto existencial, mas, particularmente falando, sinto que houve, na realidade, um expressivo retrocesso, pois a qualidade de nossa vida foi seriamente golpeada.

Mais hesitantes, inseguros, incomodados e, notadamente, mais indefinidos. Assim estamos.

Ingenuidade (ou não), tenho me esforçado para distanciar-me um pouco da tecnologia e das redes sociais e sou obrigado a confessar: estou vivendo de maneira muito mais tranquila, não há dúvida, em relação a isso. Acho que eu prefiro ser uma pessoa mais calma e serena, com tempo para tentar flertar com minhas inquietudes (recuperar meus momentos de contemplação) e, de forma mais saudável, estar menos “online” e “conectado”. Aliás, “conectado” com o que mesmo?…

E você, leitor(a), afinal, saberia me dizer, o que a tecnologia terá feito com você?