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Medo de aranha: a fobia mais antiga de nossa história

Dr. Cristiano Nabuco

03/03/2016 14h43

JorgeAlejandro - fotolia

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Aracnofobia (do grego: arachne, aranha + fobia) ou “medo de aranhas” é a fobia considerada mais antiga e, inclusive, apontada entre outras frequentes, a mais comum em nossa cultura.

Uma pessoa com essa condição pode apresentar uma reação extrema de aversão, manifestada através de um comportamento emocional intenso e descontrolado e que pode, muitas vezes, parecer irracional aos indivíduos à sua volta. O sofrimento é tamanho que a vida desse indivíduo pode ser afetada de maneira dramática.

A fobia ou medo de aranha é classificada como uma fobia específica (pertencente aos transtornos de ansiedade) e que normalmente pode ser desencadeada pela simples antecipação da aranha, da exposição real e, em certos casos, apenas ao se ouvir o nome mencionado.

Aspectos Históricos

Sabe-se que, há muitos séculos, as aranhas foram associadas a doenças e infecções. Na Idade Média, por exemplo, qualquer alimento que tivesse tido contato com aranhas era considerado infectado e nocivo. Até o final do século XVII, muitas culturas acreditavam serem elas venenosas e causa direta da histeria, fenômeno também conhecido como “tarantismo”.

Sabe-se que os primeiros relatos deste mal datam da Idade Média, período no qual teria ocorrido uma “epidemia” da doença, na cidade de Taranto, no Sul da Itália. Relatos apontam que mulheres dessa região eram vítimas de tais aranhas. (1)

As crises eram cíclicas e contavam com gritos, comportamento adverso, espasmos e contorções – que remetiam aos movimentos de um aracnídeo -, em uma espécie de transe hipnótico.google - imagens

Acreditava-se que, para se livrar do veneno, a mulher precisaria ser submetida por um ritual, a “Taranta”. Nele, a pessoa envenenada deveria ficar cercada de pessoas que, dentre elas, eram presentes músicos que tocavam com o objetivo de “espantar a aranha” presente no corpo da vítima.

Assim, durante o transe, a “tarantata” dançava, movimentava-se e contorcia-se de maneira intensa. O objetivo era que o veneno fosse eliminado através do suor. Estima-se, inclusive, que essa teria sido a origem da atual dança folclórica italiana, chamada “tarantela”. (2)

siculodoc - fotolia

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As aranhas, além disso, também foram percebidas como uma das responsáveis pelas grandes pragas que atingiram a Europa a partir do século X. Apenas recentemente se descobriu que o rato preto, na verdade, é que carregava as pulgas que espalham as pragas. Entretanto, como as aranhas eram também encontradas nas mesmas partes de uma casa que ocupavam os ratos, daí sua suspeita.

Origens

Alguns pesquisadores sugerem que esse medo seria socialmente aprendido, ou então, decorrente de algum trauma em razão do contato direto anterior. Outros, todavia, defendem a ideia de que os seres humanos já nasceriam com essa propensão natural a esquiva.

A pesquisa sugere que aracnofobia pode ter sido geneticamente determinada como o resultado de um instinto de sobrevivência que fora desenvolvido em nossos antepassados há milhões de anos.

Como os seres humanos estavam em risco contínuo, vivendo em ambientes mais primitivos (como cavernas), detectar tais ameaças fora de fundamental importância para assegurar a sobrevivência, o que constitui, com a passagem do tempo, uma necessidade evolutiva. (3)

Isso poderia então explicar porque as pessoas têm um medo profundamente enraizado e aparentemente irracional até os dias de hoje.

Um estudo conduzido na Universidade de Columbia, em Nova York, testou quão rapidamente as pessoas seriam capazes de identificar uma aranha quando expostas a uma série de estímulos combinados.

Mais de 250 pessoas foram convidadas a observar as telas de um computador contendo inicialmente formas abstratas e, em seguida, imagens já conhecidas que induziriam o medo ou o nojo, para testar a velocidade de reação individual.

O estudo descobriu que as pessoas foram capazes de identificar, entre as formas abstratas, aquelas que se assemelhavam a formas de aranhas, corroborando a tese do instinto de sobrevivência – o que explicaria também as reações de aversão mais intensa em algumas pessoas.

Um outro estudo realizado no Reino Unido, com 261 adultos, mostrou que cerca de 32% de mulheres e 18% homens no grupo sentiram-se muito ansiosos, nervosos ou extremamente assustados quando confrontados com uma aranha real (ou apenas através de imagens). (4,5)

Tratamento

Sabe-se que o tratamento indicado envolve uma exposição gradual ao estímulo fóbico (no caso, a aranha) com o objetivo de dessensibilizar o paciente frente à reação fóbica. Esse processo é combinado a treinos de relaxamento e, mais tarde, baseado nas técnicas da terapia cognitivo-comportamental. (6,7)

Pode-se também usar de tratamento virtual, ao recriar todos os elementos que compõem a experiência integral de estar próximo a um aracnídeo, onde o paciente é mais capacitado a vencer o seu medo. (8)

Estão aí as técnicas da psicoterapia moderna para lhe ajudar a transformar seu medo. Só permanece sofrendo quem quer.

Referências

(1) https://www.psychologytoday.com/blog/why-we-worry/201407/why-are-we-afraid-spiders

(2) http://lounge.obviousmag.org/por_uma_linha_que_caiba/2014/05/tarantismo-o-grito-da-frustracao-feminina.html#ixzz3nop4tWO8

(3) http://www.telegraph.co.uk/news/science/11516966/Fear-of-spiders-in-our-DNA-according-to-new-study.html

(4) http://www.fearof.net/fear-of-spiders-phobia-arachnophobia/

(5) http://www.uptodate.com/contents/specific-phobia-in-adults-epidemiology-clinical-manifestations-course-and-diagnosis/abstract/1?utdPopup=true

(6) http://www.helpguide.org/articles/anxiety/phobias-and-fears.htm

(7) Rinck M, Becker ES. Approach and avoidance in fear of spiders. J Behav Ther Exp Psychiatry 2007; 38:105-120

(8) http://www.perseusrealidadevirtual.com.br/

 

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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