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Atenção das mães e o impacto no desenvolvimento cerebral dos filhos

Dr. Cristiano Nabuco

19/01/2016 08h00

fotolia - chihana

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Não é de hoje que sabemos que a primeira infância é de vital importância para o desenvolvimento do cérebro de uma criança.

Investigações já comprovaram que ser criado em um ambiente familiar, com mais tranquilidade e equilíbrio, tem o poder de transmitir uma dose positiva de segurança emocional aos pequenos, o que favorece a construção de uma autoestima mais fortalecida, uma melhor capacidade para lidar com o estresse, à medida que as crianças se desenvolvem, além de boas habilidades para o manejo das situações interpessoais futuras. (1)

Assim, aqueles filhos que são criados em ambientes com mais atenção parental, mais seguros se sentirão, aumentando assim, progressivamente, a construção da autonomia e da independência, ainda em formação nas fases iniciais de vida.

E o oposto, não deixando de mencionar, é igualmente verdadeiro. Por exemplo, crianças criadas em ambientes caóticos e desorganizados, desenvolvem maiores vulnerabilidades emocionais, o que resulta em uma infância e, por que não dizer, em uma adolescência mais problemática, sendo que, em uma grande parcela dos casos, essas dificuldades ainda são perceptíveis até na vida adulta. (1)

Até aqui, nada de muito novo, certo?

Entretanto, o que ninguém ainda sabia era que esses mesmos estímulos provenientes das relações afetivas boas ou más, além de conferirem um sem número de vantagens ou desvantagens, também interferem de maneira pontual no crescimento das redes neuronais do cérebro infantil.

Utilizando o modelo animal, uma nova pesquisa se debruçou exatamente sobre esses aspectos. Descobriu-se que cuidados maternos, quando oferecidos de maneira inconsistente ou fragmentada à prole – decorrente dos ambientes mais estressados-, aumentam exponencialmente a probabilidade desses filhotes desenvolverem comportamentos de risco. (2)

Vou explicar melhor a pesquisa.

A investigação

Para averiguar os possíveis impactos da falta de uma atenção contínua das mães às crianças, decorrentes de ambientes mais ou menos instáveis, os pesquisadores criaram um modelo de pesquisa com roedores para compreender melhor o efeito destas experiências nas redes neuronais do cérebro.

Assim, os cientistas separaram dois grupos distintos de bebês roedores: um habitando ambientes calmos e tranquilos (leia-se: com as mães roedoras sempre presentes) e, em outro grupo, animais criados em ambientes caóticos onde o cuidado das mães era desordenado e tumultuado.

Portanto, o ponto central da análise dos pesquisadores era o comportamento de cuidado materno exibido pelas cuidadoras-roedoras com seus filhotes. (2)

Apesar de que a quantidade e a qualidade de cuidados maternos serem, obviamente, difíceis de serem diferenciadas nos dois ambientes experimentais, conseguiu-se, entretanto, avaliar os padrões (e frequência) de cuidado que as mães ofereciam aos seus filhotes (o que, diga-se de passagem, diferiu drasticamente em ambos os grupos).

Enquanto um grupo de roedores recebia um cuidado das mães que era contínuo e duradouro (a mãe, por exemplo, os lambia e os agradava por períodos mais extensos de tempo), no outro, os filhotes receberam um cuidado maternal que fora mais fragmentado, isto é, a cuidadora era interrompida em seus comportamentos de zelo e de atenção aos filhotes.

O resultado foi significativo.

Veja só: A prole criada no ambiente mais sereno e com a presença persistente das mães, teve seus sistemas dopaminérgicos (ou seja, os sistemas de recompensa) mais ativados do que aqueles roedores que foram criados em um ambiente mais caótico.

Os pesquisadores, desta forma, acreditam que o sistema de recompensa do cérebro daqueles filhotes mais “carentes” acabou sendo, como resultado, pouco estimulado (pois os mesmos ainda não são maduros em neonatos e lactentes), comprometendo de maneira significativa o processo de maturação cerebral dos filhotes.

Segundo a investigação, isso teria sido responsável por uma espécie de anestesia emocional dos roedores, pois não os fazia responder a estímulos positivos, quando os mesmos eram introduzidos no experimento.

Assim, o grupo menos cuidado exibiu pouco interesse em atividades naturalmente mais atrativas aos filhotes, como, por exemplo: a busca por alimentos mais doces ou ainda nas brincadeiras com os outros ratos, duas medidas independentes para se avaliar a capacidade dos ratos de sentir prazer (e, obviamente, de recompensa).

© Robodread - Fotolia.com

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Conclusão

Os investigadores agora seguem se perguntando: o que foi descoberto nos ratos, se aplicaria, igualmente, para as pessoas?  Se assim for, explicam, novas estratégias deveriam ser consideradas no sentido de se evitar problemas emocionais futuros em crianças e adolescentes.

Agora, uma outra questão também se aplicaria.

Como se não bastassem os inúmeros obstáculos encontrados na infância e, cada um de nós sempre tem um bom exemplo para contar, nos dias de hoje ainda se somam a falta de tempo dos pais, decorrente do trabalho excessivo – fruto das dificuldades econômicas que muitas famílias passam-, além dos problemas cada vez mais frequentes nas interações entre pares na escola, apenas para citar dois exemplos.

E, como se isso tudo não fosse o suficiente, hoje, as crianças ainda encontram uma nova barreira a ser transposta em sua infância: a tecnologia sempre presente em tablets e celulares nas mãos dos pais, tornando a necessidade biológica pela atenção ainda maior.

Pensando na investigação acima descrita, seria então correto afirmar que o uso da tecnologia por parte dos pais seria prejudicial ao amadurecimento cerebral dos filhos?

Assim sendo, estariam nossas crianças sendo igualmente subestimuladas pela atenção fragmentada dos pais em função da tecnologia? (3)

Enfim, para se pensar.

Seria interessante, portanto, que os pais de nossas crianças ficassem atentos, pois se formos tomar por base os achados nos animais, nossos pequenos podem estar em risco.

 

Referências bibliográficas

(1) http://www.casadopsicologo.com.br/teoria-do-apego.html#.Vpg4RhUrLIU

(2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26731439

(3) http://www.grupoa.com.br/livros/psicologia-geral/vivendo-esse-mundo-digital/9788565852951

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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