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Sono e crianças: o que você deveria saber

Dr. Cristiano Nabuco

28/10/2015 08h00

eugenesergeev - fotolia

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Sabemos, já não é de hoje, que o sono exerce uma importante função em nossa vida. Pesquisadores já afirmaram há muito tempo que dormir é extremamente importante para o desenvolvimento das funções cerebrais, como na consolidação das memórias de longo prazo ou ainda no favorecimento e na criação das habilidades de aprendizagem.

Mas, além dos aspectos já bem conhecidos, algumas questões têm sido recentemente apontadas, veja só que interessante:

O sono ajudando na limpeza do cérebro

Um estudo conduzido pelo Centro Médico da Universidade de Rochester (Nova York) constatou que o sono pode ser também um período no qual o cérebro se desfaz das moléculas tóxicas acumuladas ao longo do dia, ou seja, uma boa noite de sono pode, literalmente, limpar a nossa mente.

Usando ratos, os pesquisadores mostraram pela primeira vez que o espaço entre as células do cérebro pode aumentar durante o sono, permitindo então que sejam eliminadas as toxinas acumuladas.

Dessa forma é que, ao dormirmos, um sistema de “encanamento” chamado de sistema glinfático abre e “libera a passagem” (encolhendo em até 60% do tamanho original das células), permitindo que um líquido cérebro-espinhal “enxague” o tecido cerebral, expulsando assim os resíduos acumulados no sistema circulatório. (1)

Isso pode explicar por que o cérebro utiliza quase tanta energia durante as horas de sono quanto nas horas em que estamos acordados.

O sono e o processo de crescimento

Outra pesquisa revela que o descanso noturno é particularmente vital para as crianças, porque o hormônio do crescimento (GH) é produzido, principalmente, durante a noite, isto é, 30 minutos após o adormecimento e, especialmente, da meia-noite às 6 da manhã.

Assim sendo, o desenvolvimento do tecido muscular agradece, se os pais ajudarem os filhos a obterem uma noite ininterrupta de descanso. Caso contrário, o crescimento pode vir a ficar comprometido.

A orientação da Fundação Nacional do Sono (The National Sleep Foundation’s guidelines) dos Estados Unidos afirma que, embora cada pessoa tenha uma necessidade específica de repouso, as diferentes idades pedem por períodos distintos de sono: 10 a 13 horas por dia para pré-escolares, de 9 a 11horas para crianças entre as idades de 6 e 13, e de 8 a 10 horas para os adolescentes, de 7 a 9 horas para jovens adultos, adultos e terceira idade. (2,3)

Falta de sono e sintomas de TDAH

Um estudo que entrevistou quase 2.500 crianças, com idade entre 6 e 15 anos, confirmou que as crianças com problemas de sono são mais propensas a serem impulsivas, exibirem falta de atenção e mostraram mais agressividade do que seria esperado, o que, aliás, são os sintomas comuns aos quadros de TDAH e que, segundo o autor, poderia levar a eventuais confusões de diagnóstico.

Ao contrário dos adultos que, quando ficam cansados, tornam-se mais sonolentos, as crianças se tornam hiperativas e mais impulsivas como forma de compensação de sua exaustão. (4)

Falta de sono: risco de obesidade e diabetes

Como o sono modula o sistema neuroendócrino e o metabolismo da glicose, quando não se dorme o tempo apropriado, esses processos vitais podem não funcionar corretamente.

A leptina, por exemplo, um hormônio capaz de controlar a sensação de saciedade, é secretada durante o sono. Pessoas que permanecem acordadas por períodos superiores ao recomendado produzem quantidades menores de leptina. Dessa forma, a consequência de pouco sono induz o corpo a ingerir maiores quantidades de carboidratos, por exemplo, produzindo o aumento de peso.

Um estudo publicado no periódico Pediatrics aponta que, quanto menos uma criança dorme na primeira infância (os primeiros cinco anos de vida, mais especificamente), maior é seu risco de desenvolver a obesidade a partir dos sete anos de idade. (5)

Estudos epidemiológicos indicam que nas sociedades modernas as crianças (e também os adultos) gastam nos dias de hoje menos tempo dormindo que faziam nossos avós apenas há algumas décadas atrás, o que, de maneira provável, contribui para a epidemia de obesidade que vemos em muitos países. (6)

Falta de sono e tecnologia

O estilo de vida moderno seria outro concorrente direto das noites bem dormidas.

© Monkey Business - Fotolia.com

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Eu explico.

Um estudo publicado aqui no Brasil pelo IPOM apontou que 82% dos jovens avaliados dormem com o celular ligado ao lado da cama. Vamos lembrar que os sinais sonoros enviados pelas mensagens, como bem sabemos, tocam a noite toda, deixando o sono entrecortado, o que impede que se atinja o sono profundo e reparador. (7)

Um outro estudo feito no Centro Médico JFK, nos EUA, mostrou que o número de mensagens de texto – ou SMS – enviadas às crianças entrevistadas chegava a 34 por noite, e uma média de 3.400 textos por mês, enviados no período noturno – o que é bastante alto, principalmente para indivíduos que deveriam estar tentando dormir e não sendo estimulados a permanecer acordados. (8)

Sono e uso de drogas

Uma investigação conduzida pela Universidade de Pittsburgh constatou que os adolescentes privados de sono comprometem sua capacidade de avaliar corretamente as situações que os colocam em risco e, assim sendo, tornam-se menos hábeis em manejar de maneira efetiva as potenciais ameaças do cotidiano. (9)

Um exemplo?…

Um estudo realizado junto a 16 escolas de ensino médio, localizadas na Califórnia, envolvendo uma amostra de 2.500 adolescentes, estabeleceu a relação entre problemas de sono e uso de álcool e maconha.

A conclusão da investigação apontou que a cada 10 minutos extras passados da hora correta de se deitar, potencializam de 4 a 6% a probabilidade de que o adolescente  venha a consumir álcool ou drogas, exatamente como apontado no comportamento dos adolescentes. (10)

Conclusão

É possível que alguns cuidados básicos possam ajudar os pequenos a desenvolverem uma boa noite de descanso, assim como para nós também, os adultos.

Portanto, comece estabelecendo uma rotina, ou seja, é importante que todos tenham uma regularidade (horário aproximado) para dirigirem-se à cama. Lembre-se de que nosso corpo precisa de rotina.

Adicionalmente, tenha em mente a importância de celulares, computadores ou ainda televisão estarem completamente desligados quando estivermos próximos ao horário de dormir. Nosso cérebro precisa ser “informado” de que está chegando a hora de “se desligar”. Processos bioquímicos têm início nesse momento (como a liberação da melatonina, por exemplo) e que podem ficar comprometidos, se estimulados pelas luzes de telas.

E finalmente: crianças e jovens imitam o comportamento dos mais velhos, assim sendo, de nada adianta falar se não conseguimos nos tornar um bom exemplo a ser seguido.

Faça do quarto de seu filho (e por que não dizer do nosso também) um santuário, onde apenas o descanso e a tranquilidade sejam bem-vindos. Aposto que você irá sentir a diferença.

 

Referências

(1) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3551275/

(2) https://sleepfoundation.org/excessivesleepiness/how-sleep-works/how-much-sleep-do-we-really-need

(3) http://www.cerebromente.org.br/n16/opiniao/dormir-bem1.html

(4) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17118097?dopt=AbstractPlus

(5) http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2014/05/14/peds.2013-3065.full.pdf+html

(6) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2755992/

(7) http://www.ipom-org.com.br/artPesquisa.php?lang=pt-br&id=12

(8) http://www.pewinternet.org/2010/04/20/teens-and-mobile-phones/

(9) http://www.sleepmeeting.org/docs/default-source/attendee-documents/sleep-2015-abstract-supplement.pdf?sfvrsn=2

(10) http://www.rand.org/pubs/external_publications/EP50713.html

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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