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Autoestima intermitente

Dr. Cristiano Nabuco

22/09/2015 09h54

Aleksandar Mijatovic - fotolia

Aleksandar Mijatovic – fotolia

Não é novidade para ninguém ouvir dos mais velhos que as novas gerações são expressivamente diferentes das anteriores. Até aí, nada de novo, pois, ao que tudo indica, esse tipo de argumento é uma narrativa bastante corriqueira e que se repete com a passagem do tempo.

Nossos avós falavam isso de seus filhos, no caso, nossos pais e, possivelmente, eles sempre disseram isso a nosso respeito. Em minha geração, confesso que pego meus colegas e, às vezes, eu mesmo, repetindo a pregação, na tentativa de compreender algumas das condutas pouco usuais dos jovens.

Mas, excetuando o aspecto mais parodial, tenho procurado, efetivamente, refletir se nossos descendentes, de fato, teriam algo de singular que nós não tivemos.

E, após uma rápida análise, um aspecto é indiscutível: a existência da internet.

Desnecessário elencar as possibilidades quase infinitas que a rede mundial trouxe e traz às novas gerações, isto é, aproximou as pessoas, permitiu que cada um ganhasse a possibilidade de ser ouvido, estendeu a fronteira do conhecimento de maneira jamais vista e por aí vai. Bem provável que todo esse texto se mostraria insuficiente para discorrer a respeito de todas as benesses tecnológicas.

Muito bom, não acha? Entretanto, como tudo tem dois lados, o efeito colateral também não deve ser desconsiderado.

Relativo ao aspecto mais danoso, uma particularidade que salta aos olhos é a impaciência dos adolescentes. Não sei se decorrente da agilidade que a internet opera e, assim, acostuma-os a esse ritmo, eles também se tornaram muito inquietos.

Pelo menos, essa é uma das queixas mais comuns feita pelos professores nas escolas ou pelos pais no trato com os filhos. Na mídia leiga, inclusive, não deixamos de encontrar informes da presença cada vez mais marcante da ansiedade demonstrada através dos casos de déficit de atenção e dos transtornos ansiosos, tão prevalentes hoje em dia.

E, assim, a ansiedade, dia após dia, empurra-os sempre para frente, cada vez mais aceleradamente.

Além de todas as consequências já conhecidas dessa rapidez mental, uma é bastante significativa: a incapacidade de tolerar a frustação.

Não sei se antigamente as coisas eram diferentes, mas tínhamos, frequentemente, que nos deparar com as circunstâncias da vida que cobravam um adequado manuseio das situações que nos provocavam decepção e fracasso pessoal.

Assim sendo, a relação com o tempo era muito diferente.

Frente a uma adversidade, por exemplo, éramos obrigados a retornar ao ponto de partida, ou seja, começar de novo e, mais do que nunca, esperar até que o momento certo chegasse.

Eu, por exemplo, praticante de artes marciais, sabia que a mudança de uma faixa para outra (o que é indicativo de mais habilidade), levava meses e, por vezes, anos. Quanto mais tempo eu treinava, mais me apercebia a respeito da necessidade do aprimoramento da técnica, isto é, habilidades que apenas o tempo me daria. Por alguma razão que eu ainda hoje desconheço, todos nós conseguíamos esperar pacientemente o dia em que seríamos então agraciados com a faixa preta.

Creio que o exercício da frustração contínua, mês após mês e ano após ano, nos ensinava a duras penas a suportar nossas imperfeições e tentar muito, até se obter a tão esperada recompensa.

De alguma forma, imagino eu, esse exercício de paciência servia de pilar para a construção de uma boa autoestima. Quanto maior era a frustração, mais eu sabia que deveria me empenhar e aguardar o momento certo. Creio que você, leitor, em qualquer nível de sua existência, entende muito bem a respeito do que me refiro. Assim foi (e é) em quase tudo de nossa vida.

Bem, o que isso tudo tem a ver com os jovens de hoje e com a internet?

Simples, eu explico.

© Photographee.eu - fotolia

© Photographee.eu – fotolia

Quanto mais se vive no mundo virtual, menores são as chances de desenvolvermos as habilidades psicológicas necessárias, pois o fracasso no mundo digital é facilmente reparado. Basta que eu tecle em direção a uma nova experiência, mudando o jogo ou, se for da minha possibilidade, usando o cartão de crédito (de meus pais) e “comprar” novas vidas – o que me permite dar a continuidade desejada, sem que eu tenha a necessidade de manejar meu desapontamento (como aconteceria na vida concreta).

Ou seja, rapidamente e de maneira indolor, as novas gerações contornam os “problemas” de sua vida sem muito desgaste.

A partir dos princípios da Psicologia moderna, sabe-se, por exemplo, que a “tolerância” aos sentimentos negativos e de frustração é um dos maiores forjadores da boa personalidade adulta (o conhecido conceito de “resiliência humana”).

Em segundo lugar, “antigamente”, os jogos que havia na internet, ao final das partidas, inevitavelmente nos levava em direção ao “game over” (final do jogo). Entretanto, nos dias de hoje, os jogos virtuais não terminam nunca, ou seja, não há um fim visível no horizonte.

Assim, nossos jovens, ao se debruçarem cada vez mais nas realidades paralelas da internet, constroem sua autoestima apenas de maneira temporária, ou seja, são alguém e se orgulham apenas do que são do lado de lá e, quando retornam ao mundo real, possuem muito pouco de vaidade, criando assim um verdadeiro descompasso de seu valor pessoal.

Eu, seguramente, menino que fui, ostentava mentalmente minhas conquistas (podiam ser minhas faixas do Karatê, por exemplo) e sentia assim a força de superação frente às derrotas anteriores, me permitia chegar a qualquer lugar que eu desejasse (trabalho, escola ou nos relacionamentos).

É possível então que essa seja uma das explicações a respeito do porquê cada vez mais o mundo virtual atrai uma romaria de desiludidos e incompetentes, emocionalmente falando, que constroem de maneira artificial suas habilidades virtuais.

Caso se frustrem demasiadamente, em última escolha, basta que apertem o “off” para que sua contrariedade seja superada.

Bem, a essa altura, uma boa questão seria: aonde tudo isso vai levar?

Novamente, é muito claro.

Nos levará em direção a indivíduos cada vez mais autocentrados e menos capacitados para os desafios reais da vida. Pessoas poupadas das desilusões da vida e sem capacidade de acreditar em si mesmos.

Indivíduos, portanto, com uma autoestima intermitente que apenas exerce um valor nos momentos de conexão com a vida digital.

Não creio então que seja à toa que os transtornos de personalidade narcisista estejam registrando um aumento exponencial no mundo.

Seria bom pensarmos no assunto.

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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