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Diferenciando a raiva da agressividade

Dr. Cristiano Nabuco

27/05/2015 08h00

patronestaff - fotolia

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Aristóteles (384–322 a.C.), importante filósofo grego, certa vez afirmou:

“Ficar com raiva é fácil. Mas ficar com raiva da pessoa certa, no momento certo, pela razão correta e do jeito mais adequado – isso não é nada fácil.”

Assim, de um jeito ou de outro, ainda que de maneira intuitiva, compartilhamos daquilo que o pensador certa vez mencionou, ou seja, de que o manejo de nossos sentimentos não é das tarefas mais naturais.

É possível que, na verdade, esse seja um dos maiores paradoxos de nossa vida. Temos controle sobre quase tudo, isto é, dominamos a tecnologia, exploramos o fundo do mar, manejamos foguetes que nos levam a outros planetas, mas exibimos ainda um controle bastante rudimentar a respeito de nossas próprias emoções.

E isso não diz respeito apenas à Grécia antiga, mas ainda hoje é uma questão bastante atual.

Origem

Desde pequenos, somos expostos a uma série de conselhos dos mais velhos e experientes a respeito de como nos posicionarmos em várias situações de nossa vida. Ouvimos desde cedo que “ser governado pelas emoções”, por exemplo, pode vir a ser, efetivamente, complexo.

Dessa maneira, somos ensinados a “contar até dez” antes de falar, nos momentos de tensão, nunca prometer algo quando estivermos muito felizes e por aí vai, ou seja, nossa fronteira emocional deve ser tratada com certa cautela. A mensagem implícita que nos passam é que ser guiado pelas emoções pode, de certa maneira, ser bastante arriscado.

Por outro lado, também escutamos recomendações contrárias de que deveríamos ouvir mais nossas intuições e impressões internas e que, nossas emoções, de fato, deveriam ser cuidadosamente ouvidas e seguidas por nós.

Assim, é possível que nosso amadurecimento emocional transforme-se em um imenso paradoxo, isto é, devemos ter conhecimento para que, em certas situações, desconfiar de nossas emoções enquanto que, em outras, usar nossas emoções pode ser bastante útil.

E veja que essa confusão não é um privilégio de nossa infância, mas se estende por toda uma vida.

Isso faz com que, progressivamente, nos afastemos de nossos sentimentos mais primitivos e, dessa forma, tornamo-nos emocionalmente cada vez mais insensíveis às nossas reações pessoais. É incrível observar o quanto estar conectado às nossas impressões mais internas torna-se um processo altamente confuso e desordenado.

Com toda essa desorganização instalada, ficamos ainda mais perdidos. Quer um exemplo? Quando estamos enraivecidos, acabamos por nos tornar deprimidos; quando estamos amedrontados, nos tornamos frios e assim sucessivamente. Uma equação emocional completa.

Caso não seja de seu conhecimento, saiba então que nossas emoções possuem um enorme valor biológico de adaptação, isto é, ouvir aquilo que sentimos exerce uma função vital que é a de nos ajudar a sinalizar qual seria a melhor forma de agir com as situações de nosso entorno.

Entretanto, quanto mais indiferentes nos tornamos a respeito de nossa vida emocional, mais confusos ficamos e esse processo vai tornando-se cada vez mais embaralhado, pois passamos a agir de maneira automática.

Muito complicado? Vamos novamente.

A relação entre duas emoções

Quando uma pessoa experimenta determinada emoção e se sente ameaçada ou constrangida por ela, o passo seguinte será o de se anestesiá-la, como forma de manejo e de controle. Assim, as emoções primárias que são sentidas rapidamente se transformam em outros sentimentos.

É dessa forma então que as pessoas acabam ficando com medo de suas raivas, com vergonha de seus medos, ou ainda, com raiva de suas tristezas.

E isso é muito ruim, pois nos faz ficar ainda mais desorientados.

Em meu consultório recebo dezenas de pessoas em que a tristeza, a dor e o medo, por exemplo, se transformaram em raiva; o medo em frieza; inveja em raiva ou, ainda, a raiva em medo.

Portanto, esse processo de bloqueio das emoções cobra um preço altíssimo que, nos final das contas, nos empurra ainda mais para o abismo da confusão emocional.

Bem, e qual a relação então estabelecida entre a raiva e a agressividade?…

Simples! Agredimos e ficamos violentos quando, na verdade, estamos sentindo medo ou tristeza, mas raramente raiva.

Esse processo difuso de entendimento e de funcionamento emocional precário nos rouba anos de uma existência sadia, quando não, nos rouba até uma vida inteira, pois comunicamos ao outro sentimentos equivocados a respeito de nós mesmos e, dessa forma, perpetuamos ciclos de relações inafetivas.

Perceba que as construções ou relações dessas duas categorias emocionais podem ser plurais.

A pergunta mais importante então: O que fazer?…

Para você ter uma ideia da importância da compreensão dessas questões, sabe-se hoje, por exemplo, que 85% dos casos de depressão, a emoção que mais atua na manutenção desse problema é a emoção de raiva e não a tristeza, como erroneamente enfatizada por muitos profissionais de saúde.

Assim sendo, tenha sempre uma coisa em sua mente: necessariamente haverá uma equação emocional subjetiva a ser identificada por nós, caso desejemos nos compreender e assim conseguir (e vivermos) melhor.

Achar o “ponto” certo de expressar uma determinada emoção pode não ser uma tarefa das mais fáceis, pois requer atenção e treino.

Muitas vezes digo aos meus pacientes a importância de falar de sua raiva sentida, pois, na verdade, elas a veem cotidianamente confundida pelos comportamentos agressivos – e, conforme expliquei acima, uma coisa, na verdade, não tem nada a ver com outra. Sentir raiva é uma coisa aceitável e, acima de tudo muito positiva, pois a emoção nos sinaliza que fomos transgredidos e que algo precisa ser feito, entretanto, ser agressivo já não cumpre uma boa função psicológica e social. Compreende?…

Portanto, vai aqui uma dica minha como forma de se organizar e se preparar para decifrar: escreva suas emoções.

Rostislav Sedlacek - fotolia

Rostislav Sedlacek – fotolia

Pegue um pedaço de papel, escreva, por exemplo, como está se sentindo no momento em que estiver com muita raiva ou com desconforto. Descreva o que ocorreu, o que pensou, como se sentiu e, finalmente, aquilo que desejaria dizer ao outro.

No dia seguinte, pegue uma nova folha de papel limpa e escreva exatamente a mesma coisa que você fez no dia anterior, entretanto, sem consultar a primeira narrativa.

Faça isso por quatro dias consecutivos.

Você irá perceber que, na medida que monta e remonta seu texto, ela irá ampliando-se e a percepção mais imediata de suas emoções (e sua relação com outras emoções) irá tornar-se cada vez mais estruturada, deixando-o mais consciente de suas reais emoções.

Ao final, no quinto dia, sem escrever nada agora, apenas olhe a sua primeira redação e compare-a com a última. Tenho certeza de que você irá surpreender-se muito com a diferença e com a amplitude de sua descrição emocional.

Ao narrarmos nossas aflições de maneira repetitiva, vamos ampliando progressivamente nossa capacidade de nos perceber.

Essa técnica de intervenção psicológica segue a linha daquele velho ditado gaúcho ao dizer que: “é no andar da carroça, que as abóboras se ajeitam”.

Portanto, experimente e confira a eficácia desse recurso psicoterapêutico. Posso lhe assegurar que em cada emoção descoberta, um grande cenário (re)aparece.

Conclusão

Minha dica então seria: torne-se consciente de suas emoções. Ao fazermos isso, restituímos nosso controle emocional, exatamente como descrito por Aristóteles há séculos atrás.

Saiba que “cada possibilidade nova que tem a existência, até a menos provável, transforma a existência inteira”, conforme já dizia Milan Kundera.

Talvez não possamos mudar muitas das situações que vivemos, entretanto, é possível que possamos mudar a forma com que nos sentimos frente a elas.

Curamo-nos emocionalmente no exato momento em que deixamos de nos sentir vítimas da vida e de nossas próprias emoções.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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