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O efeito da exposição à violência na TV e nos videogames

Dr. Cristiano Nabuco

13/05/2015 08h00

© Piumadaquila - Fotolia

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É de conhecimento de todos que estar expostos às mais distintas situações nos cria um efeito progressivo de tolerância psicológica, ou seja, quanto mais frequentemente estivermos sujeitos a uma determinada vivência (seja ela positiva ou negativa), mais emocionalmente “dessensibilizados” nos tornaremos a ela.

Há relatos desse mecanismo que são observados desde as situações extremas vividas na guerra até aquelas onde médicos de resgate descrevem não mais se abalar com experiências de quase morte de seus pacientes socorridos.

Além disso, a maioria dos eventos de vida a que estamos sujeitos, não temos muito controle a seu respeito, certo?

Entretanto, com a perspectiva da TV e dos videogames, uma nova questão foi levantada: expor crianças à violência as deixaria igualmente mais tolerantes, a exemplo do que já acontece com outras situações?

Não sei se é de seu conhecimento, mas desde 1970 a perspectiva da imitação tem sido colocada em pauta pelo psicólogo Albert Bandura em sua “Teoria da Aprendizagem Social”. Postula ela que podemos aprender certos comportamentos através da aprendizagem vicária (ou indireta) executada por terceiros.

Portanto, nem precisaria de uma pesquisa dessa importância para nos dizer que as crianças efetivamente imitam aquilo que veem, pois isso é um fato altamente intuitivo.

Quais são os efeitos da violência exposta pela televisão?

Desde o aparecimento da televisão, pais, professores e profissionais de saúde queriam entender o impacto de programas de televisão sobre as crianças, especialmente os que traziam conteúdos recheados de violência. E, assim sendo, alguns comitês, em especial o “Surgeon General’s Scientific Advisory Committee on Television and Social Behavior” debruçaram-se sobre essa questão.

De especial preocupação, o trabalho de 15 anos de descobertas apontou “de forma consistente e perturbadora” que estar exposto a esse tipo de conteúdo cria um impacto sobre as atitudes, valores e comportamento dos espectadores mirins. O relatório resultante da investigação, somado a outro documento publicado pelo “National Institute of Mental Health”, identificou os grandes efeitos da exposição à hostilidade na televisão, a saber:

– As crianças podem tornar-se menos sensível à dor e ao sofrimento alheio;

– As crianças podem ficar mais inseguras e amedrontadas em relação ao mundo que as rodeia e, finalmente;

– As crianças podem ficar mais propensas a se comportarem de maneira mais agressivas ou hostis em relação aos demais.

©Piumadaquila - Fotolia.com

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Outra pesquisa feita pelos psicólogos L. Rowell Huesmann e Leonard Eron, dentre outros, revelou que as crianças que estavam expostas a muitas horas de violência na televisão foram as que apresentaram os maiores níveis de comportamento agressivo quando atingiram a adolescência.

E os efeitos não pararam por aí: Huesmann e Eron descobriram que os adultos que haviam sido expostos a conteúdos violentos na idade de 8 anos, se comparados a um grupo neutro, foram os que apresentaram maior propensão a se envolverem em atos criminosos na vida adulta.

Obviamente que seria ingênuo de nossa parte pressupor que a exposição a esse tipo de conteúdo na televisão seria a única responsável pela agressividade na vida adulta, entretanto, entendemos que estar sujeito a esse conteúdo pode favorecer aos jovens que já exibem essa tendência, como um elemento coadjuvante ao desenvolvimento do comportamento agressivo.

E os videogames? Qual sua relação com a violência?

Obviamente que a agressividade na televisão virou, nos dias de hoje, literalmente, uma brincadeira de crianças, se tivermos em mente o conteúdo exibido nos atuais jogos de videogames.

Diferentemente da exposição na televisão, em que não temos o controle sobre o conteúdo (posição mais passiva), nos videogames pode-se repetir a experiência quantas vezes o usuário desejar, criando assim, em tese, um aumento do efeito da anestesia emocional provocado pela dessensibilização.

Pesquisas apontam que 9,5 em cada 10 crianças, 97% dos adolescentes com idade variando entre 12-17 (nos EUA, por exemplo) divertem-se através de videogames .

Assim sendo, a respeito do efeito da exposição à violência nos games, uma revisão bibliográfica realizada em 2010 pelo psicólogo Craig A. Anderson, concluiu que “a evidência sugere fortemente que a exposição a jogos violentos é um fator de risco causal para o aumento do comportamento agressivo, cognição agressiva e, finalmente, diminuição da empatia”.

© greggsphoto - Fotolia.com

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Portanto, se já sabemos que a televisão cria efeitos negativos sobre as crianças, seria correto então afirmar que o uso dos videogames também teria o poder também de aumentar a violência entre crianças e adolescentes?

Sim, aumentam.

Meta-análises apontam para o aumento da violência e da hostilidade e dos comportamentos antissociais em função da maior exposição a conteúdos violentos dos games.

Além disso, não podemos nos esquecer do papel importante que os neurônios-espelho exercem em nosso comportamento. Você, por acaso, sabe qual é a sua função?…

Eu explico.

Quando vemos alguém fazendo algo, automaticamente simulamos a ação em nosso cérebro, ou seja, é como se nós mesmos estivéssemos mentalmente realizando aquele gesto. Isso quer dizer que o cérebro funciona como um “simulador” silencioso, ou seja, nossa mente involuntariamente ensaia toda ação que observamos em nosso entorno, deixando-nos “prontos para agir”. Essa capacidade se deve aos “neurônios-espelho”, distribuídos por partes essenciais do cérebro.

Assim, quando observamos alguém realizar uma ação (bocejar, por exemplo), esses neurônios disparam (daí o nome “espelho”) e é por isso que também bocejamos. Assim, essas células cerebrais são essenciais no aprendizado de atitudes e ações, pois permitem que as pessoas executem atividades sem necessariamente pensar nelas, apenas acessando o banco de memória individual de cada um.

Neste sentido, a mente dos jovens, que vivenciam mais violência, tende a ficar mais “exercitada” junto às ações que envolvam este tipo de atitude, pois fica mais habituada a este tipo de ação. Se formos pensar que os jovens gastarão mais de 20 mil horas nestes jogos até os 18 anos, a perspectiva não é nada saudável.

Conclusão

No caso dos dados expostos acima ainda não serem fortes o suficiente para nos fazer refletir, então saiba que o último Manual de Psiquiatria denominado DSM-5 (“Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais, 5ª edição”),  publicado recentemente, propôs a inclusão de uma nova categoria de doença psiquiátrica denominada “Internet Gaming Disorder”. Ou seja, um novo transtorno mental decorrente do uso excessivo dos videogames.

Isso sugere que os profissionais de saúde e pesquisadores do mundo todo já estão atentos aos efeitos nocivos que a exposição desmedida a esse tipo de mídia pode trazer aos nossos filhos.

Enquanto a categoria diagnóstica é estudada, seria interessante ficarmos atentos à forma com que nossos filhos “se distraem” e “relaxam” de um dia mais intenso. Sem perceber, podemos estar auxiliando que um determinado comportamento negativo seja mais facilmente instalado na cabeça de nossos pequenos.

Como profissional de saúde eu lhe diria: todo cuidado é pouco. Fique atento.

 

Referências Bibliográficas

American Psychiatry Association (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders – DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association.

Anderson, C.A., Ihori, Nobuko, Bushman, B.J., Rothstein, H.R., Shibuya, A., Swing, E.L., Sakamoto, A., & Saleem, M. (2010). Violent Video Game Effects on Aggression, Empathy, and Prosocial Behavior in Eastern and Western Countries: A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin, Vo. 126, No. 2.

Anderson, C. A., & Dill, K. E. (2000). Video games and aggressive thoughts, feelings, and behavior in the laboratory and in life.Journal of Personality and Social Psychology, Vol. 78, No. 4.

Ferguson, C.J. (2011). Video Games and Youth Violence: A Prospective Analysis in Adolescents. Journal of Youth and Adolescence, Vol. 40, No. 4.

Gentile, D.A., & Bushman, B.J. (2012). Reassessing Media Violence Effects Using a Risk and Resilience Approach to Understanding Aggression. Psychology of Popular Media Culture, Vol. 1, No. 3.

Huesmann, L. R., Moise-Titus, J., Podolski, C. L., & Eron, L. D. (2003). Longitudinal relations between children’s exposure to TV violence and their aggressive and violent behavior in young adulthood: 1977-1992. Developmental Psychology, Vol. 39, No. 2, pp. 201-221.

Huston, A. C., Donnerstein, E., Fairchild, H., Feshbach, N. D., Katz, P. A., Murray, J. P., Rubinstein, E. A., Wilcox, B. & Zuckerman, D. (1992). Big World, Small Screen: The Role of Television in American Society. Lincoln, NE: University of Nebraska Press.

Krahe, B., Moller, I., Kirwil, L., Huesmann, L.R., Felber, J., & Berger, A. (2011). Desensitization to Media Violence: Links with Habitual Media Violence Exposure, Aggressive Cognitions, and Aggressive Behavior. Journal of Personality and Social Psychology, Vol. 100, No. 4.

Murray, J. P. (1973). Television and violence: Implications of the Surgeon General’s research program. American Psychologist, Vol. 28, pp. 472-478.

National Institute of Mental Health (1982). Television and Behavior: Ten Years of Scientific Progress and Implications for the Eighties, Vol. 1. Rockville, MD: U.S. Department of Health and Human Services.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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