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Uma questão de tempo: o paradoxo da vida

Dr. Cristiano Nabuco

27/04/2015 08h00

© sakura - fotolia

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É realmente curioso notar o que acontece conosco quando nos debruçarmos sobre as distintas memórias que vivemos um dia na vida. Não sei se é seu caso, mas no meu, por exemplo, fico me perguntando a razão pela qual o tempo, em diferentes fases de nossa existência, aparenta ter distintos significados e duração.

Quando somos pequenos, é fato que os anos custam muito a passar. Nossos aniversários de infância e as festas de Natal ou de final de ano, são momentos únicos e, com eles, centenas de memórias são colecionadas desses períodos.

Recordamo-nos com detalhes das vivências que passamos, das roupas que usávamos, das pessoas envolvidas e de tudo que permeou esses importantes acontecimentos.

Sejam boas ou más, essas reminiscências de nossa primeira década passam lentas, cheias de acontecimentos e de recordações até que, finalmente, chegamos um dia à adolescência. Nesse momento, alcançar os 18 anos de idade se torna um de nossos maiores objetivos de vida.

Interessante notar que desfrutamos, nesses estágios, de um sentimento muito estranho em relação ao tempo, isto é, se antes, pouco nos apercebíamos de sua existência, agora nos aborrecemos com sua lenta e demorada passagem que, literalmente, nos desgasta. Sentimos assim que os momentos, efetivamente, não passam, o que nos permite repetida e continuadamente fazer planos a respeito do que estudar, onde um dia vir a morar, para onde viajar e, o mais importante, o que poderemos nos tornar.

De tanto imaginar e sonhar, de alguma maneira fazemos as pazes com o tempo e assim ele nos permite chegar aos 18 anos de idade.

Nessa ocasião, o que não sabemos ainda é que, passado esse período, nossa relação com a temporalidade começa a sofrer uma significativa alteração.

Os 21 anos, outro marco importante, rapidamente chegam e com eles a década dos 20 é vivida de maneira um pouco diferente daquela experienciada nas anteriores.

Não sei se já é o seu caso, mas dos 20 aos 30, o tempo já não nos aborrece tanto mais. Estamos tão absorvidos com as definições das questões afetivas e profissionais que nem mais ligamos muito a respeito de sua duração e, dessa forma, a barreira dos 30 anos é igualmente cruzada.

Nossas inquietudes pessoais, das mais variadas, nos absorvem de tal forma que dos 30 aos 40 anos, o tempo é sentido por nós com um pouco mais de agilidade. Caso você ainda não saiba, essa experiência irá ocorrer de forma cada vez mais intensa nas décadas que se seguirão até que, na terceira idade, muitas pessoas dizem que a vida, literalmente, passou “em um piscar de olhos”.

Assim sendo, não é muito difícil perceber que o tempo se apresenta a nós do início ao final da vida de forma bastante distinta ao sofrermos um verdadeiro afunilamento temporal, ou seja, lentamente vivido no início da vida, mas rapidamente sentido na vida adulta.

E a pergunta que nos seria muito oportuna é: existiria algum elemento responsável pela diferença de percepção temporal em nossa vida mental nas diferentes idades?

Desconheço uma boa resposta científica a respeito, entretanto, uma questão bem simples de ser considerada seria a quantidade de vida que carregamos em cada fase, o que resultaria em uma distinta percepção do tempo.

Eu explico.

Quando somos crianças, os eventos que passamos são carregados de tanta novidade que despertam expressiva curiosidade e atenção, uma vez que, como situações únicas de nossa história que são, delineiam momentos significativos de nossa vida. Entretanto, a medida que o tempo passa, as vivências deixam, aos poucos, de nos sensibilizar, pois passam a fazer parte da grande coleção mental de lembranças.

Um raciocínio simples que pode lhe ajudar a compreender o que estou tentando dizer seria o seguinte: imagine, por exemplo, em 7 anos de vida, a relevância e o valor que contém “cada” aniversário que passamos. Eventos únicos que nos preenchem de emoções e de vida. Todavia, com 40 ou 50 anos, a importância de “uma” simples celebração obviamente se dilui nas sucessões de tantos e tantos anos (e outras celebrações) já vividas.

Dessa forma, um dia apreciado em 50 anos de uma vida é completamente distinto da sensação extraída de um dia aproveitado em 5, 6 ou, digamos, 7 anos de idade.

Como a vida vai passando e as situações vão perdendo a força de nos impregnar do ponto de vista emocional, temos a sensação de que as situações importantes diminuem e, assim, “o tempo passa mais rápido”, uma vez que poucas são as coisas que conseguem ser fortes o suficiente para nos “marcar” de forma expressiva – o que é um processo totalmente natural e adaptativo.

O que fazer?

Uma sugestão derivada do pensamento oriental para frear um pouco a roda da vida seria o desenvolvimento daquilo que se denomina de “mindfulness”, ou seja, a capacidade de despertar a atenção ou consciência plena dos eventos que compõem nosso mundo interno, manifesto através de pensamentos, emoções e sentimentos.

Ao prestarmos mais atenção às coisas, reduzimos a velocidade sentida e, assim, a sensação da passagem do tempo de nossa existência nos devolve a capacidade de voltarmos a nos surpreendermos com as simples coisas que compõem o cotidiano. A meditação, por exemplo, é tida como um poderoso exercício nessa direção. Uma outra sugestão? Faça apenas uma coisa de cada vez, colocando toda a sua atenção.

Ao fazermos isso, exercemos um tipo de controle sobre a aceleração temporal e voltamos então a sentir a vida com nossos próprios olhos e com nosso próprio coração, desanestesiando-nos.

“O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas (…) ou existe imutável e nele nos transladamos” – Clarice Lispector.

Conclusão

Se o tempo existe ou não, de fato, isso talvez pouca importância tenha no carrossel da vida. O que, na verdade, importa é que consigamos utilizar esse lapso temporal de nossa consciência plena para nosso melhor aprimoramento pessoal.

Na verdade, se formos pensar bem, tudo é realmente apenas uma questão de tempo. Depende absolutamente de nós, decidir como passar por ele.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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