Dr. Cristiano Nabuco

O efeito paradoxal da internet

Dr. Cristiano Nabuco

© Wrangler - fotolia

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Desnecessário gastar tempo aqui, abordando os efeitos positivos que a tecnologia trouxe e traz à nossa vida. Possivelmente você nem estaria lendo meu blog neste momento, além de uma série de outras coisas já tão comuns ao se tornar parte de nosso cotidiano.

Em função da internet, encurtamos as distâncias ao nos comunicarmos de maneira sistemática com as pessoas (conhecidas ou não), visitamos centenas de websites que nos esclarecem e nos orientam, pesquisamos e adquirimos bens de consumo, conhecemos lugares, apaixonamo-nos, brigamos, enfim, tudo o que acontece na vida real, também tem seu lugar assegurado na existência virtual.

Efetivamente, vivemos um segundo mundo.

Embora as conexões da internet nos ofereçam um sem número de possibilidades, elas também nos permitem experienciar muitos de seus efeitos colaterais, como a dependência da internet, aumento do isolamento, problemas de aprendizagem dos alunos junto às suas respectivas escolas (despreparadas, por sinal), que introduzem a tecnologia de maneira precipitada, o uso abusivo das redes sociais por jovens etc.

Fazendo um rápido balanço e tendo em mente os benefícios, subtraídos dos malefícios, no final das contas, coloco uma importante questão: poderíamos dizer que tornamo-nos melhores enquanto pessoas? Ou ainda, arriscaríamos considerar que nossa vida, de fato, se beneficiou com a onipresença da tecnologia?…

Dar um palpite aqui seria o mesmo que tentar discutir política, ou seja, inevitável, mas igualmente inconclusivo.

Do ponto de vista lógico – falo aqui do conhecimento concreto -, seria ingenuidade dizer que fomos prejudicados. É mais do que evidente que nossa vida foi muito beneficiada.

Entretanto, como tudo na vida, há sempre dois lados a serem considerados.

Como profissional de saúde, devo dizer que tenho testemunhado continuadamente que na esfera da vida privada, nossas capacidades, talentos e possibilidades estão, a cada dia, desidratando.

Ficamos mais isolados em nosso trabalho, ao fracionar a concentração exigida pelas demandas corporativas e, por outro lado, nossos gadgets. Em nossa vida privada, quando junto à nossa família, alternamos a atenção entre nosso grupo afetivo e os tablets ou laptops que nos acompanham do início ao final do dia. Nas academias, os alunos que antes disputavam um lugar no reflexo no espelho, agora possivelmente destinam mais cuidado para seus celulares. Nossa vida recreativa? Simples, basta apenas dar uma olhada no que acontece em bares, teatros, restaurantes, aeroportos ou até mesmo nas praias.

Quase todos vivendo absortos e desatentos.

© Photographee.eu - fotolia

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Moral da história: sim, profundamente mais conectados, embora para que isso seja atingido, sacrificamos as experiências da vida real. Com isso, nosso senso de presença mudou-se para outra dimensão. Estamos aqui presentes, mas também não estamos mais.

Razão e emoção nas trilhas do mundo virtual definitivamente não coabitam.

Assim, é possível que estejamos nos tornando cada vez mais preparados em função do convívio e da exposição sistemática à tecnologia, entretanto, não seria insensato dizer que nossa vida psicológica, em muitos casos, está sofrendo um encolhimento pelo efeito Tinder, Facebook, Viper, WhatsApp etc.

No local onde deveríamos manejar as frustrações, desejos e inquietudes, ergue-se um mundo paralelo de engessamento e de simplificação emocional.

O preço disto?…

“Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas”, Albert Einstein.

Este é o grande paradoxo da internet.