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Como é sua personalidade eletrônica?

Dr. Cristiano Nabuco

05/03/2014 09h00

© Torbz - Fotolia.com

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De acordo com várias pesquisas, é cada vez maior o número de pessoas que usa a internet para os mais diversos propósitos – o que, evidentemente, não é nenhuma novidade. Para se ter apenas uma ideia, uma pesquisa americana conduzida pela University of Southern California revelou que 96% dos americanos usam cotidianamente os serviços de e-mail, enquanto que 71% surfa na net sem qualquer propósito específico. E os membros das redes sociais? Bem, estes, com algumas poucas exceções, aumentaram de maneira exponencial ao redor do mundo.

Na medida em que o tempo passa e as interações pela internet aumentam, aumentam também as possibilidades de criação de uma identidade distinta daquela que temos na vida real: a personalidade eletrônica (ou a e-personalidade, se você preferir).

A personalidade eletrônica

Embora ela não seja real, esta identidade eletrônica é cheia de vida e de vitalidade e não é afetada pelas velhas regras de comportamento, trocas sociais e pelas etiquetas tão conhecidas (e praticadas) por nós no cotidiano.

Essa e-personalidade é mais assertiva, menos contida, mais desobediente e, decididamente, mais sexualizada, pois atua no limite de nossas crenças e valores. Segundo alguns, a e-personalidade age como uma força que libera os indivíduos a transcenderem suas limitações da vida real como, por exemplo, nos casos de timidez excessiva, ao permitir que as inibições possam ser superadas. Assim, a personalidade eletrônica possibilita, muitas vezes, uma oportunidade para que as vivências da vida virtual possam se sobrepor às limitações encontradas no cotidiano – o que dificilmente seria possível em outras situações da vida.

Em muitos casos, essa versão virtual complementaria a personalidade real ao atuar como uma extensão de nossa persona. Tal desenvoltura, inclusive, poderia ser entendida como um modelo “recriado” (ou melhorado) de nós mesmos ao oferecer um senso de maior eficiência interpessoal. Sem intenção específica e de maneira inconsciente, assim emerge um estilo de ser mais feliz e mais poderoso, conduzimos muitas das questões pendentes em nossa vida real. Efetivamente, essa e-personalidade funciona com um “terceiro braço”.

O perigo da e-personalidade

Com isso em mente, fica clara a razão pela qual uma parcela expressiva dos internautas prefere viver na internet à vida real. Lá, eles “conseguem” ser alguém, além de terem uma autoeficácia até então não encontrada em sua vida concreta.

Imagine, entretanto, no caso dos jovens que naturalmente vivem períodos de insegurança (característica da própria idade, diga-se de passagem), o que a e-personalidade poderia fazer com cada um?…

Em tempos de internet e de conexão virtual, a vida digital pode ser libertadora, claro, mas igualmente aniquiladora, pois muito facilmente pode se transformar em uma muleta eletrônica, engessando nossas deficiências concretas.

Portanto, sempre haverá um custo desta reinvenção biográfica virtual.

Conclusão

Antes de disponibilizar a internet para seus filhos, pense bastante nisso. Você pode, sem saber, estar prestando um desserviço a eles, dependendo de como seja sua personalidade da vida real. Vamos lembrar que todas as formas de fantasia mental podem ser boas, pois podem servir como “aquecimento” para a mudança psicológica, entretanto, saber diferenciar o real do imaginário é vital – o que dificilmente jovens conseguem fazer.

Agora, falando um pouco de você: por acaso existe uma versão eletrônica de sua personalidade?… Você sente sua personalidade on-line mais interessante do que sua personalidade off-line?… Se sua resposta for positiva,  exatamente aí que mora o perigo.

Vamos lembrar que o custo de ser tão feliz e tão poderoso(a) na internet pode ter um alto preço. Conflitos na família, no trabalho e nas relações pessoais são alguns dos impactos já observados como o resultado do sucesso eletrônico.

Sherry Turkle, autora da obra intitulada Alone Together, afirmou que na verdade “somos sozinhos, mas receosos de desenvolver a intimidade”. E conclui ao dizer que “as conexões digitais podem nos oferecer a ilusão da companhia, sem as demandas de uma verdadeira amizade”.

A pergunta que fica então é a seguinte: pessoalmente estamos nos beneficiando com as e-personalidades ou no final das contas estamos nos distanciando cada vez mais daquilo que realmente somos? Para pensar…

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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