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Você está dependente de seu telefone celular?

Dr. Cristiano Nabuco

22/01/2014 09h00

© Robert Kneschke - Fotolia.com

© Robert Kneschke – Fotolia.com

A dependência de celular tem surgido como tema recorrente na mídia nos últimos anos e vem atraindo a atenção de clínicos e pesquisadores no mundo todo. Você já deve ter percebido que hoje um simples aparelho celular se aproxima muito mais de um computador pessoal do que o telefone propriamente dito na forma que originalmente o conhecíamos.

Veja que um simples aparelho pode servir como máquina fotográfica, filmadora, dar acesso a redes sociais, ser um despertador, calculadora, rádio, guardar as músicas preferidas, ser um GPS, mandar e receber e-mails, isso sem falar nos inúmeros jogos e aplicativos de diversão, ou seja, um verdadeiro portal pessoal.

Para se ter uma ideia de quanto esse aparelho entrou em nossa vida, segundo algumas pesquisas, ele é o objeto mais oferecido por pais a bebês (para que os mesmos possam se acalmar), vindo à frente, inclusive, da mamadeira e da própria chupeta. Hoje, estima-se que o número de assinantes de telefonia móvel tenha atingido a marca de 5.9 bilhões no mundo, com uma população atual de 7 bilhões de pessoas, ou seja, o telefone celular já se faz presente em lugares onde a água potável e o saneamento básico ainda não chegaram.

E se você ainda não sabe, isso já está criando sérios problemas.

O comportamento descrito pela dependência de celular foi recentemente nomeado de “nomofobia” (do inglês, “no mobile phone”). O termo refere-se ao desconforto apresentado por indivíduos quando estão fora de contato com seus aparelhos celulares, isto é, pelo medo de tornarem-se “tecnologicamente incomunicáveis”.

A força desta “ligação” é tão grande que algumas pessoas, quando longe de seus aparelhos, descrevem sentir muita ansiedade ou mal-estar enquanto outros, inclusive, chegam a apresentar um sintoma chamado “toque fantasma” (dizem que “ouviram” seu telefone tocar) ou ainda dizem ter “sentido” que o mesmo vibrou (por ter recebido alguma mensagem de texto) sem que isso tenha, de fato, ocorrido.

Embora a dependência de telefone celular ainda não seja uma doença oficialmente reconhecida, o uso excessivo já desperta muita preocupação de clínicos e pesquisadores. Para você ter uma noção, um estudo publicado na Tailândia, com 10.191 adolescentes com idade entre 12 e 19 anos, concluiu que quase metade desses indivíduos (48.9%) reportaram ter tido ao menos um dos sintomas relacionados ao uso problemático de telefone celular, tendo 16.7% reportado quatro ou mais sintomas. Destes, a incrível marca de 97.8% apresentaram alguma disfunção em razão da dependência de telefone móvel.

Bem, e no Brasil? Números indicando um alto uso podem ser também encontrados por aqui. O Estudo ‘Mobilidade Brasil 2008’ avaliou como o telefone celular mudou a vida e os costumes dos brasileiros. Mil indivíduos de todas as classes sociais e de ambos os sexos com ao menos 16 anos de idade foram entrevistados em 70 cidades brasileiras, incluindo nove regiões metropolitanas.

O resultado revela que 18% dos entrevistados reportam serem viciados em seus aparelhos celulares. As representantes do sexo feminino (21%) e os jovens com idade entre 16 e 24 anos (23%) se revelam os mais viciados em seus celulares.

Critérios Diagnósticos

E se você ficou curioso para saber se é dependente, veja alguns critérios que usamos para diagnosticar um possível problema:

1)     Saliência cognitiva: Quando o uso do telefone celular domina os pensamentos e comportamentos de uma pessoa, ou seja, quando ela pensa e faz coisas  sempre com a possibilidade de usar o celular;

2)  Alteração do humor: Quando o indivíduo utiliza o celular, experimenta uma       sensação de prazer, euforia ou alívio;

3)  Tolerância: A pessoa necessita passar cada vez mais tempo usando o celular para obter o mesmo prazer obtido anteriormente com o uso;

4)  Sintomas de abstinência: Quando o sujeito se encontra impossibilitado de  usar seu telefone celular, experimenta um grande desconforto emocional;

5) Conflito: O uso do celular criando conflitos com outras pessoas (em geral pessoas mais próximas, como cônjuge e/ou familiares), como também gerando problemas com outras atividades do cotidiano e, finalmente:

6) Recaída: Ocorrendo quando o sujeito apresenta tentativas mal sucedidas de diminuir o uso do celular, voltando a usar o telefone celular com a mesma frequência ou, por vezes,  aumentando ainda mais o tempo de uso.

Conclusão

Entendo que ainda estamos totalmente despreparados para lidar com a inclusão maciça da telefonia celular em nosso cotidiano. E não precisamos ir longe. Nas escolas, apenas para dar um exemplo, são inúmeros os problemas vivenciados por professores e diretores em suas tentativas de controlar ou regular o uso inadequado por parte dos alunos.

Grande parcela da população (jovens, principalmente) dorme acompanhada de seus celulares e acorda despertada pelos mesmos equipamentos (ah, e não saem da cama até que sua rede social seja acessada).

Enfim, a tecnologia é ótima desde que usada de maneira razoável. É bom ficarmos atentos.

Resumo da ópera: Desconecte-se.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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