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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Celulares: a irritação constante para o cérebro

Dr. Cristiano Nabuco

15/01/2014 09h00

 

© kojikoji - Fotolia.com

© kojikoji – Fotolia.com

Se você já teve que ler um parágrafo de texto por mais de 10 vezes é porque a pessoa que está sentada ao seu lado (pode ser no metrô, ônibus, café, padaria ou até no restaurante) está falando constantemente ao celular.

E, posso dizer?… Bem-vindo ao "clube" nada seleto de pessoas incomodadas que cresce a cada dia.

Uma pesquisa americana mostra que conversas ao celular são, de longe, um dos sons mais irritantes do mundo moderno. De acordo com os pesquisadores, nada incomoda mais alguém do que ouvir um diálogo parcial de um desconhecido.

Na pesquisa, um grupo de participantes tinha que inicialmente fazer algo simples como, por exemplo, ter que completar palavras cruzadas. Na primeira vez eles faziam isso em completo silêncio e, na segunda, eram expostos simultaneamente a conversas de terceiros ao celular.

Os resultados?… Os participantes lembravam mais das conversas que ouviam ao redor do que das palavras cruzadas (incompletas por sinal).

Isso quer dizer que ouvir apenas uma parte de uma conversa, que nos parece sem pé nem cabeça, deixa nosso cérebro extremamente estressado, pois ele tenta unir informações que não sabe ainda por completo – um mecanismo mental que busca finalizar significados inacabados.

Bem, mas se a conversa ao nosso lado fosse entre duas pessoas presentes, qual seria o resultado? Mais estresse? Não, muito pelo contrário. Nesse caso nosso cérebro consegue entender o que é falado, "dando sentido" e fazendo com que progressivamente nos desliguemos desse estímulo.

Portanto, ouvir diálogos disruptivos ao nosso lado (aquele onde você só ouve um lado da conversa) tem o poder de embaralhar algumas funções cognitivas de nosso cérebro.

"Meiálogo", o meio diálogo

Ocorre que, quando ouvimos somente uma parte da conversa, nossa atenção fica ligada e "presa" ao suposto diálogo, imaginando o contexto que levou àquela determinada fala (ou o que a pessoa do outro lado da linha teria dito).

E, como tudo rapidamente ganha um nome, aqui não poderia ser diferente: Esse processo já tem um nome em inglês: "halfalogue" (uma tradução aproximada seria "meiálogo", ou seja, um meio diálogo). A palavra já ganhou até um verbete explicativo no NY Times.

De acordo com os pesquisadores americanos, o estresse causado por esse tipo de evento é similar ao de esperar um trem que se atrasou ou de estar preso em um lugar sem poder sair.

Os pesquisadores americanos concluem dizendo que, aos poucos, precisamos ensinar nosso cérebro entender esses "halfalogues" ou "meiálogos" como eles são: apenas um ruído.

Assim sendo, na próxima vez que ouvir uma conversa de alguém ao celular, ao invés de ficar irritado, tente exatamente o oposto: aprenda a associar esses eventos a tantos outros de nosso cotidiano, ou seja, tente treinar seu cérebro. Você já faz isso sem perceber com o barulho do trânsito (que progressivamente irrita cada vez menos quem mora perto de avenidas ou ruas movimentadas), por exemplo.

É a tecnologia também nos criando alguns problemas modernos ou, se você preferir, desafiando nossos princípios biológicos mais antigos.

 

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!