Dr. Cristiano Nabuco

Pessoas que se arriscam demais: um problema moderno?

Dr. Cristiano Nabuco

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É fato observamos hoje em dia (e com relativa frequência) pessoas se engajando em comportamentos agressivos, condutas antissociais e, principalmente, se arriscando em excesso. Não é tão raro encontrar alguém que faz coisas muito perigosas e que, de maneira deliberada, aparenta não pensar muito nas consequências de seus atos.

Algumas delas, se questionadas, vão responder que não gostam de ter uma vida muito previsível e que, sem alguma “dose de adrenalina”, a vida seria bastante chata. Assim sendo, sem muito pensar, bebem em demasia, usam drogas de forma descontrolada, adotam condutas temerosas ou ainda não hesitariam em comprar uma boa briga apenas para não ter que “levar desaforo para casa”.

Portanto, aparentemente, essas pessoas sabem o que lhes faria mal e apesar disso continuam a viver desta maneira.

Viver a vida perigosamente já tem um nome em inglês e se chama “risk-taker”. Indivíduos que exibem comportamentos impulsivos e que se expõem a ameaças constantes sem muito se preocupar. Veja que não estou falando de pequenos riscos diários, mas nas condutas efetivamente ousadas.

Apesar de ainda não haver alguma classificação psiquiátrica que os defina, tais indivíduos são vistos com bastante frequência nos serviços de saúde que, inclusive, já os identificaram em número crescente.

Muitas poderiam ser as explicações possíveis, entretanto, algumas pesquisas afirmam que isso não seria apenas um comportamento isolado, mas, na verdade, um traço de personalidade.

Agressivos e sem noção do perigo

Você já deve ter visto facilmente um motorista que insiste em andar em velocidades altíssimas nas ruas da cidade (inclusive em dias de chuva) ou então naqueles que não pensam em outra coisa além de praticar esportes radicais ao extremo, sem ligar muito para a segurança de sua vida.

Pesquisadores acreditam que esse tipo de comportamento seja uma mistura de fatores genéticos e ambientais. E apesar desse tipo de personalidade ser bastante perigosa, acredita-se haver também algum componente evolutivo, ou seja, esses indivíduos seriam supostamente os descendentes mais “corajosos” de nossos antepassados e que teriam assim também dado sua contribuição à raça humana.

Vamos lembrar que sempre se cultuou o herói, isto é, aquele que dá provas de sua masculinidade e virilidade, desfrutando assim de uma renovada honra, como forma de alavanca social.

Mas afinal, o que seria um comportamento de risco?

O comportamento de risco é uma atitude de procura pela excitação da novidade e pelas emoções intensas que as acompanham. Essa incansável busca por sensações únicas, que podem ser físicas ou psicológicas, faz com que a inibição e o controle dos impulsos fiquem prejudicados. Os antissociais crônicos – especialmente aqueles indivíduos brigões, mais hostis e violentos – possivelmente também entrariam nesta classificação.

Alguns psicólogos ligam o comportamento de risco ao neuroticismo, um traço de personalidade que acompanha a neurose e a ansiedade, enquanto outros sugeririam que a hiperatividade e falta de foco poderiam estar também presentes nessa procura pela novidade, ainda que perigosa.

Vício em adrenalina?

Outro fator interessante é que diversos estudos científicos já começam a refutar a ideia popularmente aceita de que algumas pessoas se viciariam em adrenalina, o hormônio liberado durante situações de estresse. Frente às situações de ameaças, se manifesta um mecanismo biológico que nos faz “lutar ou fugir” das situações de perigo. Entretanto, ainda não se encontrou nenhuma evidência de que as pessoas ficariam viciadas em adrenalina.

O que pode haver, portanto, é uma mistura de questões psicológicas e ambientais e uma genética mais disposta ao enfrentamento do perigo, isto é, mais ênfase nos aspectos da luta (mesmo que fatal em certos casos) do que da fuga destas mesmas situações.

Outro componente provavelmente envolvido na personalidade de risco seria uma menor atividade (ou ainda a presença de alguma lesão) na amígdala cerebral. Vamos lembrar que a função da amígdala cerebral é funcionar como uma espécie de alarme que desencadeia reações de proteção em caso de alguma situação ser percebida como perigosa. Assim sendo, menores níveis de medo fariam os indivíduos serem mais arriscadores, por perceberem de forma parcial os riscos implicados em uma determinada situação.

No geral, é interessante notar que esse tipo de comportamento, ao invés de ser observado de forma isolada, vem sendo cada vez mais percebido em nosso cotidiano. Em uma sociedade imediatista e ansiosa como é aquela em que vivemos, provavelmente pessoas com maior inclinação a correr riscos desfrutem, momentaneamente, de maior valorização social. Lembre-se que pessoas mais “ousadas” podem facilmente se passar como mais arrojadas e seguras. Inclusive, há treinamentos hoje em dia que prometem transformá-lo (a) em um risk-taker, será?

Conclusão

Perceba então que quanto mais impulsivo eu me torno, menos tempo tenho para avaliar as reais dimensões de uma determinada situação. Assim, é provável que ganhemos na velocidade, mas não na qualidade de nossas ações, aumentando as chances de erro.

Portanto, mais importante do que classificar uma pessoa como risk-taker, é darmos atenção aos comportamentos que possam trazer uma ameaça real a nós mesmos e aos outros. Afinal, se correr mais riscos é algo que faz parte da evolução humana, adaptar-se às novas situações e aprender a contorná-las, seguramente é um fator decisivo em nossa sobrevivência.

Lembre-se, entretanto, de que cada caso é um caso e muitas pessoas não se controlam efetivamente e assim andam no fio da navalha, enquanto outras simplesmente escolhem não se controlar. Tente responder a essa questão e caso se enquadre no tipo sem controle, é provável que você precise de ajuda profissional.

Vincent Van Gogh, no séc XIX, já dizia: “grandes coisas não se fazem por impulso, mas pela junção de uma série de pequenas coisas”.