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O uso da internet como fuga da realidade

Dr. Cristiano Nabuco

02/08/2013 07h00

© ArtFamily – Fotolia.com

Muitas pessoas acreditam que usar a internet consiste em poder usufruir dos recursos tecnológicos que estão disponíveis por aí. Assim, aprendemos a navegar por trabalho, buscar informações, procurar por produtos desejados e, finalmente, conseguir acessar nossa rede social preferida.

Entretanto, o uso saudável da internet não é apenas uma das funções que a rede mundial pode nos propiciar. Pesquisas indicam que usar a tecnologia e os computadores de forma patológica pode ser também mais frequente do que se pensa. Assim, dependendo do país, cerca de 40% das pessoas já estariam dependentes da internet, o que é uma marca bastante expressiva. Imagine então que, nestes casos, a cada 10 pessoas, quatro já estariam dependentes da tecnologia, sem saber.

Internet como anestesia pessoal

Dependendo do estado de humor dos internautas, o uso constante da internet pode ser nada mais do que uma maneira de se “automedicar” emocionalmente e de se distrair dos problemas pessoais.

Pode não parecer tão óbvio assim, entretanto, à medida que experimentamos certas doses de sofrimento e de angústia, buscamos, sem perceber, atividades que nos distanciam das dificuldades cotidianas. Desta forma, a internet se torna uma porta de fuga alternativa, permitindo-nos anestesiarmo-nos de nós mesmos e da realidade conflitante.

Pense comigo: pessoas que são mais introvertidas podem facilmente achar companhia através das redes sociais, pois não enfrentando as dificuldades e a ansiedade das interações cara a cara, sentem-se mais protegidas através das conexões virtuais.

Imagine, por exemplo, aquela outra pessoa que se sente mais insegura. Note que, através das salas de bate papo, ela pode experimentar formas alternativas de contato e, desta forma, ganhar progressivamente mais segurança que não teria na vida real. Até aqui tudo bem, pois a internet estaria efetivamente lhe ajudando. Entretanto, o problema ocorre quando este usuário não consegue levar essa “nova” forma de convivência para a vida real, tornando-se cronicamente dependente desta maneira de se relacionar.

Pensemos agora naqueles jovens que não se sentem socialmente aceitos por se sentirem muito tímidos. Através dos jogos interativos, eles podem se tornar mais habilidosos (e interessantes) do que são na vida real, assegurando assim uma valorização que não possuem ainda, obtendo finalmente o tão sonhado reconhecimento social.

Perceba, portanto, que o problema não é a internet em si, mas quando a solução dos problemas se tornam restritos ao mundo virtual, fazendo com que as pessoas (agora dependentes) apenas se sintam bem-sucedidas nas realidades paralelas criadas pela internet.

Portanto, aqui vai uma pergunta: quem destas pessoas iria desejar voltar para a vida concreta onde a insegurança, solidão ou pouco reconhecimento social são características tão presentes?

Obviamente que ninguém e, neste momento, um enorme grupo de pessoas literalmente troca as experiências da vida cotidiana pelas da vida cibernética, ficando assim aprisionados nos ambientes virtuais de sucesso e de reconhecimento, enquanto simultaneamente perpetuam suas inabilidades com o mundo real.

Conclusão

Por isso é que se torna tão importante aprendermos cada vez mais a ter contato com nossas pendências pessoais, pois qualquer experiência positiva pode facilmente roubar a atenção das questões ainda não resolvidas.

Isso vale não só para a dependência da tecnologia, mas também para o uso abusivo de álcool e drogas, jogo patológico, compras compulsivas, bulimia nervosa, apenas para citar alguns exemplos. Essas patologias oferecem, como parcela de seus mecanismos, graus diferentes de esquiva das experiências negativas e a busca de situações que sejam mais prazerosas e de melhor manejo.

Nunca se esqueça de que a realidade muda rapidamente e com ela a necessidade de nos adaptarmos. Um antigo psicólogo americano chamado Michael Mahoney sempre me dizia: “precisamos mudar continuadamente para permanecermos os mesmos”.

Assim sendo, aprenda a se desconectar da internet e, aos poucos, voltar a se conectar com você mesmo.

Finalmente, observe sua história e procure mudar aquilo que não lhe agrada. Depois de algum tempo, tentar anestesiar a realidade pode não ser tão interessante assim.

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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