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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

A falta de privacidade na internet

Dr. Cristiano Nabuco

12/07/2013 07h00

As revelações recentes a respeito do governo americano espionando as informações pessoais de milhares de pessoas na internet ainda devem estar frescas em sua mente. E o que todos andam comentando é a necessidade de ficarmos atentos, cada vez mais, àquilo que postamos de nossa vida pessoal na web e como, ao mesmo tempo, assegurar que essa privacidade seja mantida.

© Images.com/Corbis

Primeiro, é preciso entender a privacidade do ponto de vista legal, ou seja, o que é apenas seu e que permanece totalmente sob seu controle, sem interferência de qualquer outro intermediador, como as redes sociais ou o Estado, por exemplo.

Mas há outra questão ainda mais profunda, ou seja, o inverso do que um artista desfruta quando passa a ser chamado de "figura pública". Nesta condição, há uma grande interferência a respeito do que os fãs esperam que essa pessoa seja e isso pode moldar, em parte, o que ela irá fazer.

No primeiro caso, quando exercemos nossa privacidade, controlamos a imagem que desejamos passar ao mundo enquanto que, no segundo, as figuras públicas já perderiam um pouco deste manejo.

Entretanto, a separação que acabo de fazer entre você e uma pessoa muito conhecida talvez não esteja tão correta assim, mas eu explico.

Janelas abertas

Se formos olhar para a internet e para as redes sociais como uma nova janela para o mundo, é possível que a utilizemos então, sem perceber, como uma forma alternativa de promoção social.

Assim, embora tenhamos a percepção de que apenas postamos o que desejamos, na verdade, raramente encontramos pessoas sendo integralmente honestas a seu respeito, isto é, falando de suas alegrias e também de frustrações profissionais, seus sucessos e igualmente de seus fracassos, suas seguranças, bem como suas inseguranças. Veja que todos na internet são sempre felizes, realizados e plenos.

Portanto, aquilo que pensávamos que poderia nos diferenciar das figuras públicas, na verdade, não existe, pois também acabamos ficando reféns das expectativas dos outros na web. Assim, quanto maior o número de "curtidas" que uma pessoa recebe, maior será seu senso de aceitação social, ou seja, também passamos a esperar reconhecimento, valorização e admiração, exatamente como as figuras publicam também o fazem.

Isso acaba por criar um modelo de exposição pessoal baseado apenas na aprovação.

Ao que tudo indica, nos tempos de hoje, embora procuremos desesperadamente ser nós mesmos, buscando produtos customizados ou agindo de maneira que nos façam ser diferentes, na verdade continuamos nos comportando igual a todos, o tempo todo.

Portanto, antes mesmo de sermos vigiados por governos, somos nós, em última instância, que nos corrompemos a nós mesmos, oferecendo de maneira inadvertida nossa intimidade ao mundo como moeda de troca.

E pensar que ainda tem gente que se surpreende ao saber que é espionado na web.

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!