Dr. Cristiano Nabuco

Você consegue ficar uma hora por dia longe da tecnologia?

Dr. Cristiano Nabuco

Corbis

Vivemos uma realidade que, de fato, tem mudado de maneira significativa. Um dos pontos centrais de toda esta transformação, sem dúvida alguma pode ser atribuído ao nosso acesso à tecnologia. Em uma época em que estar conectado virou algo normal – no computador de casa ou do trabalho, pelo laptop, smartphone ou tablet, – a tecnologia se tornou parte de nosso dia-a- dia. Quase tudo pode ser feito através desses equipamentos.

Você já deve ter percebido que o telefone celular que carregamos no bolso é ao mesmo tempo GPS, rede social, máquina fotográfica, filmadora, armazena suas músicas, permite acesso à internet, envia mensagens, é um despertador, ou seja, temos à disposição de nossas mãos um verdadeiro portal pessoal. Entretanto, esta funcionalidade toda começa a nos trazer alguns problemas. Você já percebeu isso?

Veja só: segundo a Anatel, o número de linhas celulares habilitados no Brasil chegou a 263 milhões em 2013. Isto quer dizer que há mais linhas do que habitantes. E, por acaso, você acha que isso ocorre apenas aqui? Curiosamente, não. Em uma população mundial com 7 bilhões de pessoas, já se registram 6 bilhões de celulares ativos, ou seja, o telefone celular já chegou a lugares deste planeta onde a água potável ainda não se fez presente. Uma matéria publicada na BBC nesta semana deu conta de que em 2013 serão enviadas cerca de 71 bilhões de mensagens instantâneas por dia (50 bilhões por WhatsApp e 21 bilhões por SMS).

Na Tailândia, para citar outro exemplo, uma pesquisa envolvendo 10.191 adolescentes de 3 cidades e com idades variando entre 12 e 19 anos, concluiu que 48.9% reportaram ter tido ao menos 1 dos sintomas relacionados ao uso problemático de telefone celular.

Difícil controlar o que está disponível em qualquer lugar

Estudos mostram que os usuários excessivos não só se distraem com extrema facilidade com seus celulares, como também apresentam dificuldade em controlar o tempo gasto. Indivíduos que fazem uso excessivo de telefones móveis apresentam também problemas interpessoais e, em especial, algum tipo de deteriorização da vida familiar onde, com frequência, essa pessoa atende chamadas e/ou mensagens de texto, ignorando a conversa com os outros membros da família. Não sei se você sabe, mas isso também tem criado problemas nas empresas. A troca de mensagens eletrônicas através do celular aumenta a percepção da carga de trabalho entre os funcionários.

Tamanha é nossa necessidade de estar conectado que o medo de não participar da vida on-line ou de não ter como se comunicar através de um aparelho de comunicação móvel, ganhou um nome. A palavra é nova e veio do inglês: “no mobile” ou algo como “No-Mo” (+ “phobia”), que se transformou em nomofobia ou o medo de ficar sem acesso móvel.

Tecnologia e a experiência de fluxo

E as coisas não param por aí. Você já se perguntou a razão pela qual as pessoas perdem a noção do tempo quando estão manuseando seus celulares? É fácil perceber isso em restaurantes, aeroportos, cinemas ou salas de aula. Isso ocorre, pois os usuários adentram em um estado de consciência alterado e a isso se chama “experiência de fluxo”. Tal vivência ocorre quando fazemos algo que é muito prazeroso e, ao mesmo tempo, gratificante. Dançarinos, jogadores de xadrez, alpinistas, cirurgiões e todos aqueles que expressam grande devoção em uma atividade de sua preferência podem experimentar esta sensação. No caso do uso da tecnologia (navegar na internet ou usar o celular), pode ocorrer exatamente o mesmo.Certas tecnologias nos possibilitam isso, pois nos oferecem a possibilidade de viver uma infinidade de experiências e sensações nas quais o usuário desfruta de estado progressivo de contemplação, atingindo então o que afirmam ser a ''experiência ideal''. Sentimos que o tempo passa mais devagar, e assim as pessoas gastam com os seus eletrônicos mais tempo do que o inicialmente planejado. É por esta razão também que muitas pessoas se tornam “dependentes da tecnologia”, pois percebem que ao usar os eletrônicos, podem atingir esse estado maior de bem-estar consigo mesmos, afastando-se temporariamente de seus problemas e de suas aflições pessoais.

Sherry Turkle, autora da obra intitulada Alone Together afirmou que na verdade “somos sozinhos, mas receosos de desenvolver a intimidade”. E conclui ao dizer que “as conexões digitais podem nos oferecer a ilusão da companhia, sem as demandas de uma verdadeira amizade”. A pergunta que fica então é a seguinte: pessoalmente estamos nos beneficiando deste progresso tecnológico ou, na verdade, estamos pagando um alto preço ao, digamos, nos distanciarmos de nós mesmos?

Veja que não estou falando mal da tecnologia, mas da forma com que a temos utilizado. É possível que ela (a tecnologia) ofereça menor risco, se comparada às relações humanas.

E você, o que tem a dizer a respeito?… Seria bom pensar no assunto.

Minha sugestão: faça dos meios digitais apenas mais uma forma de usufruir das vantagens tecnológicas e não o único espaço para se obter boas experiências. Tente não substituir as experiências de sua vida real pelas da vida virtual e, se possível, procure estar atento parar não sacrificar sua conversação pelo mero desejo de conexão. A tecnologia ao mesmo tempo em que nos conecta, também pode nos isolar.

Ah, ia esquecendo, uma hora por dia sem checar seus eletrônicos já seria um excelente começo!