Dr. Cristiano Nabuco

Porque sofremos tanto

Dr. Cristiano Nabuco

ellagrin - fotolia

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Curioso notar a quantidade de situações em nosso cotidiano que nos fazem sair do ponto de equilíbrio. Desde as mais simples circunstâncias às mais complexas, sempre haverá um ponto de ligação que é, diga-se de passagem, um dos elementos centrais à manutenção da condição de equilíbrio ou de sofrimento pessoal.

Imagino que você esteja pensando, de fato, “o quê” teria esse poder e que, portanto, precisaria ser rapidamente descoberto, certo?

Bem, asseguro-lhe que essa resposta vale um milhão de dólares, como diriam aqueles programas mais antigos. Todavia, nem precisaríamos gastar tanto, pois o segredo é muito mais simples e, praticamente, não custa quase nada.

O mais provável causador disso tudo é, na verdade, nossa própria cabeça, isto é, nós mesmos e nossa maneira de “pensar” a vida.

Eu explico.

Conglomerados mentais

Entenda que, à medida que crescemos, vamos criando abstrações – que são também chamadas de “crenças” -, a respeito das mais variadas ocorrências do cotidiano. Desenvolvemos interpretações a respeito da vida, do comportamento dos outros e, principalmente, a respeito de como, de fato, pensamos que somos, ou seja, como nos autodefinimos.

Esse processo cria, ao longo do tempo, uma constelação de valores pessoais, altamente idiossincráticos e que são tidos como uma verdade absoluta por cada um.

Dessa forma, basta que uma situação se apresente para que, prontamente, possamos tirar do bolso uma explicação enlatada, “pronta” e que serve de parâmetro para descrever o mundo.

Veja só que curioso: nos casos mais extremos, esse mecanismo quando aparece é batizado pela mídia leiga de “preconceito social”. Alguns exemplos? Vamos lá: branco, negro, gordo, de esquerda, de direita, homo, hetero, do norte, do sul e por aí vai.

Esse aglomerado de opiniões é tão poderoso que, com o passar do tempo, se torna impermeável ao criar uma verdadeira blindagem ao desenvolvimento (e reconhecimento) de novos pontos de vista.

Como funciona?

Segundo um antigo pesquisador americano, Leon Festinger, nossos juízos “se ligam” uns aos outros de uma maneira intensa e acabam por virar uma poderosa lente de interpretação da realidade. Esse processo é tão influente que cria, digamos, quase que vida própria. E essa engrenagem, ao girar, dá início ao que se denomina “consonância cognitiva” em nossa mente.

Explico de novo.

Quando somos expostos a alguma informação que vai ao encontro dessa  teoria pessoal – criando harmonia em nossas ideias -, a informação é validada, aprovada, e então absorvida pelo nosso sistema para que continue a confirmar nossas hipóteses anteriores.

Entretanto, há um “porém”: quando alguma mensagem que nos chega está em desacordo com nossas suposições, podendo criar um estado de “dissonância mental” e colocar em risco a estabilidade geral do sistema, nossa mente, em frações de segundo, invalida o conteúdo e a informação é prontamente rejeitada.

Assim, o que estiver em consonância, é validado e entra em nosso raciocínio, e o que estiver em desacordo, é refutado e sai.

É dessa forma que, segundo o psicólogo italiano Vittorio Guidano, nos tornamos “teorias personificadas de vida”. Teorias que explicam o que deu e o que não deu certo em nossa vida.

willypd - fotolia

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Simples assim, mas, ao mesmo tempo, complexo assim.

Eisntein, a este respeito, dizia que: ''é mais difícil quebrar um preconceito (leia-se: uma opinião) do que um átomo”, tamanha é a dificuldade que uma pessoa apresenta, segundo ele, ao se deparar com situações que são contrárias ao seu ponto de vista.

Leitor, tanto é verdadeiro o que eu lhe digo que proponho uma simples constatação: por acaso, você, alguma vez, já viu alguém mudar de posição em uma discussão? É praticamente impossível isso acontecer, pois este tipo de situação apenas serve para tentarmos “convencer” o outro a respeito da verdade de nosso ponto de vista, ou seja, dificilmente alguém entra em uma conversa para ouvir o outro lado, mas sim, para provar seu ponto de vista.

O problema

Ocorre então que, ao longo do tempo, estamos, – o tempo todo -, tentando nos proteger e, mais ainda, preservar esse sistema interno de significado das suposições contrárias a nós e que possam criar risco ao ultrapassar essa barreira mental, o que pode criar desconforto psicológico.

É por esta razão que as pessoas de direita, por exemplo, cada vez mais serão aficcionadas às suas posições; as de esquerda, por outro lado, cada vez mais convictas de seus princípios etc. Nossa história política recente foi o tema das mais variadas situações de desavença pessoal que já pude ver (e ninguém no final das contas, mudou de opinião) e várias amizades foram rompidas por conta disso.

Vejo isso às centenas ao longo de minha vida profissional, ou seja, pessoas que chegam a um estado de aflição psicológica, pois vivem situações que forçam os limites de suas explicações (crenças) e assim ficam em risco de instabilidade emocional.

O que fazer?

Assim, para se proteger dessas armadilhas mentais, eu sugiro:

1. Procure prestar atenção aos conteúdos de seus pensamentos;

2. Pergunte-se se, efetivamente, essas opiniões refletem aquilo que você próprio – de verdade – pensa a respeito. Posso lhe assegurar que a grande maioria das coisas não são nossas, mas tomadas emprestadas como verdadeiras ao longo da vida;

3. Ao fazer isso, você irá perceber que, após uma análise um pouco mais cuidadosa, a maioria de nossas opiniões dificilmente se sustenta e que “mudar”, no final das contas, não nos diminui enquanto pessoas, mas, pelo contrário;

E, finalmente:

4. Desenvolva uma expectativa zero sobre a vida, sobre você mesmo e, principalmente, sobre o comportamento dos outros. Desconstrua aquilo que pensa a respeito (e espera) do entorno, pois há centenas de verdades que são possíveis.

Humberto Maturana, importante biólogo chileno dizia: “Não existe um universo, mas sim, multiversos”, ou seja, tantos quantos forem possíveis ser imaginados.

Portanto, quanto menor for a expectativa a respeito das coisas, mais livre nos sentiremos para ser, sem receios, inquietudes ou dilemas.

Nem de longe estou sugerindo uma vida “sem valores”, longe disso, mas uma existência que esteja mais em consonância com a nossa vida interna e emocional.

Não precisamos de tanto dinheiro, de tantas realizações, de tantos feitos para que possamos, finalmente, nos apreciar. Afinal, tudo são crenças que precisam apenas ser novamente reavaliadas.

Pense nisso.

Liberdade é quando não nos sentimos mais controlados pelas falsas concepções.