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A psicologia dos emojis: por que esses símbolos são cada vez mais usados?

Dr. Cristiano Nabuco

30/07/2019 04h00

Ver uma pessoa sorrindo ou um emoji de sorriso aciona as mesmas regiões do cérebro – Foto: iStock

Pois é, por mais natural que possa parecer, a forma com a qual nos comunicamos vai se alterando de maneira significativa, ao longo do tempo, principalmente nesses anos em que a tecnologia tem estado mais presente.

Além da nossa capacidade espontânea de expressar os fatos, sentimentos e emoções, atualmente contamos com os Emojis, que adicionaram uma parte importante nesse processo.

Veja só: de acordo com a Swyft Media, 74% das pessoas pesquisadas nos EUA usam regularmente esses símbolos –que englobam os emoticons, emojis e, mais recentemente, os stickers, — em suas comunicações digitais (1). E, se achávamos que isso era ocasional, estamos enganados: pesquisas mostram que uma pessoa envia uma média de 96 emojis "por dia" e esse número tem aumentado exponencialmente. (2)

A palavra emoji foi criada no Japão, no final dos anos 90, e deriva de kaomoji (o termo é a combinação de "kao", que significa rosto, e "moji", que significa personagem), ou seja, são glifos ou elementos de escrita, que alcançaram o público global em 2011, quando a Apple os incluiu no Sistema operacional IOS 5. Na sequência, foi o consórcio americano Unicode –que abrange gigantes da tecnologia, como Facebook, Google e Microsoft, entre outros — que lançou a versão 10 de sua codificação internacional padrão para computador com nada menos do que 1.900 imagens. (3) Já os emoticons, por outro lado, são uma representação criada pela combinação de diferentes caracteres tipográficos.

Sabe o resultado?

Há nada menos do que seis bilhões de emoticons e emojis circulando por dia, no mundo todo, transbordando dos aplicativos de mensagens e das mídias sociais e, claramente, cumprindo alguma função maior. Em 2014, por exemplo, a palavra mais popular não foi uma "palavra", mas sim o emoji do coração, ❤️ (4). Este tipo de recurso tornou-se tão comum que o Dicionário Oxford denominou o emoji "Rosto com Lágrimas de Alegria", como a Palavra do Ano de 2015. (3)

Mas quais seriam as razões de tanto sucesso?

A comunicação humana

Um dos elementos mais importantes nas interações sociais é a nossa capacidade de transmitir os significados emocionais subjacentes, ou seja, tudo aquilo que expressamos carrega uma carga afetiva bastante significativa e que acaba complementando as conversações, ao exercer uma função determinante.

Assim, quando falamos com alguém, por exemplo, gesticulamos, damos uma entonação mais intensa em uma determinada palavra ou ideia, diminuímos ou aumentamos a velocidade da fala e todas essas variações associadas tornam a transmissão das informações mais efetiva. Como resultado, normalmente somos mais eficazes ao comunicar nossos pontos de vista.

Entretanto, todos esses elementos mais sutis –denominados cientificamente de comportamentos não-verbais — e que compõem nada menos de 70% do significado de uma conversa oral, estão ausentes nas vias digitais, dificultando a transmissão das ideias.

É então nesse exato momento que as figuras gráficas, uma vez adicionadas às narrativas, conseguem transmitir aqueles significados "implícitos" e que seriam impossíveis de serem veiculados sem esse recurso simbólico.

Além disso, há outro fator adicional muito importante. Nossa capacidade de se fazer entender também é profundamente impactada por outro motivo: a maneira pela qual nossa habilidade de exibir empatia junto ao interlocutor é revelada em nossa conversa, ou seja, os humanos, desde seus ancestrais, imitam expressões e emoções uns dos outros, quando estão interagindo pessoalmente. E é esse "contágio emocional", por assim dizer, que está na base de como nossa empatia é percebida pelos outros.

Mas, como mencionei anteriormente, na modalidade dos diálogos online, também perdemos esse outro elemento crucial de manifestação de empatia e de emoções, entretanto, espontaneamente damos um "jeitinho" para que outro fator equacione essa restrição interpessoal.

Eu explico.

Os cientistas descobriram que, quando olhamos para um emoji ou emoticon online que, digamos, exibe um sorriso — 🙂 –, as partes do cérebro que são ativadas, nesse momento, são exatamente as mesmas que são acionadas quando olhamos para um rosto humano real que nos sorri. (5-6)

Resumo da conversa: conseguimos superar as barreiras de uma comunicação "mais fria" das vias digitais e, como resultado, nosso humor também responde e se altera por conta desses novos recursos gráficos. E, complementam os pesquisadores, isso não é algo inato, mas desenvolvido em nosso cérebro, principalmente nos últimos anos, a partir do surgimento dos emoticons e dos emojis. Essencialmente, diríamos então que a cultura de mídia social está criando um novo padrão cerebral, ao desenvolver novos recursos de comunicação, agora derivado das interações digitais.

Emojis no Instagram

Há alguns anos, quando a Apple adicionou o teclado emoji ao iOS como um teclado internacional, a linguagem digital evoluiu de tal forma que quase metade dos comentários e legendas no Instagram contêm pelo menos um ou dois carácteres emojis. O uso continuou a crescer e, três anos depois do lançamento, quase metade dos textos já continha emojis 😱.

Uma pesquisa conduzida pelo próprio Instagram mostrou que apenas entre os usuários da Finlândia, 60% do texto são preenchidos por caracteres emoji (7) e, tais utilizações se alteram de país para país (8). Um estudo mostrou que o emoji – 🙏 – foi o mais usado no Brasil, pois, segundo os pesquisadores, aqui teríamos a maior porcentagem de católicos do mundo, e onde o símbolo é facilmente lido como duas mãos em oração (8). Vale dizer que os símbolos gráficos são tão reconhecidos mundialmente como um novo código de comunicação, que já houve casos de pessoas sendo presas por usarem ícones considerados ameaçadores. Em 2015, por exemplo, nos EUA, um adolescente de 17 anos foi acusado de terrorismo por fazer um post no Facebook com emojis de armas sendo apontadas para um policial.

Isso mostra então que os emojis mudam e evoluem de maneira semelhante às linguagens naturais e começam a substituir as gírias por algo diferente e além do que a linguagem popular consegue simbolizar. Abaixo, o gráfico mostra o decréscimo do uso das gírias na internet (Internet slang) e o aumento do uso dos emojis.

FONTE: https://instagram-engineering.com/emojineering-part-1-machine-learning-for-emoji-trendsmachine-learning-for-emoji-trends-7f5f9cb979ad

Conclusão

Será que, em um futuro próximo, todo o nosso texto será composto por emojis e emoticons? Estaremos, de fato, perdendo nossa capacidade de comunicação? Ou estaríamos aprimorando-a?

Nós, adultos, obviamente, já temos nosso funcionamento mental totalmente consolidado e essas estimulações possuem uma interferência mais limitada, mas, e as crianças e os adolescentes que ainda estão em fase de desenvolvimento cerebral? Utilizar tais recursos teria a mesma capacidade, igual a da escrita normal de recrutar muitas regiões do cérebro, tão vitais para o desenvolvimento mental e cognitivo? E tem mais: considerando que o brasileiro gasta, em média, 9 horas e 29 minutos por dia na internet, quais seriam os impactos dessa utilização excessiva ocupando o papel das interações da vida real? (9)

Ainda não sabemos, infelizmente.

O que sabemos é que esse é apenas o começo. Portanto, ainda não podemos avaliar o impacto –se positivo ou negativo — do uso frequente dos emojis, pois, além de tudo, eles ainda estão crescendo e em franca expansão e popularidade entre a população.

O que fazer então? Na ausência de uma boa resposta, a recomendação é sempre a mesma: utilizar com consciência e cautela os eletrônicos, principalmente, junto aos nossos filhos. Tudo sempre apresenta vários aspectos implícitos e subliminares que, muitas vezes, nos são totalmente desconhecidos e aí pode morar o perigo. Alguns fatores, como a psicologia dos emojis, já podemos compreender um pouco melhor.

Para saber mais

https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/o-cerebro-digital-como-uso-constante-da-internet-afetando-nossa-mente/

https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2019/06/25/internet-esta-mudando-a-forma-como-pensamos-entenda-como/

Referencias Bibliográficas

  1. https://www.statista.com/statistics/301061/mobile-messaging-apps-sticker-emoji-usage/
  2. https://www.cnbc.com/2014/08/18/emojis-brand-marketers-find-a-new-way-into-your-phone.html
  3. https://www.bbvaopenmind.com/en/technology/digital-world/emoji-the-new-global-language/
  4. https://www.theverge.com/2014/12/31/7473079/2014-most-popular-word-heart-emoji?source=post_elevate_sequence_page—————————
  5. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17470919.2013.873737?journalCode=psns20#.VLadY2TF871
  6. http://citation.allacademic.com/meta/p_mla_apa_research_citation/0/9/3/2/8/pages93286/p93286-1.php
  7. https://instagram-engineering.com/emojineering-part-1-machine-learning-for-emoji-trendsmachine-learning-for-emoji-trends-7f5f9cb979ad
  8. https://fusion.tv/story/123789/america-loves-the-eggplant-emoji-and-other-lessons-from-a-new-emoji-study/?_ga=2.109224389.1747164593.1564251882-484697576.1564251882
  9. https://www.pagbrasil.com/pt-br/insights/relatorio-digital-in-2019-brasil/

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Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!