Dr. Cristiano Nabuco

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Celular e volante: Combinação perigosa
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Dr. Cristiano Nabuco

theartofphoto – fotolia

Não restam dúvidas: a tecnologia veio para ficar. E instalou-se não apenas facilitando nossas vidas, mas também criando alguns efeitos colaterais bastante impactantes, como todos nós já sabemos.

Seguramente, usar dispositivos digitais enquanto se dirige é um exemplo bastante claro de tais efeitos colaterais. Você está em seu carro e percebe que o carro à sua frente segue em uma rota sinuosa, vagarosa e desatenta. Você pensa: Será que esse motorista está bêbado? Não, não… ele (ou ela) está usando o celular. O efeito de dirigir e falar ou enviar mensagens pelo celular não é muito diferente de beber e dirigir.

Enviar mensagens de WhatsApp, verificar as curtidas de suas postagens do Facebook, buscar alguma música desejada, dar uma olhada no Instagram ou, simplesmente, pesquisar algum tema na internet. Estes comportamentos denotam uma total falta de conscientização do risco que, em si, não é considerado suficientemente perigoso para frear essas pessoas.

No entanto, as estatísticas vêm mostrando que as novas tecnologias realmente colaboram para a distração dos motoristas. No Brasil, seu uso já figura entre as maiores causas de acidentes automobilísticos (1-2) e, no exterior, já é considerado como uma das principais causas. (3)

Dados de 2015 do seguro Dpvat (Brasil) informam que foram pagos naquele ano cerca de 1,3 milhão de reais por morte ou invalidez em acidentes relacionados ao uso do celular. Os dados também mostram que 80% dos motoristas admitem que utilizam o aparelho ou outras tecnologias que geram distração enquanto dirigem. (4)

Vamos dar uma olhada em alguns números de pesquisas americanas: (5)

– 9 é o número diário de mortos em acidentes decorrentes de distração na direção, tal como usar o telefone celular ou enviar mensagens de texto.

– Em 2013, o número de acidentes de trânsito causados pelo envio de mensagens de texto foi de 341 mil.

– Em 2016, 1 em cada 4 acidentes foi causado pelo uso impróprio do celular.

– 33% é a porcentagem de motoristas dos EUA com idade variando entre 18 a 64 anos que relataram ter lido ou escrito mensagens de texto enquanto dirigiam no mês anterior.

Entre os jovens, a situação é pior: o envio de mensagens de texto é apontado como o maior causador de acidentes de trânsito. (6)

Vale a pena reforçar: em muitos casos, receber uma mensagem ou um post no Facebook é um estímulo social bastante recompensador que, provavelmente, estimula os circuitos dopaminérgicos de recompensa no cérebro.

Sabemos que o cérebro humano somente estará plenamente maturado depois dos 21 anos de idade. Antes disso, os jovens apresentam uma dificuldade natural de frear comportamentos de risco, o que deixa os motoristas mais jovens mais vulneráveis aos estímulos derivados da tecnologia e, portanto, com maior probabilidade de agir de forma impulsiva.

Além disso, o risco de acidentes causados pelos smartphones é aumentado por nos obrigar a realizar a chamada “multitarefa” – isto é, fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Uma pesquisa da AT&T mostrou que quase 4 em cada 10 usuários de smartphones acessam suas mídias sociais durante a condução do veículo, quase 3 em cada 10 surfam na web e (pasmem!) 1 em cada 10 se envolve em um bate-papo por vídeo. (7)

Achou preocupante?…

Flavijus Piliponis – fotolia

Então veja só: 7 em cada 10 pessoas se envolvem em atividades usando o celular enquanto dirigem. Enviar mensagens de texto e e-mail ainda são os mais prevalentes. Entre as plataformas sociais, o Facebook encabeça a lista, com mais de um quarto das pessoas consultadas admitindo usar o aplicativo durante a condução de um veículo. Cerca de 1 em cada 7 disse que está conectado ao Twitter ao volante.

Vamos avaliar o seu risco?

Então caneta e papel na mão. Responda o “quiz” abaixo e descubra quais são seus comportamentos ao dirigir seu carro que representam um risco. Ao final do quiz, some os pontos descritos entre parênteses. A soma total obtida traz uma estimativa do nível de risco associado “intencionalmente” por você, na semana anterior, enquanto guiava:

-Atendi o telefone enquanto dirigia. (1 ponto)

-Fiz uma ligação (inclusive disquei) enquanto dirigia. (2 pontos)

-Li uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Enviei uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Li uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

-Digitei e enviei uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

Para especialistas americanos (National Transportation of Safety Board, NTSB e Conselho Nacional de Segurança, NSC), se a soma de seus pontos foi superior a 1, sua atenção esteve prejudicada. Mas não sejamos tão rígidos. Há uma outra classificação, um pouco menos severa, que nos dá uma noção da graduação do risco.

Por meio dessa classificação, somando seus pontos, qual seria então seu grau de risco? (8)

De 1 e 3: Seu grau de risco foi moderado.

De 4 e 6: Você correu um risco alto de sofrer um acidente.

Acima de 6: Você assumiu um grau de extremo risco ao dirigir.

Para compreender melhor a dimensão do problema, vejamos um pouco da matemática e da física durante o uso de dispositivos móveis ao volante. Voltar os olhos para um aplicativo consome 5 segundos de nossa atenção. Parece pouco? Repense. Isso significa que, se estiver dirigindo a 80 km/h, você terá percorrido nada menos do que um campo de futebol. Completamente “às cegas”. (9)

Conclusão

É curioso notar que, nos sentindo adultos, responsáveis e capazes de “pesar” o grau de risco de nossas ações envolvendo o uso dos celulares no trânsito, insistentemente continuamos a ter comportamentos perigosos como se nada de errado estivesse ocorrendo.

fotohansel – fotolia

Segundo várias pesquisas, porém, esta forma de autorregulação pessoal (celular e o trânsito) tem se mostrado bastante ineficaz, ainda que você se sinta com uma boa dose de consciência e controle. Portanto, o momento em que decidimos pegar um smartphone durante um trajeto de carro, estamos intencionalmente assumindo um risco expressivo.

Enviar aquela única mensagem de WhatsApp, por exemplo, que geralmente não tem qualquer relevância para sua vida, pode de fato causar a você e aos que estão ao redor um sério problema.

Pense nisso.

Mas antes de terminar, cá entre nós: Será que a tecnologia efetivamente nos proporciona uma vida de maior qualidade? Estaremos nós realmente preparados para lidar com ela? Confesso que tenho sérias dúvidas.

 

Referências

1) http://www.transitobr.com.br/index2.php?id_conteudo=9

2) http://www1.roadcard.com.br:8090/noticias/as-dez-principais-causas-de-acidentes-no-transito

3) http://www.huffingtonpost.com/laiza-king-/top-15-causes-of-car-accidents_b_11722196.html

4) http://portaldotransito.com.br/noticias/celular-no-transito-causa-13-milhao-de-acidentes-por-ano/

5) http://www.huffpostbrasil.com/entry/dangers-of-texting-and-driving-statistics_n_7537710

6) http://www.cellphonesafety.org/vehicular/era.htm

7) http://about.att.com/newsroom/it_can_wait_expands_to_smartphone_use_while_driving.html

8) http://www.springerpub.com/internet-addiction-in-children-and-adolescents.html

9) http://about.att.com/story/smartphone_use_while_driving_grows_beyond_texting.htmlcompletarhttp://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/07/governo-alerta-sobre-risco-do-uso-de-celular-no-transito

 


Vício em séries de TV: um novo problema da atualidade?
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Dr. Cristiano Nabuco

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Com um plugin gratuito no navegador, podendo ser acessado por meio de qualquer dispositivo móvel ou não, as séries de TVs por streaming  são atraentes e populares e, não dá – ainda – para chamar de vício a utilização desta ferramenta. Mas, por acaso você já parou para observar o comportamento das pessoas que tanto assistem a estas séries? Não?

E assim caminha a nossa noite

Tudo começa pela escolha do que assistir, o que, cá entre nós, não é das tarefas mais fáceis. O próximo passo é pegar o cobertor e a pipoca ou, caso a noite esteja quente e a fome não tenha batido, pode ser sem nada disso mesmo. Agora basta se instalar no sofá. E, então, o gatilho é disparado. Passam-se horas e horas do final de semana ou deixam-se para trás horas preciosas de sono durante a semana por avançar noite adentro na frente da TV.

Enfim, o que acontece é mais ou menos isso: Senta-se para assistir um programa de 60 minutos, por exemplo, mas acaba-se por gastar muito mais tempo do que o pretendido.

Não tão simples assim

Outra particularidade comportamental que vale citar é o “final” de cada episódio. Isso mereceria, creio eu, um estudo à parte. Explico: Quando o episódio termina, surge uma sensação (quase) incontrolável que impele o indivíduo a dar “só mais uma olhadinha” para ver o que vai acontecer com este ou aquele personagem.

Como ninguém é bobo, são apresentados em números menores no canto superior da tela um relógio que, em ordem decrescente, anuncia o início “automático” do próximo episódio. Quando nos damos conta, já era. Lá se foram outros 20 minutos na frente da televisão. E você pensa: “Ah, já está na metade, então não vou parar agora, vou ver o episódio inteiro”. Aquela uma hora inicial vira duas, três, quatro horas…

Obviamente, estou usando um pouco de humor, mas caso você ainda não saiba, há por detrás disso mecanismos cerebrais importantes sendo acionados que são muito semelhantes àqueles que operam em alguns vícios comprovados.

Exagero? Definitivamente, não.

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Nosso cérebro tem uma dificuldade muito grande de lidar com operações que são deixadas “inacabadas” e, portanto, interromper a estória contada na série claramente desafia nossos mecanismos biológicos mais básicos, pois nos deixam com uma impressão de que há mais a ser feito, e um efeito de looping aparentemente sem fim é criado, levando-nos a desejar mais e mais.

Todo esse processo faz com que o corpo permaneça alerta (nossa resposta ancestral de luta ou fuga), o que pode facilmente interromper o sono. Então, quando nos deparamos com o final de mais um episódio à uma da manhã, por exemplo, posso lhe assegurar que você não estará mais tão cansado. Você vai estar pronto para seguir adiante, sem se dar conta disso.

Um admirável mundo… novo?

Além disso, embora ainda nenhum estudo tenha se debruçado sobre os mecanismos cerebrais envolvidos nessa questão, é possível especular que há uma intensa liberação de dopamina – aquele neurotransmissor que é liberado nos dando a sensação de recompensa – no momento em que um episódio acaba, nos forçando a assistir “mais horas”.

Como uma pessoa que tem compulsão por chocolates, por exemplo, para quem é impensável comer um só, já atendi pessoas com relatos importantes de “compulsões” de programação (o que em inglês já se denominou “binge watching TV”).

Essas pessoas me contaram, muito animadamente, que chegaram a passar, facilmente, mais de 10 horas em um único dia na frente da TV apenas assistindo as séries de maneira copiosa e deixando por fazer as coisas verdadeiramente importantes, criando um verdadeiro rastro de procrastinação na vida pessoal e profissional.

Bem, caso você, leitor(a) tenha sentido alguma familiaridade, saiba que coloquei no texto acima (de maneira disfarçada, claro) vários dos critérios que definem as dependências tecnológicas e, portanto, quero apenas deixar registrado, é exatamente assim que os vícios começam na vida de muitas pessoas. Ou seja, mesmo aquilo que parece ser, à primeira vista, “divertido” e inofensivo, se mal manejado por nós, torna-se uma poderosa armadilha para nosso bem-estar e nossa saúde mental.

Em tempos de tecnologia praticamente onipresente em nossas vidas, é sempre bom ficar de olho aberto, não acha? Seria, portanto, os vícios de séries de TV a ponta de algum iceberg?

Para se pensar.

 

 

 


Psicologia da Internet: porque nos tornamos outras pessoas na vida digital
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Dr. Cristiano Nabuco

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Há cerca de duas décadas foi criada a expressão “Psicologia da Internet” para explicar a razão pela qual o comportamento das pessoas se altera tanto dentro dos ambientes virtuais.

Qualquer um que já navegou na web percebeu alguma modificação, ainda que mais leve, em sua conduta ou ação.

Por ser um espaço muito atípico e diferente de tudo que já experimentamos na vida concreta, descobriu-se que a realidade paralela exerce um tipo de “dinamização” da personalidade, o que coloca as pessoas em inclinação para atitudes de maior risco e de descontrole calculado, se comparadas ao que se vive no nosso dia-a-dia.

A respeito desse fenômeno, criou-se um termo para melhor definir tais alterações comportamentais: “efeito de desinibição online”, explicita, portanto, a variação de padrões.

Pesquisas demonstraram que essas alternâncias da vida off-line para a vida online se baseiam nas seguintes crenças:

(A) “Você não sabe quem eu sou e não pode me ver”:  à medida  que as pessoas navegam na internet, obviamente que não podem ser “vistas”, no sentido literal da palavra – diferentemente de como ocorre no mundo concreto -, conferindo então aos internautas a falsa percepção de que eles estão anônimos e, por esta razão, não há limites ou regras associadas ao comportamento online. Este fato também é descrito na literatura psicológica como “desindividualização”, ou seja, um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.

(B) “Até logo” ou “até mais”:  a internet, querendo ou não, uma vez que permite aos seus usuários escaparem facilmente das situações mais embaraçosas,  leva-os a correrem mais riscos e tolerarem melhor as situações de ameaça. Como não existe uma consequência imediata dessas ações virtuais (na verdade “existe” uma consequência, todavia, ela é mais demorada para que os resultados apareçam), as pessoas então se tornam mais flexíveis a respeito das transgressões.

(C) “É apenas um jogo”:  esta premissa dá ao usuário a ilusão de que o mundo online opera, na verdade, em condição de fantasia, e que ninguém, de fato, seria prejudicado pelas “aventuras” realizadas no mundo digital. Assim, a linha divisória entre a ficção e a realidade torna-se facilmente mais turva, uma vez que existem centenas de atividades que, na verdade, “não existem” na realidade concreta.

(D) “Somos todos amigos”:  cria a ilusão de que na vida paralela da internet, somos todos iguais ou amigos, uns com os outros e que, portanto, as regras que determinam as relações adequadas entre os diferentes grupos (por exemplo, crianças, adolescentes e adultos) existentes no mundo real podem ser simplesmente desconsideradas. Este princípio também tem o poder de diluir as hierarquias existentes entre diferentes indivíduos na sociedade, favorecendo aos comportamentos de maior desrespeito e falta de cuidado interpessoal que tanto se observa nas redes sociais e nas comunicações entre funcionários de uma empresa.

andrys lukowski - fotolia

andrys lukowski – fotolia

Portanto, o “efeito de desinibição online” descontrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta para liberar o indivíduo ao trânsito nos espaços altamente permissivos, tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões.

Vamos lembrar que todo esse processo já tem um nome e se chama “personalidade eletrônica” (e-personality).

Imagine então, as crianças e jovens ainda em processo de formação, o que o ambiente virtual poderia fazer com a consolidação de sua personalidade (ainda) em definição?

No final das contas, pensam muitos pais desavisados: “é apenas videogame” ou, ainda, “eles só estão usando uma rede social”, que problema haveria com isso?

No passado não muito distante, o desassossego familiar vinha das amizades inadequadas, hoje deriva do próprio indivíduo em sua relação consigo mesmo no ambiente virtual.

Para se pensar, não acha?…

 


Afinal, quando será?…
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Dr. Cristiano Nabuco

tugolukof - fotolia

tugolukof – fotolia

Ao longo de minha vida profissional como psicólogo, tenho observado as mais diversas histórias de vida que me chegam, todos os dias, para que eu possa, de alguma maneira, prestar um pouco de auxílio.

São pacientes que, inevitavelmente, trazem memórias de sofrimento e que, a certa altura, correm o risco de sucumbir em função da intensidade de sua dor.

Alguns, em condição mais aguda, chegam tão desorientados que, antes mesmo de caminhar em alguma direção mais específica, nada é mais importante do que apenas e tão somente lhes estender a mão e assegurar-lhes que não estarão mais sozinhos.

E assim, dia após dia e ano após ano, tenho o privilégio de ser um tipo de testemunha ocular da roda da vida que gira para cada um e que, impiedosamente, vai provocar algum tipo de desequilíbrio pessoal.

Em muitas dessas histórias, apenas para dar um exemplo, a adversidade começa desde cedo. São pessoas que advêm de famílias desestruturadas e que o convívio precoce com a instabilidade as deixa com sequelas profundas que, ainda em estado infantil, nada podem fazer. Apenas se resignar.

Para outras, o aborrecimento aparece na adolescência e, quando se pensava que tudo ia bem, o carrossel da vida faz um vigoroso movimento para baixo e, sem que esperasse, a queda é inevitável, criando efeitos bastante desastrosos.

E, finalmente, caso tenhamos passado incólumes até a maioridade, não se anime muito, a vida adulta ou a velhice lhe apresentará alguma(s) adversidade(s) bastante profundas.

Resumo da ópera: um dia as coisas desandarão, é apenas uma questão de tempo.

Por favor, não se aborreça comigo, pois nem de longe quero ser um dos cavaleiros do Apocalipse, mas é fato, sempre acaba por acontecer.

Após 30 anos de trabalho na prática clínica, tenho visto algumas centenas de interpretações que gentilmente são oferecidas por colegas de profissão na tentativa de aliviar o sofrimento e dar algum tipo de sobrevida a cada um.

É possível que a clássica justificativa recaia então sobre o pai, que “não fez o suficiente”; ou em decorrência da mãe que, na tentativa de se equilibrar, “desassistiu os filhos” ou, ainda, alguma condição mais específica de saúde que tenha se abatido sobre nós e, finalmente, que a perda de alguém quando menos se esperava, tudo isso junto ou isoladamente, acaba colaborando para que nossa autoestima não passe, muitas vezes, do nível do chão.

Entretanto, em meio a essas devastações, uma coisa muito importante, quase que para todos, passa despercebida. A vida irá nos acertar e, portanto, nos privar daquilo que mais apreciamos.

Sorte daqueles que têm a felicidade de tombar em idade mais avançada, pois houve algum tempo para que se pudesse criar um mínimo de estrutura de enfrentamento e podem assim, felizmente, sair mais ilesos, ao contrário que quando a atribulação ocorre mais precocemente. Mas, bem sabemos, dor é sempre dor e independentemente da idade, ficamos desnorteados.

De todas as formas, após anos de trabalho prestando ajuda psicológica, verifiquei que todos os meus pacientes, com raras exceções, saem melhores. Usualmente, relatam se sentirem mais fortes, de alguma forma, mais organizados ou mais centrados e que, raramente, gostariam de voltar a ser como eram antes.

Imagino então que a vida, ao longo do tempo, vai, paulatinamente, nos preparando para o grande período.

khlongwangchao - fotoliaIgual a um violão que precisa ter suas cordas esticadas para produzir a doce melodia, a vida nos prega peças para que também sejamos tracionados, ao máximo, pela nossa história, para que possamos, finalmente, tornar-nos mais aperfeiçoados.

Pelo menos é isso que vejo acontecer, dia após dia e ano após ano. Ninguém passa incólume.

Assim, nesse tabuleiro de nossa existência, a nossa dor estará, na verdade, lapidando em carne viva nosso aprimoramento pessoal.

No fundo, no fundo, não acho saudável que achemos culpados – pois, cada um sempre deu o seu melhor – e, portanto, não importa de quem foi a responsabilidade, mas o que podemos fazer, hoje, para sairmos mais fortalecidos.

Como diz um velho ditado: “não importa o que fizeram conosco, mas o que fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Concluindo, embora bastante polêmico (e paradoxo), tente, de alguma maneira, ser grato pelos seus contratempos, pois eles estão, única e exclusivamente, a seu serviço. Quando assumimos o papel de responsáveis pela nossa vida, entendemos melhor o que a vida faz por nós e não contra nós.

Quando um paciente me conta a sua história, eu sempre me pergunto silenciosamente: afinal, quando será que, de verdade, as pessoas entenderão isso?

Pense a respeito.


Videogames podem ser bons ao cérebro das crianças
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Dr. Cristiano Nabuco

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contrastwerkstatt – fotolia

Como você já deve ter percebido, a tecnologia invadiu, de maneira quase irreversível, vários aspectos de nossa vida. E, no que diz respeito à recreação dos pequenos, as coisas não poderiam ter sido muito diferentes.

Ainda que eu mesmo, várias vezes, tenha denunciado os efeitos negativos sobre o comportamento humano, um novo estudo procurou debruçar-se sobre a eventual relação entre a quantidade de tempo gasto nos games e as possíveis consequências sobre as habilidades cognitivas e sociais das crianças.

A investigação foi feita em cinco diferentes países da Europa e contou com uma amostra de mais de três mil crianças, ou seja, um número bem expressivo.

O resultado: jogar videogame pode, sim, criar possibilidades positivas.

Pesquisadores descobriram que o uso desses jogos propiciou um aumento das possibilidades (1,75 vezes) de desenvolvimento de um melhor funcionamento intelectual e um aumento (1,88 vezes) nas chances de se expandir a competência global na escola. (1)

Outro achado: descobriu-se que mais tempo gasto nos videogames foi associado a menos problemas de relacionamento com seus pares.

Importante destacar, entretanto, que apenas 20% da amostra jogava mais do que 5 horas por semana, ou seja, ao contrário do que vemos acontecer em muitas casas, onde há uma imensa dificuldade de se dar limites às crianças e aos adolescentes (que chegam a ficar “horas por dia”), uma exposição adequada pode promover o desenvolvimento de lazer colaborativo entre os filhos, afirmam os pesquisadores.

Portanto, os resultados devem sim ser comemorados, todavia, fique sempre de olho para o “quanto” desse uso deva ser permitido e, mais que isso, “sob quais condições” ele deverá ocorrer, pois essa é a linha divisória entre o benefício e o prejuízo (leia-se: para que não vire um problema).

Infelizmente, a “definição dos limites” de quando esse uso se torna prejudicial ainda é um problema entre os pais e educadores.

Como diz um velho ditado, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Portanto, fiquem atentos.

© michaeljung - Fotolia.com

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Recomendações

a) Antes do acesso, procure verificar se o jogo é adequado à faixa etária de seus filhos;

b) Estabeleça um horário e um tempo de uso. Evite deixar o videogame com um acesso livre às crianças. Por exemplo, de 45 minutos a uma hora pode ser uma opção, dependendo da idade.

c) Preferencialmente, cuide para que a utilização ocorra antes do jantar e jamais antes de a criança ou o adolescente se deitarem. Além do sono ser prejudicado pela ansiedade gerada pelo jogo, a consolidação da memória do que foi aprendido na escola pode ficar seriamente comprometida; (2)

d) Acompanhe vez ou outra a experiência de seu filho durante o jogar, sentando, por exemplo, ao lado dele. Isso lhe permitirá, enquanto cuidador, “sentir” qual a mensagem que está sendo passada à criança e, além disso, ao conversar com ela a respeito (em vez de proibir), essa atitude colabora com a criação de uma consciência mais crítica na criança ou no adolescente;

e) Proponha atividades ao ar livre, onde os pais possam ativamente estar presentes. De nada adianta restringir o uso, se a criança ou o adolescente não vislumbra alguma alternativa de entretenimento e, finalmente;

f) Lembre-se que o exemplo que parte do comportamento dos pais é, de longe, um dos mais poderosos meios de modelar e influenciar o comportamento dos pequenos.

 

Referências

(1) http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00127-016-1179-6

(2) http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2016/04/11/efeitos-do-uso-excessivo-da-internet-e-dos-videogames-sobre-a-memoria/


Segunda-feira: A psicologia por trás do pior dia da semana
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Dr. Cristiano Nabuco

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É, de fato, comprovável que a grande maioria das pessoas descreve um sentimento não muito agradável assim que o final de semana chega ao seu fim e, principalmente, às segundas-feiras pela manhã, quando nossa jornada de vida – quer gostemos ou não – precisa ser reiniciada.

Não sei bem ao certo a razão de tal desassossego, mas é possível que nos finais de semana consigamos “desfocar” um pouco as coisas que não caminham bem e, por um pequeno espaço de tempo – dois dias, para sermos mais exatos -, podemos nos desconectar de nossas inquietudes, ao criarmos uma distância segura daquilo que efetivamente não nos faz bem e, finalmente, experimentar um pouco de alívio e de felicidade, ainda que de maneira transitória.

Vamos lembrar que é então no primeiro dia da semana, usualmente, o ponto marcado para o retorno ao trabalho. Momento em que somos obrigados, novamente, a subir no carrossel de nossa vida e, com ele, tentarmos nos estabilizar das oscilações inerentes ao cotidiano, quando também nossa consciência da falta de motivação e de sentido nos é devolvida. É como se, às segundas feiras, portanto, a realidade (nua e crua) nos fosse, a cada nova semana, descortinada, de uma só vez e pronto.

Mas, se isso lhe causa alguma inquietude, fique tranquilo, pois isso não ocorre apenas com você.

Em um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Sidney, na Austrália, um grupo de pessoas foi convidado a descrever como estavam se sentindo durante sete dias, em um determinado momento específico. (1)

No oitavo dia, ou seja, uma semana depois, eles foram indagados a respeito de como se lembraram de seus sentimentos em relação a cada dia vivido na semana anterior. Ocorre que, muito embora os relatos não indicassem lá muitas diferenças em relação à passagem do tempo, as pessoas se lembravam da segunda-feira como o pior dia de sua semana.

Mais estresse

Caso você ache que o efeito segunda-feira é apenas uma impressão, saiba então que alguns estudos têm demonstrado que, neste dia de retorno “à vida”, por assim dizer, há um aumento expressivo de estresse físico e mental gerando, possivelmente, as maiores incidências de infarto agudo do miocárdio. (2)

Isso nos faz pensar então que ao longo da semana, quando as engrenagens da vida giram, nossas necessidades subjetivas de bem-estar não podem (ou não são) tão satisfeitas como, por exemplo, conseguimos nos finais de semana.

Assim, em oposição aos dias de trabalho, aos sábados e aos domingos é como se, enfim, tivéssemos um pouco de tempo para nós mesmos (seja lá o que façamos com ele), todavia, apenas a perspectiva de manejo das situações melhores nos devolve a sensação de estarmos no controle de nossa vida. Portanto, é durante esses dois dias que nossa vitalidade volta a subir, nosso humor tende a oscilar menos, transmitindo-nos a noção de que as coisas são, de fato, mais satisfatórias do que em nosso cotidiano.

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schinsilord – fotolia

Uma outra pesquisa, que vale a pena ser citada, complementa nossa discussão: é nos finais de semana que nossas necessidades psicológicas voltam a ser preenchidas, isto é, durante esse curto período é que retomamos nossa autonomia psicológica, sentindo mais energia, vitalidade e, finalmente, mais espaços para relaxamento.

Tudo isso, porque, ao longo da semana, somos obrigados a fazer coisas que não estão sob nosso controle e, além disso, pesam sobre nós as demandas exageradas de performances, quando temos que nos relacionar com pessoas de quem não gostamos muito, o que aumenta de maneira exponencial o nosso senso de impotência e de incapacidade pessoal. (3)

Paradoxalmente, as percepções de “competência” que supostamente aumentariam no ambiente de trabalho, também não aumentam, pois são maiores em finais de semana, afirmam os pesquisadores. Além de que, durante os dias laborais, maiores foram os registros de sintomas físicos de desconforto como dores de cabeça, tontura e falta de vigor mental, por exemplo.

A investigação indicou que esse período de maior insatisfação começa a terminar às sextas-feiras à noite e vai até o domingo à tarde, quando então começamos novamente a declinar em nosso humor.

Assim eu pergunto: a segunda-feira seria, de fato, o pior dia da semana ou existiria algum componente adicional psicológico que torna esse dia, especificamente, um pouco pior?

A resposta é clara. Pensemos juntos.

Caso você desconheça, saiba então que desenvolvemos dois tipos de representações mentais em relação à passagem do tempo. Um, para os “comuns” (mais especificamente para a segunda-feira, que é o início) e outro para os finais de semana. Todos determinados por uma constelação de conceitos associados às características de um determinado dia ou período.

Fotolia - milanmarkovic78

Fotolia – milanmarkovic78

Desse ponto de vista, as representações mentais que englobam os dias que vão de segunda a sexta-feira são afetivamente negativos, enquanto que nos finais de semana carregam representações mais ricas e efetivamente positivas.

O que chamamos de “representações”, na verdade, nada mais são do que crenças a respeito de que viveremos nos dias da semana, como mais déficit de sono, mais insatisfação laboral, trânsito, frustração, alimentação incorreta, incompetência pessoal, além de outros fatores que afetam diretamente o bem-estar geral de uma pessoa.

Bem, e no final de semana, sabe o que dizem as pesquisas sobre as representações mentais? Dizem apenas e tão somente que a vida “se ilumina”.

Resumo

Estudos demonstraram que os ciclos temporais naturais (dias, meses, anos) possuem, sim, muito mais influências psicológicas do que imaginaríamos. Os achados de várias investigações demonstram que os ciclos temporais são, na verdade, socialmente construídos e também podem moldar nosso pensamento e nosso padrão de felicidade e de realização. (4)

Assim sendo, é possível que a segunda-feira tenha assumido o papel de bode expiatório ao nos lembrar que há, lá no fundo, uma infinidade de pendências pessoais que, simplesmente, não são ou ainda não foram resolvidas e que, ao nos esquivarmos delas, ingenuamente corremos em direção ao final de semana – como um filho que busca o colo protetor de sua mãe -, para que, sob as influências dos sábados e dos domingos, possamos estar mais protegidos das mazelas da vida.

Essa é uma das várias possibilidades de interpretação que está por trás do pior dia da semana.

Se tudo é, portanto, derivado de uma “construção pessoal”, que tal tentarmos algumas alternativas de enfrentamento?

Pense a respeito.

Referências

(1) http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1559-1816.2008.00353.x/abstract

(2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19345426

(3) http://selfdeterminationtheory.org/SDT/documents/2010_RyanBernsteinBrown_Weekends_JSCP.pdf

(4) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4544878/


O outro lado do Pokémon Go
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Dr. Cristiano Nabuco

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lumenphotos – fotolia

Como muitos já disseram, o novo jogo recém-lançado mescla a fantasia com a realidade e vai aonde nenhum outro antes chegou.

Ao usar funções de GPS e câmera do telefone celular, o jogo projeta sobre nosso entorno geográfico uma camada de realidade imaginária ao reproduzir no ambiente pequenos monstros, momento no qual o jogador precisa caçar e capturá-los, o que lhes confere uma pontuação. Ao fazer isso, o usuário pode viver algumas doses de excitação, humor, diversão e, obviamente, certo perigo, quando esses dois mundos se encontram. (1)

Desnecessário descrever os eventuais acidentes que podem ocasionar em função da falta ou do desvio de atenção, ao colocar o indivíduo em ações de risco, que o jogo, a certa altura, “trava” e que, finalmente, onde não há sinal da internet, ele simplesmente deixa de funcionar. Por exemplo, conta a mídia estrangeira, de maneira bem-humorada, que o medalhista olímpico Kohei Uchimura, ao chegar a São Paulo – sem se dar conta que estava usando a função roaming internacional de seu celular -, gastou mais de US$ 5 mil apenas “caçando os monstrinhos“. (2)

Mas ironias à parte, há o lado reverso da moeda.

Alguns profissionais de saúde mental, apenas citando um exemplo, chegam a sugerir que pessoas com depressão e fobia social façam uso do aplicativo, pois ele naturalmente impeliria a uma maior interação social ao tirar pacientes de seu quarto e fazê-los se relacionar, além de, obviamente, despertar novos interesses. (3)

Claramente podendo cumprir uma função terapêutica, minha opinião é a de que essas pessoas, embora estejam “animadas” em suas empreitadas, elas ainda habitarão suas bolhas, vivendo através de uma realidade paralela e, acima de tudo, ignorando aqueles que estão à sua volta.

Portanto, que me perdoem os colegas, mas o argumento é bastante frágil. Devo dizer que eu jamais indicaria a meus pacientes com depressão ou com fobia social usar o Pokémon Go como ferramenta auxiliar de enfrentamento dos problemas psicológicos.

Além disso, cá entre nós, afirmam especialistas em jogos que a lógica do aplicativo é repetitiva e, diferente de outras modalidades de entretenimento digital, não requer muita criatividade para ser usado. Não é por isso, entretanto, que ele não produza uma resposta negativa ao evocar doses expressivas de ansiedade em seus usuários (imagine então nas crianças?).

E a ansiedade, caso você ainda não saiba, está ligada ao cortisol. O cortisol, como sabemos, é um hormônio cuja função é a de ajudar o organismo a reduzir inflamações, controlar o estresse etc. Entretanto, nos casos de estresse crônico, faz com que o cortisol provoque ganho de peso, insônia, diminuição do sistema imunológico, dentre outros efeitos não lá muito positivos.

Assim sendo, tomando por base uma análise mais recreativa, claro, ele pode ser usado. Mas, uma pergunta ainda me inquieta: qual seria a dose ideal de exposição diária para que o Pokémon Go não produza consequências indesejáveis?

Além de um pouco de exercício físico, quais benefícios psicológicos (ou pedagógicos) ele traz?…

Desta forma, ainda acho bastante controverso dizer que o jogo é “legal” apenas porque, aparentemente, crianças e adolescentes (adultos também, vários, diga-se de passagem) parecem estar se divertindo.

Como todos sabem, os jogos viciam e, com eles, uma outra porta se abre, principalmente, aquela ligada às dependências e aos vícios comportamentais (que provocam a liberação de dopamina, inclusive). Muitos dependentes de internet e de celular também me dizem o mesmo, sabia?

Portanto, que tal zelar por nossos pequenos ao desenvolvermos uma postura mais atenta a respeito das “coisas” eletrônicas?…

Para se pensar, não é mesmo? Mesmo que talvez muitos não concordem comigo, o Pokémon Go tem, sim, um outro lado menos recreativo e mais preocupante.

 

Referências

(1) https://www.buzzfeed.com/josephbernstein/pokemon-go-8-problems-that-could-dethrone-the-game?utm_term=.jfN8QAq3V#.sw9gDdNrW

(2) http://english.kyodonews.jp/news/2016/08/424110.html

(3) http://www.sciencealert.com/pokemon-go-is-reportedly-helping-people-with-their-depression


Pesquisa revela relação entre problemas no trabalho e a infância
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Dr. Cristiano Nabuco

fotolia - Photographee.eu

fotolia – Photographee.eu

Curioso o que acontece conosco em nossa infância, não acha?… Pois bem, dependendo do tipo de ambiente em que vivemos, nossa capacidade de nos sentirmos bem aumenta de maneira exponencial na vida adulta.

Funciona mais ou menos da seguinte forma: quando experimentamos as boas relações enquanto pequenos, nossa autoestima é consolidada de maneira positiva. Por outro lado, quando essa necessidade de amparo não é disponibilizada pelos cuidadores, a criança tem a chance de tornar-se mais insegura e retraída.

Lembremos que, enquanto pequenos, sempre vivemos momentos de muita angústia e, como nossa personalidade está em plena formação, apoio ou ameaça tornam-se vivências decisivas na composição do que nos tornaremos em nosso futuro.

Assim sendo, quando nossos pais estão mais atentos às nossas necessidades infantis, criamos uma tolerância adicional para lidar com os momentos de tensão, pois nos sentimos mais “protegidos” e, principalmente, mais confiantes de nossa capacidade de enfrentamento.

Por outro lado, crescer em espaços onde a ausência dos pais é marcante, a autoestima infantil se solidifica de uma maneira mais incerta e insegura, aumentando de maneira exponencial a possibilidade de ela não se sentir confiante nos momentos futuros de tensão e estresse.

Uma nova pesquisa publicada na revista Human Relations revelou que as relações e os comportamentos observados no local de trabalho também apresentam uma forte ligação com os estilos parentais vividos na infância.

Os pesquisadores estudaram como esses estilos de vinculação interferem no comportamento organizacional. Segundo o que foi especulado, os indivíduos podem transferir este padrão de ligação com os pais para o local de trabalho e, em particular, influenciar de maneira determinante o relacionamento com o próprio chefe.

A premissa é a de que como os pais cuidam da criança, os chefes – teoricamente -, agindo como os responsáveis no local de trabalho, “cuidariam” do adulto no local de trabalho, treinando, apoiando etc.

A conclusão foi interessante.

No caso de pessoas que foram bem cuidadas na infância, constatou-se que a conduta dos chefes interferiu menos no comportamento desses indivíduos, pois como cresceram sentindo-se amparados, a presença de chefes mais críticos ou menos tolerantes, abalou menos a autoestima desses funcionários.

Entretanto, no caso de adultos que cresceram em lares menos alicerçados, a reação emocional dos chefes – quando não muito positiva -, acabou por gerar um impacto emocional mais negativo nessas pessoas.

Bem, e a consequência para o ambiente de trabalho?

Funcionários com histórias negativas de ligação e de apego com os pais foram aqueles que relataram níveis mais elevados de estresse e os menores níveis de desempenho profissional.

Como se sentiam (muito) mais ameaçados do que os profissionais seguros, exibiram adicionalmente menores habilidades de ajudar os colegas de trabalho e poucos recursos emocionais para manejar as situações de tensão (pois não havia “registro” histórico de sucesso em sua memória).

Resumo da ópera? Simples.

As pessoas, de fato, mais do que se imagina, vêm para o local de trabalho trazendo suas seguranças ou inseguranças vividas originalmente em suas relações com as figuras de apego (pai ou mãe) e que, obviamente, serão ativadas no ambiente organizacional.

Talvez fosse interessante que, antes mesmo de fazer algum trabalho para a melhoria do clima organizacional, que os profissionais de RH tivessem mais conhecimento a respeito da mecânica de formação de nossa personalidade (infantil) e, cientes disso, arquitetassem estratégias mais direcionadas e mais efetivas de mudança pessoal.

 

Referência bibliográfica

http://hum.sagepub.com/content/early/2016/05/20/0018726716628968

Para saber mais, consulte: Abreu, CN (2010). Teoria do apego: fundamentos, pesquisa e implicações clínicas. SP: Editora Casa do Psicólogo.


Beleza e confiabilidade: o velho equívoco do cérebro
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Dr. Cristiano Nabuco

lettas - fotolia

lettas – fotolia

A certa altura da vida, naturalmente se aprende a olhar além das aparências. À medida que o tempo passa, compreendemos que aquilo que nossos olhos nos dizem pode não ser tão verdadeiro, principalmente no que diz respeito à imagem pessoal de alguém e descobrimos então ser necessário ir um pouco mais além.

Embora a maturidade nos ajude bastante, psicólogos já sabem que a visão que desenvolvemos de uma pessoa pode não ser decorrente apenas e tão somente de nossas interpretações, mas profundamente influenciada por nosso cérebro primitivo.

E, caso ainda você não tenha se dado conta, fique então ciente de que nossas preferências por certas pessoas estarão, de alguma maneira, atreladas àquelas que nos parecem mais atraentes.

Pode parecer algo bem superficial, não acha? Mas, na realidade, não é.

Muitos estudos de psicologia já haviam provado a existência do chamado “estereótipo de beleza”, isto é, pessoas mais bonitas são tidas por seus pares como mais inteligentes, mais sociáveis e, finalmente, mais bem-sucedidas.

É dessa forma que as pessoas se valem de certos sinais faciais para, automaticamente, poder fazer julgamentos a respeito do caráter de alguém – o que, diga-se de passagem, é uma parte crucial do funcionamento social.

Aristóteles, a esse respeito, dizia: “A beleza é a melhor carta de recomendação.”

Esse fenômeno tem em sua base uma de nossas tendências biológicas mais ancestrais ao compreender que uma pessoa mais atraente possivelmente será mais saudável e, portanto, com menos risco de carregar e/ou transmitir as doenças que tantas vidas dizimaram nos primórdios de nossa existência. Em épocas em que o conhecimento era escasso e a sobrevivência crucial, formar impressões imediatas a respeito de terceiros pode ter se revelado de grande importância.

De qualquer forma, mesmo que tenhamos avançado bastante no tempo, ainda carregamos essa predisposição.

Veja só: Em um estudo que acaba de ser publicado na revista Frontiers in Psychology, pesquisadores descobriram que as crianças também atribuem o grau de confiabilidade a alguém em decorrência direta de seu grau de atratividade. Ou seja, constatou-se que também para os pequenos, quanto menos atraente uma pessoa for, menos confiável ela parecerá ser. (1)

O estudo avaliou 138 crianças com idade variando entre 8 e 12 anos quando, no experimento, lhes foram apresentadas 200 imagens de rostos masculinos – todos eles com uma expressão neutra e com um olhar direto.

Na primeira exposição, a cada um foi mostrada uma dessas faces, e onde se pediu que avaliassem o quão confiável eles achavam que essa pessoa poderia ser.

Depois de um mês, seguiu-se uma segunda sessão de apresentações onde agora lhes fora pedido que classificassem a atratividade desses mesmos rostos.

Ao analisar as respostas, encontrou-se uma forte correlação entre os dois traços, ou seja, as faces consideradas as mais confiáveis foram também aquelas tidas como as mais atraentes pelas crianças – relação esta que foi se intensificando com a idade.

Moral da história: ainda que o tempo tenha passado e sejamos muito mais conscientes que nossos irmãos primitivos, adultos ou crianças, a atratividade de uma pessoa ainda é inconscientemente percebida como uma forte indicação de seu caráter.

Seria bom, portanto, que fôssemos mais conscientes dessas tendências biológicas e, ao tomar consciência disso, que nossa opinião não fosse tão determinada pelas impressões de beleza física de alguém. E, como dizia aquele velho ditado: “não julgue um livro por sua capa”.

Referência

http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2016.00499/full


Como o cérebro dos adolescentes reage às mídias sociais
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Dr. Cristiano Nabuco

petrrunjela - fotolia

Podem dizer o que for, mas simplesmente não há como negar que a vida digital e, principalmente, o acesso frequente aos sites de mídia social (como o Facebook e Instagram, por exemplo) exerce uma poderosa influência sobre a saúde mental de todos, sobretudo no que diz respeito aos usuários adolescentes.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles, tendo esta preocupação em mente, realizaram um estudo para determinar o que ocorre com os circuitos cerebrais dos jovens quando postam conteúdo nas redes sociais.

Assim, ao tomar por base o tempo gasto pelos adolescentes nessas plataformas, que podem variar de oito a dezoito horas por dia – mais do que o tempo destinado, inclusive, ao sono -, este hábito pode vir a influenciar o cérebro dos jovens, ainda em processo de desenvolvimento. (1)

O experimento

Cerca de 32 adolescentes, com idades variando entre 13-18, foram informados de que estariam navegando em uma pequena rede social, semelhante ao aplicativo que compartilha fotos, o conhecido Instagram.

Desta forma, os pesquisadores apresentaram a cada um dos participantes um total de 148 fotografias, incluindo 40 fotos que cada jovem havia selecionado, enquanto que, simultaneamente, era avaliada a atividade cerebral individual através da ressonância magnética funcional. (2)

Importante dizer que junto a cada foto também era exibido o número de “likes” que cada uma delas havia recebido de outros participantes, mas que, na verdade, era falso, pois havia sido manipulado de forma positiva pelos pesquisadores a indicar que haviam sido bem aceitas pelos demais.

O resultado mostrou que quando os jovens viam suas próprias fotos com um grande número de “likes”, o núcleo accumbens – que faz parte do circuito de recompensa do cérebro-, era fortemente ativado, isto é, ao perceberem maiores níveis de aprovação social, o cérebro reagia de maneira semelhante a quando se come chocolate ou se ganha dinheiro, por exemplo.

Na sequência, os pesquisadores perguntavam aos adolescentes quais fotos eles haviam “mais gostado”. E, adivinhe quais foram as escolhidas? Exatamente aquelas que receberam maior aceitação social – mostrando claramente a tendência de influência do grupo sobre o comportamento individual.

Um dado relevante: fotos que haviam sido postadas por outros, mas que exibiam algum tipo de comportamentos de risco, se bem avaliadas pelos demais (isto é, também indicadas com mais “likes”), surpreendentemente eram também enaltecidas por cada um, claramente demonstrando a preocupação em ficar em sintonia com a opinião geral, o que foi também responsável por uma menor ativação das redes neurais de controle cognitivo.

 A conclusão

Ficaram evidentes algumas coisas: que os jovens reagiam de forma diferente aos estímulos quando eles acreditavam que os mesmos eram endossados pela maioria de seus pares, ainda que esses “amigos”, por assim dizer, lhes fossem completamente estranhos.

O sentimento de valorização também demonstrou uma forte ativação cerebral nas áreas de recompensa e de prazer (semelhante ao que é observado em outros vícios, inclusive).

E, finalmente, a perda momentânea dos juízos de valor.

Todos esses elementos combinados, em parte, podem se tornar uma das razões pela qual postar fotos pessoais e acompanhar a oscilação do grau de aprovação ao longo do dia (olhando de maneira compulsiva os tablets e celulares) pode ser um dos mecanismos da dependência ou vício à tecnologia, inclusive, tornando mais clara a razão porque os faz gastar um tempo precioso de sua vida apenas checando as telas e desconsiderando o entorno.

E fica aqui, portanto, uma importante pergunta: Os pais deveriam estar preocupados com a influência das mídias sociais, não apenas em relação ao tempo gasto (como se isso já não fosse o bastante), mas igualmente pela interferência negativa dos exemplos de terceiros?

Sim, seguramente (e talvez os videogames, com sua natural exaltação à violência, não sejam, individualmente, os grandes modeladores dos comportamentos de risco).

Assim, muito parecido com outros meios, ambientes sociais (e agora também digitais) têm características positivas e negativas, todavia, muitas vezes, além dos aspectos já bem conhecidos, pessoas que não são de convivência próxima aos nossos filhos podem ser, de maneira silenciosa, determinantes na formação de atitudes e da personalidade, ao fazer com que os jovens, ainda em processo de formação, muitas vezes, adotem ações pouco saudáveis, mas que evoquem grande repercussão social.

Portanto, é bem possível que o cérebro dos adolescentes, frente às mídias sociais, precisem, efetivamente, ser mais acompanhados.

 

Referencias

1) http://www.usatoday.com/story/news/nation/2015/11/03/teens-spend-more-time-media-each-day-than-sleeping-survey-finds/75088256/

2) http://pss.sagepub.com/content/early/2016/05/24/0956797616645673.abstract