Dr. Cristiano Nabuco

Arquivo : psicologia

Por que o divórcio ocorre? A resposta pode estar na genética.
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Dr. Cristiano Nabuco

Yeshi Kangrang

Uma nova publicação do Psychological Science descreveu uma pesquisa realizada junto a uma amostra de 20 mil adultos suecos e divulgou um dado interessantíssimo: filhos de pais separados apresentam duas vezes mais chances de se separarem na vida adulta do que filhos que não viveram as mesmas experiências em seu lar de origem.

Assim, concluíram os pesquisadores, ter passado por um ambiente marcado pela separação faz com que as chances de uma criança se separar em sua maturidade aumentem de forma expressiva.

Eu sei, a ideia imediata que temos ao ler isso – inclusive me ocorreu também – foi a de que a experiência de se ter vivido em um lar rompido poderia predispor os filhos, do ponto de vista psicológico, a repetirem inevitavelmente na vida adulta as mesmas dinâmicas de instabilidade e incerteza afetivas. Nada mais óbvio, correto?…

Sim, mas a investigação, entretanto, apontou para uma direção completamente oposta.

Segundo as interpretações dos pesquisadores, mais expressivo do que ter experimentado as velhas questões emocionais de luta e de tentativa de superação dos problemas (junto a uma família mais desestruturada), na verdade, foi a chamada “herança genética” – transmitida às crianças -, que aumentaria exponencialmente as chances futuras de separação.

Mas, na verdade, vamos a uma pausa: como esse “divórcio” poderia ser transmitido geneticamente aos filhos?

Bem simples, eu explico.

Antes de mais nada, vamos deixar claro que ninguém herda uma separação ou divórcio propriamente dito, obviamente, mas, ao herdarmos certos traços de personalidade dos pais, como o neuroticismo (indivíduos que, a longo prazo, possuem uma maior tendência a um estado emocional negativo) e a impulsividade, segundo apontou a pesquisa, a capacidade de manejo emocional de uma criança hoje (um adulto amanhã) estará, portanto, mais comprometida.

Imagine, por exemplo, como seriam os pensamentos de uma pessoa que traz em sua personalidade o neuroticismo dos pais. Não seria ela muito mais provável de perceber seus parceiros afetivos como se comportando de forma “mais negativa” e inadequada, criando, assim, interpretações altamente errôneas a respeito do comportamento do outro?

Seguramente que sim!

Vamos lembrar, entretanto, que há uma série de fatores que afetam um casamento e o equilíbrio psicológico de um casal, mas quando os mesmos pesquisadores analisaram os dados conjugais de 80 mil crianças suecas criadas com a mãe biológica e um padrasto, encontrou-se uma forte correlação, o que consolidou os achados iniciais de predisposição, aumentada a separação e vida pregressa de separação parental.

Claro, não vamos confundir predisposição com certeza, entretanto, essas conclusões fazem com que possamos considerar que, além das dinâmicas pessoais, sempre haverá um aspecto biológico que pode contribuir, de maneira importantíssima, na equação final da felicidade de uma pessoa e de um casal.

Giovanni Cancemi – Fotolia

Quando nossos pais e avós têm uma determinada doença física, não teremos aumentadas as chances de desenvolver os mesmos problemas? Sim. Quem já foi a um médico já ouviu essa história.

Pois bem, ao que tudo indica então, o mesmo valeria também para nossa saúde mental.

Nosso equilíbrio ou desequilíbrio podem influenciar, portanto, não apenas nossa vida individual (e conjugal) presente, mas, também afetar as futuras gerações. E isso nos coloca em uma posição de mais responsabilidade e maior consciência em como, de fato, vivemos nossas experiências de vida.

Pense nisso.

Suas atitudes, mais do que podemos imaginar, podem ser passadas adiante e reverberar por décadas através da genética.

#vãoasdicas

– Quando estiver em algum relacionamento e, frequentemente, se achar injustiçado(a), fique atento(a). Esse sentimento pode ser indicativo de um mecanismo mental ativo que distorce a interpretação das situações – o que, algumas vezes, pode ser decorrente de nossa herança genética.

– Antes de agir, procure pensar, ou seja, tente manejar sua impulsividade e, desta forma, não se comportar de “cabeça quente”. Ninguém, em última instância, pode ser responsabilizado por sua infelicidade (ou mesmo por sua felicidade). Vivemos o que desejamos viver. Portanto, se alguém lhe faz mal, é porque assim permitimos que aconteça.

-Lembre-se da “regra de ouro” dos relacionamentos: poucas são as pessoas que, deliberadamente, agem para nos prejudicar. Na verdade, cada um traz seu ponto de vista e, nada mais natural, portanto, que existam leituras distintas das situações de vida.

-E, finalmente: saiba que não existe, de fato, alguém que seja igual a nós. Assim, se deseja viver em equilíbrio, pare de criar expectativas fantasiosas a respeito do outro. Pela genética ou repetindo padrões de nossos lares de origem, saiba que somos responsáveis pela vida que levamos.

 

 

 


Estresse na gravidez? Pode o trauma ser herdado pelos filhos?
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Dr. Cristiano Nabuco

Giovanni Cancemi – Fotolia

Já se tornou um clássico, em praticamente todas as narrativas de saúde mental, associar experiências de privação e de abuso vividos nos primeiros anos de vida à (quase) inevitável ocorrência de dificuldades na vida adulta.

Assim, autores e investigações científicas são abundantes a esse respeito e, se eu fosse listá-los, ainda que de maneira genérica, levaria alguns meses para explicá-los por completo.

Claro, desde cedo a costumeira má relação com algum membro da família, que se arrasta por toda uma existência, é, possivelmente, apontada como a base das mazelas e das inquietudes pessoais da maturidade. Prato cheio para terapeutas e analistas de todos os gostos e espécies, não acha?…

Pois bem, para além das teorias mais atuais, entretanto, há certas pesquisas que têm analisado alguns elementos que fogem dessa “paisagem psicológica” mais tradicional e que mereceriam sua atenção, ou seja, existiriam fatores que podem impactar na saúde mental antes mesmo do nascimento do bebê?

Sei, se você é daqueles mais céticos, que não acredita em nada disso, pois são apenas “teorias”, este artigo então é dirigido a você.

Descobriu-se que o período pré-natal do desenvolvimento humano é, na verdade, um momento em que o meio ambiente exerce uma influência significativa na modelação da fisiologia do feto.

Calma, eu explico. Vamos de novo.

A fase inicial de vida dentro da barriga da mãe é compreendida pelos cientistas com uma importante janela de “interferência” na vida do embrião, isto é, esse período é considerado um momento em que o ambiente intrauterino afeta, de maneira clara e pontual, o desenvolvimento da fisiologia da criança.

Vamos a um exemplo para facilitar as coisas: problemas de nutrição da mãe, por exemplo, podem estar relacionados a um número expressivo de fatores de risco, como doenças cardiovasculares na vida adulta do bebê.

Constatou-se, igualmente, que certas situações estressantes vividas pela mãe durante a gravidez impactam de maneira direta no recém-nascido, como: (a) Estresse físico vivido pela má nutrição e a exposição do feto a toxinas (álcool e nicotina); (b) Estresses psicossociais decorrentes de problemas de saúde mental da mãe, provenientes de violência doméstica ou, ainda, a fome e a pobreza extremas e, finalmente, (c) Sofrer traumas agudos de caráter incontrolável como desastres naturais, terrorismo ou genocídio, que resultam em estresse pós-traumático da mãe.

Dessa maneira, é como se o período de gestação pudesse criar certas formas de programação biológica, oferecendo mais vulnerabilidade genética à criança.

Veja que interessante, sabe-se que a resposta ao estresse é desencadeada pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, ou seja, quando, no caso, a mãe vive períodos de gestação marcados pela tensão e pelo estresse contínuos, pode, de maneira permanente, mudar a fisiologia da criança, predispondo-a, além do desenvolvimento de distúrbios cardiovasculares, como já dito anteriormente, mas adicionalmente a problemas metabólicos e, principalmente, transtornos de saúde mental na vida adulta.

Sebastiano Fancellu – Fotolia

E isso vale sua atenção.

Essa descoberta veio à tona quando há alguns anos uma pesquisa apontou que os sobreviventes do holocausto tinham maiores chances de ter filhos vulneráveis a transtorno de estresse pós-traumático e doenças psiquiátricas, se comparados àqueles que não passaram pelas mesmas experiências.

Assim sendo, certas experiências precoces, decorrentes do estresse materno, podem alterar como os genes são expressados e esses padrões de expressão podem ser passados aos filhos, tornando a criança mais vulnerável a determinadas experiências de vida.

Importante, não acha?

Será a transmissão transgeracional do trauma uma nova etapa nos estudos de saúde mental? Nossos pesadelos poderiam, portanto, ser herdados?…

Para se pensar.

 

Referências

https://www.ncbi.nlm..gov/pubmed/24029109

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26327302


5 efeitos (negativos) mais comuns das mídias digitais
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Dr. Cristiano Nabuco

Leigh Prather – fotolia

De acordo com uma nova pesquisa, ao utilizarmos as redes sociais e as mídias eletrônicas, algumas consequências são imediatamente produzidas em nosso cérebro:

Ficamos mais descontrolados com o dinheiro

Talvez só você ainda não saiba, mas os marqueteiros de plantão estão bem conscientes – e faz tempo – de que as pessoas que mais usam as redes sociais são aquelas mais propensas a gastar dinheiro na web, ou seja, as redes sociais produzem, em algum momento, níveis de descontrole.

Sim, pois diferente da vida real, onde temos que ir a uma loja, manusear os produtos, pegar fila para pagar e todas aquelas etapas bem conhecidas por todos, na internet, ao contrário, basta dar, no máximo, uns 3 cliques e sua compra pode estar a caminho de sua casa.

Portanto, há um aspecto terrível a ser notado, que nossa impulsividade corre muito mais solta, o que é, obviamente, um grande perigo à nossa saúde econômica. Como oscilamos emocionalmente ao longo do dia, os momentos de baixa fazem que compremos mais como forma de aumentar a autoestima e nos dar uma “animada”. (1)

Minha dica: evite navegar na web em momentos de alteração de seu humor (quando está se sentindo triste, deprimido ou ainda, é claro, estando meio “alto” por conta de algumas bebidinhas).

Enfraquecemos nossa capacidade de reter informações

Sim, basta que você tenha um telefone celular nas proximidades para que seu nível de atenção cerebral caia de maneira significativa. Como temos uma capacidade cerebral (que é limitada) para reagir ao meio ambiente e seus estímulos, basta que tenhamos um telefone ao lado para que nossa produção intelectual (de qualquer tarefa), despenque de maneira expressiva.

Como sabemos, temos à nossa disposição uma certa capacidade de atenção cerebral e os telefones roubam parte dessa energia.

Ah, ia esquecendo, e isso vai ocorrer “mesmo que” o seu telefone não esteja sendo usado. Nem adianta deixar na bolsa ou virado com a tela para baixo durante a reunião, pois para seu cérebro, seu aparelho “está ali”. (2)

Minha dica: quando for realizar algo que envolva, de fato, um raciocínio mais profundo, não o deixe no mesmo ambiente. Fica o aviso!

Diminuímos nossa autoestima

Cientistas estudaram 600 pessoas que passaram o tempo na rede social e descobriram que um, em cada três, sentiu-se pior depois de visitar as redes sociais – especialmente se eles visualizavam fotos de férias.

kieferpix – fotolia

Os frequentadores do Facebook, por exemplo, que passaram algum tempo no site sem publicar seu conteúdo pessoal, também foram aqueles mais propensos a sentirem-se insatisfeitos com sua vida pessoal, na comparação com aquelas vistas nas redes sociais. (3)

Assim sendo, parece que os efeitos positivos de nos sentirmos socialmente “conectados” com os outros podem, de uma hora para outra, evocar igualmente sentimentos de inferioridade ou falta de capacitação, gerando muito dissabor.

Portanto, vai minha dica: procure se tornar consciente de que um relacionamento nas redes sociais pode, muito potencialmente, lhe reduzir a autoestima e afetar a avaliação que faz de sua vida pessoal ou profissional. Portanto, caso não esteja lá muito bem, evite dar uma olhada nas redes sociais. Em vez de se manter conectado com os amigos, esse estímulo pode, na verdade, se tornar apenas uma outra fonte de estresse em sua vida.

Primeiro cuide de você para depois olhar para a vida dos outros, escute meu conselho.

Comprometemos a capacidade de pensar de maneira independente

Sabemos que à nossa volta existe uma pressão social muito poderosa que nos força a agir de uma maneira que acompanhe a preferência dos demais (também chamado de “efeito manada”, você já deve ter ouvido falar). Assim sendo, tendemos, de maneira inconsciente, a observar as reações e os comportamentos dos demais para que possamos criar uma forma de “cola social” e, dessa forma, nos sentirmos mais aceitos.

Ocorre que, nas redes sociais, essa pressão aumenta de uma maneira exponencial, pois nossas ideias não estão expostas aos pequenos grupos, como sempre ocorreu na vida, mas agora são divididas com algumas centenas ou milhares de pessoas, o que nos coloca sob uma pressão de aceitação ainda maior.

Para avaliar isso, cientistas pediram a 600 participantes que respondessem algumas perguntas sobre fotos on-line que lhes estavam sendo apresentadas publicamente e o resultado mostrou que parte expressiva das opiniões “individuais” estavam, na verdade, diretamente influenciadas pela opinião dos demais. (4)

Portanto, quando você estiver tentando formar uma opinião a respeito de algo, pense antes de expor nas redes. Essa pode ser uma atitude poderosa para manter sua individualidade e, mais que isso, deixar sua criatividade preservada.

Quanto menos contaminados estivermos pelas tendências do meio ambiente – que nem sempre são lá muito salutares – mais originais seremos. Pense nisso.

Deixamos nossas comunicações mais perigosas

E aqui vai um dos últimos efeitos bem arriscados.

bsd555 – fotolia

Quando nos comunicamos com alguém, além de ouvir as mensagens que nos chegam através das palavras e dos sentidos dados pelos outros, nosso cérebro lê, de maneira silenciosa, os gestos e a entonação vocal – também chamado de comunicação não-verbal -, complementando o sentido final.

Dessa forma, algo que pode ser dito de maneira mais leve, digamos, pode ganhar um sentido mais irônico, por exemplo, dependendo de como falamos.

Nas redes sociais, por outro lado, nossa comunicação é privada desses sinais que seriam vitais para dar um sentido final àquilo que está sendo dito e, portanto, como não “vemos” o que de fato acontece por parte do outro, “imaginamos” um sentido às palavras e ações.

Assim, essa é a razão pela qual tantos problemas de comunicação ocorrem nas redes sociais. E vai minha pergunta: quem já não bateu boca com alguém pelas vias digitais e depois se arrependeu amargamente?

Pois bem, minha orientação: não discuta nenhum assunto mais profundo através dos aplicativos de comunicação (nem pense em fazer uma D.R. pelo whats, nunca). Tenho certeza que uma boa conversa cara-a-cara resulta em um final bem mais feliz e elegante do que aquelas que ocorrem de maneira desordenada através da digitação impensada e descontrolada. (5)

 

Referências

  1. https://www.today.com/money/facebook-makes-you-spend-more-research-suggests-1C6969482
  2. https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2017/07/25/o-efeito-do-celular-sobre-seu-cerebro-mesmo-estando-desligado/
  3. http://healthland.time.com/2013/01/24/why-facebook-makes-you-feel-bad-about-yourself/
  4. http://mashable.com/2011/09/16/social-media-peer-pressure/#mDkMMfjwtGqd
  5. https://thelede.blogs.nytimes.com/2009/02/24/is-social-networking-killing-you/

 

 


O que a tecnologia terá feito com você?
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Dr. Cristiano Nabuco

© Vladgrin-Fotolia.com

Pois é, em época de grandes avanços tecnológicos, como aqueles que vivemos hoje, eu nem me atreveria a arriscar uma opinião mais polêmica, pois, diferentemente de períodos anteriores, onde eu falaria para os conhecidos do trabalho ou da universidade (e, quem, por acaso, discordasse de mim, no máximo me diria); atualmente, caso eu defenda alguma ideia um pouco mais incomum que seja, tenho à minha disposição as redes sociais digitais – que alcançam alguns milhares de pessoas em horas -, tornando meu discurso bem mais perigoso e passível de punições.

Assim, eu creio, estamos muito mais hesitantes.

Momentos em que eu falava futilidades e aprendia com meus erros, já não existem mais. Não temos mais essa alternativa e, portanto, o círculo de meus amigos próximos que me corrigiam, simplesmente, desapareceu. Temos hoje que alinhar nosso comportamento em praça pública ou, se você desejar, terá que fazê-lo junto às redes sociais digitais, o que, convenhamos, não é tarefa das mais fáceis. Alguém que já foi antipatizado em suas publicações no Face, por simples descuido narrativo, sabe exatamente a que me refiro.

Estamos, portanto, muito mais inseguros.

Outra coisa importante que noto é que, de maneira bem primária, os limites de minha vida mais íntima também não existem mais como antes. Recebo, de maneira ininterrupta, mensagens que tocam em meu celular (já silenciei a maioria dos grupos, diga-se de passagem) e as pessoas não entendem minha vontade e desrespeitam, de forma recorrente, meu desejo à privacidade. Cá entre nós, dando uma olhada mais de perto, desconfio que a maioria das coisas que me chegam pelo whatsapp são, de fato, absolutamente irrelevantes.

Estaríamos então mais incomodados? Seguramente.

Mas não acabou por aí.

O último círculo de contato que temos é aquele em que convivemos conosco, ou seja, a relação com nossa mais íntima subjetividade, local onde habitam nossos pensamentos e emoções e que também, sem dúvida, foi seriamente impactado. Sim, pois caso eu navegue na internet em busca de qualquer informação que seja, vou lidar com um conhecimento muito mais frágil, fragmentado, (menos fixo, como os velhos livros) – um verdadeiro “oceano de fragmentos” -, muito mais líquido e plural.

Dessa forma, minha capacidade de responder às minhas inquietudes mais privadas também foi seriamente afetada e, assim, o que dava base às minhas ideias – os chamados pontos fixos -, igualmente, também não existe mais. Por acaso, você, leitor(a), consegue aventurar-se a respeito de uma opinião definitiva sobre sexualidade, política ou mesmo religião? Isso mesmo, é praticamente impossível.

Estamos, portanto, carregando mais incertezas.

E aqui vai minha última questão: se estamos mudando em relação às nossas atitudes sociais e mais particulares, o que isso tudo terá ocasionado junto ao nosso comportamento?

Simples, bem simples.

© Robert Kneschke – Fotolia.com

Antigamente pensávamos antes de agir. Hoje, na web, não esperamos mais, na verdade, agimos para depois pensar. Sentimo-nos mais produtivos sendo deste jeito e isto, claramente, nos tornou mais impulsivos e muito menos reflexivos.

Portanto, vivemos hoje uma total desintegração entre os limites do mundo real e o mundo digital, o que nos confunde demasiadamente. Dezenas de pessoas levam para a vida real aquilo que são em sua vida digital, criando sérios problemas de comportamento e de adaptação (atendo às dezenas em meu consultório, caso ainda não tenha lhe falado).

É possível que você discorde veementemente de minhas ideias e, ainda assim, eu lhe compreenderei, pois não me restam alternativas. Mas, no fundo, no fundo, eu penso que a tecnologia nos prometeu um grande avanço, um salto existencial, mas, particularmente falando, sinto que houve, na realidade, um expressivo retrocesso, pois a qualidade de nossa vida foi seriamente golpeada.

Mais hesitantes, inseguros, incomodados e, notadamente, mais indefinidos. Assim estamos.

Ingenuidade (ou não), tenho me esforçado para distanciar-me um pouco da tecnologia e das redes sociais e sou obrigado a confessar: estou vivendo de maneira muito mais tranquila, não há dúvida, em relação a isso. Acho que eu prefiro ser uma pessoa mais calma e serena, com tempo para tentar flertar com minhas inquietudes (recuperar meus momentos de contemplação) e, de forma mais saudável, estar menos “online” e “conectado”. Aliás, “conectado” com o que mesmo?…

E você, leitor(a), afinal, saberia me dizer, o que a tecnologia terá feito com você?


Fotos e atitudes na rede social dão pistas de sua saúde mental
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Dr. Cristiano Nabuco

lassedesignen – fotolia

Já não é de hoje que sabemos que muita gente se utiliza das redes sociais para divulgar uma série de acontecimentos da vida, certo? Também não é novidade alguma que muitas delas usam desse recurso para passar uma imagem de si mesmos, digamos, um pouco “melhorada” de certos momentos pessoais de baixa e, assim, algumas vezes, poder disfarçar o isolamento e a insatisfação sentida.

Já se tem conhecimento, inclusive, que, de uma maneira geral, a cada 10 fotos que são postadas nas redes sociais, 8 são (exaustivamente, diga-se de passagem, em alguns casos) retocadas para produzir uma melhor impressão aos demais.

Pois bem, o que ninguém sabia ainda é que um olhar mais atento desses comportamentos pode revelar aspectos da vida privada bastante importantes e que, muitas vezes, fogem do controle consciente do usuário.

Num estudo recente, por exemplo, utilizando-se de um programa de computador, foram analisados traços e características de cerca de 44 mil fotos postadas no Instagram e constatou-se que as pessoas que não estavam bem (sofriam de depressão), naturalmente exibiam uma preferência inconsciente para usar em suas postagens cores mais melancólicas e escuras (como o azul, preto e branco), o que, claramente, retratavam seu estado emocional, se comparadas àquelas em que a depressão não estava presente (onde as fotos eram mais brilhantes e as cores vivas, mais abundantes). (1)

Para os pesquisadores, era como se a escolha das cores mais sóbrias deixassem escapar o estado emocional de descontentamento vivido, como se estivessem se sentindo com “uma nuvem escura sobre a cabeça”, afirmam os pesquisadores.

As fotos postadas por esses indivíduos também revelavam outro ponto bastante interessante: se comparadas às das pessoas sem depressão, revelavam as menores taxas de exposição do rosto ou da face, o que, possivelmente, interpretam os cientistas, denotava menor disposição em criar alguma forma de contato social. Dito em outras palavras, é como se esses usuários não deixassem de publicar, mas, sem que percebessem, se “protegiam” de um contato a mais com as pessoas.

Dessas 44 mil fotos estudadas, o software exibiu uma precisão de 70% de detecção da depressão, o que poderia, inclusive, servir de uma importante ferramenta de autocuidado.

Pensando um pouco mais a frente

Mais do que se imagina, portanto, um olhar mais cauteloso detecta pistas visuais dos usuários das redes sociais e o que, muitas vezes, apontam outras investigações, mostram muito além  das postagens.

Outra pesquisa já havia concluído que as pessoas que se sentem mais inseguras em seus relacionamentos são aquelas mais ativas nas redes sociais, ou seja, são, entre todos os usuários, as que publicam atualizações pessoais mais frequentes, comentam posts mais intensamente e, finalmente, são as que mais visitam a timeline dos demais, distribuindo generosamente seus “likes”, na esperança de obter algum tipo de atenção. (2)

Acabou por aí? Nem pensar! Um estudo da Universidade Estadual de Ohio sugeriu que os homens que publicam mais fotos de si mesmos em mídias sociais como, por exemplo, no Facebook, são exatamente aqueles que obtêm as pontuações mais altas nas medidas de narcisismo e de psicopatologia. (3)

Bem, exemplos não faltarão, só dar uma boa olhada em outras investigações. (4)

Portanto, tudo o que você faz na internet, naturalmente deixará um rastro notório de sua dinâmica pessoal mais íntima.

Conclusão

Muito embora as redes sociais tenham se disseminado amplamente entre as pessoas e, mais do que nunca, se tornado parte cotidiana da vida diária de milhões ao redor do mundo, o comportamento que exibimos nas redes pode dizer muito mais do que ingenuamente  poderíamos supor. (5)

© berc – fotolia

Dizem alguns que, antes da invenção das redes sociais virtuais, pensávamos antes de nos comunicar, mas hoje, dada a velocidade das coisas na internet, agimos (ou melhor, digitamos) primeiro para depois pensar (filtrar), o que pode, sem dúvida alguma, dar margem a revelações que não são interessantes de serem desvendadas e, consequentemente, percebidas pelos demais. (6)

Minha dica: Da próxima vez, antes de postar qualquer coisa que seja, pense um pouco mais. Não aja por impulso.

Tenho certeza que uma avaliação, um pouco que seja, mais ponderada, vai ceifar a metade dos comentários e comportamentos que você exibiria (inconsequentemente) na web.

Pense nisso.

O que você faz na vida digital, concluindo, pode retratar muito mais do que apenas as fotos e as preferências que deseja compartilhar.

 

Referências

(1) https://epjdatascience.springeropen.com/articles/10.1140/epjds/s13688-017-0110-z

(2) http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0191886914007247

(3) http://www.huffpostbrasil.com/entry/selfies-narcissism-psychopathy_n_6429358

(4) https://www.theguardian.com/technology/2012/mar/17/facebook-dark-side-study-aggressive-narcissism

(5) http://www.smartinsights.com/social-media-marketing/social-media-strategy/new-global-social-media-research/

(6) https://www.harpercollins.com/9780062020444/is-the-internet-changing-the-way-you-think

 


O experimento do Facebook: quanto mais você usa, menos feliz estará
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Dr. Cristiano Nabuco

draganagordic – fotolia

O número total de usuários da rede social Facebook, segundo levantamentos realizados em dezembro de 2015, era de, aproximadamente, 1,59 bilhões – número este já, possivelmente, ultrapassado nos dias de hoje – e, de maneira mais do que óbvia, crescendo a cada dia.

Através dessa plataforma, pessoas permanecem em contato com amigos, dividem experiências importantes e mais, obtém, de maneira contínua e ininterrupta, uma importante forma de apoio e de reconhecimento social. Assim, nem precisaria ser especialista para entender que seu uso se tornou parte importante de nosso cotidiano, sendo, no momento, a mais usada rede social do planeta.

Caso não seja o seu caso – sorte sua, eu lhe diria -, saiba que uma parcela expressiva desses usuários é, de fato, fiel, pois antes mesmo de sair da cama, “abre o Face apenas para ‘dar uma olhada’ se algo de importante aconteceu durante a noite”.

Assim, muito embora a impressão dos usuários seja a de que essas interações são, de fato, relevantes, do ponto de vista emocional, já não é de hoje que algumas pesquisas apontam para uma direção oposta.

Eu explico.

Estudos anteriores já haviam relacionado o uso do Facebook ao aparecimento de alguns problemas importantes como, por exemplo, a manifestação de efeitos psicológicos negativos em seus usuários, o aparecimento de sintomas depressivos e o aumento marcante de uma insatisfação pessoal. E tem mais: registre também aí, a deterioração do humor e, finalmente, o aumento de uma percepção pessoal de falta de sentido (pelo fato de a pessoa não se sentir tendo feito algo de importante, se comparado àquilo que assiste nas histórias dos demais).

Entretanto, sendo bastante imparcial, há também estudos que apontam o lado positivo da plataforma, como servindo de importante ferramenta de validação social, além de possibilitar a diminuição da solidão.

Mas, afinal, eu me pergunto: a ciência poderia ser, às vezes, menos contraditória? Vamos tentar responder através de outra pesquisa então.

A investigação

Foram recrutados 1.095 dinamarqueses para participar de um experimento que teria a duração de uma semana. Adultos, majoritariamente mulheres (86%), apresentavam uma média de idade de 34 anos. O objetivo central da pesquisa era avaliar se o uso do Facebook efetivamente poderia criar algum tipo de impacto no bem-estar dos usuários e, mais especificamente, se o seu uso alteraria a satisfação pessoal da vida de cada um e, como consequência, evocar emoções negativas em seus usuários.

Algumas variações foram propostas aos participantes, como diferentes tempos de uso, além de outras modificações.

O resultado?…

Bem, em termos gerais, o primeiro achado apontou para o fato de que aquelas pessoas que foram orientadas a interromper o uso pelo período de uma semana, foram as que, frente ao grupo como um todo, relataram os maiores níveis de bem-estar e de satisfação com a vida pessoal.

E o segundo achado? Quando menos se interagiu com a rede social, menores também foram os níveis de inveja interpessoal que surgiam nos usuários.

O que significa então que um uso moderado e sensato – aliás, como tudo na vida -, pode então lhe colocar em contato com as boas coisas que o Facebook tem para oferecer e, ao mesmo tempo, preservar a sua vida emocional.

Conclusão

Tenhamos, portanto, algo bastante claro em mente.

As consequências do uso do Facebook, se positiva ou negativa, obviamente derivam da forma de como utilizamos a referida rede social em nosso dia-a-dia. Vamos lembrar que, ao longo do cotidiano, não estamos tão atentos e críticos a respeito daquilo que é postado pelos outros usuários, ou seja, na velocidade que nosso dia-a-dia nos chega, faz com que percamos, temporariamente, a capacidade de pesar o quanto que as comparações sociais que fazemos de maneira automática com os demais são, de fato, sensatas.

Assim sendo, como a vida é cheia de altos e baixos, fiquemos atentos, portanto, às comparações bem pouco realistas que, nos momentos de menor motivação, nos fazem sentir mal a partir da analogia com a vida dos demais.

Concluindo, como “a grama do vizinho é sempre mais verde”, fiquemos atentos, portanto, para as experiências que vivemos no mundo virtual, pois, ao que indica essa nova pesquisa, enquanto não tivermos muita maturidade e preparo, quanto mais Facebook usarmos, menores serão as chances de nos sentirmos bem.

Recomendações

– Não fique entrando no Facebook de hora em hora. Assim sendo, reserve certos momentos de seu dia.

– Desabilite os sons que fazem seu celular ou laptop apitar assim que alguém curte algo que você postou, pois é inevitável – ou irresistível demais -, não dar uma olhadinha.

– Não estimule seus filhos a se tornarem dependentes dessa plataforma (ou de outras redes sociais). Posso lhe assegurar que, as melhores coisas da vida, não estão sendo compartilhadas nas redes sociais.

– Nada supera as experiências que estamos vivendo em nosso presente momento.

Pense nisso tudo.

 

Referência

http://online.liebertpub.com/doi/10.1089/cyber.2016.0259


Embelezamento Alcoólico: efeitos fisiológicos e psicológicos do beber
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Dr. Cristiano Nabuco

Para compreender o efeito do álcool, tente ver esta foto com os olhos quase fechados. Crédito foto: VIA9GAG.com

Quem nunca passou por aquela situação de ingerir bebidas alcoólicas um pouco além da conta e no dia seguinte se arrependeu?…

E quando isso acontece, é como se tivéssemos colocado “óculos de cerveja”, expressão cunhada em inglês como beer goggles, que consiste na tese de que quando ingerimos uma certa quantidade de álcool, nossa capacidade de olhar a beleza se tornaria, digamos, mais generosa.

Pois bem, a ciência tem explicado o que realmente ocorre – e vários fatores contribuem para isso.

Influência psicológica

Em primeiro lugar, temos um aspecto puramente psicológico. Foi conduzida uma experiência em que algumas pessoas foram informadas de que haviam consumido, sem saber, uma quantidade especifica de bebida alcoólica. Como resultado, suas opiniões a respeito de si mesmas mudaram expressivamente, ou seja, ao saber que tinham bebido, se consideravam mais atraentes, brilhantes, originais e engraçadas do que aqueles que acreditavam não ter consumido nada de álcool.

E as coisas não param por aí: as pessoas sóbrias também acham mais atraentes aquelas que estão “alegres” em função do consumo do álcool. Em um estudo científico, indivíduos que consumiram o equivalente a um copo de vinho foram considerados mais atraentes do que aquelas pessoas que não haviam consumido nada. (1)

Participantes de outra investigação, apontaram para os mesmos achados: aqueles que haviam ingerido vodca acharam o rosto de certas pessoas mais charmosas e mais bonitas do que aqueles que não tinham consumido uma bebida alcóolica nenhuma.

Portanto, ao que tudo indica, há uma crença ou uma natural predisposição de as pessoas acharem que o álcool, de uma maneira ou de outra, contribui para facilitar as coisas nas relações interpessoais. (2)

Influência fisiológica

Obviamente, os efeitos do álcool sobre o cérebro também são reais. Quando bebemos, nos tornamos menos capazes de perceber a assimetria facial, conhecida por ser um importante componente de atratividade humana, por exemplo.

Como a biologia nos ensina, uma boa simetria mostra que um indivíduo possui melhores características genéticas, indicando alguém mais saudável e, possivelmente, uma melhor escolha no caso de reprodução. Como nossos antepassados não dispunham de maiores informações a respeito do outro, um bom equilíbrio facial indicava boas escolhas, segundo nossos instintos evolutivos “pré-programados”.

Ainda nos dias de hoje, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes e mais saudáveis pessoas com maior simetria do que as demais – sem tanta harmonia e “beleza”, por assim dizer.

Portanto, é como se a ingestão do álcool pudesse ter um efeito ilusório sobre nosso cérebro mais primitivo, “borrando” as imperfeições faciais das pessoas menos atraentes, tornando-as mais simétricas e, definitivamente, mais fascinantes aos nossos olhos.

ambrozinio – fotolia

Claro que também há o fato de o álcool aumentar a impulsividade, nos tornando menos seletivos e exigentes em nossas escolhas afetivas, segundo apontam os modelos biológicos de pesquisa. (4)

Uma das regiões do cérebro com maior queda de atividade quando se está sob efeito do álcool é o córtex pré-frontal – região responsável pela tomada de decisões e pelo pensamento racional. Com o córtex pré-frontal menos ativo, ficamos sujeitos a agir sem pensar muito. (5)

Conclusões

Bastante óbvias.

As variáveis psicológicas e fisiológicas interagem de maneira profunda quando o assunto é o consumo de álcool. Ao que tudo indica, beber exerce um efeito positivo na percepção da beleza no ambiente em que estamos e na percepção sobre nós mesmos e os outros.

Bebemos para nos soltar e, aos nos soltarmos, relaxamos nossos critérios de avaliação pessoal, “facilitando bastante” as coisas para nosso lado.

“Ai, que bom seria” se as pessoas, de fato, pudessem a partir desses contrastes de suas personalidades (sem álcool versus com o álcool), se auto-aprimorar, não acham? Muito embora algumas delas entendam o álcool como um veneno necessário, há coisas dentro delas que precisam ser aniquiladas e, infelizmente, a bebida é vista como a única possibilidade.

 

Referências

(1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25716115

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2485891

(3) https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2016/07/the-science-of-beer-goggles/485591/

(4) http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001391

(5) https://www.psychologytoday.com/blog/you-illuminated/201006/your-brain-alcohol

 

 

 


Celular e volante: Combinação perigosa
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Dr. Cristiano Nabuco

theartofphoto – fotolia

Não restam dúvidas: a tecnologia veio para ficar. E instalou-se não apenas facilitando nossas vidas, mas também criando alguns efeitos colaterais bastante impactantes, como todos nós já sabemos.

Seguramente, usar dispositivos digitais enquanto se dirige é um exemplo bastante claro de tais efeitos colaterais. Você está em seu carro e percebe que o carro à sua frente segue em uma rota sinuosa, vagarosa e desatenta. Você pensa: Será que esse motorista está bêbado? Não, não… ele (ou ela) está usando o celular. O efeito de dirigir e falar ou enviar mensagens pelo celular não é muito diferente de beber e dirigir.

Enviar mensagens de WhatsApp, verificar as curtidas de suas postagens do Facebook, buscar alguma música desejada, dar uma olhada no Instagram ou, simplesmente, pesquisar algum tema na internet. Estes comportamentos denotam uma total falta de conscientização do risco que, em si, não é considerado suficientemente perigoso para frear essas pessoas.

No entanto, as estatísticas vêm mostrando que as novas tecnologias realmente colaboram para a distração dos motoristas. No Brasil, seu uso já figura entre as maiores causas de acidentes automobilísticos (1-2) e, no exterior, já é considerado como uma das principais causas. (3)

Dados de 2015 do seguro Dpvat (Brasil) informam que foram pagos naquele ano cerca de 1,3 milhão de reais por morte ou invalidez em acidentes relacionados ao uso do celular. Os dados também mostram que 80% dos motoristas admitem que utilizam o aparelho ou outras tecnologias que geram distração enquanto dirigem. (4)

Vamos dar uma olhada em alguns números de pesquisas americanas: (5)

– 9 é o número diário de mortos em acidentes decorrentes de distração na direção, tal como usar o telefone celular ou enviar mensagens de texto.

– Em 2013, o número de acidentes de trânsito causados pelo envio de mensagens de texto foi de 341 mil.

– Em 2016, 1 em cada 4 acidentes foi causado pelo uso impróprio do celular.

– 33% é a porcentagem de motoristas dos EUA com idade variando entre 18 a 64 anos que relataram ter lido ou escrito mensagens de texto enquanto dirigiam no mês anterior.

Entre os jovens, a situação é pior: o envio de mensagens de texto é apontado como o maior causador de acidentes de trânsito. (6)

Vale a pena reforçar: em muitos casos, receber uma mensagem ou um post no Facebook é um estímulo social bastante recompensador que, provavelmente, estimula os circuitos dopaminérgicos de recompensa no cérebro.

Sabemos que o cérebro humano somente estará plenamente maturado depois dos 21 anos de idade. Antes disso, os jovens apresentam uma dificuldade natural de frear comportamentos de risco, o que deixa os motoristas mais jovens mais vulneráveis aos estímulos derivados da tecnologia e, portanto, com maior probabilidade de agir de forma impulsiva.

Além disso, o risco de acidentes causados pelos smartphones é aumentado por nos obrigar a realizar a chamada “multitarefa” – isto é, fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Uma pesquisa da AT&T mostrou que quase 4 em cada 10 usuários de smartphones acessam suas mídias sociais durante a condução do veículo, quase 3 em cada 10 surfam na web e (pasmem!) 1 em cada 10 se envolve em um bate-papo por vídeo. (7)

Achou preocupante?…

Flavijus Piliponis – fotolia

Então veja só: 7 em cada 10 pessoas se envolvem em atividades usando o celular enquanto dirigem. Enviar mensagens de texto e e-mail ainda são os mais prevalentes. Entre as plataformas sociais, o Facebook encabeça a lista, com mais de um quarto das pessoas consultadas admitindo usar o aplicativo durante a condução de um veículo. Cerca de 1 em cada 7 disse que está conectado ao Twitter ao volante.

Vamos avaliar o seu risco?

Então caneta e papel na mão. Responda o “quiz” abaixo e descubra quais são seus comportamentos ao dirigir seu carro que representam um risco. Ao final do quiz, some os pontos descritos entre parênteses. A soma total obtida traz uma estimativa do nível de risco associado “intencionalmente” por você, na semana anterior, enquanto guiava:

-Atendi o telefone enquanto dirigia. (1 ponto)

-Fiz uma ligação (inclusive disquei) enquanto dirigia. (2 pontos)

-Li uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Enviei uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Li uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

-Digitei e enviei uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

Para especialistas americanos (National Transportation of Safety Board, NTSB e Conselho Nacional de Segurança, NSC), se a soma de seus pontos foi superior a 1, sua atenção esteve prejudicada. Mas não sejamos tão rígidos. Há uma outra classificação, um pouco menos severa, que nos dá uma noção da graduação do risco.

Por meio dessa classificação, somando seus pontos, qual seria então seu grau de risco? (8)

De 1 e 3: Seu grau de risco foi moderado.

De 4 e 6: Você correu um risco alto de sofrer um acidente.

Acima de 6: Você assumiu um grau de extremo risco ao dirigir.

Para compreender melhor a dimensão do problema, vejamos um pouco da matemática e da física durante o uso de dispositivos móveis ao volante. Voltar os olhos para um aplicativo consome 5 segundos de nossa atenção. Parece pouco? Repense. Isso significa que, se estiver dirigindo a 80 km/h, você terá percorrido nada menos do que um campo de futebol. Completamente “às cegas”. (9)

Conclusão

É curioso notar que, nos sentindo adultos, responsáveis e capazes de “pesar” o grau de risco de nossas ações envolvendo o uso dos celulares no trânsito, insistentemente continuamos a ter comportamentos perigosos como se nada de errado estivesse ocorrendo.

fotohansel – fotolia

Segundo várias pesquisas, porém, esta forma de autorregulação pessoal (celular e o trânsito) tem se mostrado bastante ineficaz, ainda que você se sinta com uma boa dose de consciência e controle. Portanto, o momento em que decidimos pegar um smartphone durante um trajeto de carro, estamos intencionalmente assumindo um risco expressivo.

Enviar aquela única mensagem de WhatsApp, por exemplo, que geralmente não tem qualquer relevância para sua vida, pode de fato causar a você e aos que estão ao redor um sério problema.

Pense nisso.

Mas antes de terminar, cá entre nós: Será que a tecnologia efetivamente nos proporciona uma vida de maior qualidade? Estaremos nós realmente preparados para lidar com ela? Confesso que tenho sérias dúvidas.

 

Referências

1) http://www.transitobr.com.br/index2.php?id_conteudo=9

2) http://www1.roadcard.com.br:8090/noticias/as-dez-principais-causas-de-acidentes-no-transito

3) http://www.huffingtonpost.com/laiza-king-/top-15-causes-of-car-accidents_b_11722196.html

4) http://portaldotransito.com.br/noticias/celular-no-transito-causa-13-milhao-de-acidentes-por-ano/

5) http://www.huffpostbrasil.com/entry/dangers-of-texting-and-driving-statistics_n_7537710

6) http://www.cellphonesafety.org/vehicular/era.htm

7) http://about.att.com/newsroom/it_can_wait_expands_to_smartphone_use_while_driving.html

8) http://www.springerpub.com/internet-addiction-in-children-and-adolescents.html

9) http://about.att.com/story/smartphone_use_while_driving_grows_beyond_texting.htmlcompletarhttp://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/07/governo-alerta-sobre-risco-do-uso-de-celular-no-transito

 


Vício em séries de TV: um novo problema da atualidade?
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Dr. Cristiano Nabuco

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Com um plugin gratuito no navegador, podendo ser acessado por meio de qualquer dispositivo móvel ou não, as séries de TVs por streaming  são atraentes e populares e, não dá – ainda – para chamar de vício a utilização desta ferramenta. Mas, por acaso você já parou para observar o comportamento das pessoas que tanto assistem a estas séries? Não?

E assim caminha a nossa noite

Tudo começa pela escolha do que assistir, o que, cá entre nós, não é das tarefas mais fáceis. O próximo passo é pegar o cobertor e a pipoca ou, caso a noite esteja quente e a fome não tenha batido, pode ser sem nada disso mesmo. Agora basta se instalar no sofá. E, então, o gatilho é disparado. Passam-se horas e horas do final de semana ou deixam-se para trás horas preciosas de sono durante a semana por avançar noite adentro na frente da TV.

Enfim, o que acontece é mais ou menos isso: Senta-se para assistir um programa de 60 minutos, por exemplo, mas acaba-se por gastar muito mais tempo do que o pretendido.

Não tão simples assim

Outra particularidade comportamental que vale citar é o “final” de cada episódio. Isso mereceria, creio eu, um estudo à parte. Explico: Quando o episódio termina, surge uma sensação (quase) incontrolável que impele o indivíduo a dar “só mais uma olhadinha” para ver o que vai acontecer com este ou aquele personagem.

Como ninguém é bobo, são apresentados em números menores no canto superior da tela um relógio que, em ordem decrescente, anuncia o início “automático” do próximo episódio. Quando nos damos conta, já era. Lá se foram outros 20 minutos na frente da televisão. E você pensa: “Ah, já está na metade, então não vou parar agora, vou ver o episódio inteiro”. Aquela uma hora inicial vira duas, três, quatro horas…

Obviamente, estou usando um pouco de humor, mas caso você ainda não saiba, há por detrás disso mecanismos cerebrais importantes sendo acionados que são muito semelhantes àqueles que operam em alguns vícios comprovados.

Exagero? Definitivamente, não.

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Nosso cérebro tem uma dificuldade muito grande de lidar com operações que são deixadas “inacabadas” e, portanto, interromper a estória contada na série claramente desafia nossos mecanismos biológicos mais básicos, pois nos deixam com uma impressão de que há mais a ser feito, e um efeito de looping aparentemente sem fim é criado, levando-nos a desejar mais e mais.

Todo esse processo faz com que o corpo permaneça alerta (nossa resposta ancestral de luta ou fuga), o que pode facilmente interromper o sono. Então, quando nos deparamos com o final de mais um episódio à uma da manhã, por exemplo, posso lhe assegurar que você não estará mais tão cansado. Você vai estar pronto para seguir adiante, sem se dar conta disso.

Um admirável mundo… novo?

Além disso, embora ainda nenhum estudo tenha se debruçado sobre os mecanismos cerebrais envolvidos nessa questão, é possível especular que há uma intensa liberação de dopamina – aquele neurotransmissor que é liberado nos dando a sensação de recompensa – no momento em que um episódio acaba, nos forçando a assistir “mais horas”.

Como uma pessoa que tem compulsão por chocolates, por exemplo, para quem é impensável comer um só, já atendi pessoas com relatos importantes de “compulsões” de programação (o que em inglês já se denominou “binge watching TV”).

Essas pessoas me contaram, muito animadamente, que chegaram a passar, facilmente, mais de 10 horas em um único dia na frente da TV apenas assistindo as séries de maneira copiosa e deixando por fazer as coisas verdadeiramente importantes, criando um verdadeiro rastro de procrastinação na vida pessoal e profissional.

Bem, caso você, leitor(a) tenha sentido alguma familiaridade, saiba que coloquei no texto acima (de maneira disfarçada, claro) vários dos critérios que definem as dependências tecnológicas e, portanto, quero apenas deixar registrado, é exatamente assim que os vícios começam na vida de muitas pessoas. Ou seja, mesmo aquilo que parece ser, à primeira vista, “divertido” e inofensivo, se mal manejado por nós, torna-se uma poderosa armadilha para nosso bem-estar e nossa saúde mental.

Em tempos de tecnologia praticamente onipresente em nossas vidas, é sempre bom ficar de olho aberto, não acha? Seria, portanto, os vícios de séries de TV a ponta de algum iceberg?

Para se pensar.

 

 

 


Psicologia da Internet: porque nos tornamos outras pessoas na vida digital
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Dr. Cristiano Nabuco

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Há cerca de duas décadas foi criada a expressão “Psicologia da Internet” para explicar a razão pela qual o comportamento das pessoas se altera tanto dentro dos ambientes virtuais.

Qualquer um que já navegou na web percebeu alguma modificação, ainda que mais leve, em sua conduta ou ação.

Por ser um espaço muito atípico e diferente de tudo que já experimentamos na vida concreta, descobriu-se que a realidade paralela exerce um tipo de “dinamização” da personalidade, o que coloca as pessoas em inclinação para atitudes de maior risco e de descontrole calculado, se comparadas ao que se vive no nosso dia-a-dia.

A respeito desse fenômeno, criou-se um termo para melhor definir tais alterações comportamentais: “efeito de desinibição online”, explicita, portanto, a variação de padrões.

Pesquisas demonstraram que essas alternâncias da vida off-line para a vida online se baseiam nas seguintes crenças:

(A) “Você não sabe quem eu sou e não pode me ver”:  à medida  que as pessoas navegam na internet, obviamente que não podem ser “vistas”, no sentido literal da palavra – diferentemente de como ocorre no mundo concreto -, conferindo então aos internautas a falsa percepção de que eles estão anônimos e, por esta razão, não há limites ou regras associadas ao comportamento online. Este fato também é descrito na literatura psicológica como “desindividualização”, ou seja, um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.

(B) “Até logo” ou “até mais”:  a internet, querendo ou não, uma vez que permite aos seus usuários escaparem facilmente das situações mais embaraçosas,  leva-os a correrem mais riscos e tolerarem melhor as situações de ameaça. Como não existe uma consequência imediata dessas ações virtuais (na verdade “existe” uma consequência, todavia, ela é mais demorada para que os resultados apareçam), as pessoas então se tornam mais flexíveis a respeito das transgressões.

(C) “É apenas um jogo”:  esta premissa dá ao usuário a ilusão de que o mundo online opera, na verdade, em condição de fantasia, e que ninguém, de fato, seria prejudicado pelas “aventuras” realizadas no mundo digital. Assim, a linha divisória entre a ficção e a realidade torna-se facilmente mais turva, uma vez que existem centenas de atividades que, na verdade, “não existem” na realidade concreta.

(D) “Somos todos amigos”:  cria a ilusão de que na vida paralela da internet, somos todos iguais ou amigos, uns com os outros e que, portanto, as regras que determinam as relações adequadas entre os diferentes grupos (por exemplo, crianças, adolescentes e adultos) existentes no mundo real podem ser simplesmente desconsideradas. Este princípio também tem o poder de diluir as hierarquias existentes entre diferentes indivíduos na sociedade, favorecendo aos comportamentos de maior desrespeito e falta de cuidado interpessoal que tanto se observa nas redes sociais e nas comunicações entre funcionários de uma empresa.

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andrys lukowski – fotolia

Portanto, o “efeito de desinibição online” descontrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta para liberar o indivíduo ao trânsito nos espaços altamente permissivos, tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões.

Vamos lembrar que todo esse processo já tem um nome e se chama “personalidade eletrônica” (e-personality).

Imagine então, as crianças e jovens ainda em processo de formação, o que o ambiente virtual poderia fazer com a consolidação de sua personalidade (ainda) em definição?

No final das contas, pensam muitos pais desavisados: “é apenas videogame” ou, ainda, “eles só estão usando uma rede social”, que problema haveria com isso?

No passado não muito distante, o desassossego familiar vinha das amizades inadequadas, hoje deriva do próprio indivíduo em sua relação consigo mesmo no ambiente virtual.

Para se pensar, não acha?…