Dr. Cristiano Nabuco

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Embelezamento Alcoólico: efeitos fisiológicos e psicológicos do beber
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Dr. Cristiano Nabuco

Para compreender o efeito do álcool, tente ver esta foto com os olhos quase fechados. Crédito foto: VIA9GAG.com

Quem nunca passou por aquela situação de ingerir bebidas alcoólicas um pouco além da conta e no dia seguinte se arrependeu?…

E quando isso acontece, é como se tivéssemos colocado “óculos de cerveja”, expressão cunhada em inglês como beer goggles, que consiste na tese de que quando ingerimos uma certa quantidade de álcool, nossa capacidade de olhar a beleza se tornaria, digamos, mais generosa.

Pois bem, a ciência tem explicado o que realmente ocorre – e vários fatores contribuem para isso.

Influência psicológica

Em primeiro lugar, temos um aspecto puramente psicológico. Foi conduzida uma experiência em que algumas pessoas foram informadas de que haviam consumido, sem saber, uma quantidade especifica de bebida alcoólica. Como resultado, suas opiniões a respeito de si mesmas mudaram expressivamente, ou seja, ao saber que tinham bebido, se consideravam mais atraentes, brilhantes, originais e engraçadas do que aqueles que acreditavam não ter consumido nada de álcool.

E as coisas não param por aí: as pessoas sóbrias também acham mais atraentes aquelas que estão “alegres” em função do consumo do álcool. Em um estudo científico, indivíduos que consumiram o equivalente a um copo de vinho foram considerados mais atraentes do que aquelas pessoas que não haviam consumido nada. (1)

Participantes de outra investigação, apontaram para os mesmos achados: aqueles que haviam ingerido vodca acharam o rosto de certas pessoas mais charmosas e mais bonitas do que aqueles que não tinham consumido uma bebida alcóolica nenhuma.

Portanto, ao que tudo indica, há uma crença ou uma natural predisposição de as pessoas acharem que o álcool, de uma maneira ou de outra, contribui para facilitar as coisas nas relações interpessoais. (2)

Influência fisiológica

Obviamente, os efeitos do álcool sobre o cérebro também são reais. Quando bebemos, nos tornamos menos capazes de perceber a assimetria facial, conhecida por ser um importante componente de atratividade humana, por exemplo.

Como a biologia nos ensina, uma boa simetria mostra que um indivíduo possui melhores características genéticas, indicando alguém mais saudável e, possivelmente, uma melhor escolha no caso de reprodução. Como nossos antepassados não dispunham de maiores informações a respeito do outro, um bom equilíbrio facial indicava boas escolhas, segundo nossos instintos evolutivos “pré-programados”.

Ainda nos dias de hoje, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes e mais saudáveis pessoas com maior simetria do que as demais – sem tanta harmonia e “beleza”, por assim dizer.

Portanto, é como se a ingestão do álcool pudesse ter um efeito ilusório sobre nosso cérebro mais primitivo, “borrando” as imperfeições faciais das pessoas menos atraentes, tornando-as mais simétricas e, definitivamente, mais fascinantes aos nossos olhos.

ambrozinio – fotolia

Claro que também há o fato de o álcool aumentar a impulsividade, nos tornando menos seletivos e exigentes em nossas escolhas afetivas, segundo apontam os modelos biológicos de pesquisa. (4)

Uma das regiões do cérebro com maior queda de atividade quando se está sob efeito do álcool é o córtex pré-frontal – região responsável pela tomada de decisões e pelo pensamento racional. Com o córtex pré-frontal menos ativo, ficamos sujeitos a agir sem pensar muito. (5)

Conclusões

Bastante óbvias.

As variáveis psicológicas e fisiológicas interagem de maneira profunda quando o assunto é o consumo de álcool. Ao que tudo indica, beber exerce um efeito positivo na percepção da beleza no ambiente em que estamos e na percepção sobre nós mesmos e os outros.

Bebemos para nos soltar e, aos nos soltarmos, relaxamos nossos critérios de avaliação pessoal, “facilitando bastante” as coisas para nosso lado.

“Ai, que bom seria” se as pessoas, de fato, pudessem a partir desses contrastes de suas personalidades (sem álcool versus com o álcool), se auto-aprimorar, não acham? Muito embora algumas delas entendam o álcool como um veneno necessário, há coisas dentro delas que precisam ser aniquiladas e, infelizmente, a bebida é vista como a única possibilidade.

 

Referências

(1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25716115

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2485891

(3) https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2016/07/the-science-of-beer-goggles/485591/

(4) http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001391

(5) https://www.psychologytoday.com/blog/you-illuminated/201006/your-brain-alcohol

 

 

 


Beleza e confiabilidade: o velho equívoco do cérebro
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Dr. Cristiano Nabuco

lettas - fotolia

lettas – fotolia

A certa altura da vida, naturalmente se aprende a olhar além das aparências. À medida que o tempo passa, compreendemos que aquilo que nossos olhos nos dizem pode não ser tão verdadeiro, principalmente no que diz respeito à imagem pessoal de alguém e descobrimos então ser necessário ir um pouco mais além.

Embora a maturidade nos ajude bastante, psicólogos já sabem que a visão que desenvolvemos de uma pessoa pode não ser decorrente apenas e tão somente de nossas interpretações, mas profundamente influenciada por nosso cérebro primitivo.

E, caso ainda você não tenha se dado conta, fique então ciente de que nossas preferências por certas pessoas estarão, de alguma maneira, atreladas àquelas que nos parecem mais atraentes.

Pode parecer algo bem superficial, não acha? Mas, na realidade, não é.

Muitos estudos de psicologia já haviam provado a existência do chamado “estereótipo de beleza”, isto é, pessoas mais bonitas são tidas por seus pares como mais inteligentes, mais sociáveis e, finalmente, mais bem-sucedidas.

É dessa forma que as pessoas se valem de certos sinais faciais para, automaticamente, poder fazer julgamentos a respeito do caráter de alguém – o que, diga-se de passagem, é uma parte crucial do funcionamento social.

Aristóteles, a esse respeito, dizia: “A beleza é a melhor carta de recomendação.”

Esse fenômeno tem em sua base uma de nossas tendências biológicas mais ancestrais ao compreender que uma pessoa mais atraente possivelmente será mais saudável e, portanto, com menos risco de carregar e/ou transmitir as doenças que tantas vidas dizimaram nos primórdios de nossa existência. Em épocas em que o conhecimento era escasso e a sobrevivência crucial, formar impressões imediatas a respeito de terceiros pode ter se revelado de grande importância.

De qualquer forma, mesmo que tenhamos avançado bastante no tempo, ainda carregamos essa predisposição.

Veja só: Em um estudo que acaba de ser publicado na revista Frontiers in Psychology, pesquisadores descobriram que as crianças também atribuem o grau de confiabilidade a alguém em decorrência direta de seu grau de atratividade. Ou seja, constatou-se que também para os pequenos, quanto menos atraente uma pessoa for, menos confiável ela parecerá ser. (1)

O estudo avaliou 138 crianças com idade variando entre 8 e 12 anos quando, no experimento, lhes foram apresentadas 200 imagens de rostos masculinos – todos eles com uma expressão neutra e com um olhar direto.

Na primeira exposição, a cada um foi mostrada uma dessas faces, e onde se pediu que avaliassem o quão confiável eles achavam que essa pessoa poderia ser.

Depois de um mês, seguiu-se uma segunda sessão de apresentações onde agora lhes fora pedido que classificassem a atratividade desses mesmos rostos.

Ao analisar as respostas, encontrou-se uma forte correlação entre os dois traços, ou seja, as faces consideradas as mais confiáveis foram também aquelas tidas como as mais atraentes pelas crianças – relação esta que foi se intensificando com a idade.

Moral da história: ainda que o tempo tenha passado e sejamos muito mais conscientes que nossos irmãos primitivos, adultos ou crianças, a atratividade de uma pessoa ainda é inconscientemente percebida como uma forte indicação de seu caráter.

Seria bom, portanto, que fôssemos mais conscientes dessas tendências biológicas e, ao tomar consciência disso, que nossa opinião não fosse tão determinada pelas impressões de beleza física de alguém. E, como dizia aquele velho ditado: “não julgue um livro por sua capa”.

Referência

http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2016.00499/full


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