Dr. Cristiano Nabuco

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O efeito do celular sobre seu cérebro, mesmo estando desligado
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Dr. Cristiano Nabuco

kieferpix – fotolia

Não é novidade para ninguém as inúmeras possibilidades que um smartphone pode trazer à vida de cada pessoa.

Adoramos nos comunicar com os outros através das redes sociais, dar uma olhada nos lugares que planejamos visitar, pesquisar preços de produtos, tirar fotos, filmar e, acima de tudo, nos distrair nos momentos de lazer, inclusive quando estamos presos no trânsito.

Os números apontam que os proprietários de smartphones interagem com seus telefones, em uma média aproximada de 85 vezes por dia, como, por exemplo, imediatamente após o despertar, no banheiro, caminhando na rua ou no metrô, dirigindo o carro, durante as aulas ou reuniões, na cama antes de dormir e, não raro, no meio da noite. Não é de se estranhar então que 91% afirmam que nunca saem de casa sem seu telefone e, finalmente, 46% dizem que não poderiam viver sem eles.

Assim, os celulares representam tudo o que o mundo conectado tem para oferecer, condensado em um único dispositivo que se encaixa na palma da mão e que, quase nunca, sai de nosso lado.

Além de todas as benesses que a tecnologia nos trouxe, eu, pessoalmente, tenho escrito bastante a respeito dos “efeitos colaterais” que essa utilização contínua criou junto a algumas pessoas que se tornam, verdadeiramente, dependentes de seus smartphones.

Mas, ainda que todos nós saibamos muito bem a respeito dos riscos, uma nova pesquisa se debruçou sobre um outro aspecto até então nunca investigado: que efeito um celular pode criar para nós mesmos, estando desligado.

Nosso cérebro

É bem sabido que podemos desempenhar várias funções cognitivas, ou seja, nossa “mente” realiza várias operações simultâneas ao longo do dia. Assim, para vivermos, precisamos nos recordar de situações passadas, fazer inferências a respeito de ações futuras e, ao mesmo tempo, manejar nossa atenção frente aos mais variados estímulos que nos chegam a cada momento. É como se nosso cérebro executasse, portanto, uma função gerencial.

Com todas essas atividades sendo realizadas, obviamente nossa atenção vai priorizar o que para nós é vital e, portanto, mais importante, mesmo que não estejamos lá muito conscientes dessas ações. Quem já não viu uma mãe, estando ocupada com alguma tarefa distante de seu filho, quando, subitamente, o mesmo chora em outro local e, quase que de maneira inaudível, consegue atrair repentinamente a atenção da cuidadora?… Pois bem, é mais ou menos assim que as coisas ocorrem conosco.

Igor Mojzes – fotolia

Embora tenhamos uma boa capacidade de manejar as coisas, essa capacidade de atenção é limitada, fazendo com que nosso cérebro, de maneira instintiva, eleja o que é mais significativo em nossa vida, levando nossa atenção a ficar, portanto, no aguardo de ser solicitada para aquilo que consideramos mais importante.

Tendo isso tudo em mente, pesquisadores procuraram investigar qual o efeito que os smartphones – como são importantes na vida das pessoas -, poderiam exercer sobre essa capacidade atencional de nosso cérebro, ou seja, se a sua mera presença no ambiente poderia criar algum tipo de efeito negativo sobre nossa produtividade mental.

A pesquisa

Assim, dois grupos foram divididos em um determinado experimento que consistia em realizar tarefas que exigiam a atenção dos participantes. O primeiro grupo de pessoas foi obrigado a deixar seu telefone “fora da sala”, enquanto que, ao outro grupo foi permitida a sua entrada junto aos sujeitos durante a realização das atividades.

Ao final das tarefas de ambos os grupos, avaliou-se o resultado.

O grupo que realizou as atividades com o celular nas proximidades (leia-se: dentro da bolsa ou com o aparelho virado com a tela para baixo sobre a mesa), foi o que apresentou as menores performances nos trabalhos propostos pelos investigadores, se comparado ao grupo de deixou o aparelho em outro ambiente.

A pesquisa identificou que a presença do celular nas proximidades criou um efeito colateral potencialmente danoso, chamado de desvio atencional, ou seja, notou-se que sua mera presença fez com que um problema maior aparecesse.

Vou explicar.

andilevkin – fotolia

A investigação indicou que os sinais sonoros, quando emitidos pelo próprio telefone (mas não os de outra pessoa), acabavam por ativar o sistema de atenção involuntária do cérebro – semelhante ao sistema que responde ao ouvirmos o som de nosso próprio nome – e, desta forma, quando esses celulares estavam expostos no ambiente, sua condição de um estímulo de “alta prioridade” fez com que atuassem de maneira a ativar, espontaneamente, os sistemas de atenção cerebral dos participantes.

Ainda que as pessoas estivessem envolvidas na resolução das tarefas para as quais seu smartphone não era, necessariamente, relevante para a realização do trabalho proposto pela experiência -, mas, como estava nas proximidades, a atenção consciente dos sujeitos desviava-se da tarefa focal, de tempos em tempos, roubando a atenção que seria usada na realização das tarefas centrais.

A manifestação de pensamentos e dos comportamentos de checagem associados ao celular (por exemplo: “será que alguém me passou mensagens?”, “será que eu ouvi o telefone tocar?” etc) passaram a constituir uma verdadeira “distração digital” que afetou negativamente o desempenho das tarefas do segundo grupo.

Além disso, como muitas pessoas têm consciência dessa distração, muitas vezes gastam ainda mais recursos atencionais para procurar inibir a atenção que é voltada naturalmente ao telefone, comprometendo de forma ainda mais intensa a qualidade e densidade das atividades mentais em curso.

Conclusão

Se você, portanto, é daqueles que, quando faz alguma atividade que exige mais concentração, vira o telefone com a tela para baixo, coloca seu aparelho no modo silencioso para não ser importunado, saiba, portanto, que isso não tem qualquer utilidade.

Segundo a pesquisa, apenas uma ação é suficiente para assegurar uma melhora mental: a separação de seu telefone.

Mesmo estando em psicoterapia, é incrível ver a quantidade de vezes que meus pacientes param de falar assuntos verdadeiramente importantes, apenas para “dar uma olhadinha” na mensagem que acaba de chegar, atrapalhando o encadeamento emocional dos temas e dos assuntos em questão.

Se você faz isso em sua vida e em seu trabalho, fique atento, pois, sem perceber, sua produtividade pode estar sendo seriamente comprometida.

Dicas

Trabalho:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente);

b) Quando for fazer uma pausa para café ou para ir ao banheiro, dê uma olhada e eleja o que, de fato, é importante para dar uma resposta no momento. O que for irrelevante, faça-o em outros momentos.

c) Não o leve para reuniões ou outras situações que exigem concentração máxima.

d) Interaja com seus colegas. A capacidade de poder olhar nos olhos e compreender a emoção alheia é a chave central para desenvolver uma boa inteligência emocional, fundamental para seu trabalho.

Escola:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente). Caso não seja possível, mantenha-o dentro da mochila e a deixe longe de você, preferencialmente desligado);

b) Quando for o intervalo, dê uma olhada e eleja o que, de fato, é importante para dar uma resposta no momento. O que for irrelevante, faça-o em outros momentos. Ninguém vai morrer pelo seu silêncio momentâneo.

c) Interaja presencialmente com seus colegas, em vez da maneira digital. As verdadeiras amizades, muitas vezes, nascem nessa época.

Casa:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente);

b) Não deixe o celular no criado mudo e não o use como despertador, coloque-o em outro ambiente que não o seu, fora do seu quarto (o sinal sonoro que chega ao longo da noite interrompe a entrada no sono profundo, que é o sono verdadeiramente reparador).

c) Não o leve à mesa durante as refeições.

d) Interaja com seus familiares, pois eles precisam de sua atenção.

 

Fonte

http://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/691462

 

Agradecimentos

Evelyn Eisenstein


Atenção das mães e o impacto no desenvolvimento cerebral dos filhos
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Dr. Cristiano Nabuco

fotolia - chihana

fotolia – chihana

Não é de hoje que sabemos que a primeira infância é de vital importância para o desenvolvimento do cérebro de uma criança.

Investigações já comprovaram que ser criado em um ambiente familiar, com mais tranquilidade e equilíbrio, tem o poder de transmitir uma dose positiva de segurança emocional aos pequenos, o que favorece a construção de uma autoestima mais fortalecida, uma melhor capacidade para lidar com o estresse, à medida que as crianças se desenvolvem, além de boas habilidades para o manejo das situações interpessoais futuras. (1)

Assim, aqueles filhos que são criados em ambientes com mais atenção parental, mais seguros se sentirão, aumentando assim, progressivamente, a construção da autonomia e da independência, ainda em formação nas fases iniciais de vida.

E o oposto, não deixando de mencionar, é igualmente verdadeiro. Por exemplo, crianças criadas em ambientes caóticos e desorganizados, desenvolvem maiores vulnerabilidades emocionais, o que resulta em uma infância e, por que não dizer, em uma adolescência mais problemática, sendo que, em uma grande parcela dos casos, essas dificuldades ainda são perceptíveis até na vida adulta. (1)

Até aqui, nada de muito novo, certo?

Entretanto, o que ninguém ainda sabia era que esses mesmos estímulos provenientes das relações afetivas boas ou más, além de conferirem um sem número de vantagens ou desvantagens, também interferem de maneira pontual no crescimento das redes neuronais do cérebro infantil.

Utilizando o modelo animal, uma nova pesquisa se debruçou exatamente sobre esses aspectos. Descobriu-se que cuidados maternos, quando oferecidos de maneira inconsistente ou fragmentada à prole – decorrente dos ambientes mais estressados-, aumentam exponencialmente a probabilidade desses filhotes desenvolverem comportamentos de risco. (2)

Vou explicar melhor a pesquisa.

A investigação

Para averiguar os possíveis impactos da falta de uma atenção contínua das mães às crianças, decorrentes de ambientes mais ou menos instáveis, os pesquisadores criaram um modelo de pesquisa com roedores para compreender melhor o efeito destas experiências nas redes neuronais do cérebro.

Assim, os cientistas separaram dois grupos distintos de bebês roedores: um habitando ambientes calmos e tranquilos (leia-se: com as mães roedoras sempre presentes) e, em outro grupo, animais criados em ambientes caóticos onde o cuidado das mães era desordenado e tumultuado.

Portanto, o ponto central da análise dos pesquisadores era o comportamento de cuidado materno exibido pelas cuidadoras-roedoras com seus filhotes. (2)

Apesar de que a quantidade e a qualidade de cuidados maternos serem, obviamente, difíceis de serem diferenciadas nos dois ambientes experimentais, conseguiu-se, entretanto, avaliar os padrões (e frequência) de cuidado que as mães ofereciam aos seus filhotes (o que, diga-se de passagem, diferiu drasticamente em ambos os grupos).

Enquanto um grupo de roedores recebia um cuidado das mães que era contínuo e duradouro (a mãe, por exemplo, os lambia e os agradava por períodos mais extensos de tempo), no outro, os filhotes receberam um cuidado maternal que fora mais fragmentado, isto é, a cuidadora era interrompida em seus comportamentos de zelo e de atenção aos filhotes.

O resultado foi significativo.

Veja só: A prole criada no ambiente mais sereno e com a presença persistente das mães, teve seus sistemas dopaminérgicos (ou seja, os sistemas de recompensa) mais ativados do que aqueles roedores que foram criados em um ambiente mais caótico.

Os pesquisadores, desta forma, acreditam que o sistema de recompensa do cérebro daqueles filhotes mais “carentes” acabou sendo, como resultado, pouco estimulado (pois os mesmos ainda não são maduros em neonatos e lactentes), comprometendo de maneira significativa o processo de maturação cerebral dos filhotes.

Segundo a investigação, isso teria sido responsável por uma espécie de anestesia emocional dos roedores, pois não os fazia responder a estímulos positivos, quando os mesmos eram introduzidos no experimento.

Assim, o grupo menos cuidado exibiu pouco interesse em atividades naturalmente mais atrativas aos filhotes, como, por exemplo: a busca por alimentos mais doces ou ainda nas brincadeiras com os outros ratos, duas medidas independentes para se avaliar a capacidade dos ratos de sentir prazer (e, obviamente, de recompensa).

© Robodread - Fotolia.com

© Robodread – Fotolia.com

Conclusão

Os investigadores agora seguem se perguntando: o que foi descoberto nos ratos, se aplicaria, igualmente, para as pessoas?  Se assim for, explicam, novas estratégias deveriam ser consideradas no sentido de se evitar problemas emocionais futuros em crianças e adolescentes.

Agora, uma outra questão também se aplicaria.

Como se não bastassem os inúmeros obstáculos encontrados na infância e, cada um de nós sempre tem um bom exemplo para contar, nos dias de hoje ainda se somam a falta de tempo dos pais, decorrente do trabalho excessivo – fruto das dificuldades econômicas que muitas famílias passam-, além dos problemas cada vez mais frequentes nas interações entre pares na escola, apenas para citar dois exemplos.

E, como se isso tudo não fosse o suficiente, hoje, as crianças ainda encontram uma nova barreira a ser transposta em sua infância: a tecnologia sempre presente em tablets e celulares nas mãos dos pais, tornando a necessidade biológica pela atenção ainda maior.

Pensando na investigação acima descrita, seria então correto afirmar que o uso da tecnologia por parte dos pais seria prejudicial ao amadurecimento cerebral dos filhos?

Assim sendo, estariam nossas crianças sendo igualmente subestimuladas pela atenção fragmentada dos pais em função da tecnologia? (3)

Enfim, para se pensar.

Seria interessante, portanto, que os pais de nossas crianças ficassem atentos, pois se formos tomar por base os achados nos animais, nossos pequenos podem estar em risco.

 

Referências bibliográficas

(1) http://www.casadopsicologo.com.br/teoria-do-apego.html#.Vpg4RhUrLIU

(2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26731439

(3) http://www.grupoa.com.br/livros/psicologia-geral/vivendo-esse-mundo-digital/9788565852951

 

 


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