Dr. Cristiano Nabuco

Beleza e confiabilidade: o velho equívoco do cérebro
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lettas - fotolia

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A certa altura da vida, naturalmente se aprende a olhar além das aparências. À medida que o tempo passa, compreendemos que aquilo que nossos olhos nos dizem pode não ser tão verdadeiro, principalmente no que diz respeito à imagem pessoal de alguém e descobrimos então ser necessário ir um pouco mais além.

Embora a maturidade nos ajude bastante, psicólogos já sabem que a visão que desenvolvemos de uma pessoa pode não ser decorrente apenas e tão somente de nossas interpretações, mas profundamente influenciada por nosso cérebro primitivo.

E, caso ainda você não tenha se dado conta, fique então ciente de que nossas preferências por certas pessoas estarão, de alguma maneira, atreladas àquelas que nos parecem mais atraentes.

Pode parecer algo bem superficial, não acha? Mas, na realidade, não é.

Muitos estudos de psicologia já haviam provado a existência do chamado ''estereótipo de beleza'', isto é, pessoas mais bonitas são tidas por seus pares como mais inteligentes, mais sociáveis e, finalmente, mais bem-sucedidas.

É dessa forma que as pessoas se valem de certos sinais faciais para, automaticamente, poder fazer julgamentos a respeito do caráter de alguém – o que, diga-se de passagem, é uma parte crucial do funcionamento social.

Aristóteles, a esse respeito, dizia: “A beleza é a melhor carta de recomendação.”

Esse fenômeno tem em sua base uma de nossas tendências biológicas mais ancestrais ao compreender que uma pessoa mais atraente possivelmente será mais saudável e, portanto, com menos risco de carregar e/ou transmitir as doenças que tantas vidas dizimaram nos primórdios de nossa existência. Em épocas em que o conhecimento era escasso e a sobrevivência crucial, formar impressões imediatas a respeito de terceiros pode ter se revelado de grande importância.

De qualquer forma, mesmo que tenhamos avançado bastante no tempo, ainda carregamos essa predisposição.

Veja só: Em um estudo que acaba de ser publicado na revista Frontiers in Psychology, pesquisadores descobriram que as crianças também atribuem o grau de confiabilidade a alguém em decorrência direta de seu grau de atratividade. Ou seja, constatou-se que também para os pequenos, quanto menos atraente uma pessoa for, menos confiável ela parecerá ser. (1)

O estudo avaliou 138 crianças com idade variando entre 8 e 12 anos quando, no experimento, lhes foram apresentadas 200 imagens de rostos masculinos – todos eles com uma expressão neutra e com um olhar direto.

Na primeira exposição, a cada um foi mostrada uma dessas faces, e onde se pediu que avaliassem o quão confiável eles achavam que essa pessoa poderia ser.

Depois de um mês, seguiu-se uma segunda sessão de apresentações onde agora lhes fora pedido que classificassem a atratividade desses mesmos rostos.

Ao analisar as respostas, encontrou-se uma forte correlação entre os dois traços, ou seja, as faces consideradas as mais confiáveis foram também aquelas tidas como as mais atraentes pelas crianças – relação esta que foi se intensificando com a idade.

Moral da história: ainda que o tempo tenha passado e sejamos muito mais conscientes que nossos irmãos primitivos, adultos ou crianças, a atratividade de uma pessoa ainda é inconscientemente percebida como uma forte indicação de seu caráter.

Seria bom, portanto, que fôssemos mais conscientes dessas tendências biológicas e, ao tomar consciência disso, que nossa opinião não fosse tão determinada pelas impressões de beleza física de alguém. E, como dizia aquele velho ditado: “não julgue um livro por sua capa”.

Referência

http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2016.00499/full


Como o cérebro dos adolescentes reage às mídias sociais
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Dr. Cristiano Nabuco

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Podem dizer o que for, mas simplesmente não há como negar que a vida digital e, principalmente, o acesso frequente aos sites de mídia social (como o Facebook e Instagram, por exemplo) exerce uma poderosa influência sobre a saúde mental de todos, sobretudo no que diz respeito aos usuários adolescentes.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles, tendo esta preocupação em mente, realizaram um estudo para determinar o que ocorre com os circuitos cerebrais dos jovens quando postam conteúdo nas redes sociais.

Assim, ao tomar por base o tempo gasto pelos adolescentes nessas plataformas, que podem variar de oito a dezoito horas por dia – mais do que o tempo destinado, inclusive, ao sono -, este hábito pode vir a influenciar o cérebro dos jovens, ainda em processo de desenvolvimento. (1)

O experimento

Cerca de 32 adolescentes, com idades variando entre 13-18, foram informados de que estariam navegando em uma pequena rede social, semelhante ao aplicativo que compartilha fotos, o conhecido Instagram.

Desta forma, os pesquisadores apresentaram a cada um dos participantes um total de 148 fotografias, incluindo 40 fotos que cada jovem havia selecionado, enquanto que, simultaneamente, era avaliada a atividade cerebral individual através da ressonância magnética funcional. (2)

Importante dizer que junto a cada foto também era exibido o número de “likes” que cada uma delas havia recebido de outros participantes, mas que, na verdade, era falso, pois havia sido manipulado de forma positiva pelos pesquisadores a indicar que haviam sido bem aceitas pelos demais.

O resultado mostrou que quando os jovens viam suas próprias fotos com um grande número de “likes”, o núcleo accumbens – que faz parte do circuito de recompensa do cérebro-, era fortemente ativado, isto é, ao perceberem maiores níveis de aprovação social, o cérebro reagia de maneira semelhante a quando se come chocolate ou se ganha dinheiro, por exemplo.

Na sequência, os pesquisadores perguntavam aos adolescentes quais fotos eles haviam “mais gostado”. E, adivinhe quais foram as escolhidas? Exatamente aquelas que receberam maior aceitação social – mostrando claramente a tendência de influência do grupo sobre o comportamento individual.

Um dado relevante: fotos que haviam sido postadas por outros, mas que exibiam algum tipo de comportamentos de risco, se bem avaliadas pelos demais (isto é, também indicadas com mais “likes”), surpreendentemente eram também enaltecidas por cada um, claramente demonstrando a preocupação em ficar em sintonia com a opinião geral, o que foi também responsável por uma menor ativação das redes neurais de controle cognitivo.

 A conclusão

Ficaram evidentes algumas coisas: que os jovens reagiam de forma diferente aos estímulos quando eles acreditavam que os mesmos eram endossados pela maioria de seus pares, ainda que esses “amigos”, por assim dizer, lhes fossem completamente estranhos.

O sentimento de valorização também demonstrou uma forte ativação cerebral nas áreas de recompensa e de prazer (semelhante ao que é observado em outros vícios, inclusive).

E, finalmente, a perda momentânea dos juízos de valor.

Todos esses elementos combinados, em parte, podem se tornar uma das razões pela qual postar fotos pessoais e acompanhar a oscilação do grau de aprovação ao longo do dia (olhando de maneira compulsiva os tablets e celulares) pode ser um dos mecanismos da dependência ou vício à tecnologia, inclusive, tornando mais clara a razão porque os faz gastar um tempo precioso de sua vida apenas checando as telas e desconsiderando o entorno.

E fica aqui, portanto, uma importante pergunta: Os pais deveriam estar preocupados com a influência das mídias sociais, não apenas em relação ao tempo gasto (como se isso já não fosse o bastante), mas igualmente pela interferência negativa dos exemplos de terceiros?

Sim, seguramente (e talvez os videogames, com sua natural exaltação à violência, não sejam, individualmente, os grandes modeladores dos comportamentos de risco).

Assim, muito parecido com outros meios, ambientes sociais (e agora também digitais) têm características positivas e negativas, todavia, muitas vezes, além dos aspectos já bem conhecidos, pessoas que não são de convivência próxima aos nossos filhos podem ser, de maneira silenciosa, determinantes na formação de atitudes e da personalidade, ao fazer com que os jovens, ainda em processo de formação, muitas vezes, adotem ações pouco saudáveis, mas que evoquem grande repercussão social.

Portanto, é bem possível que o cérebro dos adolescentes, frente às mídias sociais, precisem, efetivamente, ser mais acompanhados.

 

Referencias

1) http://www.usatoday.com/story/news/nation/2015/11/03/teens-spend-more-time-media-each-day-than-sleeping-survey-finds/75088256/

2) http://pss.sagepub.com/content/early/2016/05/24/0956797616645673.abstract

 


Realidade virtual e a luta contra o Alzheimer
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Dr. Cristiano Nabuco

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A maneira como uma pessoa se desloca dentro de um labirinto virtual pode dar importantes pistas e, inclusive, prever as chances de uma pessoa vir a desenvolver a doença de Alzheimer em futuro próximo.

Essa foi a conclusão de um estudo publicado na Revista Science. (1)

Nele se descobriu que as pessoas em situação de risco para o aparecimento da doença apresentam uma menor atividade nas células de navegação do cérebro – também conhecidas como ''células de grade'' (ou, no inglês, grid cells) – um tipo de bússola biológica.

Cientistas, anteriormente, batizaram de “células de grade”, o que fornece a localização geográfica a ratos, morcegos e macacos, mas recentemente também se comprovou sua existência em humanos.

Desta forma, tal sistema é ativado, tomando por base a forma como os indivíduos se movem, informando-os seu posicionamento e localização em um plano imaginário de coordenadas.

Por exemplo, feche os olhos e ande cinco passos para frente e depois vire à direita, dando mais 3 passos – aqui estarão as células de grade entrando em funcionamento e rastreando sua posição.

© gloszilla - Fotolia.com

© gloszilla – Fotolia.com

O experimento com a realidade virtual junto aos participantes envolveu a apresentação de um cenário onde havia um céu azul, algumas montanhas a distância e, finalmente, objetos comuns de nosso cotidiano espalhados pelo chão. Os participantes então foram orientados a coletar os objetos virtuais e, posteriormente, devolvê-los ao mesmo lugar através da utilização de um joystick. A equipe monitorou a atividade cerebral de cada participante através de ressonância magnética funcional.

O monitoramento permitiu que os cientistas observassem as atividades de células de grade em uma região cerebral chamada de córtex entorrinal – uma das primeiras regiões atingidas em pacientes que sofrem do Mal de Alzheimer e, supostamente, razão pela qual esses pacientes estão mais propensos a se perder – ao apresentar comprometimentos na noção de espaço e perda de memória.

Os pacientes com pior performance na tarefa virtual foram aqueles que estão em situação de vulnerabilidade para o desenvolvimento futuro de Alzheimer, segundo entenderam os pesquisadores.

Embora seja pouco provável que apenas “testes de navegação” virtuais sejam utilizados como um diagnóstico precoce da doença de Alzheimer, a informação contida no experimento pode ser um passo adiante em direção a terapias preventivas.

É a tecnologia colaborando diretamente no cuidado e na prevenção em saúde mental.

 

Referência

(1) http://science.sciencemag.org/content/350/6259/430


Dificuldades para dormir na primeira noite fora de casa? A ciência explica.
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Dormir fora de casa ou em ambientes estranhos para muitas pessoas, efetivamente, pode se tornar um problema, ainda mais na primeira noite.

Sem dúvida, essa é uma dificuldade que os viajantes normalmente enfrentam e que pesquisadores parecem ter chegado a uma conclusão interessante.

Denominado de “efeito da primeira noite”, um estudo conduzido pela Brown University descobriu que uma das possíveis causas desse problema pode ser decorrente de nossa biologia pessoal.

O que ocorre?

Quando deveríamos estar dormindo profundamente, o hemisfério esquerdo de nosso cérebro,  constatando que estamos em ambiente incomum, permanece mais ativo, deixando-nos com um sono “superficial”. Segundo os pesquisadores, é como se nossos instintos mais ancestrais nos deixassem em estado de vigilância e de prontidão contra algo ruim que poderia vir a acontecer, consumindo, portanto, mais tempo para nos colocar em adormecimento, ou até resultando em um sono de pior qualidade (por isso acordamos mais cansados).

Essa assimetria cerebral durante o sono, segundo revelam os pesquisadores, também é encontrada em mamíferos como focas, golfinhos e baleias.

Para verificar se isso ocorria igualmente com os humanos, os pesquisadores recrutaram 35 voluntários que passaram duas noites em laboratório e os submeteram a alguns testes noturnos.

Um dos experimentos consistia em expor sons agudos durante toda a noite em ambos os ouvidos dos participantes e, ocasionalmente, foram introduzidos sons diferentes do normal. Eles descobriram que a resposta do cérebro aos sons inesperados foi maior no ouvido direito (que levava ao hemisfério esquerdo), do que no lado oposto. Desta forma, o hemisfério esquerdo experimentou despertares mais frequentes do que o direito, além de alterações mais frequentes nos sinais vitais dos sujeitos.

A equipe fez um experimento final no qual um novo grupo de voluntários ouviu sons enquanto dormiam, só que desta vez, eles foram instruídos a levantar seus dedos levemente, caso fossem despertados pelo som. Os voluntários acordavam mais rapidamente depois de ouvir sons em sua orelha direita (que ativa principalmente no hemisfério esquerdo do cérebro) do que em sua orelha esquerda (que ativa o hemisfério direito).

Conclusão

Tomados em conjunto, os resultados sugerem que o hemisfério esquerdo fica mais ativo na primeira noite de sono em ambientes desconhecidos, decorrente então do que se conjecturou ser um possível mecanismo de proteção que mantém o cérebro alerta de possíveis perigos.

Vamos lembrar que todos esses achados foram observados apenas na primeira noite de sono e não mais nas noites subsequentes.

Para minimizar esses efeitos, os pesquisadores sugerem então que as pessoas levem seu próprio travesseiro nas viagens como forma de diminuir as impressões de estranheza do ambiente, ou ainda, que se procure dormir sobre o ouvido direito, como forma de impedir que o hemisfério esquerdo se torne um guarda-noturno ao nos fazer dormir menos e mal.

Não custa nada tentar…

 

Referência

http://www.cell.com/current-biology/pdfExtended/S0960-9822(16)30174-9


Efeitos do uso excessivo da internet e dos videogames sobre a memória
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Sabe-se que a grande maioria dos adolescentes dispendem um tempo expressivo de seu dia (principalmente à noite) utilizando videogames, celulares, internet e eletrônicos de todos os tipos, na intimidade de seu quarto, inclusive quando deitados, o que retarda de maneira significativa a entrada no ciclo do sono.

Já é bem documentado que o sono é vital na manutenção do equilíbrio e do bem-estar, além de ocupar um papel fundamental na consolidação e performance da aprendizagem e da memória.

Veja só: os videogames aumentam de maneira expressiva algumas variáveis metabólicas e fisiológicas, incluindo uma grande estimulação no sistema nervoso central.  Diferentemente, por exemplo, de outras plataformas onde se interage de maneira mais relaxada, nos games se registra o aumento dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea, respiração, supressão momentânea de alguns processos digestivos, dentre outros, o que interfere pontualmente na qualidade do sono subsequente. (1)

Algumas concepções entendem que um alto nível de emoções – a exemplo do que é vivido nos jogos virtuais – pode prejudicar, inclusive, o processo de aprendizagem. Como o conhecimento adquirido ao longo do período de vigília ainda está sob consolidação, a intensidade emocional decorrente dessa estimulação noturna pode interferir de maneira significativa na capacidade de nossos jovens. Como os games produzem desafio, surpresas, excitação e, principalmente, a frustração, todas essas alterações são acompanhadas de importantes mudanças fisiológicas.

Estudos de PET SCAN (tomografia por emissão de pósitrons) mostraram uma expressiva liberação de dopamina e norepinefrina durante o uso de videogames, o que, diga-se de passagem, são os mesmos neurotransmissores envolvidos no processo de aprendizagem.

Numa pesquisa com crianças em idade variando entre 10 e 14 anos, evidências demonstraram que apenas uma noite com restrições de sono já seria o suficiente para enfraquecer as funções cognitivas de maneira importante. (2)

Entende-se que durante as fases do sono REM (movimento rápido dos olhos) e do sono de ondas lentas é que se daria a consolidação do processo no qual a memória do cotidiano seria fixada. (3)

Portanto, uma vez que os videogames reduzem a quantidade do sono de ondas lentas, a consolidação da memória fica então seriamente prejudicada. (4)

Além disso, uma vez que mais tempo de frente ao vídeo pressupõe menor tempo destinado às atividades físicas – que tem uma das consequências afetar positivamente as estruturas cerebrais e melhorar as performances acadêmicas (concentração etc) -, estima-se que essa redução poderia também afetar a saúde física ao aumentar o cansaço e reduzir conjuntamente a prontidão atencional dos jovens no dia seguinte.

Conclusão

Por que será então que os problemas na escola e a baixa performance acadêmica estão se tornando cada vez mais frequentes junto aos adolescentes? Apenas decorrente das questões pedagógicas da escola é que não é, correto?…

Os pais deveriam hoje, mais do que nunca, procurar saber o que ocorre na vida digital de seus filhos e, assim, ajudar a zelar por uma melhor qualidade de vida de nossos pequenos.

Não é apenas porque estão na segurança “do quarto” e “entretidos” que as coisas necessariamente estão indo bem.

Pense nisso.

 

Referências

 (1) Wang X, Perry AC. (2006). Metabolic and Psysiologic Response to Video Game Play in 7- to 10-year old boys.       Arch Pediatr Adolesc Med, 160:411-415.

(2) Radazzo AC, Muehlback MJ, Schweitertzer PK, Walsh JK. (1998). Cognitive Function Following Acute Sleep Restriction In Children ages 10-14. Sleep, 21:861-868.

(3) Hasselmo ME. (1999). Neuromodulation: Acetylcholine and Memory Consolidation. Trends Cogn Sci, 3:351-359.

(4) Dworak M, DiplSportwiss, Schierl T, Bruns T, Struder HK. (2007). Impact of Singular Excessive Computer Game and Television Exposure on Sleep Patterns and Memory Performance of School-Aged Children. Pediatrics, 120:978-985.

 


Efeitos da Terapia Cognitivo-Comportamental no Cérebro: Um Estudo
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Dr. Cristiano Nabuco

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Introdução

Como sabemos, o cérebro humano apresenta uma extrema capacidade de mudança, isto é, decorrente de estimulações vindas do ambiente, da aprendizagem e, finalmente, das emoções, nossas estruturas cerebrais reagem prontamente a vários tipos de situações.

Assim, diferentemente do que se sabia décadas atrás, nosso cérebro está em constante interação com o meio ambiente, sendo afetado de uma maneira ininterrupta através das experiências que temos em nosso cotidiano. Portanto, longe de ser uma estrutura finalizada, nossa mente e nosso cérebro estão em profunda e contínua transformação.

Um exemplo foi demonstrado por uma investigação junto a motoristas de taxi da cidade de Londres. Como se sabe, para se desempenhar bem essa função, os motoristas devem, obrigatoriamente, memorizar cerca de 320 rotas que passam pela referida cidade, composta por aproximadamente 25 mil ruas e mais de 20 mil locais de interesse público. (1)

Comparados a um grupo controle (o de não motoristas), investigações de ressonância magnética no cérebro mostraram um aumento expressivo do volume do hipocampo posterior – região associada à memória, comprovando assim a capacidade de mudança do cérebro dos taxistas, o que ocorreu, inclusive, na fase adulta.

A investigação

Tendo isso em mente, um grupo de pesquisadores procurou verificar como psicoterapia cognitivo-comportamental poderia afetar o volume do cérebro e sua atividade.

Assim, o foco se concentrou em pacientes com ansiedade social – um dos problemas mais comuns de saúde mental.

O estudo recrutou 26 indivíduos que foram tratados com terapia cognitivo-comportamental (fornecidas através de orientações dadas pela internet) por um período de nove semanas. (2)

Assim, antes e depois do tratamento, os cérebros dos pacientes foram examinados por ressonância magnética.

O resultado foi bem interessante.

Quanto mais expressiva foi a melhora registrada junto aos pacientes tratados, menor fora o tamanho da amídala ao final da intervenção em psicoterapia, se comparado ao grupo controle.

Vale lembrar que a amídala cerebral é aquela região associada com a manifestação das emoções, ou seja, quanto maior for o volume da amídala cerebral, nos casos de ansiedade social, maior será a severidade dos casos.

Portanto, após o tratamento, verificou-se uma reorganização importante, o que resultou em um menor volume da substância cinzenta e da responsividade neuronal das amídalas, contribuindo para um menor nível de ansiedade.

O estudo sugere então que a redução do volume da amídala propiciou uma redução expressiva e direta da atividade cerebral dos pacientes tratados com a psicoterapia.

Conclusão

É por essa e tantas outras razões que a psicoterapia moderna pode ser denominada como aquela que oferece, efetivamente, uma “fala curativa” aos pacientes. Com direito, inclusive, a alterações cerebrais significativas.

Embora exista hoje um número expressivo de pessoas que ainda é bastante refratária a esse tipo de tratamento, a psicoterapia cognitivo-comportamental – considerada padrão ouro para tratar 85% dos problemas de saúde mental -, ainda se mostra uma das melhores opções. (3)

Pense nisso.

 

Referências

(1) http://www.bbc.com/news/health-16086233

(2) http://www.nature.com/tp/journal/v6/n2/pdf/tp2015218a.pdf

(3) http://clinicalevidence.bmj.com/x/index.html

 


Estresse e a perda de memória
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Dr. Cristiano Nabuco

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Pois é, já não é de hoje que ouvimos centenas de consequências decorrentes dos estados de estresse junto ao nosso organismo: arritmias, infarto e avc, hipertensão arterial, aumento da glicemia e colesterol, depressão, queda do sistema imunológico, além de vários outros.

O que possivelmente você ainda desconhecia é o fato de que o estresse contínuo – aquele que você “naturalmente” se acostuma – pode levar também a problemas mais sérios de memória.

Um estudo que acaba de ser publicado demonstrou a relação entre a memória de curto prazo e estresse prolongado.

Utilizando uma pesquisa com modelos animais (ratos) em um labirinto experimental, cientistas introduziram no ambiente, que antes era tranquilo, um rato intruso bem maior e, para aumentar o desconforto, o fizeram de maneira repetida com a passagem do tempo.

Aqueles ratos que foram constantemente expostos ao intruso agressivo, apresentaram um comportamento bastante curioso: eles, na tentativa de fuga, levavam muito mais tempo dentro do labirinto para lembrar onde estava o buraco de fuga (se comparado ao tempo anterior sem a presença do predador no ambiente).

Além disso, os roedores perturbados também apresentaram alterações significativas em seu cérebro, incluindo evidências concretas de inflamação, supostamente causada pela resposta do sistema imunológico à pressão do ambiente, visível pela presença de células imunes, chamadas macrófagos, no cérebro dos ratos estressados.

Além da dificuldade de se lembrar para onde fugir, sabe por quanto tempo a memória dos roedores permaneceu afetada? Os ratos estressados levaram nada menos do que 28 dias, após o término do experimento, para se recobrar de suas lembranças.

Como se isso já não bastasse, além da erosão da memória, os pesquisadores perceberam que os animais perturbados mostraram expressiva evitação social (diminuição do contato com outros ratos) que, aliás, permaneceu ainda ativa após as quatro semanas de acompanhamento (leia-se: provocando deficiências psicológicas mais duradouras).

Conclusão

Os achados nos fazem pensar então que, muito além dos “velhos problemas” ocasionados por um modo de vida pouco saudável, estar sob pressão pode causar danos também ao nosso cérebro. Assim, se os resultados da pesquisa acima puderem ser replicados em humanos, seria bom ficarmos atentos.

Ao levarmos uma vida “agitada” demais, longe de ser algo normal, abrimos espaço para que problemas cognitivos (decorrentes da perda de memória) possam, ainda mais, impactar nossa mente e nosso humor.

Vamos prestar mais atenção em nossa qualidade de vida? Sua memória agradece.

 

Fonte

http://www.jneurosci.org/content/36/9/2590


Medo de aranha: a fobia mais antiga de nossa história
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Dr. Cristiano Nabuco

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JorgeAlejandro – fotolia

Aracnofobia (do grego: arachne, aranha + fobia) ou “medo de aranhas” é a fobia considerada mais antiga e, inclusive, apontada entre outras frequentes, a mais comum em nossa cultura.

Uma pessoa com essa condição pode apresentar uma reação extrema de aversão, manifestada através de um comportamento emocional intenso e descontrolado e que pode, muitas vezes, parecer irracional aos indivíduos à sua volta. O sofrimento é tamanho que a vida desse indivíduo pode ser afetada de maneira dramática.

A fobia ou medo de aranha é classificada como uma fobia específica (pertencente aos transtornos de ansiedade) e que normalmente pode ser desencadeada pela simples antecipação da aranha, da exposição real e, em certos casos, apenas ao se ouvir o nome mencionado.

Aspectos Históricos

Sabe-se que, há muitos séculos, as aranhas foram associadas a doenças e infecções. Na Idade Média, por exemplo, qualquer alimento que tivesse tido contato com aranhas era considerado infectado e nocivo. Até o final do século XVII, muitas culturas acreditavam serem elas venenosas e causa direta da histeria, fenômeno também conhecido como ''tarantismo”.

Sabe-se que os primeiros relatos deste mal datam da Idade Média, período no qual teria ocorrido uma “epidemia” da doença, na cidade de Taranto, no Sul da Itália. Relatos apontam que mulheres dessa região eram vítimas de tais aranhas. (1)

As crises eram cíclicas e contavam com gritos, comportamento adverso, espasmos e contorções – que remetiam aos movimentos de um aracnídeo -, em uma espécie de transe hipnótico.google - imagens

Acreditava-se que, para se livrar do veneno, a mulher precisaria ser submetida por um ritual, a “Taranta”. Nele, a pessoa envenenada deveria ficar cercada de pessoas que, dentre elas, eram presentes músicos que tocavam com o objetivo de “espantar a aranha” presente no corpo da vítima.

Assim, durante o transe, a “tarantata” dançava, movimentava-se e contorcia-se de maneira intensa. O objetivo era que o veneno fosse eliminado através do suor. Estima-se, inclusive, que essa teria sido a origem da atual dança folclórica italiana, chamada “tarantela”. (2)

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As aranhas, além disso, também foram percebidas como uma das responsáveis pelas grandes pragas que atingiram a Europa a partir do século X. Apenas recentemente se descobriu que o rato preto, na verdade, é que carregava as pulgas que espalham as pragas. Entretanto, como as aranhas eram também encontradas nas mesmas partes de uma casa que ocupavam os ratos, daí sua suspeita.

Origens

Alguns pesquisadores sugerem que esse medo seria socialmente aprendido, ou então, decorrente de algum trauma em razão do contato direto anterior. Outros, todavia, defendem a ideia de que os seres humanos já nasceriam com essa propensão natural a esquiva.

A pesquisa sugere que aracnofobia pode ter sido geneticamente determinada como o resultado de um instinto de sobrevivência que fora desenvolvido em nossos antepassados há milhões de anos.

Como os seres humanos estavam em risco contínuo, vivendo em ambientes mais primitivos (como cavernas), detectar tais ameaças fora de fundamental importância para assegurar a sobrevivência, o que constitui, com a passagem do tempo, uma necessidade evolutiva. (3)

Isso poderia então explicar porque as pessoas têm um medo profundamente enraizado e aparentemente irracional até os dias de hoje.

Um estudo conduzido na Universidade de Columbia, em Nova York, testou quão rapidamente as pessoas seriam capazes de identificar uma aranha quando expostas a uma série de estímulos combinados.

Mais de 250 pessoas foram convidadas a observar as telas de um computador contendo inicialmente formas abstratas e, em seguida, imagens já conhecidas que induziriam o medo ou o nojo, para testar a velocidade de reação individual.

O estudo descobriu que as pessoas foram capazes de identificar, entre as formas abstratas, aquelas que se assemelhavam a formas de aranhas, corroborando a tese do instinto de sobrevivência – o que explicaria também as reações de aversão mais intensa em algumas pessoas.

Um outro estudo realizado no Reino Unido, com 261 adultos, mostrou que cerca de 32% de mulheres e 18% homens no grupo sentiram-se muito ansiosos, nervosos ou extremamente assustados quando confrontados com uma aranha real (ou apenas através de imagens). (4,5)

Tratamento

Sabe-se que o tratamento indicado envolve uma exposição gradual ao estímulo fóbico (no caso, a aranha) com o objetivo de dessensibilizar o paciente frente à reação fóbica. Esse processo é combinado a treinos de relaxamento e, mais tarde, baseado nas técnicas da terapia cognitivo-comportamental. (6,7)

Pode-se também usar de tratamento virtual, ao recriar todos os elementos que compõem a experiência integral de estar próximo a um aracnídeo, onde o paciente é mais capacitado a vencer o seu medo. (8)

Estão aí as técnicas da psicoterapia moderna para lhe ajudar a transformar seu medo. Só permanece sofrendo quem quer.

Referências

(1) https://www.psychologytoday.com/blog/why-we-worry/201407/why-are-we-afraid-spiders

(2) http://lounge.obviousmag.org/por_uma_linha_que_caiba/2014/05/tarantismo-o-grito-da-frustracao-feminina.html#ixzz3nop4tWO8

(3) http://www.telegraph.co.uk/news/science/11516966/Fear-of-spiders-in-our-DNA-according-to-new-study.html

(4) http://www.fearof.net/fear-of-spiders-phobia-arachnophobia/

(5) http://www.uptodate.com/contents/specific-phobia-in-adults-epidemiology-clinical-manifestations-course-and-diagnosis/abstract/1?utdPopup=true

(6) http://www.helpguide.org/articles/anxiety/phobias-and-fears.htm

(7) Rinck M, Becker ES. Approach and avoidance in fear of spiders. J Behav Ther Exp Psychiatry 2007; 38:105-120

(8) http://www.perseusrealidadevirtual.com.br/

 

 

 


3 sinais de que uma pessoa está insegura
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Dr. Cristiano Nabuco

fotolia - Sensay

fotolia – Sensay

Obviamente que é quase impossível para qualquer um descobrir o estado emocional que é vivido por alguém em um determinado momento, apenas colhendo pistas instantâneas que são observadas em rápidas conversas, entretanto, para uma pessoa mais atenta, alguns sinais sempre fogem ao controle, deixando evidente o rastro de insegurança e vulnerabilidade psicológica que é sentido por alguém.

Assim, a seguir, descrevo alguns dos indícios mais comuns presentes nas interações e que podem ser indicativos de um sentimento transitório de inferioridade:

a) Autovalorização excessiva

Esse, talvez, um dos mais clássicos, é frequentemente encontrado nas pessoas que estão se sentindo desprestigiadas.

Como o cérebro humano em nossa evolução antepassada foi preparado para obter o destaque perante o bando, pois dessa forma se teria mais chance de liderar o grupo, prioridade na alimentação ou ainda na escolha do(a) parceiro(a), tornar-se um líder era de fundamental importância – ou também conhecido como “macho” ou “fêmea” alfa -, assim sendo, “ser bom” passou a ser  uma necessidade vital para a sobrevivência.

Dessa forma, ainda que o tempo tenha passado e não precisemos mais brigar por um pedaço de comida, muitas pessoas, quando estão se sentindo diminuídas, têm o seu cérebro inconscientemente acionado para, de alguma forma, fazer-nos voltar ao destaque e, assim, da maneira mais simples possível, um velho mecanismo entra em ação: imediatamente damos um jeito de encaixar nas conversas assuntos como: o destino da última viagem, a comida “maravilhosa” de um determinando restaurante, o objeto “exclusivo” comprado em uma das melhores lojas de grife ou, ainda, o importante cargo, ressaltando sua “importância”.

Portanto, ficar em evidência, compensa a sensação de inferioridade, resolvendo momentaneamente o problema.

fotolia - adam121

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O que essas pessoas, na verdade, não percebem é que ativar esse senso de grandiosidade de forma desproporcional e excessiva, apenas reforça um sentimento de esquiva e de rejeição pelos demais, uma vez que a soberba pessoal não é usualmente muito bem digerida pelo grupo, fazendo então com que esse indivíduo passe a ser, efetivamente, desconsiderado.

Portanto, fique atento para não criar um estigma sobre sua pessoa.

b) Incapacidade de dizer “não”

Esse é outro importante indicador de que temos um expressivo receio de magoar ou de decepcionar alguém. Assim sendo, nessa condição sentimo-nos incapazes de colocar de forma  sensata e objetiva nossas percepções e opiniões pessoais, deixando transparecer uma excessiva simpatia pelos demais, ao deixar passar uma impressão de que “faríamos qualquer coisa” pelo outro. O que, diga-se de passagem, nem sempre é verdadeiro.

Esse tipo de comportamento vem, muitas vezes, acompanhado de notada efusividade (simpatia) interpessoal, dando margem a que o outro sinta que você o “compreendeu” ou ainda é uma pessoa “muito legal” e que essa “amizade” mereceria ser cultivada, pois, afinal de contas, aparenta ser alguém demasiadamente receptivo.

Claro, tudo tem um segundo sentido que é o de aparentar sua capacidade de “conexão”, o que, diga-se de passagem, pode aumentar de maneira irreal as expectativas projetadas sobre nós e dando margens a problemas maiores como as futuras decepções.

Ocorre que muitas pessoas, na verdade, nem percebem que estão fazendo isso.

Lembre-se apenas de uma coisa: ninguém consegue ser “legal” o tempo todo. Assim, tente ser apenas e tão somente você.

c) “Congelamento” ou a incapacidade de interagir

Esse é um outro recurso que o cérebro humano lança mão para combater o senso de diminuição pessoal e semelhante a algumas categorias de comportamento animal que, quando estão se sentindo ameaçados, “paralisam” para mostrar ao inimigo ou que são inofensivas ou para serem confundidas com o entorno, diminuindo assim a chance de ataque.

Nessas situações, essas pessoas se sentem tão vulneráveis frente aos demais que literalmente “travam” e não conseguem sequer participar de uma simples interação, por mais fugaz que ela seja. E, na medida que isso ocorre, o desconforto pessoal é percebido por elas mesmas que tentam desesperadamente “agir” – na tentativa de recuperar seu lugar social.

fotolia - vadymvdrobot

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Todavia, o cérebro, percebendo a situação de profundo incômodo, ao tentar reverter a situação, dá comando para que elas “falem”, que se comuniquem de qualquer jeito, qualquer coisa serve, mas obviamente isso apenas aumenta a escalada de ansiedade, fazendo com que elas se sintam ainda mais travadas e congeladas, dando então mais força ao sentimento de exclusão pessoal.

Conclusão

Veja que nem sempre estamos em dias em que nossas habilidades sociais estão em alta, ou seja, como tudo na vida, sempre há momentos em que estamos mais abertos, enquanto outros, mais reservados e introvertidos.

E, veja, falar demasiadamente de nossas conquistas, ser muito simpático às vezes ou até ficar mais calado em algumas fases da vida, na verdade, é algo absolutamente normal e não deve ser fonte de preocupação. Todavia, a dica vai para quando esses mecanismos tendem a se repetir frequentemente com a passagem do tempo, engessando-nos emocionalmente ao fazer- nos agir sempre da mesma maneira e criando, portanto, problemas maiores de sociabilidade e de relacionamento.

Aqui, portanto, estariam algumas das bases futuras dos quadros de transtorno narcisista, da fobia social, dentre outros.

Assim, fique atento quando esses mecanismos deixam de ser um problema e se tornam um “padrão” constante de interação e que, portanto, deveriam ser objeto de cuidado e de mudança pessoal.

A boa notícia? Está aí a psicoterapia moderna para lhe ajudar a transformar esses padrões. Felizmente, há saída (tratamento) para quase tudo. Só permanece inseguro e mal resolvido quem quer.


O transtorno bipolar e o dilema dos diagnósticos incorretos: um estudo
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Dr. Cristiano Nabuco

Fotolia - Photographee.eu

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O Transtorno bipolar do humor é uma doença mental caracterizada pela alternância de humor.

Desta maneira, as pessoas acometidas por esse problema experimentam episódios de euforia (ou também chamado de “mania”) enquanto, em outros momentos, intercalam períodos de depressão, seguidos por episódios de normalidade.

Com o passar dos anos, entretanto, essa alternância repete-se com intervalos cada vez menores, apresentando algumas variações.

Muitas vezes, nem mesmo o paciente ou profissionais de saúde percebem a doença, o que retarda o adequado tratamento. (1)

Montanha russa emocional

Euforia (ou mania) é um estado onde a pessoa experimenta significativa exaltação do humor, ao sentir um importante aumento de vitalidade – sem qualquer relação com algo específico -, o que confere grande vigor emocional ao indivíduo. Em geral, essa mudança de comportamento é repentina, entretanto, a pessoa tem dificuldade de perceber sua alteração pessoal, pois seu senso crítico acaba afetado, comprometendo assim sua capacidade de avaliar objetivamente as situações.

Durante um episódio de mania, por exemplo, uma pessoa impulsivamente pode sair de um emprego, gastar enormes quantias em seu cartão de crédito, pois se sente inabalável, ao experimentar sentimentos de grandeza, poder e fácil irritabilidade. (2)

Já durante um episódio depressivo, a mesma pessoa pode vir a se sentir muito exaurida, desanimada, inclusive, sem forças para sair da cama, por exemplo, e agora desenvolvendo mais consciência das situações criadas pelos momentos de euforia, o que reforça seu estado depressivo e suas ideações suicidas.

Assim, euforia e depressão intercalam-se.

Como a condição parcial de humor elevado não é totalmente compreendida pelo indivíduo como sintoma de uma doença, muitas vezes as pessoas apenas buscam ajuda nos momentos mais agudos de desânimo e de depressão.

Essa falta de informação é tão impactante que afeta o tratamento do transtorno.

Veja só: uma pesquisa recente apontou que 10% dos pacientes que buscam os cuidados básicos, no Reino Unido, recebem um diagnóstico incorreto, pois, ao relatarem os sintomas de maneira parcial (leia-se: não descrevendo sua alternância de humor), recebem apenas a indicação de antidepressivos para tratamento da depressão. (3)

Como resultado, recebem um tratamento inadequado, pois apenas medicamentos antidepressivos sem a associação com estabilizadores de humor – indicados para o tratamento do transtorno bipolar – aumentam o risco de mais instabilidade no humor, causando grande sofrimento ao indivíduo.

O estudo constatou que entre as pessoas com idade entre 16-40 anos, que haviam tomado antidepressivos, 10% delas tinham, na verdade, transtorno bipolar não diagnosticado.

O estudo recomenda que os profissionais de saúde devem rever as histórias de vida de pacientes com ansiedade ou depressão, pacientes particularmente mais jovens e aqueles que não estão indo bem, deveriam ficar mais atentos para as possíveis evidências de transtorno bipolar do humor.

Conclusão

A saúde mental, diferentemente da saúde física, ainda é um grande desafio a ser superado.

Diferentemente dos quadros onde a doença é “visível”, na saúde mental muitas vezes os sintomas, quando percebidos, são apontados de maneira simplista, como resultante de uma personalidade mais complicada ou excêntrica o que, na verdade, justificam os problemas.

Conforme descrito certa vez no prefácio do livro “Síndromes Psiquiátricas” (pág. 11):

“A boa notícia é que a maioria dos transtornos mentais tem tratamento. A má notícia é que são muito frequentes e que acometerão uma em cada quatro pessoas, produzindo sofrimento incomensurável.

A boa notícia é que há tratamentos farmacológicos que ajudam essas pessoas a se recuperar e aliviam muito esse sofrimento. A má notícia é que as pessoas com transtorno mental comumente não sabem que ele é a causa do sofrimento, e por isso não procuram ajuda.

A boa notícia é que há cada vez mais remédios com menos efeitos colaterais. A má notícia é que as pessoas que procuram ajuda, seu mal não é corretamente identificado, e elas não recebem tratamento adequado”. (2)

Portanto, fiquemos atentos e menos receosos na busca de profissionais de saúde mental. A exemplo da tristeza excessiva, euforia e felicidade extremas também são um desafio ao nosso equilíbrio.

Referências

(1)  http://www.abrata.org.br/new/oqueE/transtornoBipolar.aspx

(2) http://www.grupoa.com.br/livros/psiquiatria/sindromes-psiquiatricas/97885363056394

(3) http://bjgp.org/content/66/643/e71