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O que as notícias ruins estão fazendo com a nossa cabeça

Dr. Cristiano Nabuco

22/11/2017 04h00

fotolia – Antonio Nardelli

Recentemente eu assistia a um documentário na TV, onde o entrevistado, um cientista político, de maneira categórica, afirmava: “nunca vivemos em tempos de tanta paz mundial”. O repórter, assim como eu, exibimos uma mesma reação: de espanto.

E ele, o entrevistado, rapidamente completou: “a diferença do momento presente, em oposição ao passado, é que hoje, diferentemente de outras épocas, tão logo alguma coisa de ruim aconteça em qualquer lugar, em alguns poucos minutos, já somos informados”. E, concluiu: “durante a primeira grande guerra, por exemplo, as notícias levavam semanas para serem transmitidas de um lugar para outro”. E, assim, “quando a população era notificada dos acontecimentos, possivelmente, eles já haviam acabado”, o que nos fazia sentir mais seguros.

A lógica do especialista era então a de que, quanto mais avança e progride a tecnologia, maior será a rapidez da propagação das informações, o que, portanto, colabora com o aumento de nossa sensação de viver, digamos, em tempos menos estáveis.

Não sei se concordo com a ideia, entretanto, uma coisa é clara: somos atingidos o tempo todo por notícias adversas, vindas de todos os lugares: televisão, internet, redes sociais, mensagens no celular e, o pior, nos chegam sem interrupção, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Essa divulgação pode ser motivada, em parte, pela tendência natural que nosso cérebro exibe em dar mais atenção aos fatos perigosos e ameaçadores, mas, o que sentimos hoje, definitivamente, é viver em épocas de maior risco.

Os efeitos sobre o corpo

Importante que você saiba é que, quando nosso cérebro percebe uma situação como ameaçadora, o sistema nervoso simpático aumenta a produção de cortisol e adrenalina, fazendo com que os batimentos cardíacos e a respiração acelerem. O perigo faz também com que nossa pressão suba e os músculos se contraiam. Até aqui, obviamente, nada de anormal, pois fomos preparados ao longo de toda nossa evolução para lidar com as adversidades da vida.

Entretanto, quando esse processo deixa de ser ocasional e se torna crônico e repetitivo, as reações sentidas pelo corpo são potencializadas e podem, dessa forma, dar início a uma série de efeitos prejudiciais como, por exemplo, reduzir o calibre dos vasos que, com o passar do tempo, aumentam o risco de hipertensão, de arritmias cardíacas, dos problemas de pele, distúrbios digestivos e, finalmente, tem o poder de reduzir nossa capacidade mental.

Além disso, sabe-se que, à medida que o contato com as notícias desfavoráveis volta a acontecer, nosso cérebro começa a criar uma espécie de “barreira de proteção” emocional – um tipo de anestesia psicológica -, fazendo com que nos acostumemos de maneira progressiva aos fatos ruins, ou seja, nos fazendo ficar mais tolerantes e insensíveis aos fatos.

Eu sei, talvez o efeito não seja de todo ruim, pois certos acontecimentos “não ocorreram ao nosso lado”, certo?…

Errado.

Sinto lhe informar que, na verdade, nem precisaríamos estar diretamente envolvidos em uma adversidade para que os seus efeitos nocivos possam ser percebidos.

fotolia – xbrchx

A psicologia do medo

De acordo com alguns pesquisadores, a exposição ao conteúdo negativo e violento, advindos dos meios de comunicação, muitas vezes, pode ter efeitos emocionais danosos e mais duradores.

Claro, além de, naturalmente, ficarmos mais pessimistas em relação à vida – e mais endurecidos, talvez -, a proximidade com o sofrimento humano alheio pode fazer com que nos tornemos mais angustiados em relação às situações corriqueiras de nossa existência, ou seja, até os eventos neutros de nosso entorno podem, facilmente, começar a ganhar uma interpretação mais nociva aos nossos olhos.

Portanto, a exposição às temáticas mais carregadas das mídias, pode exacerbar e contribuir para o desenvolvimento do estresse, ansiedade, depressão ou ainda o conhecido transtorno de estresse pós-traumático – aquele descrito pelos soldados que retornam de uma guerra.

A esse respeito, um estudo realizado com americanos, após os ataques terroristas nas torres gêmeas, no fatídico 11 de setembro de 2001, revelou que apenas assistir às cenas transmitidas desse evento traumático já era suficiente para desencadear os sintomas de medo e tensão em algumas pessoas e, o mais importante, a gravidade dos sintomas registrados esteve diretamente correlacionada com a quantidade de tempo que as pessoas passavam revendo tais acontecimentos. (1)

Outro estudo realizado com jornalistas demostrou que a exposição a imagens violentas fez com que os sujeitos, após um tempo, começassem a apresentar alguns dos sintomas comuns do estresse pós-traumático, como memórias intrusivas do acontecimento passado – tipo “flash-backs” -, ansiedade aumentada, somatização e, finalmente, a depressão. Ou seja, é como se apenas estar exposto a essas ocorrências já fosse forte o suficiente para que nosso cérebro pudesse entender que a referida situação havia mesmo sido vivida pelas pessoas. (2)

As engrenagens do temor

Com o objetivo de tentar compreender melhor o funcionamento da mente, vale contar uma outra investigação. Desenhou-se um estudo, contendo três boletins de notícias. O primeiro, exclusivamente, divulgando eventos negativos, um outro contendo apenas notícias positivas (por exemplo, pessoas que ganharam na loteria, recuperação de doenças etc.) e, finalmente, um terceiro, apenas com itens emocionalmente neutros.

Na sequência, esses noticiários foram exibidos a três diferentes grupos.

Veja só que curioso: aqueles que entraram em contato com as notícias ruins, relataram ficar com mais ansiedade e mais tristeza do que as pessoas que tiveram contato com os conteúdos neutros ou positivos. (3)

O mais impactante, relatam os pesquisadores, foi perceber que os efeitos das notícias negativas reverberavam sobre as inquietudes dos sujeitos, ou seja, descobriu-se que aquelas pessoas que haviam tido contato com os acontecimentos negativos – as do primeiro grupo -, foram as que passavam mais tempo pensando e falando sobre os acontecimentos. Tal fato, afirmaram os pesquisadores, contribuiu para o desenvolvimento de processo mental conhecido na psicologia por “catastrofização” – dar uma maior e pior dimensão às coisas, do que elas realmente são. (4)

Conclusão

Eu também, assim como você, tenho, muitas vezes, a clara impressão de que o mundo está, literalmente, desmoronando à nossa volta, que as coisas só pioram, que a insegurança aumenta, estamos mais infelizes etc. Como você, também sinto que tudo já se tornou meio que “normal”, não é verdade? Como se não houvesse outra possibilidade a não ser a de resignação.

Sempre há uma saída, entretanto.

Minha sugestão é a de que possamos, de alguma forma, começar a tentar regular a quantidade de tempo de exposição aos fatos negativos. Como cuidamos de nosso sono ou de nossa alimentação, evitando frituras, por exemplo, penso que seria interessante começar a adotar uma atitude de um pouco mais de resguardo em relação a esse entorno mais negativo.

Como?

Destine menos tempo e menor atenção a esses fatos, simples assim.

Quando conseguimos focar a atenção às nossas experiências de vida, voltamos a ter mais consciência de nosso cotidiano imediato. E, ao procedermos assim, desenvolvemos um maior senso de controle, o que permite ao cérebro mais primitivo recuperar a noção de preservação e integridade – ou seja, de não estarmos mais sob risco -, levando nosso organismo, portanto, a voltar a equilibrar os níveis de ansiedade e tensão.

Pense nisso e pratique.

Não deixe que as notícias ruins comprometam sua vida.

Referências

(1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15792033

(2) http://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2054270414533323

(3) http://edition.cnn.com/2016/07/20/health/how-to-deal-with-traumatic-news-trnd/index.html

(4) https://hopefulheadlines.org/2016/10/26/how-good-news-and-bad-news-impact-our-health/

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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