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O experimento do Facebook: quanto mais você usa, menos feliz estará

Dr. Cristiano Nabuco

13/06/2017 07h00

draganagordic – fotolia

O número total de usuários da rede social Facebook, segundo levantamentos realizados em dezembro de 2015, era de, aproximadamente, 1,59 bilhões – número este já, possivelmente, ultrapassado nos dias de hoje – e, de maneira mais do que óbvia, crescendo a cada dia.

Através dessa plataforma, pessoas permanecem em contato com amigos, dividem experiências importantes e mais, obtém, de maneira contínua e ininterrupta, uma importante forma de apoio e de reconhecimento social. Assim, nem precisaria ser especialista para entender que seu uso se tornou parte importante de nosso cotidiano, sendo, no momento, a mais usada rede social do planeta.

Caso não seja o seu caso – sorte sua, eu lhe diria -, saiba que uma parcela expressiva desses usuários é, de fato, fiel, pois antes mesmo de sair da cama, “abre o Face apenas para ‘dar uma olhada’ se algo de importante aconteceu durante a noite”.

Assim, muito embora a impressão dos usuários seja a de que essas interações são, de fato, relevantes, do ponto de vista emocional, já não é de hoje que algumas pesquisas apontam para uma direção oposta.

Eu explico.

Estudos anteriores já haviam relacionado o uso do Facebook ao aparecimento de alguns problemas importantes como, por exemplo, a manifestação de efeitos psicológicos negativos em seus usuários, o aparecimento de sintomas depressivos e o aumento marcante de uma insatisfação pessoal. E tem mais: registre também aí, a deterioração do humor e, finalmente, o aumento de uma percepção pessoal de falta de sentido (pelo fato de a pessoa não se sentir tendo feito algo de importante, se comparado àquilo que assiste nas histórias dos demais).

Entretanto, sendo bastante imparcial, há também estudos que apontam o lado positivo da plataforma, como servindo de importante ferramenta de validação social, além de possibilitar a diminuição da solidão.

Mas, afinal, eu me pergunto: a ciência poderia ser, às vezes, menos contraditória? Vamos tentar responder através de outra pesquisa então.

A investigação

Foram recrutados 1.095 dinamarqueses para participar de um experimento que teria a duração de uma semana. Adultos, majoritariamente mulheres (86%), apresentavam uma média de idade de 34 anos. O objetivo central da pesquisa era avaliar se o uso do Facebook efetivamente poderia criar algum tipo de impacto no bem-estar dos usuários e, mais especificamente, se o seu uso alteraria a satisfação pessoal da vida de cada um e, como consequência, evocar emoções negativas em seus usuários.

Algumas variações foram propostas aos participantes, como diferentes tempos de uso, além de outras modificações.

O resultado?…

Bem, em termos gerais, o primeiro achado apontou para o fato de que aquelas pessoas que foram orientadas a interromper o uso pelo período de uma semana, foram as que, frente ao grupo como um todo, relataram os maiores níveis de bem-estar e de satisfação com a vida pessoal.

E o segundo achado? Quando menos se interagiu com a rede social, menores também foram os níveis de inveja interpessoal que surgiam nos usuários.

O que significa então que um uso moderado e sensato – aliás, como tudo na vida -, pode então lhe colocar em contato com as boas coisas que o Facebook tem para oferecer e, ao mesmo tempo, preservar a sua vida emocional.

Conclusão

Tenhamos, portanto, algo bastante claro em mente.

As consequências do uso do Facebook, se positiva ou negativa, obviamente derivam da forma de como utilizamos a referida rede social em nosso dia-a-dia. Vamos lembrar que, ao longo do cotidiano, não estamos tão atentos e críticos a respeito daquilo que é postado pelos outros usuários, ou seja, na velocidade que nosso dia-a-dia nos chega, faz com que percamos, temporariamente, a capacidade de pesar o quanto que as comparações sociais que fazemos de maneira automática com os demais são, de fato, sensatas.

Assim sendo, como a vida é cheia de altos e baixos, fiquemos atentos, portanto, às comparações bem pouco realistas que, nos momentos de menor motivação, nos fazem sentir mal a partir da analogia com a vida dos demais.

Concluindo, como “a grama do vizinho é sempre mais verde”, fiquemos atentos, portanto, para as experiências que vivemos no mundo virtual, pois, ao que indica essa nova pesquisa, enquanto não tivermos muita maturidade e preparo, quanto mais Facebook usarmos, menores serão as chances de nos sentirmos bem.

Recomendações

– Não fique entrando no Facebook de hora em hora. Assim sendo, reserve certos momentos de seu dia.

– Desabilite os sons que fazem seu celular ou laptop apitar assim que alguém curte algo que você postou, pois é inevitável – ou irresistível demais -, não dar uma olhadinha.

– Não estimule seus filhos a se tornarem dependentes dessa plataforma (ou de outras redes sociais). Posso lhe assegurar que, as melhores coisas da vida, não estão sendo compartilhadas nas redes sociais.

– Nada supera as experiências que estamos vivendo em nosso presente momento.

Pense nisso tudo.

 

Referência

http://online.liebertpub.com/doi/10.1089/cyber.2016.0259

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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