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Os efeitos da tecnologia em crianças menores de 2 anos

Dr. Cristiano Nabuco

25/11/2015 08h00

goodluz - fotolia

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Já não é de hoje que os efeitos da exposição à mídia eletrônica (TV, DVD, programas de computador), à internet como um todo, têm sido relatados de maneira extensiva.

Os efeitos positivos, já sabemos muito bem, não precisam ser mais detalhados, pois já fazem parte do dia-a-dia de quase todas as pessoas.

Os negativos, entretanto, abordados sistematicamente, apontam para uma série de resultados ou, se você preferir, efeitos colaterais não muito animadores.

Ainda que o assunto esteja em pauta constante, muito pouco se sabe a respeito dos efeitos observados nas crianças com idade inferior a 2 anos.

Nesse sentido, farei uma breve descrição de algumas questões que vêm sendo apontadas pela literatura científica e que merecem uma maior atenção dos cuidadores.

Dados decorrentes de levantamentos nacionais são quase inexistentes e, portanto, tomarei por base algumas informações já aferidas por outros países.

Algumas pesquisas apontam que cerca de 90% dos pais afirmam que seus filhos menores de dois anos assistem a algum tipo de mídia digital ao longo do dia. Tal acontecimento se deve ao fato de que ver televisão ou brincar com eletrônicos asseguram uma maior quietude em casa como, por exemplo, no preparo para o jantar, durante mesmo as refeições ou ainda nos momentos de lazer – o que permite aos pais poderem realizar alguma outra atividade sem maiores preocupações.

Caso você ainda não saiba, levantamentos apontam que as crianças nessa idade chegam, em média, a ver televisão de 1 a 2 horas por dia, enquanto há registros que facilmente atingem a marca de 4 horas diárias.

Embora exista um mesmo acesso aos diferentes níveis socioeconômicos, o “consumo” tende a ser expressivamente maior em faixas menos favorecidas, ou seja, quanto menor o nível educacional dos cuidadores, maior a exposição dos filhos à televisão (ou ainda no caso de lares onde existem pais separados vivendo com as crianças).

Alguns efeitos

Muito se tem discutido a respeito da importância dos programas educacionais, como o aumento das habilidades sociais, linguagem, por exemplo, ao se exaltar os efeitos positivos da exposição. Saiba então que ¾ dos programas destinados a crianças se autodenominam educacionais, entretanto, muito pouco tem sido efetivamente pesquisado e comprovado se, de fato, promoveriam tais habilidades.

Vamos lembrar que, para que algum efeito possa ser verificado, as crianças pequenas precisariam ter asseguradas suas mínimas habilidades cognitivas (como a atenção ou a memória, por exemplo), mas que ainda não operam, nessa faixa etária, de forma regular.

Além disso, as crianças pequenas apresentam dificuldade de discriminar de onde partem os eventos que são apresentados a elas, isto é, se em vídeo ou advindos da realidade em seu entorno (como resultado da ação entre as pessoas), não são diferenciados. Como a atenção infantil ainda é precária, ela apenas irá mostrar maiores mudanças entre 1,5 e 2,5 anos de idade, todavia, sempre lembrando da existência das exceções (que podem ser ainda mais lentas), o que anularia qualquer premissa educativa de programas para esses fins.

Isso resulta que as crianças com um ano de idade (ou menores) não conseguirão acompanhar um diálogo entre adultos ou uma sequência de imagens, pois a atenção ainda não é completamente desenvolvida (e isso vai até os 18 meses).

Veja só esse exemplo: dois estudos revelaram que o programa Sesame Street (conhecido no Brasil como Vila Sésamo) foi pesquisado e apresentou (pasme) efeitos negativos sobre o desenvolvimento da linguagem em crianças menores de 2 anos.

E veja: isso não é tudo.

Televisão ligada no ambiente

Esse pode ser outro importante obstáculo. Vamos lembrar que muitas famílias deixam a sua televisão ligada e essa quantidade de tempo pode, em muitos registros, chegar a 6 horas de exposição ao longo de um único dia. Em certos levantamentos, 40% relatam deixar a televisão ligada o dia todo.

Sabe uma das consequências? Eu explico.

Mist - Fotolia

Mist – Fotolia

Não se sei você tem conhecimento, mas, quanto maior o tempo de interação registrado entre os cuidadores e seus filhos, melhor será o nível de vocabulário de uma criança. Assim sendo, em lares onde a TV disputa a atenção dos pais, verificou-se uma interferência no desenvolvimento da linguagem dos pequenos, simplesmente pelo fato de existir “pouca conversa”, o que impactaria o desenvolvimento dos pequenos.

O fato de os programas assistidos pelos pais, muitas vezes, não serem destinados à criança produzem ruídos de fundo, o que faz com que elas também interrompam o tempo de suas brincadeiras, o que igualmente produz a redução de sua atenção, afetando diretamente seu processamento cognitivo (como memória e compreensão de leitura), ocasionando os comprovados atrasos de desenvolvimento da linguagem em função da exposição prematura às mídias.

Outra pesquisa mostra que crianças de 5 anos de idade que gastam mais tempo apresentadas à televisão, menos brincadeiras criativas desenvolviam, se comparadas às não expostas.

Outro dado alarmante: para cada hora de televisão assistida por uma criança menor de 2 anos de idade, 52 minutos foram a redução da interação registrada entre amigos ou mesmo entre os pais.

Em crianças que habitam lares onde há exposição intensa de mídias, verificou-se uma menor capacidade crítica, diminuição das habilidades criativas e menor aprendizagem na resolução de problemas, se comparadas àquelas que não ficaram tão expostas.

Além disso, a exposição à mídia está associada ao aumento da obesidade, problemas de sono, alterações no humor, comportamentos agressivos e comportamentos ligados à falta de atenção na escola.

 Recomendações aos pais

– Não exponha seus filhos à mídia, se tiverem uma idade inferior a 2 anos. Caso sejam maiores, controle ativamente o tempo e o conteúdo de exposição, partindo de pequenos intervalos e maiores, conforme a idade avança;

– Procure ficar atento à exposição indireta que a criança recebe. Lembremos que a televisão e os computadores não podem cumprir uma função de babá eletrônica de nossos pequenos;

– Fiquemos atentos ao fato de que mídia eletrônica e TV exercem efeitos também nocivos e que, portanto, precisam ser observados;

– Ajude seus filhos se distraírem com atividades que, efetivamente, auxiliem no desenvolvimento. Já não é de hoje que temos conhecimento de que certas atividades lúdicas auxiliam no desenvolvimento cerebral.

Conclusão

Através dos exemplos descritos acima, percebemos que os tablets e os celulares ficaram de fora de muitas pesquisas pelo simples fato de serem ainda muito recentes em nossa rotina.

Assim sendo, se a TV pode, em certo nível, ser comprometedora, imagine então os dispositivos móveis que podem ser levados a qualquer lugar e acessados a qualquer momento e assim, exemplarmente, distraindo os filhos para que os pais possam ter seu sossego.

Os efeitos, portanto, podem ser ainda piores.

Ainda que mais pesquisas possam surgir e nos dar maiores indicações de seu prejuízo, penso que os pais deveriam também abrir mão do uso excessivo dos eletrônicos e assim, poderem servir de modelo positivo a ser copiado e seguido, não aumentando ou reforçando o uso e exposição excessivos nas crianças.

Resumindo, seja prudente e use os eletrônicos com muita cautela. A falta de bom senso poderá cobrar um pedágio futuro no desenvolvimento das novas gerações.


Para saber mais, acesse: http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2015/09/02/tv-e-criancas-qual-e-o-limite-dessa-exposicao/

 

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!

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