Dr. Cristiano Nabuco

A psicologia dos “selfies”: autoexpressão ou sinal de problemas?

Dr. Cristiano Nabuco

© berc - fotolia

© berc – fotolia

De acordo com fstoppers.com – uma importante comunidade profissional de fotografia e vídeo -, cerca de 10% de todas as fotos já tiradas ocorreram nos últimos 12 meses. Outra fonte revela que apenas o Facebook foi o principal destino de 4% dessas imagens.

Portanto, quando falamos em fotografia em tempos modernos, os números não são nem de longe inexpressivos, ou seja, nada menos que 880 bilhões de retratos foram feitos apenas em 2014. E, vale dizer: uma parcela relevante foi tirada de nós mesmos na forma de autorretratos ou “selfies”.

É evidente que não é de hoje que nos representamos através das imagens. A arte rupestre, por exemplo, seria uma boa demonstração dessa tendência, entretanto, quando somos informados de que esses “selfies” chegam a contabilizar a marca de um bilhão a cada dia – segundo aponta stylecaster.com -, é possível que esse número diga alguma coisa a mais.

Que os “selfies” tenham se tornado uma versão moderna de comunicação e valorização social, até seria compreensível, mas até que ponto se autofotografar de maneira insaciável seria ainda um resquício artístico de tendências pré-históricas? Na verdade, não sabemos responder.

Os autorretratos digitais, uma nova forma de expressão social, além de marcar um momento ou registrar um acontecimento, sabe-se que uma das forças motrizes mais significativas por trás desse comportamento é a promoção pessoal. O fenômeno cultural do “selfie” expõe assim um desejo humano de se sentir notado, apreciado e, finalmente, reconhecido. Portanto, mesclam arte, conexão social e padrões de autoimersão (Georgia University).

Mas, indo um pouco mais além, eu me pergunto: qual seriam os efeitos reais que os “selfies” teriam o poder de evocar?…

A primeira e mais forte função, creio eu, seria a de transmitir a sensação (“falsa”, diga-se de passagem) de intimidade e amizade com o fotografado, ou seja, a documentação visual que é criada pelo autor revela-se, muitas vezes, mais poderosa que a memória – que se dilui -, uma vez que ocorre dentro de um lapso, perdendo-se no tempo.

Além disso, a imagem que hoje é postada na forma digital pode ser compartilhada e  aperfeiçoada em uma riqueza infinita de detalhes, constituindo aquilo que se denomina de “exuberância do momento”.

Dados apresentados pela Samsung, por exemplo, demonstram que essa tendência é tão expressiva que 36% dos instantâneos tecnológicos não apenas são publicados da forma que foram tirados, mas que, na verdade, são retocados pelos seus donos antes de seguirem para seu destino final (redes sociais como Facebook, 48%, Whatsapp, 27% etc).

É como se cada um, atualmente, – celebridade ou não, não importa -, pudesse assegurar momentos de glamour e de singularidade pessoal no palco da vida. Se, antes da criação da internet e das redes sociais, uma fotografia poderia ser exposta apenas a um pequeno grupo, hoje essa marca sequer pode ser estimada. As fotos que vão para a web, tornam-se eternas nas memórias da rede mundial.

Existem opiniões diversas a esse respeito. Há quem fique satisfeito ao saber que suas experiências podem permanecer, de fato, como que eternizadas, muito embora existam posições contrárias.

© Feng Yu - fotolia

© Feng Yu – fotolia

Veja só: num artigo da Revista “Psychology Today”, Pamela Rutledge, diretora de Psicologia e Mídia do Centro de Investigação em Boston (Massachusetts), afirmou que: “os ‘selfies’, muito frequentemente têm o poder de desencadear a busca excessiva de atenção e de dependência social, indicativas da baixa autoestima e do narcisismo pessoal”.

Isso nos sugere então que o limite entre o sensato e o imprudente, quando o assunto é autopromoção visual, possa ser algo bastante frequente.

Um estudo do Reino Unido, envolvendo 2.071 sujeitos com idade variando entre 18 e 30 anos, revelou que, quando se trata de tirar fotografias, 39% preferiram tirar fotos de si mesmos, ao invés de seus familiares, amigos, ou ainda, os animais de estimação.

Assim sendo, a forma como alguém se apresenta ao mundo se tornou um elemento-chave, onde, na superfície, a tendência comum do fenômeno poderia ser compreendida como uma espécie de autoafirmação que tem o poder de carregar características inegavelmente egocentradas.

Por outro lado, é possível que as “selfies” tenham se tornado uma manifestação social que evidencia a obsessão pela aparência, somado à exibição da vida privada na forma de reality-shows-pessoais, arquitetando, como resultado final, um senso autoinflado que permite às pessoas acreditarem que seus amigos ou seguidores estariam, de fato, interessados em vê-los deitados na cama, almoçando, abraçando alguém ou ainda, saberem que roupa estão usando.

Esse comportamento poderia ser interpretado, na verdade, como se as pessoas estivessem de frente a um espelho, olhando-se o dia todo, e o pior: deixando que os outros os vejam fazer isso, sem qualquer senso de constrangimento, vergonha ou intimidação pessoal.

Entretanto, caso você ainda não saiba, isso pode ter implicações bastante adversas.

Eu explico.

Essa forma de narcisismo excessivo, apontam alguns estudos, pode ter efeitos devastadores sobre as relações pessoais e no local de trabalho.

Um estudo recente do Reino Unido concluiu que o fenômeno “selfie” pode ser prejudicial para a convivência como um todo, uma vez que o compartilhamento de fotos de maneira excessiva pode, na verdade, fazer com que os pares vejam as pessoas como menos simpáticas, em função do exagero na autopromoção.

Para concluir, o mesmo estudo descobriu que o aumento da frequência de postagens esteve relacionado a uma diminuição na intimidade com o grupo de referência, pois conseguiu aumentar a competição entre os amigos.

Resumo: o efeito final de uma “selfie” pode ser totalmente contrário – um tiro no pé -, ao trazer ao fotografado o ciúme, o despeito e, finalmente, a rivalidade interpessoal.

Conclusão

Muitas vezes ficamos tão ocupados controlando a imagem, que iremos revelar ao mundo que acabamos perdendo o verdadeiro contato com os momentos que constituem a singularidade da vida concreta.

Quando capturar algo que na câmera tem a prioridade sobre o que acontece à nossa volta, isso pode ser indicativo de um problema real, ou seja, passamos a ficar conectados com as imagens, mas desconectados de nós mesmos, ao criar um verdadeiro dilema: como eu posso esperar que os outros  prestem atenção a mim se nem eu mesmo consigo descrever o que está acontecendo à minha volta?…

Documentar a experiência não pode, jamais, ser mais importante do que vivê-la.

Pense nisso.