Dr. Cristiano Nabuco

Afinal, videogames aumentam a violência entre os adolescentes?

Dr. Cristiano Nabuco

© greggsphoto – Fotolia.com

Uma das questões mais antigas é saber se a tecnologia pode, de fato, afetar o comportamento dos jovens. Foi assim com o aparecimento do rádio, depois com a televisão e agora, mais recentemente, com relação aos videogames.

E a pergunta mais frequente feita pelas pessoas é a seguinte: será que jogos violentos aumentam a agressividade nos adolescentes?

Além disso, dúvidas recentes apontam também que talvez os jogos piorem os sintomas de depressão, transtorno do déficit de atenção (TDAH) e a probabilidade dos jovens se tornarem bullies (aquelas pessoas que cometem bullying) ou, ainda, poderem se tornar delinquentes.

Bem, e a resposta?

“Não, nada disso”. E essa é uma afirmação de um estudo recentemente publicado no periódico científico Journal of Youth and Adolescence. O autor da investigação, Chrisopher Fergunson, diz que existe pouquíssima relação entre os videogames e alguma mudança na personalidade dos adolescentes.

Segundo ele, a agressividade ou o TDAH não “aparecem” por causa do videogame, mas já estavam em desenvolvimento antes do hábito dos jogos eletrônicos se instalarem. Ou seja, esses dois tópicos, na verdade, se desenvolvem paralelamente, onde um não determinaria o outro.

O estudo também afirma que não há evidências sólidas de que um jogo violento aumente a agressividade, mesmo em adolescentes com outros tipos de transtornos mentais.

Uma das conclusões do estudo de Fergunson, aliás, aponta no caminho inverso: jogos eletrônicos criam uma espécie de efeito catártico, onde essas crianças e adolescentes ficam, na verdade, menos agressivas, pois descarregam boa parte de seus medos e ansiedades nos jogos.

Mas ao ler isso tudo, eu fico me perguntando: Será mesmo?…

Sabemos, por exemplo, que uma pessoa exposta muito tempo a uma situação limite tende rapidamente a se acostumar com aquela vivência, dessensibilizando-se, ou seja, há um decréscimo progressivo de sua resposta emocional. Alguns estudos mostram, inclusive, que adolescentes expostos a maiores índices de agressão levam mais tempo para chamar um adulto para interferir nas situações de tensão entre colegas, além de também ter sido registrado uma redução expressiva na empatia entre vítimas de abuso doméstico.

Mas voltando à pergunta: afinal, videogames aumentam ou não a violência entre os adolescentes?

Sim, aumentam! Meta-análises apontam para o aumento da violência e dos comportamentos antissociais em função da maior exposição a conteúdos violentos.

O autor da pesquisa acima também afirmou que existe um efeito catártico ao se usar videogames, entretanto, tal afirmação é, no mínimo, polêmica. Alguns estudos afirmam que pessoas submetidas à exposição de filmes mais violentos, por exemplo, tendem a exibir maiores níveis de hostilidade após o termino das sessões. Portanto, é possível que o efeito catártico sugerido pelo autor não seja tão verdadeiro assim.

Além disso, não podemos esquecer-nos do papel importante que os neurônios-espelho exercem em nosso comportamento.

Você, por acaso, sabe qual sua função? Eu explico.

Quando vemos alguém fazendo algo, automaticamente simulamos a ação em nosso cérebro, ou seja, é como se nós mesmos estivéssemos mentalmente realizando aquele gesto. Isso quer dizer que o cérebro funciona como um “simulador” silencioso, ou seja, nossa mente involuntariamente ensaia toda ação que observamos em nosso entorno. Essa capacidade se deve aos “neurônios-espelho”, distribuídos por partes essenciais do cérebro.

Assim, quando observamos alguém realizar uma ação (bocejar, por exemplo), esses neurônios disparam (daí o nome “espelho”) e é por isso que também bocejamos. Assim, essas células cerebrais são essenciais no aprendizado de atitudes e ações, pois permitem que as pessoas executem atividades sem necessariamente pensar nelas, apenas acessando o banco de memória individual de cada um.

Neste sentido, a mente dos jovens que vivenciam mais violência, tende a ficar mais “exercitada” junto às ações que envolvam este tipo de atitude, pois fica mais habituada a este tipo de ação. Se formos pensar que os jovens gastarão mais de 20 mil horas nestes jogos até os 18 anos, a perspectiva não é nada boa.

Enfim, ao escrever isso tudo não posso deixar de me recordar que sempre brincava com revólveres de espoleta e me pergunto se isso teria, de fato, igualmente afetado o comportamento de minha geração. Teríamos ficado mais agressivos por conta disso? Enfim, para se pensar.

Portanto, enquanto esse debate vai se desenvolvendo e novas pesquisas vão nos dando respostas mais pontuais, é bom ficarmos atentos!