Dr. Cristiano Nabuco

O que a tecnologia está fazendo com o seu sono?
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Dr. Cristiano Nabuco

fotolia – nenetus

Se você integra o grupo de 36,5% dos brasileiros que sofrem com a falta de sono, saiba então que isso representa nada menos do que 37 milhões de pessoas – apenas no Brasil -, e que, como você, passa por dificuldade no período noturno.

Sim, alguns pontos já bem conhecidos auxiliam nossa entrada na indesejada estatística. Por exemplo, morar em algum local muito ruidoso, ter uma jornada diária de trabalho e de atividades domésticas muito longa, preocupações cotidianas e a depressão, obviamente, cada vez mais presente.

A maioria dos especialistas concorda que algumas faixas etárias são mais sensíveis à privação do sono e, como no caso dos adolescentes, por exemplo, seriam necessárias, aproximadamente, 9 horas de sono para que possam ser produtivos do ponto de vista acadêmico.

O que talvez você já tenha, inclusive, percebido é que o uso do smartphone e tablets durante o período noturno contribui de maneira direta para o aumento desse problema.

Analisando dados de 360 mil jovens americanos, pesquisadores descobriram dados preocupantes a esse respeito. Veja só: cerca de 40% dos adolescentes em 2015 dormiram menos de 7 horas por noite, o que representa um aumento de 58% da diminuição do sono, se comparado à década anterior. (1)

Descobriu-se também que quanto maior foi o tempo de permanência on-line desses jovens, menor era a quantidade de sono registrada. Já aqueles que passaram 5 horas por dia conectados, eram 50% mais propensos a não dormir o suficiente.

O que se encontrou foi que, mesmo sem estarem usando diretamente seus aparelhos, os comprimentos de onda de luz emitidos por smartphones e tablets podem interferir em nosso organismo ao alterar o ritmo natural do ciclo sono-vigília do corpo.

Outra pesquisa, por exemplo, demonstrou que a associação entre o envio de mensagens de texto durante a noite está ligada ao declínio da saúde mental dos jovens – como o aparecimento da depressão e a oscilação de humor -, além, obviamente, do declínio expressivo da autoestima e da capacidade de enfrentamento desses jovens. (2)

Talvez você ache um pouco de exagero de minha parte, mas não é o caso. Vamos lembrar que muitos, literalmente, passam a noite acordados e viram a noite enviando e recebendo mensagens. Assim sendo, ingenuidade nossa achar que tudo está sob controle, pois, de fato, a situação é bastante séria.

Crianças

Já os pequenos, com seu cérebro, padrões de sono e os olhos ainda em pleno desenvolvimento, são particularmente mais vulneráveis ​​aos efeitos de interrupção do sono, de acordo com uma revisão recentemente divulgada. (3)

fotolia – Photographee.eu

Dos mais de 60 estudos realizados junto aos jovens na faixa etária que vai dos 5 aos 17 anos (em vários países), descobriu-se que 90 % relatam apresentar atraso do sono (ou seja, demora para adormecer), menos tempo dormindo e, finalmente, menor a qualidade do sono observada.

Como os olhos das crianças ainda não estão totalmente desenvolvidos, eles são mais sensíveis, se comparados aos dos adultos, ao impacto da luz no ritmo biológico de seu cérebro.

Para se ter uma noção, os autores descobriram que, se comparados aos mais velhos, a mesma quantidade de exposição da luz azul nas crianças fez com que os níveis de melatonina caíssem duas vezes mais do que o registrado nos adultos.

Vamos lembrar que pesquisas mundiais indicam que mais de 75% dos jovens levam seu computador ou celular para o quarto e, o mais grave, 60 % interagem com seus equipamentos na hora anterior ao horário de dormir, e 45 % usam o telefone como alarme. Sem falar nas mensagens de texto que fazem com que o aparelho toque e vibre a noite toda, deixando o sono entrecortado, o que prejudica na consolidação da memória.

Entende-se que durante as fases do sono REM (movimento rápido dos olhos) e do sono de ondas lentas é que se daria a fixação do processo pelo qual a memória do cotidiano recente é alicerçada. (4)

Portanto, quanto mais agitado estiver um jovem antes de dormir, mais enfraquecida será a consolidação do conhecimento recebido ao longo do dia (por exemplo, aquele recebido na escola). Portanto, a baixa performance acadêmica registrada, muitas vezes, nos jovens, não seria  apenas decorrente de um processo pedagógico ruim, correto?

Obviamente que não.

Para finalizar, um outro relatório recente demonstrou que o uso de dispositivos como tablets e celulares triplicou entre crianças pequenas desde 2011, com crianças menores de 8 anos usando até 48 minutos por dia e muitos pais, lamentavelmente, incorporando mídia digital na rotina para que, pasmem, possam “induzir o sono” das crianças. (3)

Recomendações

Limite o uso de mídia infantil na hora anterior à hora de dormir.

Desligue todos os dispositivos de mídia eletrônica, incluindo o seu, na hora de dormir, e deixe-os em uma localização fora dos quartos. Lembre-se: os mais jovens copiam o comportamento dos mais velhos.

Remova, se possível, todos os meios eletrônicos do seu quarto e do quarto de seu filho, incluindo TVs, videogames, computadores, tablets e telefones celulares.

E, finalmente, converse sobre o assunto. Nada mais importante do que criar alguma consciência acerca de nosso comportamento.

A tecnologia, portanto, pode estar comprometendo o seu sono e o sono de seus filhos.

 

Referências

(1) http://www.sleep-journal.com/article/S1389-9457(17)30350-7/pdf

(2) https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/may/30/teenagers-sleep-quality-and-mental-health-at-risk-over-late-night-mobile-phone-use

(3) http://pediatrics.aappublications.org/content/140/Supplement_2/S92

(4) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10461198


Por que o divórcio ocorre? A resposta pode estar na genética.
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Dr. Cristiano Nabuco

Yeshi Kangrang

Uma nova publicação do Psychological Science descreveu uma pesquisa realizada junto a uma amostra de 20 mil adultos suecos e divulgou um dado interessantíssimo: filhos de pais separados apresentam duas vezes mais chances de se separarem na vida adulta do que filhos que não viveram as mesmas experiências em seu lar de origem.

Assim, concluíram os pesquisadores, ter passado por um ambiente marcado pela separação faz com que as chances de uma criança se separar em sua maturidade aumentem de forma expressiva.

Eu sei, a ideia imediata que temos ao ler isso – inclusive me ocorreu também – foi a de que a experiência de se ter vivido em um lar rompido poderia predispor os filhos, do ponto de vista psicológico, a repetirem inevitavelmente na vida adulta as mesmas dinâmicas de instabilidade e incerteza afetivas. Nada mais óbvio, correto?…

Sim, mas a investigação, entretanto, apontou para uma direção completamente oposta.

Segundo as interpretações dos pesquisadores, mais expressivo do que ter experimentado as velhas questões emocionais de luta e de tentativa de superação dos problemas (junto a uma família mais desestruturada), na verdade, foi a chamada “herança genética” – transmitida às crianças -, que aumentaria exponencialmente as chances futuras de separação.

Mas, na verdade, vamos a uma pausa: como esse “divórcio” poderia ser transmitido geneticamente aos filhos?

Bem simples, eu explico.

Antes de mais nada, vamos deixar claro que ninguém herda uma separação ou divórcio propriamente dito, obviamente, mas, ao herdarmos certos traços de personalidade dos pais, como o neuroticismo (indivíduos que, a longo prazo, possuem uma maior tendência a um estado emocional negativo) e a impulsividade, segundo apontou a pesquisa, a capacidade de manejo emocional de uma criança hoje (um adulto amanhã) estará, portanto, mais comprometida.

Imagine, por exemplo, como seriam os pensamentos de uma pessoa que traz em sua personalidade o neuroticismo dos pais. Não seria ela muito mais provável de perceber seus parceiros afetivos como se comportando de forma “mais negativa” e inadequada, criando, assim, interpretações altamente errôneas a respeito do comportamento do outro?

Seguramente que sim!

Vamos lembrar, entretanto, que há uma série de fatores que afetam um casamento e o equilíbrio psicológico de um casal, mas quando os mesmos pesquisadores analisaram os dados conjugais de 80 mil crianças suecas criadas com a mãe biológica e um padrasto, encontrou-se uma forte correlação, o que consolidou os achados iniciais de predisposição, aumentada a separação e vida pregressa de separação parental.

Claro, não vamos confundir predisposição com certeza, entretanto, essas conclusões fazem com que possamos considerar que, além das dinâmicas pessoais, sempre haverá um aspecto biológico que pode contribuir, de maneira importantíssima, na equação final da felicidade de uma pessoa e de um casal.

Giovanni Cancemi – Fotolia

Quando nossos pais e avós têm uma determinada doença física, não teremos aumentadas as chances de desenvolver os mesmos problemas? Sim. Quem já foi a um médico já ouviu essa história.

Pois bem, ao que tudo indica então, o mesmo valeria também para nossa saúde mental.

Nosso equilíbrio ou desequilíbrio podem influenciar, portanto, não apenas nossa vida individual (e conjugal) presente, mas, também afetar as futuras gerações. E isso nos coloca em uma posição de mais responsabilidade e maior consciência em como, de fato, vivemos nossas experiências de vida.

Pense nisso.

Suas atitudes, mais do que podemos imaginar, podem ser passadas adiante e reverberar por décadas através da genética.

#vãoasdicas

– Quando estiver em algum relacionamento e, frequentemente, se achar injustiçado(a), fique atento(a). Esse sentimento pode ser indicativo de um mecanismo mental ativo que distorce a interpretação das situações – o que, algumas vezes, pode ser decorrente de nossa herança genética.

– Antes de agir, procure pensar, ou seja, tente manejar sua impulsividade e, desta forma, não se comportar de “cabeça quente”. Ninguém, em última instância, pode ser responsabilizado por sua infelicidade (ou mesmo por sua felicidade). Vivemos o que desejamos viver. Portanto, se alguém lhe faz mal, é porque assim permitimos que aconteça.

-Lembre-se da “regra de ouro” dos relacionamentos: poucas são as pessoas que, deliberadamente, agem para nos prejudicar. Na verdade, cada um traz seu ponto de vista e, nada mais natural, portanto, que existam leituras distintas das situações de vida.

-E, finalmente: saiba que não existe, de fato, alguém que seja igual a nós. Assim, se deseja viver em equilíbrio, pare de criar expectativas fantasiosas a respeito do outro. Pela genética ou repetindo padrões de nossos lares de origem, saiba que somos responsáveis pela vida que levamos.

 

 

 


Estresse na gravidez? Pode o trauma ser herdado pelos filhos?
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Dr. Cristiano Nabuco

Giovanni Cancemi – Fotolia

Já se tornou um clássico, em praticamente todas as narrativas de saúde mental, associar experiências de privação e de abuso vividos nos primeiros anos de vida à (quase) inevitável ocorrência de dificuldades na vida adulta.

Assim, autores e investigações científicas são abundantes a esse respeito e, se eu fosse listá-los, ainda que de maneira genérica, levaria alguns meses para explicá-los por completo.

Claro, desde cedo a costumeira má relação com algum membro da família, que se arrasta por toda uma existência, é, possivelmente, apontada como a base das mazelas e das inquietudes pessoais da maturidade. Prato cheio para terapeutas e analistas de todos os gostos e espécies, não acha?…

Pois bem, para além das teorias mais atuais, entretanto, há certas pesquisas que têm analisado alguns elementos que fogem dessa “paisagem psicológica” mais tradicional e que mereceriam sua atenção, ou seja, existiriam fatores que podem impactar na saúde mental antes mesmo do nascimento do bebê?

Sei, se você é daqueles mais céticos, que não acredita em nada disso, pois são apenas “teorias”, este artigo então é dirigido a você.

Descobriu-se que o período pré-natal do desenvolvimento humano é, na verdade, um momento em que o meio ambiente exerce uma influência significativa na modelação da fisiologia do feto.

Calma, eu explico. Vamos de novo.

A fase inicial de vida dentro da barriga da mãe é compreendida pelos cientistas com uma importante janela de “interferência” na vida do embrião, isto é, esse período é considerado um momento em que o ambiente intrauterino afeta, de maneira clara e pontual, o desenvolvimento da fisiologia da criança.

Vamos a um exemplo para facilitar as coisas: problemas de nutrição da mãe, por exemplo, podem estar relacionados a um número expressivo de fatores de risco, como doenças cardiovasculares na vida adulta do bebê.

Constatou-se, igualmente, que certas situações estressantes vividas pela mãe durante a gravidez impactam de maneira direta no recém-nascido, como: (a) Estresse físico vivido pela má nutrição e a exposição do feto a toxinas (álcool e nicotina); (b) Estresses psicossociais decorrentes de problemas de saúde mental da mãe, provenientes de violência doméstica ou, ainda, a fome e a pobreza extremas e, finalmente, (c) Sofrer traumas agudos de caráter incontrolável como desastres naturais, terrorismo ou genocídio, que resultam em estresse pós-traumático da mãe.

Dessa maneira, é como se o período de gestação pudesse criar certas formas de programação biológica, oferecendo mais vulnerabilidade genética à criança.

Veja que interessante, sabe-se que a resposta ao estresse é desencadeada pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, ou seja, quando, no caso, a mãe vive períodos de gestação marcados pela tensão e pelo estresse contínuos, pode, de maneira permanente, mudar a fisiologia da criança, predispondo-a, além do desenvolvimento de distúrbios cardiovasculares, como já dito anteriormente, mas adicionalmente a problemas metabólicos e, principalmente, transtornos de saúde mental na vida adulta.

Sebastiano Fancellu – Fotolia

E isso vale sua atenção.

Essa descoberta veio à tona quando há alguns anos uma pesquisa apontou que os sobreviventes do holocausto tinham maiores chances de ter filhos vulneráveis a transtorno de estresse pós-traumático e doenças psiquiátricas, se comparados àqueles que não passaram pelas mesmas experiências.

Assim sendo, certas experiências precoces, decorrentes do estresse materno, podem alterar como os genes são expressados e esses padrões de expressão podem ser passados aos filhos, tornando a criança mais vulnerável a determinadas experiências de vida.

Importante, não acha?

Será a transmissão transgeracional do trauma uma nova etapa nos estudos de saúde mental? Nossos pesadelos poderiam, portanto, ser herdados?…

Para se pensar.

 

Referências

https://www.ncbi.nlm..gov/pubmed/24029109

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26327302


5 efeitos (negativos) mais comuns das mídias digitais
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Dr. Cristiano Nabuco

Leigh Prather – fotolia

De acordo com uma nova pesquisa, ao utilizarmos as redes sociais e as mídias eletrônicas, algumas consequências são imediatamente produzidas em nosso cérebro:

Ficamos mais descontrolados com o dinheiro

Talvez só você ainda não saiba, mas os marqueteiros de plantão estão bem conscientes – e faz tempo – de que as pessoas que mais usam as redes sociais são aquelas mais propensas a gastar dinheiro na web, ou seja, as redes sociais produzem, em algum momento, níveis de descontrole.

Sim, pois diferente da vida real, onde temos que ir a uma loja, manusear os produtos, pegar fila para pagar e todas aquelas etapas bem conhecidas por todos, na internet, ao contrário, basta dar, no máximo, uns 3 cliques e sua compra pode estar a caminho de sua casa.

Portanto, há um aspecto terrível a ser notado, que nossa impulsividade corre muito mais solta, o que é, obviamente, um grande perigo à nossa saúde econômica. Como oscilamos emocionalmente ao longo do dia, os momentos de baixa fazem que compremos mais como forma de aumentar a autoestima e nos dar uma “animada”. (1)

Minha dica: evite navegar na web em momentos de alteração de seu humor (quando está se sentindo triste, deprimido ou ainda, é claro, estando meio “alto” por conta de algumas bebidinhas).

Enfraquecemos nossa capacidade de reter informações

Sim, basta que você tenha um telefone celular nas proximidades para que seu nível de atenção cerebral caia de maneira significativa. Como temos uma capacidade cerebral (que é limitada) para reagir ao meio ambiente e seus estímulos, basta que tenhamos um telefone ao lado para que nossa produção intelectual (de qualquer tarefa), despenque de maneira expressiva.

Como sabemos, temos à nossa disposição uma certa capacidade de atenção cerebral e os telefones roubam parte dessa energia.

Ah, ia esquecendo, e isso vai ocorrer “mesmo que” o seu telefone não esteja sendo usado. Nem adianta deixar na bolsa ou virado com a tela para baixo durante a reunião, pois para seu cérebro, seu aparelho “está ali”. (2)

Minha dica: quando for realizar algo que envolva, de fato, um raciocínio mais profundo, não o deixe no mesmo ambiente. Fica o aviso!

Diminuímos nossa autoestima

Cientistas estudaram 600 pessoas que passaram o tempo na rede social e descobriram que um, em cada três, sentiu-se pior depois de visitar as redes sociais – especialmente se eles visualizavam fotos de férias.

kieferpix – fotolia

Os frequentadores do Facebook, por exemplo, que passaram algum tempo no site sem publicar seu conteúdo pessoal, também foram aqueles mais propensos a sentirem-se insatisfeitos com sua vida pessoal, na comparação com aquelas vistas nas redes sociais. (3)

Assim sendo, parece que os efeitos positivos de nos sentirmos socialmente “conectados” com os outros podem, de uma hora para outra, evocar igualmente sentimentos de inferioridade ou falta de capacitação, gerando muito dissabor.

Portanto, vai minha dica: procure se tornar consciente de que um relacionamento nas redes sociais pode, muito potencialmente, lhe reduzir a autoestima e afetar a avaliação que faz de sua vida pessoal ou profissional. Portanto, caso não esteja lá muito bem, evite dar uma olhada nas redes sociais. Em vez de se manter conectado com os amigos, esse estímulo pode, na verdade, se tornar apenas uma outra fonte de estresse em sua vida.

Primeiro cuide de você para depois olhar para a vida dos outros, escute meu conselho.

Comprometemos a capacidade de pensar de maneira independente

Sabemos que à nossa volta existe uma pressão social muito poderosa que nos força a agir de uma maneira que acompanhe a preferência dos demais (também chamado de “efeito manada”, você já deve ter ouvido falar). Assim sendo, tendemos, de maneira inconsciente, a observar as reações e os comportamentos dos demais para que possamos criar uma forma de “cola social” e, dessa forma, nos sentirmos mais aceitos.

Ocorre que, nas redes sociais, essa pressão aumenta de uma maneira exponencial, pois nossas ideias não estão expostas aos pequenos grupos, como sempre ocorreu na vida, mas agora são divididas com algumas centenas ou milhares de pessoas, o que nos coloca sob uma pressão de aceitação ainda maior.

Para avaliar isso, cientistas pediram a 600 participantes que respondessem algumas perguntas sobre fotos on-line que lhes estavam sendo apresentadas publicamente e o resultado mostrou que parte expressiva das opiniões “individuais” estavam, na verdade, diretamente influenciadas pela opinião dos demais. (4)

Portanto, quando você estiver tentando formar uma opinião a respeito de algo, pense antes de expor nas redes. Essa pode ser uma atitude poderosa para manter sua individualidade e, mais que isso, deixar sua criatividade preservada.

Quanto menos contaminados estivermos pelas tendências do meio ambiente – que nem sempre são lá muito salutares – mais originais seremos. Pense nisso.

Deixamos nossas comunicações mais perigosas

E aqui vai um dos últimos efeitos bem arriscados.

bsd555 – fotolia

Quando nos comunicamos com alguém, além de ouvir as mensagens que nos chegam através das palavras e dos sentidos dados pelos outros, nosso cérebro lê, de maneira silenciosa, os gestos e a entonação vocal – também chamado de comunicação não-verbal -, complementando o sentido final.

Dessa forma, algo que pode ser dito de maneira mais leve, digamos, pode ganhar um sentido mais irônico, por exemplo, dependendo de como falamos.

Nas redes sociais, por outro lado, nossa comunicação é privada desses sinais que seriam vitais para dar um sentido final àquilo que está sendo dito e, portanto, como não “vemos” o que de fato acontece por parte do outro, “imaginamos” um sentido às palavras e ações.

Assim, essa é a razão pela qual tantos problemas de comunicação ocorrem nas redes sociais. E vai minha pergunta: quem já não bateu boca com alguém pelas vias digitais e depois se arrependeu amargamente?

Pois bem, minha orientação: não discuta nenhum assunto mais profundo através dos aplicativos de comunicação (nem pense em fazer uma D.R. pelo whats, nunca). Tenho certeza que uma boa conversa cara-a-cara resulta em um final bem mais feliz e elegante do que aquelas que ocorrem de maneira desordenada através da digitação impensada e descontrolada. (5)

 

Referências

  1. https://www.today.com/money/facebook-makes-you-spend-more-research-suggests-1C6969482
  2. https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2017/07/25/o-efeito-do-celular-sobre-seu-cerebro-mesmo-estando-desligado/
  3. http://healthland.time.com/2013/01/24/why-facebook-makes-you-feel-bad-about-yourself/
  4. http://mashable.com/2011/09/16/social-media-peer-pressure/#mDkMMfjwtGqd
  5. https://thelede.blogs.nytimes.com/2009/02/24/is-social-networking-killing-you/

 

 


O que a tecnologia terá feito com você?
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Dr. Cristiano Nabuco

© Vladgrin-Fotolia.com

Pois é, em época de grandes avanços tecnológicos, como aqueles que vivemos hoje, eu nem me atreveria a arriscar uma opinião mais polêmica, pois, diferentemente de períodos anteriores, onde eu falaria para os conhecidos do trabalho ou da universidade (e, quem, por acaso, discordasse de mim, no máximo me diria); atualmente, caso eu defenda alguma ideia um pouco mais incomum que seja, tenho à minha disposição as redes sociais digitais – que alcançam alguns milhares de pessoas em horas -, tornando meu discurso bem mais perigoso e passível de punições.

Assim, eu creio, estamos muito mais hesitantes.

Momentos em que eu falava futilidades e aprendia com meus erros, já não existem mais. Não temos mais essa alternativa e, portanto, o círculo de meus amigos próximos que me corrigiam, simplesmente, desapareceu. Temos hoje que alinhar nosso comportamento em praça pública ou, se você desejar, terá que fazê-lo junto às redes sociais digitais, o que, convenhamos, não é tarefa das mais fáceis. Alguém que já foi antipatizado em suas publicações no Face, por simples descuido narrativo, sabe exatamente a que me refiro.

Estamos, portanto, muito mais inseguros.

Outra coisa importante que noto é que, de maneira bem primária, os limites de minha vida mais íntima também não existem mais como antes. Recebo, de maneira ininterrupta, mensagens que tocam em meu celular (já silenciei a maioria dos grupos, diga-se de passagem) e as pessoas não entendem minha vontade e desrespeitam, de forma recorrente, meu desejo à privacidade. Cá entre nós, dando uma olhada mais de perto, desconfio que a maioria das coisas que me chegam pelo whatsapp são, de fato, absolutamente irrelevantes.

Estaríamos então mais incomodados? Seguramente.

Mas não acabou por aí.

O último círculo de contato que temos é aquele em que convivemos conosco, ou seja, a relação com nossa mais íntima subjetividade, local onde habitam nossos pensamentos e emoções e que também, sem dúvida, foi seriamente impactado. Sim, pois caso eu navegue na internet em busca de qualquer informação que seja, vou lidar com um conhecimento muito mais frágil, fragmentado, (menos fixo, como os velhos livros) – um verdadeiro “oceano de fragmentos” -, muito mais líquido e plural.

Dessa forma, minha capacidade de responder às minhas inquietudes mais privadas também foi seriamente afetada e, assim, o que dava base às minhas ideias – os chamados pontos fixos -, igualmente, também não existe mais. Por acaso, você, leitor(a), consegue aventurar-se a respeito de uma opinião definitiva sobre sexualidade, política ou mesmo religião? Isso mesmo, é praticamente impossível.

Estamos, portanto, carregando mais incertezas.

E aqui vai minha última questão: se estamos mudando em relação às nossas atitudes sociais e mais particulares, o que isso tudo terá ocasionado junto ao nosso comportamento?

Simples, bem simples.

© Robert Kneschke – Fotolia.com

Antigamente pensávamos antes de agir. Hoje, na web, não esperamos mais, na verdade, agimos para depois pensar. Sentimo-nos mais produtivos sendo deste jeito e isto, claramente, nos tornou mais impulsivos e muito menos reflexivos.

Portanto, vivemos hoje uma total desintegração entre os limites do mundo real e o mundo digital, o que nos confunde demasiadamente. Dezenas de pessoas levam para a vida real aquilo que são em sua vida digital, criando sérios problemas de comportamento e de adaptação (atendo às dezenas em meu consultório, caso ainda não tenha lhe falado).

É possível que você discorde veementemente de minhas ideias e, ainda assim, eu lhe compreenderei, pois não me restam alternativas. Mas, no fundo, no fundo, eu penso que a tecnologia nos prometeu um grande avanço, um salto existencial, mas, particularmente falando, sinto que houve, na realidade, um expressivo retrocesso, pois a qualidade de nossa vida foi seriamente golpeada.

Mais hesitantes, inseguros, incomodados e, notadamente, mais indefinidos. Assim estamos.

Ingenuidade (ou não), tenho me esforçado para distanciar-me um pouco da tecnologia e das redes sociais e sou obrigado a confessar: estou vivendo de maneira muito mais tranquila, não há dúvida, em relação a isso. Acho que eu prefiro ser uma pessoa mais calma e serena, com tempo para tentar flertar com minhas inquietudes (recuperar meus momentos de contemplação) e, de forma mais saudável, estar menos “online” e “conectado”. Aliás, “conectado” com o que mesmo?…

E você, leitor(a), afinal, saberia me dizer, o que a tecnologia terá feito com você?


Fotos e atitudes na rede social dão pistas de sua saúde mental
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Dr. Cristiano Nabuco

lassedesignen – fotolia

Já não é de hoje que sabemos que muita gente se utiliza das redes sociais para divulgar uma série de acontecimentos da vida, certo? Também não é novidade alguma que muitas delas usam desse recurso para passar uma imagem de si mesmos, digamos, um pouco “melhorada” de certos momentos pessoais de baixa e, assim, algumas vezes, poder disfarçar o isolamento e a insatisfação sentida.

Já se tem conhecimento, inclusive, que, de uma maneira geral, a cada 10 fotos que são postadas nas redes sociais, 8 são (exaustivamente, diga-se de passagem, em alguns casos) retocadas para produzir uma melhor impressão aos demais.

Pois bem, o que ninguém sabia ainda é que um olhar mais atento desses comportamentos pode revelar aspectos da vida privada bastante importantes e que, muitas vezes, fogem do controle consciente do usuário.

Num estudo recente, por exemplo, utilizando-se de um programa de computador, foram analisados traços e características de cerca de 44 mil fotos postadas no Instagram e constatou-se que as pessoas que não estavam bem (sofriam de depressão), naturalmente exibiam uma preferência inconsciente para usar em suas postagens cores mais melancólicas e escuras (como o azul, preto e branco), o que, claramente, retratavam seu estado emocional, se comparadas àquelas em que a depressão não estava presente (onde as fotos eram mais brilhantes e as cores vivas, mais abundantes). (1)

Para os pesquisadores, era como se a escolha das cores mais sóbrias deixassem escapar o estado emocional de descontentamento vivido, como se estivessem se sentindo com “uma nuvem escura sobre a cabeça”, afirmam os pesquisadores.

As fotos postadas por esses indivíduos também revelavam outro ponto bastante interessante: se comparadas às das pessoas sem depressão, revelavam as menores taxas de exposição do rosto ou da face, o que, possivelmente, interpretam os cientistas, denotava menor disposição em criar alguma forma de contato social. Dito em outras palavras, é como se esses usuários não deixassem de publicar, mas, sem que percebessem, se “protegiam” de um contato a mais com as pessoas.

Dessas 44 mil fotos estudadas, o software exibiu uma precisão de 70% de detecção da depressão, o que poderia, inclusive, servir de uma importante ferramenta de autocuidado.

Pensando um pouco mais a frente

Mais do que se imagina, portanto, um olhar mais cauteloso detecta pistas visuais dos usuários das redes sociais e o que, muitas vezes, apontam outras investigações, mostram muito além  das postagens.

Outra pesquisa já havia concluído que as pessoas que se sentem mais inseguras em seus relacionamentos são aquelas mais ativas nas redes sociais, ou seja, são, entre todos os usuários, as que publicam atualizações pessoais mais frequentes, comentam posts mais intensamente e, finalmente, são as que mais visitam a timeline dos demais, distribuindo generosamente seus “likes”, na esperança de obter algum tipo de atenção. (2)

Acabou por aí? Nem pensar! Um estudo da Universidade Estadual de Ohio sugeriu que os homens que publicam mais fotos de si mesmos em mídias sociais como, por exemplo, no Facebook, são exatamente aqueles que obtêm as pontuações mais altas nas medidas de narcisismo e de psicopatologia. (3)

Bem, exemplos não faltarão, só dar uma boa olhada em outras investigações. (4)

Portanto, tudo o que você faz na internet, naturalmente deixará um rastro notório de sua dinâmica pessoal mais íntima.

Conclusão

Muito embora as redes sociais tenham se disseminado amplamente entre as pessoas e, mais do que nunca, se tornado parte cotidiana da vida diária de milhões ao redor do mundo, o comportamento que exibimos nas redes pode dizer muito mais do que ingenuamente  poderíamos supor. (5)

© berc – fotolia

Dizem alguns que, antes da invenção das redes sociais virtuais, pensávamos antes de nos comunicar, mas hoje, dada a velocidade das coisas na internet, agimos (ou melhor, digitamos) primeiro para depois pensar (filtrar), o que pode, sem dúvida alguma, dar margem a revelações que não são interessantes de serem desvendadas e, consequentemente, percebidas pelos demais. (6)

Minha dica: Da próxima vez, antes de postar qualquer coisa que seja, pense um pouco mais. Não aja por impulso.

Tenho certeza que uma avaliação, um pouco que seja, mais ponderada, vai ceifar a metade dos comentários e comportamentos que você exibiria (inconsequentemente) na web.

Pense nisso.

O que você faz na vida digital, concluindo, pode retratar muito mais do que apenas as fotos e as preferências que deseja compartilhar.

 

Referências

(1) https://epjdatascience.springeropen.com/articles/10.1140/epjds/s13688-017-0110-z

(2) http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0191886914007247

(3) http://www.huffpostbrasil.com/entry/selfies-narcissism-psychopathy_n_6429358

(4) https://www.theguardian.com/technology/2012/mar/17/facebook-dark-side-study-aggressive-narcissism

(5) http://www.smartinsights.com/social-media-marketing/social-media-strategy/new-global-social-media-research/

(6) https://www.harpercollins.com/9780062020444/is-the-internet-changing-the-way-you-think

 


Celular e gravidez: Quanto maior o uso, maiores são as chances de problemas
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Dr. Cristiano Nabuco

fotolia – Kwangmoo

Sabe o telefone celular?  Aquele aparelho que usamos dezenas ou até centenas de vezes ao dia. Aquele, com múltiplas funções. Pois é, todos nós, sem exceção, o conhecemos muito bem. Entretanto, o que pouca gente ainda sabe é que esses dispositivos emitem um campo eletromagnético que, embora considerado “seguro” pela Organização Mundial de Saúde, começa a mostrar implicações mais sérias a longo prazo.

Até o presente momento, ninguém tinha conhecimento de que uma exposição mais prolongada – a exemplo de como utilizamos o celular atualmente – pode ter consequências bastante sérias para saúde de nossos filhos.

Pesquisadores têm se perguntado a respeito das consequências dessas radiações em crianças que, devido ao processo de desenvolvimento neurológico ao longo da gravidez, poderiam ser, de alguma forma, afetadas. Estudos com ratos em gestação, por exemplo, demonstraram que os filhotes mais expostos, quando por ocasião de seu nascimento, exibiam alteração dos neurônios, hiperatividade e falta de atenção e/ou outros importantes prejuízos nas funções cognitivas (de raciocínio). Outros estudos, entretanto, ainda não confirmavam esses achados.

Entretanto, recentemente foi publicada uma pesquisa internacional de larga escala envolvendo quase 84 mil pares de pessoas (mães e seus respectivos filhos), junto a populações da Dinamarca, Coreia, Holanda, Noruega e, finalmente, a Espanha.

E os achados foram inquietantes.

Os pesquisadores da Dinamarca, por exemplo, realizaram duas análises independentes (a primeira com 12.796, e a segunda com 28.745 mães e seus respectivos filhos), demostrando que, quanto mais o telefone celular foi usado pelas mães no período de gestação e aos 7 anos de idade (dois períodos pontuais de avaliação), maiores foram os problemas emocionais e de comportamento apresentados pelos filhos aos 11 anos de idade.

A pesquisa é muito longa e muito detalhada para ser descrita na íntegra neste texto, além do fato de os próprios pesquisadores relatarem que a interpretação dos resultados ainda não é muito clara, devido a vários fatores (por exemplo, qual seria a posição do feto na barriga das mães avaliadas e qual interferência isso poderia ter na recepção dos campos magnéticos pelos bebês? Ou, ainda, em qual local essas mães carregavam seus aparelhos junto ao corpo? Isso teria alguma influência?).

Enfim, de uma maneira geral, o que pode ser dito, a partir das investigações e das análises estatísticas individuais dos participantes de todos os países, demonstra que aquelas mães que utilizaram com menos frequência o telefone celular durante a gravidez, foram as que apresentaram menores riscos de terem problemas comportamentais junto aos seus filhos.

fotolia Kwangmoo

Ou seja, o aumento do uso do celular durante a gestação pode estar associado a uma maior probabilidade de as crianças apresentarem hiperatividade e falta de atenção, ou seja, a presença desses problemas comportamentais e de hiperatividade foi correlacionada de maneira bastante expressiva junto àquelas mães que mais usaram o celular durante a gravidez e o período de formação de seus bebês.

Importante dizer: esse foi o maior e mais consistente estudo realizado até o presente momento.

O que fazer então? Bem, esta é uma excelente pergunta.

De acordo com a pesquisa descrita, fica óbvio então que as mães precisariam manter uma distância do celular durante a gestação de seus pequenos, pois quanto maior for o uso, maiores serão as chances de aparecimento de problemas posteriores. Assim sendo, prefira os telefones fixos e, um palpite pessoal, se me permite, procure ficar longe destes aparelhos enquanto mais pesquisa possa ser conduzida e, assim, nos dar um pouco mais de segurança.

Atualmente, os celulares viraram uma das coisas mais importantes na vida de milhares de pessoas – sem falar nas crianças – e ninguém se pergunta de maneira responsável, quais os efeitos disso sobre nossa saúde. Há um “glamour” em volta dos aplicativos de celulares, das redes sociais etc, e seria muito importante se pudéssemos ficar mais atentos.

Referência

FONTE: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28392066


O efeito do celular sobre seu cérebro, mesmo estando desligado
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Dr. Cristiano Nabuco

kieferpix – fotolia

Não é novidade para ninguém as inúmeras possibilidades que um smartphone pode trazer à vida de cada pessoa.

Adoramos nos comunicar com os outros através das redes sociais, dar uma olhada nos lugares que planejamos visitar, pesquisar preços de produtos, tirar fotos, filmar e, acima de tudo, nos distrair nos momentos de lazer, inclusive quando estamos presos no trânsito.

Os números apontam que os proprietários de smartphones interagem com seus telefones, em uma média aproximada de 85 vezes por dia, como, por exemplo, imediatamente após o despertar, no banheiro, caminhando na rua ou no metrô, dirigindo o carro, durante as aulas ou reuniões, na cama antes de dormir e, não raro, no meio da noite. Não é de se estranhar então que 91% afirmam que nunca saem de casa sem seu telefone e, finalmente, 46% dizem que não poderiam viver sem eles.

Assim, os celulares representam tudo o que o mundo conectado tem para oferecer, condensado em um único dispositivo que se encaixa na palma da mão e que, quase nunca, sai de nosso lado.

Além de todas as benesses que a tecnologia nos trouxe, eu, pessoalmente, tenho escrito bastante a respeito dos “efeitos colaterais” que essa utilização contínua criou junto a algumas pessoas que se tornam, verdadeiramente, dependentes de seus smartphones.

Mas, ainda que todos nós saibamos muito bem a respeito dos riscos, uma nova pesquisa se debruçou sobre um outro aspecto até então nunca investigado: que efeito um celular pode criar para nós mesmos, estando desligado.

Nosso cérebro

É bem sabido que podemos desempenhar várias funções cognitivas, ou seja, nossa “mente” realiza várias operações simultâneas ao longo do dia. Assim, para vivermos, precisamos nos recordar de situações passadas, fazer inferências a respeito de ações futuras e, ao mesmo tempo, manejar nossa atenção frente aos mais variados estímulos que nos chegam a cada momento. É como se nosso cérebro executasse, portanto, uma função gerencial.

Com todas essas atividades sendo realizadas, obviamente nossa atenção vai priorizar o que para nós é vital e, portanto, mais importante, mesmo que não estejamos lá muito conscientes dessas ações. Quem já não viu uma mãe, estando ocupada com alguma tarefa distante de seu filho, quando, subitamente, o mesmo chora em outro local e, quase que de maneira inaudível, consegue atrair repentinamente a atenção da cuidadora?… Pois bem, é mais ou menos assim que as coisas ocorrem conosco.

Igor Mojzes – fotolia

Embora tenhamos uma boa capacidade de manejar as coisas, essa capacidade de atenção é limitada, fazendo com que nosso cérebro, de maneira instintiva, eleja o que é mais significativo em nossa vida, levando nossa atenção a ficar, portanto, no aguardo de ser solicitada para aquilo que consideramos mais importante.

Tendo isso tudo em mente, pesquisadores procuraram investigar qual o efeito que os smartphones – como são importantes na vida das pessoas -, poderiam exercer sobre essa capacidade atencional de nosso cérebro, ou seja, se a sua mera presença no ambiente poderia criar algum tipo de efeito negativo sobre nossa produtividade mental.

A pesquisa

Assim, dois grupos foram divididos em um determinado experimento que consistia em realizar tarefas que exigiam a atenção dos participantes. O primeiro grupo de pessoas foi obrigado a deixar seu telefone “fora da sala”, enquanto que, ao outro grupo foi permitida a sua entrada junto aos sujeitos durante a realização das atividades.

Ao final das tarefas de ambos os grupos, avaliou-se o resultado.

O grupo que realizou as atividades com o celular nas proximidades (leia-se: dentro da bolsa ou com o aparelho virado com a tela para baixo sobre a mesa), foi o que apresentou as menores performances nos trabalhos propostos pelos investigadores, se comparado ao grupo de deixou o aparelho em outro ambiente.

A pesquisa identificou que a presença do celular nas proximidades criou um efeito colateral potencialmente danoso, chamado de desvio atencional, ou seja, notou-se que sua mera presença fez com que um problema maior aparecesse.

Vou explicar.

andilevkin – fotolia

A investigação indicou que os sinais sonoros, quando emitidos pelo próprio telefone (mas não os de outra pessoa), acabavam por ativar o sistema de atenção involuntária do cérebro – semelhante ao sistema que responde ao ouvirmos o som de nosso próprio nome – e, desta forma, quando esses celulares estavam expostos no ambiente, sua condição de um estímulo de “alta prioridade” fez com que atuassem de maneira a ativar, espontaneamente, os sistemas de atenção cerebral dos participantes.

Ainda que as pessoas estivessem envolvidas na resolução das tarefas para as quais seu smartphone não era, necessariamente, relevante para a realização do trabalho proposto pela experiência -, mas, como estava nas proximidades, a atenção consciente dos sujeitos desviava-se da tarefa focal, de tempos em tempos, roubando a atenção que seria usada na realização das tarefas centrais.

A manifestação de pensamentos e dos comportamentos de checagem associados ao celular (por exemplo: “será que alguém me passou mensagens?”, “será que eu ouvi o telefone tocar?” etc) passaram a constituir uma verdadeira “distração digital” que afetou negativamente o desempenho das tarefas do segundo grupo.

Além disso, como muitas pessoas têm consciência dessa distração, muitas vezes gastam ainda mais recursos atencionais para procurar inibir a atenção que é voltada naturalmente ao telefone, comprometendo de forma ainda mais intensa a qualidade e densidade das atividades mentais em curso.

Conclusão

Se você, portanto, é daqueles que, quando faz alguma atividade que exige mais concentração, vira o telefone com a tela para baixo, coloca seu aparelho no modo silencioso para não ser importunado, saiba, portanto, que isso não tem qualquer utilidade.

Segundo a pesquisa, apenas uma ação é suficiente para assegurar uma melhora mental: a separação de seu telefone.

Mesmo estando em psicoterapia, é incrível ver a quantidade de vezes que meus pacientes param de falar assuntos verdadeiramente importantes, apenas para “dar uma olhadinha” na mensagem que acaba de chegar, atrapalhando o encadeamento emocional dos temas e dos assuntos em questão.

Se você faz isso em sua vida e em seu trabalho, fique atento, pois, sem perceber, sua produtividade pode estar sendo seriamente comprometida.

Dicas

Trabalho:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente);

b) Quando for fazer uma pausa para café ou para ir ao banheiro, dê uma olhada e eleja o que, de fato, é importante para dar uma resposta no momento. O que for irrelevante, faça-o em outros momentos.

c) Não o leve para reuniões ou outras situações que exigem concentração máxima.

d) Interaja com seus colegas. A capacidade de poder olhar nos olhos e compreender a emoção alheia é a chave central para desenvolver uma boa inteligência emocional, fundamental para seu trabalho.

Escola:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente). Caso não seja possível, mantenha-o dentro da mochila e a deixe longe de você, preferencialmente desligado);

b) Quando for o intervalo, dê uma olhada e eleja o que, de fato, é importante para dar uma resposta no momento. O que for irrelevante, faça-o em outros momentos. Ninguém vai morrer pelo seu silêncio momentâneo.

c) Interaja presencialmente com seus colegas, em vez da maneira digital. As verdadeiras amizades, muitas vezes, nascem nessa época.

Casa:

a) Procure se manter afastado de seu smartphone e, como relata a pesquisa, mantenha-o distante (não o deixe no mesmo ambiente);

b) Não deixe o celular no criado mudo e não o use como despertador, coloque-o em outro ambiente que não o seu, fora do seu quarto (o sinal sonoro que chega ao longo da noite interrompe a entrada no sono profundo, que é o sono verdadeiramente reparador).

c) Não o leve à mesa durante as refeições.

d) Interaja com seus familiares, pois eles precisam de sua atenção.

 

Fonte

http://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/691462

 

Agradecimentos

Evelyn Eisenstein


O experimento do Facebook: quanto mais você usa, menos feliz estará
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Dr. Cristiano Nabuco

draganagordic – fotolia

O número total de usuários da rede social Facebook, segundo levantamentos realizados em dezembro de 2015, era de, aproximadamente, 1,59 bilhões – número este já, possivelmente, ultrapassado nos dias de hoje – e, de maneira mais do que óbvia, crescendo a cada dia.

Através dessa plataforma, pessoas permanecem em contato com amigos, dividem experiências importantes e mais, obtém, de maneira contínua e ininterrupta, uma importante forma de apoio e de reconhecimento social. Assim, nem precisaria ser especialista para entender que seu uso se tornou parte importante de nosso cotidiano, sendo, no momento, a mais usada rede social do planeta.

Caso não seja o seu caso – sorte sua, eu lhe diria -, saiba que uma parcela expressiva desses usuários é, de fato, fiel, pois antes mesmo de sair da cama, “abre o Face apenas para ‘dar uma olhada’ se algo de importante aconteceu durante a noite”.

Assim, muito embora a impressão dos usuários seja a de que essas interações são, de fato, relevantes, do ponto de vista emocional, já não é de hoje que algumas pesquisas apontam para uma direção oposta.

Eu explico.

Estudos anteriores já haviam relacionado o uso do Facebook ao aparecimento de alguns problemas importantes como, por exemplo, a manifestação de efeitos psicológicos negativos em seus usuários, o aparecimento de sintomas depressivos e o aumento marcante de uma insatisfação pessoal. E tem mais: registre também aí, a deterioração do humor e, finalmente, o aumento de uma percepção pessoal de falta de sentido (pelo fato de a pessoa não se sentir tendo feito algo de importante, se comparado àquilo que assiste nas histórias dos demais).

Entretanto, sendo bastante imparcial, há também estudos que apontam o lado positivo da plataforma, como servindo de importante ferramenta de validação social, além de possibilitar a diminuição da solidão.

Mas, afinal, eu me pergunto: a ciência poderia ser, às vezes, menos contraditória? Vamos tentar responder através de outra pesquisa então.

A investigação

Foram recrutados 1.095 dinamarqueses para participar de um experimento que teria a duração de uma semana. Adultos, majoritariamente mulheres (86%), apresentavam uma média de idade de 34 anos. O objetivo central da pesquisa era avaliar se o uso do Facebook efetivamente poderia criar algum tipo de impacto no bem-estar dos usuários e, mais especificamente, se o seu uso alteraria a satisfação pessoal da vida de cada um e, como consequência, evocar emoções negativas em seus usuários.

Algumas variações foram propostas aos participantes, como diferentes tempos de uso, além de outras modificações.

O resultado?…

Bem, em termos gerais, o primeiro achado apontou para o fato de que aquelas pessoas que foram orientadas a interromper o uso pelo período de uma semana, foram as que, frente ao grupo como um todo, relataram os maiores níveis de bem-estar e de satisfação com a vida pessoal.

E o segundo achado? Quando menos se interagiu com a rede social, menores também foram os níveis de inveja interpessoal que surgiam nos usuários.

O que significa então que um uso moderado e sensato – aliás, como tudo na vida -, pode então lhe colocar em contato com as boas coisas que o Facebook tem para oferecer e, ao mesmo tempo, preservar a sua vida emocional.

Conclusão

Tenhamos, portanto, algo bastante claro em mente.

As consequências do uso do Facebook, se positiva ou negativa, obviamente derivam da forma de como utilizamos a referida rede social em nosso dia-a-dia. Vamos lembrar que, ao longo do cotidiano, não estamos tão atentos e críticos a respeito daquilo que é postado pelos outros usuários, ou seja, na velocidade que nosso dia-a-dia nos chega, faz com que percamos, temporariamente, a capacidade de pesar o quanto que as comparações sociais que fazemos de maneira automática com os demais são, de fato, sensatas.

Assim sendo, como a vida é cheia de altos e baixos, fiquemos atentos, portanto, às comparações bem pouco realistas que, nos momentos de menor motivação, nos fazem sentir mal a partir da analogia com a vida dos demais.

Concluindo, como “a grama do vizinho é sempre mais verde”, fiquemos atentos, portanto, para as experiências que vivemos no mundo virtual, pois, ao que indica essa nova pesquisa, enquanto não tivermos muita maturidade e preparo, quanto mais Facebook usarmos, menores serão as chances de nos sentirmos bem.

Recomendações

– Não fique entrando no Facebook de hora em hora. Assim sendo, reserve certos momentos de seu dia.

– Desabilite os sons que fazem seu celular ou laptop apitar assim que alguém curte algo que você postou, pois é inevitável – ou irresistível demais -, não dar uma olhadinha.

– Não estimule seus filhos a se tornarem dependentes dessa plataforma (ou de outras redes sociais). Posso lhe assegurar que, as melhores coisas da vida, não estão sendo compartilhadas nas redes sociais.

– Nada supera as experiências que estamos vivendo em nosso presente momento.

Pense nisso tudo.

 

Referência

http://online.liebertpub.com/doi/10.1089/cyber.2016.0259


Embelezamento Alcoólico: efeitos fisiológicos e psicológicos do beber
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Dr. Cristiano Nabuco

Para compreender o efeito do álcool, tente ver esta foto com os olhos quase fechados. Crédito foto: VIA9GAG.com

Quem nunca passou por aquela situação de ingerir bebidas alcoólicas um pouco além da conta e no dia seguinte se arrependeu?…

E quando isso acontece, é como se tivéssemos colocado “óculos de cerveja”, expressão cunhada em inglês como beer goggles, que consiste na tese de que quando ingerimos uma certa quantidade de álcool, nossa capacidade de olhar a beleza se tornaria, digamos, mais generosa.

Pois bem, a ciência tem explicado o que realmente ocorre – e vários fatores contribuem para isso.

Influência psicológica

Em primeiro lugar, temos um aspecto puramente psicológico. Foi conduzida uma experiência em que algumas pessoas foram informadas de que haviam consumido, sem saber, uma quantidade especifica de bebida alcoólica. Como resultado, suas opiniões a respeito de si mesmas mudaram expressivamente, ou seja, ao saber que tinham bebido, se consideravam mais atraentes, brilhantes, originais e engraçadas do que aqueles que acreditavam não ter consumido nada de álcool.

E as coisas não param por aí: as pessoas sóbrias também acham mais atraentes aquelas que estão “alegres” em função do consumo do álcool. Em um estudo científico, indivíduos que consumiram o equivalente a um copo de vinho foram considerados mais atraentes do que aquelas pessoas que não haviam consumido nada. (1)

Participantes de outra investigação, apontaram para os mesmos achados: aqueles que haviam ingerido vodca acharam o rosto de certas pessoas mais charmosas e mais bonitas do que aqueles que não tinham consumido uma bebida alcóolica nenhuma.

Portanto, ao que tudo indica, há uma crença ou uma natural predisposição de as pessoas acharem que o álcool, de uma maneira ou de outra, contribui para facilitar as coisas nas relações interpessoais. (2)

Influência fisiológica

Obviamente, os efeitos do álcool sobre o cérebro também são reais. Quando bebemos, nos tornamos menos capazes de perceber a assimetria facial, conhecida por ser um importante componente de atratividade humana, por exemplo.

Como a biologia nos ensina, uma boa simetria mostra que um indivíduo possui melhores características genéticas, indicando alguém mais saudável e, possivelmente, uma melhor escolha no caso de reprodução. Como nossos antepassados não dispunham de maiores informações a respeito do outro, um bom equilíbrio facial indicava boas escolhas, segundo nossos instintos evolutivos “pré-programados”.

Ainda nos dias de hoje, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes e mais saudáveis pessoas com maior simetria do que as demais – sem tanta harmonia e “beleza”, por assim dizer.

Portanto, é como se a ingestão do álcool pudesse ter um efeito ilusório sobre nosso cérebro mais primitivo, “borrando” as imperfeições faciais das pessoas menos atraentes, tornando-as mais simétricas e, definitivamente, mais fascinantes aos nossos olhos.

ambrozinio – fotolia

Claro que também há o fato de o álcool aumentar a impulsividade, nos tornando menos seletivos e exigentes em nossas escolhas afetivas, segundo apontam os modelos biológicos de pesquisa. (4)

Uma das regiões do cérebro com maior queda de atividade quando se está sob efeito do álcool é o córtex pré-frontal – região responsável pela tomada de decisões e pelo pensamento racional. Com o córtex pré-frontal menos ativo, ficamos sujeitos a agir sem pensar muito. (5)

Conclusões

Bastante óbvias.

As variáveis psicológicas e fisiológicas interagem de maneira profunda quando o assunto é o consumo de álcool. Ao que tudo indica, beber exerce um efeito positivo na percepção da beleza no ambiente em que estamos e na percepção sobre nós mesmos e os outros.

Bebemos para nos soltar e, aos nos soltarmos, relaxamos nossos critérios de avaliação pessoal, “facilitando bastante” as coisas para nosso lado.

“Ai, que bom seria” se as pessoas, de fato, pudessem a partir desses contrastes de suas personalidades (sem álcool versus com o álcool), se auto-aprimorar, não acham? Muito embora algumas delas entendam o álcool como um veneno necessário, há coisas dentro delas que precisam ser aniquiladas e, infelizmente, a bebida é vista como a única possibilidade.

 

Referências

(1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25716115

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2485891

(3) https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2016/07/the-science-of-beer-goggles/485591/

(4) http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001391

(5) https://www.psychologytoday.com/blog/you-illuminated/201006/your-brain-alcohol