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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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O cérebro digital: como uso constante da internet está afetando nossa mente

Dr. Cristiano Nabuco

2016-07-20T19:04:00

16/07/2019 04h00

Crédito: iStock

A internet hoje, da maneira que a conhecemos, mudou de modo expressivo a forma como consumimos informação, entretenimento e, mais do que isso, reinventou os meios de interação social, dando um novo contorno aos relacionamos humanos.

Chegamos a tal ponto que uma parcela expressiva da população, através dos celulares, permanece online a maior parte do seu tempo, fazendo com que as conexões digitais se tornem parte integrante do trabalho, da escola e da vida social como um todo. Uma recente pesquisa deu conta de que apenas entre os adolescentes americanos, 45% estão "conectados constantemente".

E, embora essa tendência esteja se consolidando cada vez mais, pouquíssimos são os estudos que se debruçam sobre os efeitos específicos destes comportamentos na mente humana e, mais especificamente, sobre os desdobramentos do uso constante da tecnologia nos processos de pensamento e de raciocínio.

Mudanças no cérebro

Não é de hoje que já se sabe que nossas funções mentais são extremamente maleáveis às demandas e aos estímulos do ambiente, principalmente quando falamos nas novas formas de aprendizagem, decorrentes da grande capacidade adaptativa que possuímos. É, desta forma, que a arquitetura do cérebro continuamente se altera às demandas do dia-a-dia e, frente às novas operações mentais que são exigidas, inclusive agora, pelas conexões virtuais, algumas mudanças neuronais já são observadas.

Vamos a um exemplo.

Nossas interações com o smartphone provocam alterações expressivas nas regiões corticais, associadas ao processamento motor e sensorial, em função da grande estimulação das mãos e dos dedos, tão necessárias à utilização dos aparelhos de celular.

Algumas evidências já indicam, inclusive, que a navegação constante nas plataformas digitais, ou seja, o decréscimo progressivo de trocas com o mundo real, provoca efeitos adversos (declínio) em certas funções cognitivas.

Eu explico.

Um estudo recente demostrou que, após seis semanas de uso de videogames pela internet,  registrou-se uma redução significativa da massa cinzenta do cérebro na região do córtex pré-frontal dos usuários. Vamos lembrar que essa área está associada ao controle dos impulsos e à tomada de decisão que, durante esse período de jogos, declinou de maneira expressiva.

Traduzindo de uma forma mais simplista: se 6 semanas de uso dos videogames foram suficientes para causar impactos adversos na arquitetura do funcionamento do cérebro, o que aconteceria então no caso daqueles adolescentes e jovens –tão frequentes em nosso cotidiano atual — que passam meses (e até anos) conectados nessas plataformas de jogos?… Quais seriam os desdobramentos futuros sobre o cérebro dessas pessoas?

Portanto, cada nova habilidade que é exigida pelos eletrônicos, mudanças –para bem e para mal — tomarão lugar em nosso cérebro e cobrarão um pedágio significativo no futuro.

Distração digital

Obviamente que, muito embora quase tudo nos empurre para as conexões (compras, diversão, escola, viagens, relacionamentos etc), o que por si só já é muito incitante, o que ninguém conta é que grande parte destas plataformas digitais são idealizadas com o objetivo central de promover o máximo engajamento possível dos usuários.

Diferente do passado, quando o telefone e a TV fizeram sua aparição, nas tecnologias atuais temos uma atualização constante de recursos e de estratégias que sequestram nossa atenção, fazendo com que busquemos o que não desejamos, naveguemos por onde nem havíamos considerado e, finalmente, possamos consumir aquilo de que não estamos necessitando.

Portanto, caso você ainda não saiba, são centenas de engenheiros dessas empresas trabalhando 24 horas por dia e se utilizando das premissas da ciência da persuasão para capturar seu foco o máximo possível.

E o resultado? Talvez nem fosse necessário explicar, mas ficamos compulsivamente checando os aplicativos e perpetuando comportamentos disfuncionais que consomem nossa atenção e nosso bem-estar imediato (coisa que nem de longe é preocupação dessas empresas, obviamente).

A quantidade massiva de estímulos nos força a uma interação constante e desnecessária com plataformas que, na verdade, não nos dão ganho efetivo algum de qualidade de vida. No final das contas, acabamos por nos assemelhar aos ratos de laboratório de pesquisa que, de acordo com o experimentador, se comportam de acordo com o esperado desses protocolos de investigação.

Atenção fracionada

Se o leitor achar exagero de minha parte, sem problemas, eu posso dar mais evidências. Uma outra investigação tinha como objetivo avaliar como se dá a retenção de informação quando navegamos na internet. Nesse experimento, foi solicitado a um grupo de pessoas que buscassem algumas informações pré-estabelecidas pelos pesquisadores em distintos locais, ou seja, (a) na web e, em outro grupo, que as mesmas pesquisas pudessem se dar (b) através da consulta de enciclopédias (isto é, junto ao material "impresso").

Para que se pudesse analisar mais pormenorizadamente as funções cerebrais ativadas durante as ações, utilizou-se ressonância magnética funcional para se verificar o "que" e "onde" as informações eram armazenadas no cérebro. E os resultados foram impressionantes.

O resultado das imagens mostrou que as regiões do cérebro que foram estimuladas nas buscas na web e na modalidade impressa foram exatamente as mesmas, entretanto, a retenção do conteúdo pelo cérebro, quando obtido através da internet, ficou extremamente empobrecida, se comparada à busca na enciclopédia.

A explicação foi que o tempo de busca e de contato com a informação pelos sites da web foi tão rápido que se mostrou falha no processo de recrutamento das regiões que armazenam a memória de longo-prazo. Ou seja, embora o potencial de busca pela internet seja imenso, a conectividade e homogeneidade funcional de retenção se tornam profundamente prejudicadas, pois impedem a sincronização cerebral (fundamental para a consolidação do conhecimento na mente) e a consolidação da memória de longo-prazo.

Uma pergunta então me vem à cabeça: o que será então dos alunos que estudam pela internet? Estariam eles prejudicados pela rapidez e pela falta de tempo necessária para a devida acomodação e retenção das informações pelas diversas regiões do cérebro? O que será das novas gerações do ponto de vista pedagógico pela estimulação contínua da tecnologia em sala de aula?

Tem mais: outra investigação mostrou que navegar pela internet por 15 minutos apenas (por exemplo, olhando um site de compras) compromete a capacidade atencional posterior das atividades que serão realizadas fora da internet (offline). Traduzindo: navegar na internet e fazer qualquer outra ação, na sequência, reduz o foco e a atenção.

O que será então dos novos modelos de estudo, no qual os alunos estudam com um computador (ou celular) ao lado, consultando os links sugeridos pelos professores em seus computadores?…

Eu acho bom que todos comecem a ficar atentos.

Conclusão

Embora ainda exista um grande deslumbramento a respeito do que a tecnologia poderá fazer por nós, a maioria das pessoas ainda ignora quais são os efeitos imediatos e crônicos de se utilizar esses recursos virtuais junto a crianças e adolescentes, uma vez que eles são os usuários primordiais dessas plataformas e, mais preocupante ainda, por estarem em plena fase de desenvolvimento cerebral.

Do ponto de vista da saúde mental, por outro lado, já temos uma noção mais clara do quanto que a vida digital, nem sempre, caminha bem.

Já sabemos, por exemplo, que as meninas, em fase de adolescência, que utilizam as redes sociais por mais tempo, são as mais propensas a desenvolver depressão, baixa autoestima e outros problemas de saúde mental, se comparadas àquelas que estão longe das telas. Pesquisas indicam que 5 horas de utilização por dia aumentam em 66% o risco de suicídio nessa população feminina.

Enfim, vou repetir mais uma vez: a tecnologia e as plataformas da internet não são brinquedos para que sejam oferecidas inocentemente aos nossos filhos e às nossas crianças, como forma de distração, entretenimento e até para estudo.

Pense nisso na próxima vez que vir seu filho com um celular nas mãos. O uso inconsciente das novas tecnologias está afetando o cérebro de toda uma geração.

Referência bibliográfica
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/wps.20617

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!