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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Você se vê como responsável ou vítima das situações? Entenda a diferença

Universa

13/11/2018 04h00

Crédito: iStock

Uma das coisas mais importantes na vida pessoal diz respeito às tentativas contínuas de procurar manter nosso equilíbrio emocional sempre estável. Os eventos do cotidiano que, diga-se de passagem, são sempre muito dinâmicos, oferecem sempre um grande desafio.

Por vezes lidamos com situações adversas que são originárias de nosso entorno, como as relações conflituosas, tão frequentes hoje em dia, ou um trabalho que exige de nós de maneira excessiva e não nos dá mais qualquer satisfação, apenas para citar dois exemplos.

Na outra ponta, temos as questões internas como as nossas alterações de humor, angústias pessoais que nos atormentam e que exigem de nós um esforço constante de controle. Assim, se quisermos viver bem, teremos que manejar nossas marolas emocionais de maneira satisfatória.

Portanto, sempre estamos sob a influência das forças externas e internas que tanto colocam em risco essa delicada estabilidade emocional. Desta forma, como se já não bastasse tentar lidar com as pressões do ambiente, ainda temos a árdua missão de nos autocontrolar. Tarefa nada fácil, não acha?

Pois é, perceba então que neste cenário não seria muito atípico, por vezes, ficarmos desorientados, pois muitas coisas ocorrem simultaneamente e as eventuais falhas nessa gerência pessoal podem nos cobrar um pedágio bastante alto.

Neste momento, ou assumimos nossas deficiências pessoais e tentamos literalmente fazer algo a respeito ou atribuímos a culpa de nossos fracassos a alguém (ou algo) do mundo externo. A propósito, como você se posiciona frente aos acontecimentos de sua vida?

Vítima ou responsável?

Parte das dificuldades que as pessoas encontram neste manejo do cotidiano diz respeito a uma premissa muito simples: a velocidade dos acontecimentos.

Eu explico: Certas pessoas, pelas mais variadas razões, são mais lentas para "perceber" as necessidades de transformação exigidas e, como o entorno muda mais rápido do que a  capacidade de compreensão, elas ficam atrasadas em suas interpretações. Assim, tais pessoas utilizam sempre as mesmas justificativas para seu insucesso como, por exemplo, de que não possuem sorte, de serem injustiçadas pela vida ou de não terem controle sobre as coisas.

Outras, entretanto, já são mais ágeis e, percebendo as oscilações, rapidamente se adaptam a elas, modificando-se.

Aqui, portanto, se encontra um dos maiores paradoxos da vida: muitos indivíduos desejam ativamente mudar as situações de vida, mas dificilmente querem se automodificar.

Repare que, qualquer um desses caminhos, você pode escolher enxergar os eventos como alheios a você ou como o resultado de seu próprio controle. Não sei se você já pensou nisso, mas cada posição pode definir de forma determinante seu sucesso ou fracasso em longo prazo. Eu vou esclarecer.

Onde está se locus de controle?

locus de controle indica o modo como cada indivíduo percebe sua situação pessoal, econômica ou profissional frente aos seus comportamentos ou às forças que o circundam. A percepção disso produz um movimento contínuo de questionamento a respeito de si próprio e do mundo externo, fazendo nossa vida tomar um determinado rumo. Assim, a forma com a qual escolhemos enfrentar (leia-se: compreender) os desafios de vida é chamado de "orientação do locus de controle".

Esse termo –locus de controle — foi cunhado por volta de 1960, por Julian Rother, pesquisador do comportamento humano, que tentava entender como as atitudes das pessoas frente ao seu ambiente poderia, em última instância, influenciar sua vida.

E ele achou o seguinte: pessoas que desenvolviam um locus de controle interno se percebiam mais responsáveis pelo seu próprio sucesso. No caminho inverso, aquelas que acreditavam ser o ambiente de maior influência (locus de controle externo), sempre sentiam que o que acontecia a elas era o resultando das forças ambientais que atuavam sobre sua vida e que, portanto, pouco poderia ser feito.

Indo um pouco mais além, para essas pessoas que sentiam que seu locus de controle era externo, as próprias habilidades pessoais e ações não exerciam muita influência nas respostas positivas que recebiam da vida. Afinal, elas estavam convencidas da sua falta de poder em relação às forças ambientais e, assim, acabavam não se esforçando muito em tentar mudar ou melhorar as suas habilidades de enfrentamento.

De maneira inversa, as pessoas que percebiam a existência do locus de controle interno eram mais automotivadas, determinadas, pois acreditavam serem as únicas responsáveis pelo caminho tomado por sua própria vida.

Consequências

E os dados finais foram ainda mais impressionantes. A pesquisa de Rotter, por exemplo, demonstrou que as pessoas com locus de controle interno tendiam a ser física e mentalmente mais saudáveis do que as outras. Em geral elas apresentavam pressão sanguínea mais baixa, menores índices de infartos, de ansiedade e depressão, além de terem sido mais hábeis ao lidar com as situações de estresse. Tinham, portanto, uma maior resiliência pessoal.

O locus de controle interno foi também associado a melhores notas na escola e a um sentimento de maior liberdade de escolha, além de maiores índices de sociabilidade e autoestima.

E você imagina como se saíam as pessoas com locus de controle externo? Nesse caso, foram percebidas mudanças mais frequentes de ambiente físico (como mudar mais de casa, cidade ou país), menores níveis de satisfação profissional (ficavam pulando de emprego em emprego), apresentavam um descontentamento constante com suas experiências afetivas (relatavam ainda não ter achado o "amor da vida") e, finalmente, manifestavam hábitos pessoais mais extremados, como se matricular em programas de emagrecimento ou fortalecimento mais radicais, pois como o locus era externo, a busca visava uma "transformação externa".

Voltando ao presente, você já deve ter visto como algumas pessoas estão sempre engajadas em uma busca incessante por melhores condições de vida como, por exemplo, em uma preocupação desmedida com a beleza, no interminável esforço para a aquisição de roupas da moda, na troca constante das coisas etc, ou seja, para este grupo melhorar o status se torna o grande sentido de vida.

Veja que nem de longe estou dizendo que não devemos tentar melhorar nossas condições econômicas, culturais, mas apenas mostrando que esse "norte magnético", na verdade, tem o poder de nos desequilibrar, pois é uma busca externa e erroneamente associada à conquista da felicidade.

E você? Consegue dizer qual é seu locus de controle? Seria bom pensar no assunto.

Eu creio que o ponto central de uma vida satisfatória e equilibrada é aquela onde chamamos para nós mesmos a responsabilidade dos acontecimentos e, frente às situações das quais não temos efetivamente o controle, nos empenhamos então na construção de uma postura mais pró-ativa, pois ao fazermos isso, recuperamos o controle de nosso destino.

Um velho ditado chinês costumava dizer: "liberdade é quando não mais nos sentimos vítimas do meio ambiente".

Portanto, se você deseja que efetivamente sua vida melhore, comece percebendo que você é, em última instância, o grande responsável por sua existência e pelo tipo de vida de que desfruta.

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!