Dr. Cristiano Nabuco

O experimento do Facebook: quanto mais você usa, menos feliz estará
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

draganagordic – fotolia

O número total de usuários da rede social Facebook, segundo levantamentos realizados em dezembro de 2015, era de, aproximadamente, 1,59 bilhões – número este já, possivelmente, ultrapassado nos dias de hoje – e, de maneira mais do que óbvia, crescendo a cada dia.

Através dessa plataforma, pessoas permanecem em contato com amigos, dividem experiências importantes e mais, obtém, de maneira contínua e ininterrupta, uma importante forma de apoio e de reconhecimento social. Assim, nem precisaria ser especialista para entender que seu uso se tornou parte importante de nosso cotidiano, sendo, no momento, a mais usada rede social do planeta.

Caso não seja o seu caso – sorte sua, eu lhe diria -, saiba que uma parcela expressiva desses usuários é, de fato, fiel, pois antes mesmo de sair da cama, “abre o Face apenas para ‘dar uma olhada’ se algo de importante aconteceu durante a noite”.

Assim, muito embora a impressão dos usuários seja a de que essas interações são, de fato, relevantes, do ponto de vista emocional, já não é de hoje que algumas pesquisas apontam para uma direção oposta.

Eu explico.

Estudos anteriores já haviam relacionado o uso do Facebook ao aparecimento de alguns problemas importantes como, por exemplo, a manifestação de efeitos psicológicos negativos em seus usuários, o aparecimento de sintomas depressivos e o aumento marcante de uma insatisfação pessoal. E tem mais: registre também aí, a deterioração do humor e, finalmente, o aumento de uma percepção pessoal de falta de sentido (pelo fato de a pessoa não se sentir tendo feito algo de importante, se comparado àquilo que assiste nas histórias dos demais).

Entretanto, sendo bastante imparcial, há também estudos que apontam o lado positivo da plataforma, como servindo de importante ferramenta de validação social, além de possibilitar a diminuição da solidão.

Mas, afinal, eu me pergunto: a ciência poderia ser, às vezes, menos contraditória? Vamos tentar responder através de outra pesquisa então.

A investigação

Foram recrutados 1.095 dinamarqueses para participar de um experimento que teria a duração de uma semana. Adultos, majoritariamente mulheres (86%), apresentavam uma média de idade de 34 anos. O objetivo central da pesquisa era avaliar se o uso do Facebook efetivamente poderia criar algum tipo de impacto no bem-estar dos usuários e, mais especificamente, se o seu uso alteraria a satisfação pessoal da vida de cada um e, como consequência, evocar emoções negativas em seus usuários.

Algumas variações foram propostas aos participantes, como diferentes tempos de uso, além de outras modificações.

O resultado?…

Bem, em termos gerais, o primeiro achado apontou para o fato de que aquelas pessoas que foram orientadas a interromper o uso pelo período de uma semana, foram as que, frente ao grupo como um todo, relataram os maiores níveis de bem-estar e de satisfação com a vida pessoal.

E o segundo achado? Quando menos se interagiu com a rede social, menores também foram os níveis de inveja interpessoal que surgiam nos usuários.

O que significa então que um uso moderado e sensato – aliás, como tudo na vida -, pode então lhe colocar em contato com as boas coisas que o Facebook tem para oferecer e, ao mesmo tempo, preservar a sua vida emocional.

Conclusão

Tenhamos, portanto, algo bastante claro em mente.

As consequências do uso do Facebook, se positiva ou negativa, obviamente derivam da forma de como utilizamos a referida rede social em nosso dia-a-dia. Vamos lembrar que, ao longo do cotidiano, não estamos tão atentos e críticos a respeito daquilo que é postado pelos outros usuários, ou seja, na velocidade que nosso dia-a-dia nos chega, faz com que percamos, temporariamente, a capacidade de pesar o quanto que as comparações sociais que fazemos de maneira automática com os demais são, de fato, sensatas.

Assim sendo, como a vida é cheia de altos e baixos, fiquemos atentos, portanto, às comparações bem pouco realistas que, nos momentos de menor motivação, nos fazem sentir mal a partir da analogia com a vida dos demais.

Concluindo, como “a grama do vizinho é sempre mais verde”, fiquemos atentos, portanto, para as experiências que vivemos no mundo virtual, pois, ao que indica essa nova pesquisa, enquanto não tivermos muita maturidade e preparo, quanto mais Facebook usarmos, menores serão as chances de nos sentirmos bem.

Recomendações

– Não fique entrando no Facebook de hora em hora. Assim sendo, reserve certos momentos de seu dia.

– Desabilite os sons que fazem seu celular ou laptop apitar assim que alguém curte algo que você postou, pois é inevitável – ou irresistível demais -, não dar uma olhadinha.

– Não estimule seus filhos a se tornarem dependentes dessa plataforma (ou de outras redes sociais). Posso lhe assegurar que, as melhores coisas da vida, não estão sendo compartilhadas nas redes sociais.

– Nada supera as experiências que estamos vivendo em nosso presente momento.

Pense nisso tudo.

 

Referência

http://online.liebertpub.com/doi/10.1089/cyber.2016.0259


Embelezamento Alcoólico: efeitos fisiológicos e psicológicos do beber
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

Para compreender o efeito do álcool, tente ver esta foto com os olhos quase fechados. Crédito foto: VIA9GAG.com

Quem nunca passou por aquela situação de ingerir bebidas alcoólicas um pouco além da conta e no dia seguinte se arrependeu?…

E quando isso acontece, é como se tivéssemos colocado “óculos de cerveja”, expressão cunhada em inglês como beer goggles, que consiste na tese de que quando ingerimos uma certa quantidade de álcool, nossa capacidade de olhar a beleza se tornaria, digamos, mais generosa.

Pois bem, a ciência tem explicado o que realmente ocorre – e vários fatores contribuem para isso.

Influência psicológica

Em primeiro lugar, temos um aspecto puramente psicológico. Foi conduzida uma experiência em que algumas pessoas foram informadas de que haviam consumido, sem saber, uma quantidade especifica de bebida alcoólica. Como resultado, suas opiniões a respeito de si mesmas mudaram expressivamente, ou seja, ao saber que tinham bebido, se consideravam mais atraentes, brilhantes, originais e engraçadas do que aqueles que acreditavam não ter consumido nada de álcool.

E as coisas não param por aí: as pessoas sóbrias também acham mais atraentes aquelas que estão “alegres” em função do consumo do álcool. Em um estudo científico, indivíduos que consumiram o equivalente a um copo de vinho foram considerados mais atraentes do que aquelas pessoas que não haviam consumido nada. (1)

Participantes de outra investigação, apontaram para os mesmos achados: aqueles que haviam ingerido vodca acharam o rosto de certas pessoas mais charmosas e mais bonitas do que aqueles que não tinham consumido uma bebida alcóolica nenhuma.

Portanto, ao que tudo indica, há uma crença ou uma natural predisposição de as pessoas acharem que o álcool, de uma maneira ou de outra, contribui para facilitar as coisas nas relações interpessoais. (2)

Influência fisiológica

Obviamente, os efeitos do álcool sobre o cérebro também são reais. Quando bebemos, nos tornamos menos capazes de perceber a assimetria facial, conhecida por ser um importante componente de atratividade humana, por exemplo.

Como a biologia nos ensina, uma boa simetria mostra que um indivíduo possui melhores características genéticas, indicando alguém mais saudável e, possivelmente, uma melhor escolha no caso de reprodução. Como nossos antepassados não dispunham de maiores informações a respeito do outro, um bom equilíbrio facial indicava boas escolhas, segundo nossos instintos evolutivos “pré-programados”.

Ainda nos dias de hoje, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes e mais saudáveis pessoas com maior simetria do que as demais – sem tanta harmonia e “beleza”, por assim dizer.

Portanto, é como se a ingestão do álcool pudesse ter um efeito ilusório sobre nosso cérebro mais primitivo, “borrando” as imperfeições faciais das pessoas menos atraentes, tornando-as mais simétricas e, definitivamente, mais fascinantes aos nossos olhos.

ambrozinio – fotolia

Claro que também há o fato de o álcool aumentar a impulsividade, nos tornando menos seletivos e exigentes em nossas escolhas afetivas, segundo apontam os modelos biológicos de pesquisa. (4)

Uma das regiões do cérebro com maior queda de atividade quando se está sob efeito do álcool é o córtex pré-frontal – região responsável pela tomada de decisões e pelo pensamento racional. Com o córtex pré-frontal menos ativo, ficamos sujeitos a agir sem pensar muito. (5)

Conclusões

Bastante óbvias.

As variáveis psicológicas e fisiológicas interagem de maneira profunda quando o assunto é o consumo de álcool. Ao que tudo indica, beber exerce um efeito positivo na percepção da beleza no ambiente em que estamos e na percepção sobre nós mesmos e os outros.

Bebemos para nos soltar e, aos nos soltarmos, relaxamos nossos critérios de avaliação pessoal, “facilitando bastante” as coisas para nosso lado.

“Ai, que bom seria” se as pessoas, de fato, pudessem a partir desses contrastes de suas personalidades (sem álcool versus com o álcool), se auto-aprimorar, não acham? Muito embora algumas delas entendam o álcool como um veneno necessário, há coisas dentro delas que precisam ser aniquiladas e, infelizmente, a bebida é vista como a única possibilidade.

 

Referências

(1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25716115

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2485891

(3) https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2016/07/the-science-of-beer-goggles/485591/

(4) http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001391

(5) https://www.psychologytoday.com/blog/you-illuminated/201006/your-brain-alcohol

 

 

 


Celular e volante: Combinação perigosa
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

theartofphoto – fotolia

Não restam dúvidas: a tecnologia veio para ficar. E instalou-se não apenas facilitando nossas vidas, mas também criando alguns efeitos colaterais bastante impactantes, como todos nós já sabemos.

Seguramente, usar dispositivos digitais enquanto se dirige é um exemplo bastante claro de tais efeitos colaterais. Você está em seu carro e percebe que o carro à sua frente segue em uma rota sinuosa, vagarosa e desatenta. Você pensa: Será que esse motorista está bêbado? Não, não… ele (ou ela) está usando o celular. O efeito de dirigir e falar ou enviar mensagens pelo celular não é muito diferente de beber e dirigir.

Enviar mensagens de WhatsApp, verificar as curtidas de suas postagens do Facebook, buscar alguma música desejada, dar uma olhada no Instagram ou, simplesmente, pesquisar algum tema na internet. Estes comportamentos denotam uma total falta de conscientização do risco que, em si, não é considerado suficientemente perigoso para frear essas pessoas.

No entanto, as estatísticas vêm mostrando que as novas tecnologias realmente colaboram para a distração dos motoristas. No Brasil, seu uso já figura entre as maiores causas de acidentes automobilísticos (1-2) e, no exterior, já é considerado como uma das principais causas. (3)

Dados de 2015 do seguro Dpvat (Brasil) informam que foram pagos naquele ano cerca de 1,3 milhão de reais por morte ou invalidez em acidentes relacionados ao uso do celular. Os dados também mostram que 80% dos motoristas admitem que utilizam o aparelho ou outras tecnologias que geram distração enquanto dirigem. (4)

Vamos dar uma olhada em alguns números de pesquisas americanas: (5)

– 9 é o número diário de mortos em acidentes decorrentes de distração na direção, tal como usar o telefone celular ou enviar mensagens de texto.

– Em 2013, o número de acidentes de trânsito causados pelo envio de mensagens de texto foi de 341 mil.

– Em 2016, 1 em cada 4 acidentes foi causado pelo uso impróprio do celular.

– 33% é a porcentagem de motoristas dos EUA com idade variando entre 18 a 64 anos que relataram ter lido ou escrito mensagens de texto enquanto dirigiam no mês anterior.

Entre os jovens, a situação é pior: o envio de mensagens de texto é apontado como o maior causador de acidentes de trânsito. (6)

Vale a pena reforçar: em muitos casos, receber uma mensagem ou um post no Facebook é um estímulo social bastante recompensador que, provavelmente, estimula os circuitos dopaminérgicos de recompensa no cérebro.

Sabemos que o cérebro humano somente estará plenamente maturado depois dos 21 anos de idade. Antes disso, os jovens apresentam uma dificuldade natural de frear comportamentos de risco, o que deixa os motoristas mais jovens mais vulneráveis aos estímulos derivados da tecnologia e, portanto, com maior probabilidade de agir de forma impulsiva.

Além disso, o risco de acidentes causados pelos smartphones é aumentado por nos obrigar a realizar a chamada “multitarefa” – isto é, fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Uma pesquisa da AT&T mostrou que quase 4 em cada 10 usuários de smartphones acessam suas mídias sociais durante a condução do veículo, quase 3 em cada 10 surfam na web e (pasmem!) 1 em cada 10 se envolve em um bate-papo por vídeo. (7)

Achou preocupante?…

Flavijus Piliponis – fotolia

Então veja só: 7 em cada 10 pessoas se envolvem em atividades usando o celular enquanto dirigem. Enviar mensagens de texto e e-mail ainda são os mais prevalentes. Entre as plataformas sociais, o Facebook encabeça a lista, com mais de um quarto das pessoas consultadas admitindo usar o aplicativo durante a condução de um veículo. Cerca de 1 em cada 7 disse que está conectado ao Twitter ao volante.

Vamos avaliar o seu risco?

Então caneta e papel na mão. Responda o “quiz” abaixo e descubra quais são seus comportamentos ao dirigir seu carro que representam um risco. Ao final do quiz, some os pontos descritos entre parênteses. A soma total obtida traz uma estimativa do nível de risco associado “intencionalmente” por você, na semana anterior, enquanto guiava:

-Atendi o telefone enquanto dirigia. (1 ponto)

-Fiz uma ligação (inclusive disquei) enquanto dirigia. (2 pontos)

-Li uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Enviei uma mensagem de texto enquanto estava parado no semáforo. (1 ponto)

-Li uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

-Digitei e enviei uma mensagem de texto enquanto dirigia. (2 pontos)

Para especialistas americanos (National Transportation of Safety Board, NTSB e Conselho Nacional de Segurança, NSC), se a soma de seus pontos foi superior a 1, sua atenção esteve prejudicada. Mas não sejamos tão rígidos. Há uma outra classificação, um pouco menos severa, que nos dá uma noção da graduação do risco.

Por meio dessa classificação, somando seus pontos, qual seria então seu grau de risco? (8)

De 1 e 3: Seu grau de risco foi moderado.

De 4 e 6: Você correu um risco alto de sofrer um acidente.

Acima de 6: Você assumiu um grau de extremo risco ao dirigir.

Para compreender melhor a dimensão do problema, vejamos um pouco da matemática e da física durante o uso de dispositivos móveis ao volante. Voltar os olhos para um aplicativo consome 5 segundos de nossa atenção. Parece pouco? Repense. Isso significa que, se estiver dirigindo a 80 km/h, você terá percorrido nada menos do que um campo de futebol. Completamente “às cegas”. (9)

Conclusão

É curioso notar que, nos sentindo adultos, responsáveis e capazes de “pesar” o grau de risco de nossas ações envolvendo o uso dos celulares no trânsito, insistentemente continuamos a ter comportamentos perigosos como se nada de errado estivesse ocorrendo.

fotohansel – fotolia

Segundo várias pesquisas, porém, esta forma de autorregulação pessoal (celular e o trânsito) tem se mostrado bastante ineficaz, ainda que você se sinta com uma boa dose de consciência e controle. Portanto, o momento em que decidimos pegar um smartphone durante um trajeto de carro, estamos intencionalmente assumindo um risco expressivo.

Enviar aquela única mensagem de WhatsApp, por exemplo, que geralmente não tem qualquer relevância para sua vida, pode de fato causar a você e aos que estão ao redor um sério problema.

Pense nisso.

Mas antes de terminar, cá entre nós: Será que a tecnologia efetivamente nos proporciona uma vida de maior qualidade? Estaremos nós realmente preparados para lidar com ela? Confesso que tenho sérias dúvidas.

 

Referências

1) http://www.transitobr.com.br/index2.php?id_conteudo=9

2) http://www1.roadcard.com.br:8090/noticias/as-dez-principais-causas-de-acidentes-no-transito

3) http://www.huffingtonpost.com/laiza-king-/top-15-causes-of-car-accidents_b_11722196.html

4) http://portaldotransito.com.br/noticias/celular-no-transito-causa-13-milhao-de-acidentes-por-ano/

5) http://www.huffpostbrasil.com/entry/dangers-of-texting-and-driving-statistics_n_7537710

6) http://www.cellphonesafety.org/vehicular/era.htm

7) http://about.att.com/newsroom/it_can_wait_expands_to_smartphone_use_while_driving.html

8) http://www.springerpub.com/internet-addiction-in-children-and-adolescents.html

9) http://about.att.com/story/smartphone_use_while_driving_grows_beyond_texting.htmlcompletarhttp://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2016/07/governo-alerta-sobre-risco-do-uso-de-celular-no-transito

 


Vício em séries de TV: um novo problema da atualidade?
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

lassedesignen – fotolia

Com um plugin gratuito no navegador, podendo ser acessado por meio de qualquer dispositivo móvel ou não, as séries de TVs por streaming  são atraentes e populares e, não dá – ainda – para chamar de vício a utilização desta ferramenta. Mas, por acaso você já parou para observar o comportamento das pessoas que tanto assistem a estas séries? Não?

E assim caminha a nossa noite

Tudo começa pela escolha do que assistir, o que, cá entre nós, não é das tarefas mais fáceis. O próximo passo é pegar o cobertor e a pipoca ou, caso a noite esteja quente e a fome não tenha batido, pode ser sem nada disso mesmo. Agora basta se instalar no sofá. E, então, o gatilho é disparado. Passam-se horas e horas do final de semana ou deixam-se para trás horas preciosas de sono durante a semana por avançar noite adentro na frente da TV.

Enfim, o que acontece é mais ou menos isso: Senta-se para assistir um programa de 60 minutos, por exemplo, mas acaba-se por gastar muito mais tempo do que o pretendido.

Não tão simples assim

Outra particularidade comportamental que vale citar é o “final” de cada episódio. Isso mereceria, creio eu, um estudo à parte. Explico: Quando o episódio termina, surge uma sensação (quase) incontrolável que impele o indivíduo a dar “só mais uma olhadinha” para ver o que vai acontecer com este ou aquele personagem.

Como ninguém é bobo, são apresentados em números menores no canto superior da tela um relógio que, em ordem decrescente, anuncia o início “automático” do próximo episódio. Quando nos damos conta, já era. Lá se foram outros 20 minutos na frente da televisão. E você pensa: “Ah, já está na metade, então não vou parar agora, vou ver o episódio inteiro”. Aquela uma hora inicial vira duas, três, quatro horas…

Obviamente, estou usando um pouco de humor, mas caso você ainda não saiba, há por detrás disso mecanismos cerebrais importantes sendo acionados que são muito semelhantes àqueles que operam em alguns vícios comprovados.

Exagero? Definitivamente, não.

vectorstory – fotolia

Nosso cérebro tem uma dificuldade muito grande de lidar com operações que são deixadas “inacabadas” e, portanto, interromper a estória contada na série claramente desafia nossos mecanismos biológicos mais básicos, pois nos deixam com uma impressão de que há mais a ser feito, e um efeito de looping aparentemente sem fim é criado, levando-nos a desejar mais e mais.

Todo esse processo faz com que o corpo permaneça alerta (nossa resposta ancestral de luta ou fuga), o que pode facilmente interromper o sono. Então, quando nos deparamos com o final de mais um episódio à uma da manhã, por exemplo, posso lhe assegurar que você não estará mais tão cansado. Você vai estar pronto para seguir adiante, sem se dar conta disso.

Um admirável mundo… novo?

Além disso, embora ainda nenhum estudo tenha se debruçado sobre os mecanismos cerebrais envolvidos nessa questão, é possível especular que há uma intensa liberação de dopamina – aquele neurotransmissor que é liberado nos dando a sensação de recompensa – no momento em que um episódio acaba, nos forçando a assistir “mais horas”.

Como uma pessoa que tem compulsão por chocolates, por exemplo, para quem é impensável comer um só, já atendi pessoas com relatos importantes de “compulsões” de programação (o que em inglês já se denominou “binge watching TV”).

Essas pessoas me contaram, muito animadamente, que chegaram a passar, facilmente, mais de 10 horas em um único dia na frente da TV apenas assistindo as séries de maneira copiosa e deixando por fazer as coisas verdadeiramente importantes, criando um verdadeiro rastro de procrastinação na vida pessoal e profissional.

Bem, caso você, leitor(a) tenha sentido alguma familiaridade, saiba que coloquei no texto acima (de maneira disfarçada, claro) vários dos critérios que definem as dependências tecnológicas e, portanto, quero apenas deixar registrado, é exatamente assim que os vícios começam na vida de muitas pessoas. Ou seja, mesmo aquilo que parece ser, à primeira vista, “divertido” e inofensivo, se mal manejado por nós, torna-se uma poderosa armadilha para nosso bem-estar e nossa saúde mental.

Em tempos de tecnologia praticamente onipresente em nossas vidas, é sempre bom ficar de olho aberto, não acha? Seria, portanto, os vícios de séries de TV a ponta de algum iceberg?

Para se pensar.

 

 

 


Ano Novo, Vida Nova: A Psicologia da Virada do Ano
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

fotolia - Marek

fotolia – Marek

Curioso notar o que ocorre com a maioria das pessoas na entrada do ano novo, já percebeu?…

De fato, somos tomados por um sentimento de novidade e vigor que nos faz, por algum tempo, acreditar que, efetivamente, as coisas no ano que se inicia serão diferentes do passado recente e que, “desta vez”, teremos força suficiente para enfrentar os obstáculos que nos fizeram escorregar nos anos anteriores.

E, assim, seguimos nos primeiros dias, confiantes e esperançosos, fazendo promessas, planos, e cheios de energia, vamos nos preparando para a nova fase que se inicia. As primeiras semanas trazem uma determinação pessoal muito pouco comum, se comparado às outras restantes do ano.

Tamanha é a força dessa disposição interna, que até a imagem refletida no espelho, costumeiramente cheia de imperfeições, sofre sutis alterações e nossos velhos parceiros – os defeitos – começam a exibir uma outra perspectiva, digamos, menos “repugnantes” aos nossos olhos.

É um estado de espírito diferente e você, que já deve ter passado por isto tudo, percebe a nova dimensão em que entramos.

Como já ocorrera repetidamente em nossa vida, acreditamos, por algum tempo, que os pactos realizados na noite de Reveillon nos permitirão extrair determinação para guiar de maneira diferente as engrenagens de nosso cotidiano e, como que protegidos por uma incrível vitalidade, poderemos, finalmente, nos tornar diferentes.

Obviamente essa história, que você já percebeu em anos anteriores, não costuma ter um final lá muito feliz e o entusiasmo recém-chegado, bem sabemos, não dura muito tempo.

Passada a euforia da festa, como diz a velha expressão, despercebidamente, começamos a nos dar conta que a roda da vida toma novamente o velho curso e, mais uma vez, de maneira impiedosa, começamos a voltar aos mesmos lugares de antes, ter as mesmas sensações desconfortáveis, deparando-nos de maneira nua e crua com as antigas adversidades pessoais.

A esta altura, quando o feitiço do ano novo se esvaiu por completo e, com ele, tudo voltou ao que era nos anos anteriores, somos forçados a olhar nossas limitações de maneira implacável.

A prometida perda de peso, por exemplo, não saiu do papel, embora as academias já tenham lucrado com sua inscrição; os aspectos desagradáveis de nosso ambiente de trabalho, ou ainda, algumas das relações interpessoais mais tóxicas que transitam há anos por nossa vida, lá permanecem e, finalmente, uma das missões mais conhecidas entre todos, de fato, novamente não ocorre e, mais uma vez, concluímos: é impossível gastar menos.

Despertados do sonho, permanecemos por mais um longo período do ano infelizes com a balança, inquietos com nossas relações interpessoais e, o pior, vivendo momentos que oscilam entre o desânimo e o descrédito pessoal.

A conclusão, portanto, não é nada alentadora, não acha?…

Não sei se você já leu algo a respeito, mas menos de 8% das pessoas, apontam algumas pesquisas, conseguem, efetivamente, realizar aquilo que se comprometeram na virada do ano novo. (1)

E, por acaso, você imagina o que estaria por trás dessa baixíssima taxa de sucesso?…

Eu explico, pois alguns fatores combinados potencializam as chances das incertezas.

Para iniciar, não podemos deixar de mencionar aquele velho paradoxo de que “as pessoas desejam ardentemente mudar sua vida, mas dificilmente se propõem a se auto modificar”, o que torna praticamente impossível qualquer alteração mais significativa.

Adicione a esse processo um outro dispositivo mais comum do que se imagina, presente em muitas pessoas, denominado de “síndrome da falsa esperança”. Nele há o fato de que a maioria de nós, nestas datas, desenvolve expectativas irrealistas a respeito de nossas mudanças de vida e, mais que isso, subestimamos a capacidade de uma transição psicológica mais duradoura. (2)

fotolia - Kalim

fotolia – Kalim

Para um número expressivo, a dimensão das promessas pessoais se torna tão radical que acaba, praticamente, impossível de ser executadas. Em muitos casos, a necessidade pessoal de mudar é tamanha que faz com que os desejos se tornem tão irreais, limitando drasticamente a capacidade de transformação pessoal.

Assim, desejamos muito em pouco tempo.

Como a maioria de nós carrega consigo zonas de insatisfação que são muito antigas, um mecanismo pouco consistente seria o de tentar executar mudanças de curso repentinas – uma verdadeira tentativa de faxina psicológica-, para dar cabo das contrariedades que arrastamos por longos períodos da vida – o que, obviamente, compromete todo o processo.

O que fazer então?

Mais importante do que mudar os comportamentos, sejamos sensatos, seria a tentativa de primeiramente mudar os pensamentos para depois, começar a alterar a realidade em nosso entorno.

Um exemplo para ilustrar o raciocínio? Sim! Comece então pelas pequenas coisas, preferindo as mais simples e fáceis, isto é, adote uma postura que seja o máximo possível (a) realista. Opte por ações que sejam viáveis a curto-prazo e que permitam a adoção de um processo de “vida nova”, gradual e de maneira progressiva. Lembre-se: Pequenas mudanças são mais simples de serem implementadas, pois cobram um “pedágio” menor.

Outro elemento que vai lhe ajudar bastante seria o de escolher (c) uma mudança de cada vez. Isso nos ajuda a desenvolver mais foco e consciência, portanto, nos trará mais energia concentrada.

E, finalmente, (c) conte aos outros a respeito de suas resoluções do ano novo e, assim que possível, seus pequenos ganhos, tão logo comecem a ocorrer. Isso irá lhe reforçar de maneira interna (com você mesmo) e externa (pessoas que torcem por você), funcionando como um tipo de “combustível” para continuar acreditando nas promessas por mais tempo. O apoio dos demais, neste momento, é fundamental, experimente o que estou lhe dizendo.

Desta forma, fechamos a equação de sucesso: ser realista + ter foco claro + desenvolver apoio social = maiores serão as chances de sucesso.

Conclusão

Ao pensarmos a respeito de todas estas questões, torna-se incrível constatar a dificuldade que temos para conduzir as mudanças em nossa vida, por menores que sejam. Quer você seja uma pessoa mais resoluta e determinada (ou não, que é o mais comum), ainda assim sentiremos a força gravitacional dos velhos hábitos, sempre nos puxando para trás.

Nossos sistemas psicológicos são protegidos por tendências poderosas que, de fato, não colaboram para que possamos deixar nossa zona de conforto, por pior que estejamos nos sentindo e, assim, finalmente podermos mudar.

Arrumar as gavetas, portanto, nunca será uma tarefa fácil. Tenha sempre isto em mente.

Portanto, mais meritório do que a mudança psicológica propriamente dita, é a manutenção e consolidação de nossas ações a atitudes. Pense nisto.

Que o ano novo possa, verdadeiramente, habilitá-lo (a) para as novas ações.

Referências

(1) http://www.statisticbrain.com/new-years-resolution-statistics/

(2) http://psycnet.apa.org/journals/amp/57/9/677/


Psicologia da Internet: porque nos tornamos outras pessoas na vida digital
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

phonlamaiphoto - fotolia

phonlamaiphoto – fotolia

Há cerca de duas décadas foi criada a expressão ''Psicologia da Internet'' para explicar a razão pela qual o comportamento das pessoas se altera tanto dentro dos ambientes virtuais.

Qualquer um que já navegou na web percebeu alguma modificação, ainda que mais leve, em sua conduta ou ação.

Por ser um espaço muito atípico e diferente de tudo que já experimentamos na vida concreta, descobriu-se que a realidade paralela exerce um tipo de “dinamização” da personalidade, o que coloca as pessoas em inclinação para atitudes de maior risco e de descontrole calculado, se comparadas ao que se vive no nosso dia-a-dia.

A respeito desse fenômeno, criou-se um termo para melhor definir tais alterações comportamentais: “efeito de desinibição online”, explicita, portanto, a variação de padrões.

Pesquisas demonstraram que essas alternâncias da vida off-line para a vida online se baseiam nas seguintes crenças:

(A) “Você não sabe quem eu sou e não pode me ver”:  à medida  que as pessoas navegam na internet, obviamente que não podem ser “vistas”, no sentido literal da palavra – diferentemente de como ocorre no mundo concreto -, conferindo então aos internautas a falsa percepção de que eles estão anônimos e, por esta razão, não há limites ou regras associadas ao comportamento online. Este fato também é descrito na literatura psicológica como ''desindividualização'', ou seja, um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.

(B) “Até logo” ou “até mais”:  a internet, querendo ou não, uma vez que permite aos seus usuários escaparem facilmente das situações mais embaraçosas,  leva-os a correrem mais riscos e tolerarem melhor as situações de ameaça. Como não existe uma consequência imediata dessas ações virtuais (na verdade “existe” uma consequência, todavia, ela é mais demorada para que os resultados apareçam), as pessoas então se tornam mais flexíveis a respeito das transgressões.

(C) “É apenas um jogo”:  esta premissa dá ao usuário a ilusão de que o mundo online opera, na verdade, em condição de fantasia, e que ninguém, de fato, seria prejudicado pelas “aventuras” realizadas no mundo digital. Assim, a linha divisória entre a ficção e a realidade torna-se facilmente mais turva, uma vez que existem centenas de atividades que, na verdade, “não existem” na realidade concreta.

(D) “Somos todos amigos”:  cria a ilusão de que na vida paralela da internet, somos todos iguais ou amigos, uns com os outros e que, portanto, as regras que determinam as relações adequadas entre os diferentes grupos (por exemplo, crianças, adolescentes e adultos) existentes no mundo real podem ser simplesmente desconsideradas. Este princípio também tem o poder de diluir as hierarquias existentes entre diferentes indivíduos na sociedade, favorecendo aos comportamentos de maior desrespeito e falta de cuidado interpessoal que tanto se observa nas redes sociais e nas comunicações entre funcionários de uma empresa.

andrys lukowski - fotolia

andrys lukowski – fotolia

Portanto, o “efeito de desinibição online” descontrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta para liberar o indivíduo ao trânsito nos espaços altamente permissivos, tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões.

Vamos lembrar que todo esse processo já tem um nome e se chama “personalidade eletrônica” (e-personality).

Imagine então, as crianças e jovens ainda em processo de formação, o que o ambiente virtual poderia fazer com a consolidação de sua personalidade (ainda) em definição?

No final das contas, pensam muitos pais desavisados: “é apenas videogame” ou, ainda, “eles só estão usando uma rede social”, que problema haveria com isso?

No passado não muito distante, o desassossego familiar vinha das amizades inadequadas, hoje deriva do próprio indivíduo em sua relação consigo mesmo no ambiente virtual.

Para se pensar, não acha?…

 


Afinal, quando será?…
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

tugolukof - fotolia

tugolukof – fotolia

Ao longo de minha vida profissional como psicólogo, tenho observado as mais diversas histórias de vida que me chegam, todos os dias, para que eu possa, de alguma maneira, prestar um pouco de auxílio.

São pacientes que, inevitavelmente, trazem memórias de sofrimento e que, a certa altura, correm o risco de sucumbir em função da intensidade de sua dor.

Alguns, em condição mais aguda, chegam tão desorientados que, antes mesmo de caminhar em alguma direção mais específica, nada é mais importante do que apenas e tão somente lhes estender a mão e assegurar-lhes que não estarão mais sozinhos.

E assim, dia após dia e ano após ano, tenho o privilégio de ser um tipo de testemunha ocular da roda da vida que gira para cada um e que, impiedosamente, vai provocar algum tipo de desequilíbrio pessoal.

Em muitas dessas histórias, apenas para dar um exemplo, a adversidade começa desde cedo. São pessoas que advêm de famílias desestruturadas e que o convívio precoce com a instabilidade as deixa com sequelas profundas que, ainda em estado infantil, nada podem fazer. Apenas se resignar.

Para outras, o aborrecimento aparece na adolescência e, quando se pensava que tudo ia bem, o carrossel da vida faz um vigoroso movimento para baixo e, sem que esperasse, a queda é inevitável, criando efeitos bastante desastrosos.

E, finalmente, caso tenhamos passado incólumes até a maioridade, não se anime muito, a vida adulta ou a velhice lhe apresentará alguma(s) adversidade(s) bastante profundas.

Resumo da ópera: um dia as coisas desandarão, é apenas uma questão de tempo.

Por favor, não se aborreça comigo, pois nem de longe quero ser um dos cavaleiros do Apocalipse, mas é fato, sempre acaba por acontecer.

Após 30 anos de trabalho na prática clínica, tenho visto algumas centenas de interpretações que gentilmente são oferecidas por colegas de profissão na tentativa de aliviar o sofrimento e dar algum tipo de sobrevida a cada um.

É possível que a clássica justificativa recaia então sobre o pai, que “não fez o suficiente”; ou em decorrência da mãe que, na tentativa de se equilibrar, “desassistiu os filhos” ou, ainda, alguma condição mais específica de saúde que tenha se abatido sobre nós e, finalmente, que a perda de alguém quando menos se esperava, tudo isso junto ou isoladamente, acaba colaborando para que nossa autoestima não passe, muitas vezes, do nível do chão.

Entretanto, em meio a essas devastações, uma coisa muito importante, quase que para todos, passa despercebida. A vida irá nos acertar e, portanto, nos privar daquilo que mais apreciamos.

Sorte daqueles que têm a felicidade de tombar em idade mais avançada, pois houve algum tempo para que se pudesse criar um mínimo de estrutura de enfrentamento e podem assim, felizmente, sair mais ilesos, ao contrário que quando a atribulação ocorre mais precocemente. Mas, bem sabemos, dor é sempre dor e independentemente da idade, ficamos desnorteados.

De todas as formas, após anos de trabalho prestando ajuda psicológica, verifiquei que todos os meus pacientes, com raras exceções, saem melhores. Usualmente, relatam se sentirem mais fortes, de alguma forma, mais organizados ou mais centrados e que, raramente, gostariam de voltar a ser como eram antes.

Imagino então que a vida, ao longo do tempo, vai, paulatinamente, nos preparando para o grande período.

khlongwangchao - fotoliaIgual a um violão que precisa ter suas cordas esticadas para produzir a doce melodia, a vida nos prega peças para que também sejamos tracionados, ao máximo, pela nossa história, para que possamos, finalmente, tornar-nos mais aperfeiçoados.

Pelo menos é isso que vejo acontecer, dia após dia e ano após ano. Ninguém passa incólume.

Assim, nesse tabuleiro de nossa existência, a nossa dor estará, na verdade, lapidando em carne viva nosso aprimoramento pessoal.

No fundo, no fundo, não acho saudável que achemos culpados – pois, cada um sempre deu o seu melhor – e, portanto, não importa de quem foi a responsabilidade, mas o que podemos fazer, hoje, para sairmos mais fortalecidos.

Como diz um velho ditado: “não importa o que fizeram conosco, mas o que fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Concluindo, embora bastante polêmico (e paradoxo), tente, de alguma maneira, ser grato pelos seus contratempos, pois eles estão, única e exclusivamente, a seu serviço. Quando assumimos o papel de responsáveis pela nossa vida, entendemos melhor o que a vida faz por nós e não contra nós.

Quando um paciente me conta a sua história, eu sempre me pergunto silenciosamente: afinal, quando será que, de verdade, as pessoas entenderão isso?

Pense a respeito.


Porque sofremos tanto
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

ellagrin - fotolia

ellagrin – fotolia

Curioso notar a quantidade de situações em nosso cotidiano que nos fazem sair do ponto de equilíbrio. Desde as mais simples circunstâncias às mais complexas, sempre haverá um ponto de ligação que é, diga-se de passagem, um dos elementos centrais à manutenção da condição de equilíbrio ou de sofrimento pessoal.

Imagino que você esteja pensando, de fato, “o quê” teria esse poder e que, portanto, precisaria ser rapidamente descoberto, certo?

Bem, asseguro-lhe que essa resposta vale um milhão de dólares, como diriam aqueles programas mais antigos. Todavia, nem precisaríamos gastar tanto, pois o segredo é muito mais simples e, praticamente, não custa quase nada.

O mais provável causador disso tudo é, na verdade, nossa própria cabeça, isto é, nós mesmos e nossa maneira de “pensar” a vida.

Eu explico.

Conglomerados mentais

Entenda que, à medida que crescemos, vamos criando abstrações – que são também chamadas de “crenças” -, a respeito das mais variadas ocorrências do cotidiano. Desenvolvemos interpretações a respeito da vida, do comportamento dos outros e, principalmente, a respeito de como, de fato, pensamos que somos, ou seja, como nos autodefinimos.

Esse processo cria, ao longo do tempo, uma constelação de valores pessoais, altamente idiossincráticos e que são tidos como uma verdade absoluta por cada um.

Dessa forma, basta que uma situação se apresente para que, prontamente, possamos tirar do bolso uma explicação enlatada, “pronta” e que serve de parâmetro para descrever o mundo.

Veja só que curioso: nos casos mais extremos, esse mecanismo quando aparece é batizado pela mídia leiga de “preconceito social”. Alguns exemplos? Vamos lá: branco, negro, gordo, de esquerda, de direita, homo, hetero, do norte, do sul e por aí vai.

Esse aglomerado de opiniões é tão poderoso que, com o passar do tempo, se torna impermeável ao criar uma verdadeira blindagem ao desenvolvimento (e reconhecimento) de novos pontos de vista.

Como funciona?

Segundo um antigo pesquisador americano, Leon Festinger, nossos juízos “se ligam” uns aos outros de uma maneira intensa e acabam por virar uma poderosa lente de interpretação da realidade. Esse processo é tão influente que cria, digamos, quase que vida própria. E essa engrenagem, ao girar, dá início ao que se denomina “consonância cognitiva” em nossa mente.

Explico de novo.

Quando somos expostos a alguma informação que vai ao encontro dessa  teoria pessoal – criando harmonia em nossas ideias -, a informação é validada, aprovada, e então absorvida pelo nosso sistema para que continue a confirmar nossas hipóteses anteriores.

Entretanto, há um “porém”: quando alguma mensagem que nos chega está em desacordo com nossas suposições, podendo criar um estado de “dissonância mental” e colocar em risco a estabilidade geral do sistema, nossa mente, em frações de segundo, invalida o conteúdo e a informação é prontamente rejeitada.

Assim, o que estiver em consonância, é validado e entra em nosso raciocínio, e o que estiver em desacordo, é refutado e sai.

É dessa forma que, segundo o psicólogo italiano Vittorio Guidano, nos tornamos “teorias personificadas de vida”. Teorias que explicam o que deu e o que não deu certo em nossa vida.

willypd - fotolia

willypd – fotolia

Simples assim, mas, ao mesmo tempo, complexo assim.

Eisntein, a este respeito, dizia que: ''é mais difícil quebrar um preconceito (leia-se: uma opinião) do que um átomo”, tamanha é a dificuldade que uma pessoa apresenta, segundo ele, ao se deparar com situações que são contrárias ao seu ponto de vista.

Leitor, tanto é verdadeiro o que eu lhe digo que proponho uma simples constatação: por acaso, você, alguma vez, já viu alguém mudar de posição em uma discussão? É praticamente impossível isso acontecer, pois este tipo de situação apenas serve para tentarmos “convencer” o outro a respeito da verdade de nosso ponto de vista, ou seja, dificilmente alguém entra em uma conversa para ouvir o outro lado, mas sim, para provar seu ponto de vista.

O problema

Ocorre então que, ao longo do tempo, estamos, – o tempo todo -, tentando nos proteger e, mais ainda, preservar esse sistema interno de significado das suposições contrárias a nós e que possam criar risco ao ultrapassar essa barreira mental, o que pode criar desconforto psicológico.

É por esta razão que as pessoas de direita, por exemplo, cada vez mais serão aficcionadas às suas posições; as de esquerda, por outro lado, cada vez mais convictas de seus princípios etc. Nossa história política recente foi o tema das mais variadas situações de desavença pessoal que já pude ver (e ninguém no final das contas, mudou de opinião) e várias amizades foram rompidas por conta disso.

Vejo isso às centenas ao longo de minha vida profissional, ou seja, pessoas que chegam a um estado de aflição psicológica, pois vivem situações que forçam os limites de suas explicações (crenças) e assim ficam em risco de instabilidade emocional.

O que fazer?

Assim, para se proteger dessas armadilhas mentais, eu sugiro:

1. Procure prestar atenção aos conteúdos de seus pensamentos;

2. Pergunte-se se, efetivamente, essas opiniões refletem aquilo que você próprio – de verdade – pensa a respeito. Posso lhe assegurar que a grande maioria das coisas não são nossas, mas tomadas emprestadas como verdadeiras ao longo da vida;

3. Ao fazer isso, você irá perceber que, após uma análise um pouco mais cuidadosa, a maioria de nossas opiniões dificilmente se sustenta e que “mudar”, no final das contas, não nos diminui enquanto pessoas, mas, pelo contrário;

E, finalmente:

4. Desenvolva uma expectativa zero sobre a vida, sobre você mesmo e, principalmente, sobre o comportamento dos outros. Desconstrua aquilo que pensa a respeito (e espera) do entorno, pois há centenas de verdades que são possíveis.

Humberto Maturana, importante biólogo chileno dizia: “Não existe um universo, mas sim, multiversos”, ou seja, tantos quantos forem possíveis ser imaginados.

Portanto, quanto menor for a expectativa a respeito das coisas, mais livre nos sentiremos para ser, sem receios, inquietudes ou dilemas.

Nem de longe estou sugerindo uma vida “sem valores”, longe disso, mas uma existência que esteja mais em consonância com a nossa vida interna e emocional.

Não precisamos de tanto dinheiro, de tantas realizações, de tantos feitos para que possamos, finalmente, nos apreciar. Afinal, tudo são crenças que precisam apenas ser novamente reavaliadas.

Pense nisso.

Liberdade é quando não nos sentimos mais controlados pelas falsas concepções.


Videogames podem ser bons ao cérebro das crianças
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

contrastwerkstatt - fotolia

contrastwerkstatt – fotolia

Como você já deve ter percebido, a tecnologia invadiu, de maneira quase irreversível, vários aspectos de nossa vida. E, no que diz respeito à recreação dos pequenos, as coisas não poderiam ter sido muito diferentes.

Ainda que eu mesmo, várias vezes, tenha denunciado os efeitos negativos sobre o comportamento humano, um novo estudo procurou debruçar-se sobre a eventual relação entre a quantidade de tempo gasto nos games e as possíveis consequências sobre as habilidades cognitivas e sociais das crianças.

A investigação foi feita em cinco diferentes países da Europa e contou com uma amostra de mais de três mil crianças, ou seja, um número bem expressivo.

O resultado: jogar videogame pode, sim, criar possibilidades positivas.

Pesquisadores descobriram que o uso desses jogos propiciou um aumento das possibilidades (1,75 vezes) de desenvolvimento de um melhor funcionamento intelectual e um aumento (1,88 vezes) nas chances de se expandir a competência global na escola. (1)

Outro achado: descobriu-se que mais tempo gasto nos videogames foi associado a menos problemas de relacionamento com seus pares.

Importante destacar, entretanto, que apenas 20% da amostra jogava mais do que 5 horas por semana, ou seja, ao contrário do que vemos acontecer em muitas casas, onde há uma imensa dificuldade de se dar limites às crianças e aos adolescentes (que chegam a ficar “horas por dia”), uma exposição adequada pode promover o desenvolvimento de lazer colaborativo entre os filhos, afirmam os pesquisadores.

Portanto, os resultados devem sim ser comemorados, todavia, fique sempre de olho para o “quanto” desse uso deva ser permitido e, mais que isso, “sob quais condições” ele deverá ocorrer, pois essa é a linha divisória entre o benefício e o prejuízo (leia-se: para que não vire um problema).

Infelizmente, a “definição dos limites” de quando esse uso se torna prejudicial ainda é um problema entre os pais e educadores.

Como diz um velho ditado, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Portanto, fiquem atentos.

© michaeljung - Fotolia.com

© michaeljung – Fotolia.com

Recomendações

a) Antes do acesso, procure verificar se o jogo é adequado à faixa etária de seus filhos;

b) Estabeleça um horário e um tempo de uso. Evite deixar o videogame com um acesso livre às crianças. Por exemplo, de 45 minutos a uma hora pode ser uma opção, dependendo da idade.

c) Preferencialmente, cuide para que a utilização ocorra antes do jantar e jamais antes de a criança ou o adolescente se deitarem. Além do sono ser prejudicado pela ansiedade gerada pelo jogo, a consolidação da memória do que foi aprendido na escola pode ficar seriamente comprometida; (2)

d) Acompanhe vez ou outra a experiência de seu filho durante o jogar, sentando, por exemplo, ao lado dele. Isso lhe permitirá, enquanto cuidador, “sentir” qual a mensagem que está sendo passada à criança e, além disso, ao conversar com ela a respeito (em vez de proibir), essa atitude colabora com a criação de uma consciência mais crítica na criança ou no adolescente;

e) Proponha atividades ao ar livre, onde os pais possam ativamente estar presentes. De nada adianta restringir o uso, se a criança ou o adolescente não vislumbra alguma alternativa de entretenimento e, finalmente;

f) Lembre-se que o exemplo que parte do comportamento dos pais é, de longe, um dos mais poderosos meios de modelar e influenciar o comportamento dos pequenos.

 

Referências

(1) http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00127-016-1179-6

(2) http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2016/04/11/efeitos-do-uso-excessivo-da-internet-e-dos-videogames-sobre-a-memoria/


Segunda-feira: A psicologia por trás do pior dia da semana
Comentários Comente

Dr. Cristiano Nabuco

kieferpix - fotolia

kieferpix – fotolia

É, de fato, comprovável que a grande maioria das pessoas descreve um sentimento não muito agradável assim que o final de semana chega ao seu fim e, principalmente, às segundas-feiras pela manhã, quando nossa jornada de vida – quer gostemos ou não – precisa ser reiniciada.

Não sei bem ao certo a razão de tal desassossego, mas é possível que nos finais de semana consigamos “desfocar” um pouco as coisas que não caminham bem e, por um pequeno espaço de tempo – dois dias, para sermos mais exatos -, podemos nos desconectar de nossas inquietudes, ao criarmos uma distância segura daquilo que efetivamente não nos faz bem e, finalmente, experimentar um pouco de alívio e de felicidade, ainda que de maneira transitória.

Vamos lembrar que é então no primeiro dia da semana, usualmente, o ponto marcado para o retorno ao trabalho. Momento em que somos obrigados, novamente, a subir no carrossel de nossa vida e, com ele, tentarmos nos estabilizar das oscilações inerentes ao cotidiano, quando também nossa consciência da falta de motivação e de sentido nos é devolvida. É como se, às segundas feiras, portanto, a realidade (nua e crua) nos fosse, a cada nova semana, descortinada, de uma só vez e pronto.

Mas, se isso lhe causa alguma inquietude, fique tranquilo, pois isso não ocorre apenas com você.

Em um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Sidney, na Austrália, um grupo de pessoas foi convidado a descrever como estavam se sentindo durante sete dias, em um determinado momento específico. (1)

No oitavo dia, ou seja, uma semana depois, eles foram indagados a respeito de como se lembraram de seus sentimentos em relação a cada dia vivido na semana anterior. Ocorre que, muito embora os relatos não indicassem lá muitas diferenças em relação à passagem do tempo, as pessoas se lembravam da segunda-feira como o pior dia de sua semana.

Mais estresse

Caso você ache que o efeito segunda-feira é apenas uma impressão, saiba então que alguns estudos têm demonstrado que, neste dia de retorno “à vida”, por assim dizer, há um aumento expressivo de estresse físico e mental gerando, possivelmente, as maiores incidências de infarto agudo do miocárdio. (2)

Isso nos faz pensar então que ao longo da semana, quando as engrenagens da vida giram, nossas necessidades subjetivas de bem-estar não podem (ou não são) tão satisfeitas como, por exemplo, conseguimos nos finais de semana.

Assim, em oposição aos dias de trabalho, aos sábados e aos domingos é como se, enfim, tivéssemos um pouco de tempo para nós mesmos (seja lá o que façamos com ele), todavia, apenas a perspectiva de manejo das situações melhores nos devolve a sensação de estarmos no controle de nossa vida. Portanto, é durante esses dois dias que nossa vitalidade volta a subir, nosso humor tende a oscilar menos, transmitindo-nos a noção de que as coisas são, de fato, mais satisfatórias do que em nosso cotidiano.

schinsilord - fotolia

schinsilord – fotolia

Uma outra pesquisa, que vale a pena ser citada, complementa nossa discussão: é nos finais de semana que nossas necessidades psicológicas voltam a ser preenchidas, isto é, durante esse curto período é que retomamos nossa autonomia psicológica, sentindo mais energia, vitalidade e, finalmente, mais espaços para relaxamento.

Tudo isso, porque, ao longo da semana, somos obrigados a fazer coisas que não estão sob nosso controle e, além disso, pesam sobre nós as demandas exageradas de performances, quando temos que nos relacionar com pessoas de quem não gostamos muito, o que aumenta de maneira exponencial o nosso senso de impotência e de incapacidade pessoal. (3)

Paradoxalmente, as percepções de “competência” que supostamente aumentariam no ambiente de trabalho, também não aumentam, pois são maiores em finais de semana, afirmam os pesquisadores. Além de que, durante os dias laborais, maiores foram os registros de sintomas físicos de desconforto como dores de cabeça, tontura e falta de vigor mental, por exemplo.

A investigação indicou que esse período de maior insatisfação começa a terminar às sextas-feiras à noite e vai até o domingo à tarde, quando então começamos novamente a declinar em nosso humor.

Assim eu pergunto: a segunda-feira seria, de fato, o pior dia da semana ou existiria algum componente adicional psicológico que torna esse dia, especificamente, um pouco pior?

A resposta é clara. Pensemos juntos.

Caso você desconheça, saiba então que desenvolvemos dois tipos de representações mentais em relação à passagem do tempo. Um, para os ''comuns'' (mais especificamente para a segunda-feira, que é o início) e outro para os finais de semana. Todos determinados por uma constelação de conceitos associados às características de um determinado dia ou período.

Fotolia - milanmarkovic78

Fotolia – milanmarkovic78

Desse ponto de vista, as representações mentais que englobam os dias que vão de segunda a sexta-feira são afetivamente negativos, enquanto que nos finais de semana carregam representações mais ricas e efetivamente positivas.

O que chamamos de “representações”, na verdade, nada mais são do que crenças a respeito de que viveremos nos dias da semana, como mais déficit de sono, mais insatisfação laboral, trânsito, frustração, alimentação incorreta, incompetência pessoal, além de outros fatores que afetam diretamente o bem-estar geral de uma pessoa.

Bem, e no final de semana, sabe o que dizem as pesquisas sobre as representações mentais? Dizem apenas e tão somente que a vida “se ilumina”.

Resumo

Estudos demonstraram que os ciclos temporais naturais (dias, meses, anos) possuem, sim, muito mais influências psicológicas do que imaginaríamos. Os achados de várias investigações demonstram que os ciclos temporais são, na verdade, socialmente construídos e também podem moldar nosso pensamento e nosso padrão de felicidade e de realização. (4)

Assim sendo, é possível que a segunda-feira tenha assumido o papel de bode expiatório ao nos lembrar que há, lá no fundo, uma infinidade de pendências pessoais que, simplesmente, não são ou ainda não foram resolvidas e que, ao nos esquivarmos delas, ingenuamente corremos em direção ao final de semana – como um filho que busca o colo protetor de sua mãe -, para que, sob as influências dos sábados e dos domingos, possamos estar mais protegidos das mazelas da vida.

Essa é uma das várias possibilidades de interpretação que está por trás do pior dia da semana.

Se tudo é, portanto, derivado de uma ''construção pessoal'', que tal tentarmos algumas alternativas de enfrentamento?

Pense a respeito.

Referências

(1) http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1559-1816.2008.00353.x/abstract

(2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19345426

(3) http://selfdeterminationtheory.org/SDT/documents/2010_RyanBernsteinBrown_Weekends_JSCP.pdf

(4) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4544878/