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Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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Por que às vezes temos crises psicológicas? Entenda mais sobre elas

Dr. Cristiano Nabuco

19/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Tão velha como a história da humanidade, talvez seja a história da crise psicológica. Desde o momento em que nos tornamos inteligentes, a consciência de que "algo" dentro de nós não vai bem sempre nos acompanhou. Registros bíblicos, bem como no Alcorão, já apontaram junto aos primeiros seres humanos a manifestação de questões que teriam assolado nosso espírito e nos colocado em estado de desequilíbrio.

Ter comido o fruto proibido fez com que Adão e Eva fossem expulsos do Jardim do Éden e, assim, ao que tudo indica, ter se tornado mais lúcido criou uma consequência impactante.

Muito embora existam algumas centenas de explicações derivadas das teorias da psicologia moderna, eu creio que aprender a manejar os momentos de crise seja uma das habilidades mais importantes para assegurar nosso equilíbrio emocional.

Mas, em primeiro lugar, o que é uma crise?… A palavra "crise" deriva do grego Krisis que em português significa: decisão, distinção, separação. Isto é, a crise se manifesta sempre que há necessidade de alguma mudança ou decisão a ser tomada.

Sentir ou não sentir?

Em termos bem simplistas, eu diria que vivemos uma adversidade psicológica ou uma crise quando nosso pensamento não consegue explicar aquilo que sentimos. Vamos novamente: sempre que nossas emoções não conseguem ser interpretadas claramente pela nossa lógica pessoal, saímos momentaneamente de nossa zona de conforto, ficando em descontrole.

Como nosso sistema de valores e crenças vai sendo construído desde que somos muito pequenos, lidar com circunstâncias que negam (ou anulam) nossa lógica interna, torna-se perigoso, pois coloca em risco nossa integridade emocional.

Já imaginou ter que viver sentindo coisas que não podem ser explicadas?… Possivelmente nos tornaríamos confusos e perdidos. Assim, sempre buscamos as situações que nos são previsíveis e que não confrontam nossas premissas mais básicas e que faz com que evitemos os momentos de contrariedade e vulnerabilidade.

Por isso, sempre que somos visitados pelas emoções desconfortáveis, primariamente fugimos das situações que as evocam e simplesmente procuramos não pensar nas coisas, como que nos anestesiando momentaneamente para poder ter tempo de acomodar as novas informações. Muitas vezes, como não conseguimos controlar ou compreender os sentimentos, tentamos exercer algum controle sobre o meio ambiente como forma de reduzir o mal-estar sentido (comprando exageradamente, bebendo em excesso, apenas para enumerar dois exemplos).

Como a realidade externa muda mais rápido do que nossa capacidade de nos adaptar a ela, uma crise psicológica apenas indica que nossos valores e crenças estão atrasados (ou desatualizados) e que precisariam ser urgentemente revistos.

Mudar ou não mudar?

Outro elemento muito presente na crise psicológica é a confrontação com as situações de mudança imediata. Ter a consciência de que "algo" não vai bem seria um passo adiante das situações anteriormente descritas em que nem temos ainda a percepção do que nos faz mal. Entretanto, é nesta fase que muitas pessoas simplesmente batem em retirada, esquivam-se das perguntas sem respostas, pois não conseguem estruturar mentalmente como seria sua vida após o período de modificação.

Nesse momento, não é raro nos depararmos com indivíduos que adentram em uma condição de impasse psicológico e vivem assim por anos a fio, apesar de seu entendimento, ficam sem se mobilizar na direção desejada. Esses são os candidatos mais indicados a uma psicoterapia, entretanto, são os que mais se esquivam dela.

Seria simples esse processo?

Ingenuidade de quem acha ser fácil mudar. Engana-se quem acredita que transformar nossa lógica ou entrar em contato com nossas verdadeiras emoções seja um processo simples e indolor. Einstein, a este respeito, certa vez afirmou ser mais fácil desintegrar um átomo do que mudar a opinião de alguém.

Assim, um dos aspectos que mais denota a maturidade emocional é a capacidade de aprendizagem de cada um. Lidamos cotidianamente com pessoas que são impactadas por circunstâncias prejudiciais e sofrem por longos períodos, pelos mesmos motivos e, definitivamente, não mudam. Insistem em continuar pensando da mesma forma e reagindo sempre da mesma maneira. Einstein novamente colabora aqui com outra premissa, ao dizer que muitas pessoas comportam-se sempre da mesma forma, mas que esperam, na verdade, resultados diferentes.

Outros indivíduos, entretanto, com maior capacidade de mudança, mais maduras e sensatas, para elas lhes servem apenas poucas ocorrências desfavoráveis para que a lição seja, de uma vez por todas, aprendida. Para estas últimas, a crise se apresenta como uma nova oportunidade de crescimento, enquanto que para as primeiras, apenas sofrimento.

Conclusão

Desta maneira, em vez de nos defendermos das crises e dos momentos de dor, deveríamos, na verdade, agradecer aos acontecimentos desastrosos, pois é apenas a partir deles que temos a possibilidade de rever nossa estrutura e nos tornarmos mais robustos. Flertar com o abismo e com o desconforto emocional, embora muitas vezes desgastante, nos possibilita considerar a vida a partir de outras premissas não consideradas.

E, o mais importante, nunca tenha receio de tomar decisões.

Nossa vida é semelhante à natureza, isto é, momentos de expansão que são intercalados por momentos de recolhimento, a exemplo das estações do ano. Assim, em certas fases nos tornamos mais introvertidos e recolhidos, enquanto que em outras ficamos mais ágeis para as decisões e o enfrentamento.

Agradeça, portanto, seus momentos de angústia, pois neles é que você tem o privilégio de poder rever-se. Ao invés de fugir e se esquivar, pergunte-se sempre: o que a situação negativa presente está tentando me ensinar?… Ou ainda: o que eu, efetivamente, estou evitando aprender?…

Perceba que os dilemas que sofremos são muito semelhantes, ou seja, nossas dificuldades se apresentam sempre muito parecidas nos momentos distintos, mas sempre com as mesmas bases. Assim, não espere que uma crise maior lhe visite para que você inicie seu processo de transformação interna.

"A mente que se abre a nova ideia jamais voltará ao tamanho original", Einstein.

Sobre o autor

Cristiano Nabuco é psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental.

Sobre o blog

Neste espaço, são discutidas ideias e pesquisas sobre comportamento humano, psicologia e, principalmente, temas que se relacionam ao cotidiano das pessoas. Assuntos centrais na construção de nossa autoestima, felicidade e vida. Seja bem-vindo(a)!