Dr. Cristiano Nabuco

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Afinal, quando será?…
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Dr. Cristiano Nabuco

tugolukof - fotolia

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Ao longo de minha vida profissional como psicólogo, tenho observado as mais diversas histórias de vida que me chegam, todos os dias, para que eu possa, de alguma maneira, prestar um pouco de auxílio.

São pacientes que, inevitavelmente, trazem memórias de sofrimento e que, a certa altura, correm o risco de sucumbir em função da intensidade de sua dor.

Alguns, em condição mais aguda, chegam tão desorientados que, antes mesmo de caminhar em alguma direção mais específica, nada é mais importante do que apenas e tão somente lhes estender a mão e assegurar-lhes que não estarão mais sozinhos.

E assim, dia após dia e ano após ano, tenho o privilégio de ser um tipo de testemunha ocular da roda da vida que gira para cada um e que, impiedosamente, vai provocar algum tipo de desequilíbrio pessoal.

Em muitas dessas histórias, apenas para dar um exemplo, a adversidade começa desde cedo. São pessoas que advêm de famílias desestruturadas e que o convívio precoce com a instabilidade as deixa com sequelas profundas que, ainda em estado infantil, nada podem fazer. Apenas se resignar.

Para outras, o aborrecimento aparece na adolescência e, quando se pensava que tudo ia bem, o carrossel da vida faz um vigoroso movimento para baixo e, sem que esperasse, a queda é inevitável, criando efeitos bastante desastrosos.

E, finalmente, caso tenhamos passado incólumes até a maioridade, não se anime muito, a vida adulta ou a velhice lhe apresentará alguma(s) adversidade(s) bastante profundas.

Resumo da ópera: um dia as coisas desandarão, é apenas uma questão de tempo.

Por favor, não se aborreça comigo, pois nem de longe quero ser um dos cavaleiros do Apocalipse, mas é fato, sempre acaba por acontecer.

Após 30 anos de trabalho na prática clínica, tenho visto algumas centenas de interpretações que gentilmente são oferecidas por colegas de profissão na tentativa de aliviar o sofrimento e dar algum tipo de sobrevida a cada um.

É possível que a clássica justificativa recaia então sobre o pai, que “não fez o suficiente”; ou em decorrência da mãe que, na tentativa de se equilibrar, “desassistiu os filhos” ou, ainda, alguma condição mais específica de saúde que tenha se abatido sobre nós e, finalmente, que a perda de alguém quando menos se esperava, tudo isso junto ou isoladamente, acaba colaborando para que nossa autoestima não passe, muitas vezes, do nível do chão.

Entretanto, em meio a essas devastações, uma coisa muito importante, quase que para todos, passa despercebida. A vida irá nos acertar e, portanto, nos privar daquilo que mais apreciamos.

Sorte daqueles que têm a felicidade de tombar em idade mais avançada, pois houve algum tempo para que se pudesse criar um mínimo de estrutura de enfrentamento e podem assim, felizmente, sair mais ilesos, ao contrário que quando a atribulação ocorre mais precocemente. Mas, bem sabemos, dor é sempre dor e independentemente da idade, ficamos desnorteados.

De todas as formas, após anos de trabalho prestando ajuda psicológica, verifiquei que todos os meus pacientes, com raras exceções, saem melhores. Usualmente, relatam se sentirem mais fortes, de alguma forma, mais organizados ou mais centrados e que, raramente, gostariam de voltar a ser como eram antes.

Imagino então que a vida, ao longo do tempo, vai, paulatinamente, nos preparando para o grande período.

khlongwangchao - fotoliaIgual a um violão que precisa ter suas cordas esticadas para produzir a doce melodia, a vida nos prega peças para que também sejamos tracionados, ao máximo, pela nossa história, para que possamos, finalmente, tornar-nos mais aperfeiçoados.

Pelo menos é isso que vejo acontecer, dia após dia e ano após ano. Ninguém passa incólume.

Assim, nesse tabuleiro de nossa existência, a nossa dor estará, na verdade, lapidando em carne viva nosso aprimoramento pessoal.

No fundo, no fundo, não acho saudável que achemos culpados – pois, cada um sempre deu o seu melhor – e, portanto, não importa de quem foi a responsabilidade, mas o que podemos fazer, hoje, para sairmos mais fortalecidos.

Como diz um velho ditado: “não importa o que fizeram conosco, mas o que fazemos com aquilo que fizeram de nós”.

Concluindo, embora bastante polêmico (e paradoxo), tente, de alguma maneira, ser grato pelos seus contratempos, pois eles estão, única e exclusivamente, a seu serviço. Quando assumimos o papel de responsáveis pela nossa vida, entendemos melhor o que a vida faz por nós e não contra nós.

Quando um paciente me conta a sua história, eu sempre me pergunto silenciosamente: afinal, quando será que, de verdade, as pessoas entenderão isso?

Pense a respeito.


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