Dr. Cristiano Nabuco

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Beleza e confiabilidade: o velho equívoco do cérebro
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Dr. Cristiano Nabuco

lettas - fotolia

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A certa altura da vida, naturalmente se aprende a olhar além das aparências. À medida que o tempo passa, compreendemos que aquilo que nossos olhos nos dizem pode não ser tão verdadeiro, principalmente no que diz respeito à imagem pessoal de alguém e descobrimos então ser necessário ir um pouco mais além.

Embora a maturidade nos ajude bastante, psicólogos já sabem que a visão que desenvolvemos de uma pessoa pode não ser decorrente apenas e tão somente de nossas interpretações, mas profundamente influenciada por nosso cérebro primitivo.

E, caso ainda você não tenha se dado conta, fique então ciente de que nossas preferências por certas pessoas estarão, de alguma maneira, atreladas àquelas que nos parecem mais atraentes.

Pode parecer algo bem superficial, não acha? Mas, na realidade, não é.

Muitos estudos de psicologia já haviam provado a existência do chamado “estereótipo de beleza”, isto é, pessoas mais bonitas são tidas por seus pares como mais inteligentes, mais sociáveis e, finalmente, mais bem-sucedidas.

É dessa forma que as pessoas se valem de certos sinais faciais para, automaticamente, poder fazer julgamentos a respeito do caráter de alguém – o que, diga-se de passagem, é uma parte crucial do funcionamento social.

Aristóteles, a esse respeito, dizia: “A beleza é a melhor carta de recomendação.”

Esse fenômeno tem em sua base uma de nossas tendências biológicas mais ancestrais ao compreender que uma pessoa mais atraente possivelmente será mais saudável e, portanto, com menos risco de carregar e/ou transmitir as doenças que tantas vidas dizimaram nos primórdios de nossa existência. Em épocas em que o conhecimento era escasso e a sobrevivência crucial, formar impressões imediatas a respeito de terceiros pode ter se revelado de grande importância.

De qualquer forma, mesmo que tenhamos avançado bastante no tempo, ainda carregamos essa predisposição.

Veja só: Em um estudo que acaba de ser publicado na revista Frontiers in Psychology, pesquisadores descobriram que as crianças também atribuem o grau de confiabilidade a alguém em decorrência direta de seu grau de atratividade. Ou seja, constatou-se que também para os pequenos, quanto menos atraente uma pessoa for, menos confiável ela parecerá ser. (1)

O estudo avaliou 138 crianças com idade variando entre 8 e 12 anos quando, no experimento, lhes foram apresentadas 200 imagens de rostos masculinos – todos eles com uma expressão neutra e com um olhar direto.

Na primeira exposição, a cada um foi mostrada uma dessas faces, e onde se pediu que avaliassem o quão confiável eles achavam que essa pessoa poderia ser.

Depois de um mês, seguiu-se uma segunda sessão de apresentações onde agora lhes fora pedido que classificassem a atratividade desses mesmos rostos.

Ao analisar as respostas, encontrou-se uma forte correlação entre os dois traços, ou seja, as faces consideradas as mais confiáveis foram também aquelas tidas como as mais atraentes pelas crianças – relação esta que foi se intensificando com a idade.

Moral da história: ainda que o tempo tenha passado e sejamos muito mais conscientes que nossos irmãos primitivos, adultos ou crianças, a atratividade de uma pessoa ainda é inconscientemente percebida como uma forte indicação de seu caráter.

Seria bom, portanto, que fôssemos mais conscientes dessas tendências biológicas e, ao tomar consciência disso, que nossa opinião não fosse tão determinada pelas impressões de beleza física de alguém. E, como dizia aquele velho ditado: “não julgue um livro por sua capa”.

Referência

http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2016.00499/full


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