Dr. Cristiano Nabuco

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Como o cérebro dos adolescentes reage às mídias sociais
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Dr. Cristiano Nabuco

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Podem dizer o que for, mas simplesmente não há como negar que a vida digital e, principalmente, o acesso frequente aos sites de mídia social (como o Facebook e Instagram, por exemplo) exerce uma poderosa influência sobre a saúde mental de todos, sobretudo no que diz respeito aos usuários adolescentes.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Los Angeles, tendo esta preocupação em mente, realizaram um estudo para determinar o que ocorre com os circuitos cerebrais dos jovens quando postam conteúdo nas redes sociais.

Assim, ao tomar por base o tempo gasto pelos adolescentes nessas plataformas, que podem variar de oito a dezoito horas por dia – mais do que o tempo destinado, inclusive, ao sono -, este hábito pode vir a influenciar o cérebro dos jovens, ainda em processo de desenvolvimento. (1)

O experimento

Cerca de 32 adolescentes, com idades variando entre 13-18, foram informados de que estariam navegando em uma pequena rede social, semelhante ao aplicativo que compartilha fotos, o conhecido Instagram.

Desta forma, os pesquisadores apresentaram a cada um dos participantes um total de 148 fotografias, incluindo 40 fotos que cada jovem havia selecionado, enquanto que, simultaneamente, era avaliada a atividade cerebral individual através da ressonância magnética funcional. (2)

Importante dizer que junto a cada foto também era exibido o número de “likes” que cada uma delas havia recebido de outros participantes, mas que, na verdade, era falso, pois havia sido manipulado de forma positiva pelos pesquisadores a indicar que haviam sido bem aceitas pelos demais.

O resultado mostrou que quando os jovens viam suas próprias fotos com um grande número de “likes”, o núcleo accumbens – que faz parte do circuito de recompensa do cérebro-, era fortemente ativado, isto é, ao perceberem maiores níveis de aprovação social, o cérebro reagia de maneira semelhante a quando se come chocolate ou se ganha dinheiro, por exemplo.

Na sequência, os pesquisadores perguntavam aos adolescentes quais fotos eles haviam “mais gostado”. E, adivinhe quais foram as escolhidas? Exatamente aquelas que receberam maior aceitação social – mostrando claramente a tendência de influência do grupo sobre o comportamento individual.

Um dado relevante: fotos que haviam sido postadas por outros, mas que exibiam algum tipo de comportamentos de risco, se bem avaliadas pelos demais (isto é, também indicadas com mais “likes”), surpreendentemente eram também enaltecidas por cada um, claramente demonstrando a preocupação em ficar em sintonia com a opinião geral, o que foi também responsável por uma menor ativação das redes neurais de controle cognitivo.

 A conclusão

Ficaram evidentes algumas coisas: que os jovens reagiam de forma diferente aos estímulos quando eles acreditavam que os mesmos eram endossados pela maioria de seus pares, ainda que esses “amigos”, por assim dizer, lhes fossem completamente estranhos.

O sentimento de valorização também demonstrou uma forte ativação cerebral nas áreas de recompensa e de prazer (semelhante ao que é observado em outros vícios, inclusive).

E, finalmente, a perda momentânea dos juízos de valor.

Todos esses elementos combinados, em parte, podem se tornar uma das razões pela qual postar fotos pessoais e acompanhar a oscilação do grau de aprovação ao longo do dia (olhando de maneira compulsiva os tablets e celulares) pode ser um dos mecanismos da dependência ou vício à tecnologia, inclusive, tornando mais clara a razão porque os faz gastar um tempo precioso de sua vida apenas checando as telas e desconsiderando o entorno.

E fica aqui, portanto, uma importante pergunta: Os pais deveriam estar preocupados com a influência das mídias sociais, não apenas em relação ao tempo gasto (como se isso já não fosse o bastante), mas igualmente pela interferência negativa dos exemplos de terceiros?

Sim, seguramente (e talvez os videogames, com sua natural exaltação à violência, não sejam, individualmente, os grandes modeladores dos comportamentos de risco).

Assim, muito parecido com outros meios, ambientes sociais (e agora também digitais) têm características positivas e negativas, todavia, muitas vezes, além dos aspectos já bem conhecidos, pessoas que não são de convivência próxima aos nossos filhos podem ser, de maneira silenciosa, determinantes na formação de atitudes e da personalidade, ao fazer com que os jovens, ainda em processo de formação, muitas vezes, adotem ações pouco saudáveis, mas que evoquem grande repercussão social.

Portanto, é bem possível que o cérebro dos adolescentes, frente às mídias sociais, precisem, efetivamente, ser mais acompanhados.

 

Referencias

1) http://www.usatoday.com/story/news/nation/2015/11/03/teens-spend-more-time-media-each-day-than-sleeping-survey-finds/75088256/

2) http://pss.sagepub.com/content/early/2016/05/24/0956797616645673.abstract

 


Cérebro: quanto mais aprendemos, menos sabemos
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Dr. Cristiano Nabuco

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Esse é um dos grandes paradoxos quando o assunto é o estudo do cérebro.

Ainda que os cientistas sejam capazes de estudar o funcionamento dos neurônios e das redes de neurônios, eles ainda não conseguem ter uma boa compreensão do quadro geral, de onde situar todas as informações.

Não sei se é de seu conhecimento, mas existem aproximadamente 100 bilhões de neurônios responsáveis por quase 1 (um) trilhão de conexões neurais. Pesquisadores tentam estudá-los individualmente, ou ainda em pequenos grupos, mas a tarefa parece estar longe de ser conclusiva.

“Talvez o maior desafio”, afirma o neurocientista Rafael Yuste, “é que as funções cerebrais podem ser vistas a partir de tantas possibilidades como, por exemplo, partindo dos impulsos elétricos, passando pela bioquímica, pela estrutura física e chegando às redes entre os níveis, que a compreensão global torna-se praticamente impossível”.

Das muitas metáforas usadas para se compreender nosso cérebro, a ideia de “mapa” ainda é provavelmente a mais útil, talvez porque essa forma de representação nos seja mais familiar como maneira de se obter uma boa visualização.

“Há um século, os mapas cerebrais eram como mapas da superfície da Terra, do século 16″, disse David Van Essen, pesquisador. E complementa: “Nessa época, grande parte era desconhecida ou ainda erroneamente delineada, mas agora nossas caracterizações são um pouco mais reais, ou seja, algo parecido com um mapa do século 18”.

Se você acha isso rudimentar, eu lhe diria que há mais de 40.000 cientistas tentando compreender nosso cérebro a partir do “Human Connectome Project” – um consórcio de universidades americanas apoiado pelo Instituto Nacional de Saúde do mesmo país, que tem como objetivo criar uma descrição interativa das conexões do cérebro. (1,2)

Assim, cada forma de olhar para nossas conexões revela segredos cada vez mais surpreendentes, mas o quadro total e completo do cérebro humano ainda parece estar fora do alcance da ciência, acredita-se.

Mas, voltando à metáfora dos mapas como forma de representar nosso cérebro, dizem os pesquisadores que apenas agora começa a ficar mais claramente delineado o grau de conhecimento relativo aos continentes, cadeias de montanhas e rios. A grande esperança é que o ”Human Connectome Project” possa avançar expressivamente através dos séculos 19 e 20 e, finalmente, consiga nos oferecer algo mais parecido com o que conhecemos hoje por Google Maps – uma descrição altamente interativa e pormenorizada de nosso entorno físico, mas a partir das estruturas cerebrais.

E, já que falamos em cérebro, quer saber uma das mais importantes descobertas do ano passado?…

O cérebro pode ser afetado pelo seu intestino

Pois é, a primeira vista, pode parecer bem estranho, mas essa é uma das grandes conclusões que levam a uma mudança importante nos paradigmas de estudos. (3)

Mas, voltando à questão: o que isso teria a ver com nosso cérebro?…

Eu explico.

Por caminhos ainda não compreendidos, a nossa microbiota (flora intestinal) é capaz de modificar nosso funcionamento cerebral. Acredita-se que essa influência se dê por substâncias que são liberadas pelas bactérias como, por exemplo, a serotonina, que, produzidas por nosso próprio intestino em resposta às bactérias existentes, caem na corrente sanguínea e, ao chegar ao cérebro, modifica-o e, consequentemente, interfere em nosso estado emocional.

Como cada pessoa tem um conjunto próprio de espécies de fungos e bactérias vivendo em seu corpo, uma vez que cada mucosa tem sua fauna individual, aspectos ambientais como, por exemplo, com quem você vive, se há animais em casa, o que come, podem vir a interferir em seu funcionamento mental.

“Isso abre uma maneira completamente nova de olhar para o funcionamento do cérebro, bem como reformula o conceito de saúde e de doença,” afirmou o professor de medicina e psiquiatria Dr. Emeran Mayer. (4)

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado uma ligação positiva entre as variações nos micróbios do intestino junto aos quadros de autismo, depressão e ansiedade. Assim sendo, neste momento os neurocientistas tentam desenvolver uma compreensão mais aprofundada de como esse sistema não apenas exerce uma influência, mas também como afeta o desenvolvimento das atividades cerebrais. (4, 5, 6)

Para concluir, eu diria que, muito embora ainda estejamos engatinhando em nossas investigações, espero que o futuro possa nos trazer renovados conhecimentos e que as pesquisas científicas possam abrir, cada vez mais, a porta para uma vida emocional equilibrada, estável e duradoura.

 

Referências

  1. http://www.neuroscienceblueprint.nih.gov/connectome/
  2. http://www.loni.usc.edu/
  3. http://www.nature.com/news/gut-brain-link-grabs-neuroscientists-1.16316
  4. http://www.npr.org/blogs/health/2013/11/18/244526773/gut-bacteria-might-guide-the-workings-of-our-minds
  5. http://www.scientificamerican.com/article/gut-bacteria-may-play-a-role-in-autism/
  6. http://www.scientificamerican.com/article/gut-bacteria-may-exacerbate-depress/

Como a terapia cognitiva pode mudar seu cérebro
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Dr. Cristiano Nabuco

© Warakorn - Fotolia.com

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Já não é de hoje que sabemos a respeito da importância de se fazer uma “boa” psicoterapia em certas fases ou momentos de vida. Muito embora exista atualmente um número bastante expressivo de abordagens disponíveis no mercado (mais de 850 em uma última contagem), algumas delas frequentemente são mais estudadas e, por isso, amplamente testadas em relação à sua eficácia terapêutica.

Nesse sentido, algumas linhas são consideradas mais indicadas em função de sua eficácia (capacidade de mudança), efetividade (duração da mudança) e, finalmente, por sua rapidez. Segundo uma publicação internacional intitulada “Evidências Clínicas” – um manual comparativo das variadas intervenções, – a terapia cognitiva é, segundo pesquisas, denominada como padrão-ouro e recomendada como a primeira opção de tratamento em quase 85% dos transtornos psiquiátricos.

O que é a terapia cognitiva?

Essa abordagem tem uma premissa central de que não são as situações que causam nossos problemas cotidianos, mas sim a forma como enxergamos as coisas. Eu explico: um dos pontos centrais que estão presentes nos períodos de desequilíbrio é a forma com que uma pessoa interpreta as situações de vida.

Nossos pensamentos, assim, quando ativados de maneira irracional, interferem em nosso funcionamento psicológico, podendo alterar dramaticamente a forma de reação de uma pessoa, o que obviamente também cria efeitos sobre o comportamento.

Imagine, por exemplo, uma pessoa que acredita que as situações sociais são, naturalmente, “muito ruins e constrangedoras”. Essa pessoa, em função desse seu pensamento desadaptativo, possivelmente irá experimentar doses maiores (do que seria esperado) de medo, fazendo então com que as situações públicas futuras sejam ainda mais evitadas. Como consequência, tal indivíduo irá comportar-se de forma cada vez mais fechada, reforçando, sem perceber, sua inabilidade social.

O resultado? Os eventos sociais se tornarão cada vez mais desconfortáveis ao gerar mais constrangimento e desconforto à pessoa. Ao ser observado por terceiros, por exemplo, ela exibirá um comportamento de esquiva, afastando e inibindo possíveis tentativas de contato e fazendo com que, ao final das contas, permaneça ainda mais sozinha, reforçando, portanto, sua ideia (ou crença) inicial de inabilidade social.

Como trabalha a terapia cognitiva?

A terapia cognitiva irá trabalhar no aqui e no agora junto aos pensamentos irracionais que um paciente relata e tentará, através de técnicas específicas, alterar o ciclo de interpretações viciadas – por isso então sua rapidez e efetividade enquanto modelo terapêutico.

Os padrões irracionais de pensamento (ou também chamados de “crenças”) são originários junto ao desenvolvimento infantil e se tornam uma poderosa lente interpretatória aos distorcer muitos dos significados pessoais.

Dessa forma, a psicoterapia é estruturada em forma de um plano de tratamento, de maneira a facilitar, para que o paciente comece a perceber, identificar esses erros de interpretação que se tornam disfuncionais. Anotações e diários de pensamento são encorajados como forma auxiliar desse processo de conscientização e de mudança individual.

Como a terapia cognitiva afeta o cérebro?

Padrões de ativação cerebral são observados em indivíduos que passam por sessões de terapia cognitiva. Dessa forma, ao se modificar os estilos de pensamento e de comportamento de um paciente, exames de PET-SCAN (tomografia computadorizada por emissão de pósitrons) indicam que tais mudanças podem levar a alterações metabólicas significativas no cérebro de pacientes, por exemplo, que apresentam depressão maior ou transtorno obsessivo-compulsivo.

Portanto, mudar a mente através da terapia cognitiva, produz mudanças inevitáveis no cérebro, segundo um artigo publicado no periódico internacional NeuroImage.

Além do mais, estudos têm mostrado que essa forma de terapia é, pelo menos, tão eficaz como é o medicamento para muitos tipos de transtornos de ansiedade e de humor (depressão).

Conclusão

Assim sendo, desenvolver formas mais realistas de avaliar a realidade é um dos pontos centrais da terapia cognitiva.

Assim, quando aprendemos a aceitar mais calmamente um problema pessoal, não só nos sentimos melhor, mas geralmente estamos aptos a colocá-lo mais em perspectiva e em uma posição para fazer uso de nossa inteligência, conhecimento, energia e recursos para resolver a situação.

Se você ainda não fez um trabalho como a terapia cognitiva propõe, eu lhe recomendo: faça pelo menos uma vez, pois é efetivamente muito interessante.

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Para saber mais:

– A Editora Artmed disponibilizou gratuitamente um capítulo da obra BECK, J. S. Pense magro: a dieta definitiva de Beck. Porto Alegre: Artmed, 2009, para ser lido por você.  Acesse em http://conteudo.imguol.com.br/blogs/86/files/2014/05/cap_011.pdf

 – Para localizar um profissional em sua cidade, acesse o site da Federação Bras. de Terapias Cognitivas:  http://www.fbtc.org.br/

 

 

 


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