Dr. Cristiano Nabuco

Ano Novo, Vida Nova: A Psicologia da Virada do Ano

Dr. Cristiano Nabuco

fotolia - Marek

fotolia – Marek

Curioso notar o que ocorre com a maioria das pessoas na entrada do ano novo, já percebeu?…

De fato, somos tomados por um sentimento de novidade e vigor que nos faz, por algum tempo, acreditar que, efetivamente, as coisas no ano que se inicia serão diferentes do passado recente e que, “desta vez”, teremos força suficiente para enfrentar os obstáculos que nos fizeram escorregar nos anos anteriores.

E, assim, seguimos nos primeiros dias, confiantes e esperançosos, fazendo promessas, planos, e cheios de energia, vamos nos preparando para a nova fase que se inicia. As primeiras semanas trazem uma determinação pessoal muito pouco comum, se comparado às outras restantes do ano.

Tamanha é a força dessa disposição interna, que até a imagem refletida no espelho, costumeiramente cheia de imperfeições, sofre sutis alterações e nossos velhos parceiros – os defeitos – começam a exibir uma outra perspectiva, digamos, menos “repugnantes” aos nossos olhos.

É um estado de espírito diferente e você, que já deve ter passado por isto tudo, percebe a nova dimensão em que entramos.

Como já ocorrera repetidamente em nossa vida, acreditamos, por algum tempo, que os pactos realizados na noite de Reveillon nos permitirão extrair determinação para guiar de maneira diferente as engrenagens de nosso cotidiano e, como que protegidos por uma incrível vitalidade, poderemos, finalmente, nos tornar diferentes.

Obviamente essa história, que você já percebeu em anos anteriores, não costuma ter um final lá muito feliz e o entusiasmo recém-chegado, bem sabemos, não dura muito tempo.

Passada a euforia da festa, como diz a velha expressão, despercebidamente, começamos a nos dar conta que a roda da vida toma novamente o velho curso e, mais uma vez, de maneira impiedosa, começamos a voltar aos mesmos lugares de antes, ter as mesmas sensações desconfortáveis, deparando-nos de maneira nua e crua com as antigas adversidades pessoais.

A esta altura, quando o feitiço do ano novo se esvaiu por completo e, com ele, tudo voltou ao que era nos anos anteriores, somos forçados a olhar nossas limitações de maneira implacável.

A prometida perda de peso, por exemplo, não saiu do papel, embora as academias já tenham lucrado com sua inscrição; os aspectos desagradáveis de nosso ambiente de trabalho, ou ainda, algumas das relações interpessoais mais tóxicas que transitam há anos por nossa vida, lá permanecem e, finalmente, uma das missões mais conhecidas entre todos, de fato, novamente não ocorre e, mais uma vez, concluímos: é impossível gastar menos.

Despertados do sonho, permanecemos por mais um longo período do ano infelizes com a balança, inquietos com nossas relações interpessoais e, o pior, vivendo momentos que oscilam entre o desânimo e o descrédito pessoal.

A conclusão, portanto, não é nada alentadora, não acha?…

Não sei se você já leu algo a respeito, mas menos de 8% das pessoas, apontam algumas pesquisas, conseguem, efetivamente, realizar aquilo que se comprometeram na virada do ano novo. (1)

E, por acaso, você imagina o que estaria por trás dessa baixíssima taxa de sucesso?…

Eu explico, pois alguns fatores combinados potencializam as chances das incertezas.

Para iniciar, não podemos deixar de mencionar aquele velho paradoxo de que “as pessoas desejam ardentemente mudar sua vida, mas dificilmente se propõem a se auto modificar”, o que torna praticamente impossível qualquer alteração mais significativa.

Adicione a esse processo um outro dispositivo mais comum do que se imagina, presente em muitas pessoas, denominado de “síndrome da falsa esperança”. Nele há o fato de que a maioria de nós, nestas datas, desenvolve expectativas irrealistas a respeito de nossas mudanças de vida e, mais que isso, subestimamos a capacidade de uma transição psicológica mais duradoura. (2)

fotolia - Kalim

fotolia – Kalim

Para um número expressivo, a dimensão das promessas pessoais se torna tão radical que acaba, praticamente, impossível de ser executadas. Em muitos casos, a necessidade pessoal de mudar é tamanha que faz com que os desejos se tornem tão irreais, limitando drasticamente a capacidade de transformação pessoal.

Assim, desejamos muito em pouco tempo.

Como a maioria de nós carrega consigo zonas de insatisfação que são muito antigas, um mecanismo pouco consistente seria o de tentar executar mudanças de curso repentinas – uma verdadeira tentativa de faxina psicológica-, para dar cabo das contrariedades que arrastamos por longos períodos da vida – o que, obviamente, compromete todo o processo.

O que fazer então?

Mais importante do que mudar os comportamentos, sejamos sensatos, seria a tentativa de primeiramente mudar os pensamentos para depois, começar a alterar a realidade em nosso entorno.

Um exemplo para ilustrar o raciocínio? Sim! Comece então pelas pequenas coisas, preferindo as mais simples e fáceis, isto é, adote uma postura que seja o máximo possível (a) realista. Opte por ações que sejam viáveis a curto-prazo e que permitam a adoção de um processo de “vida nova”, gradual e de maneira progressiva. Lembre-se: Pequenas mudanças são mais simples de serem implementadas, pois cobram um “pedágio” menor.

Outro elemento que vai lhe ajudar bastante seria o de escolher (c) uma mudança de cada vez. Isso nos ajuda a desenvolver mais foco e consciência, portanto, nos trará mais energia concentrada.

E, finalmente, (c) conte aos outros a respeito de suas resoluções do ano novo e, assim que possível, seus pequenos ganhos, tão logo comecem a ocorrer. Isso irá lhe reforçar de maneira interna (com você mesmo) e externa (pessoas que torcem por você), funcionando como um tipo de “combustível” para continuar acreditando nas promessas por mais tempo. O apoio dos demais, neste momento, é fundamental, experimente o que estou lhe dizendo.

Desta forma, fechamos a equação de sucesso: ser realista + ter foco claro + desenvolver apoio social = maiores serão as chances de sucesso.

Conclusão

Ao pensarmos a respeito de todas estas questões, torna-se incrível constatar a dificuldade que temos para conduzir as mudanças em nossa vida, por menores que sejam. Quer você seja uma pessoa mais resoluta e determinada (ou não, que é o mais comum), ainda assim sentiremos a força gravitacional dos velhos hábitos, sempre nos puxando para trás.

Nossos sistemas psicológicos são protegidos por tendências poderosas que, de fato, não colaboram para que possamos deixar nossa zona de conforto, por pior que estejamos nos sentindo e, assim, finalmente podermos mudar.

Arrumar as gavetas, portanto, nunca será uma tarefa fácil. Tenha sempre isto em mente.

Portanto, mais meritório do que a mudança psicológica propriamente dita, é a manutenção e consolidação de nossas ações a atitudes. Pense nisto.

Que o ano novo possa, verdadeiramente, habilitá-lo (a) para as novas ações.

Referências

(1) http://www.statisticbrain.com/new-years-resolution-statistics/

(2) https://psycnet.apa.org/journals/amp/57/9/677/